Músicas: produções mais populares da história da humanidade

Fruto da forma de cultura mais popular da humanidade, as músicas mudaram para sempre a forma do ser humano se relacionar consigo e com o mundo

Não é exagero algum dizer que a música é a forma de arte mais popular já criada pela humanidade graças a sua simplicidade: qualquer coisa pode se tornar um instrumento musical. Enquanto o cinema e as artes plásticas demandam instrumentos específicos para serem produzidas, o som pode ser feito em qualquer lugar, em qualquer objeto. Até por isso, as músicas estão presentes em todas as culturas.  Para muitos especialistas, não existe agrupamento humano algum que jamais tenha produzido uma música sequer.

As músicas são a forma de arte mais popular da humanidade
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As músicas são a forma de arte mais popular da humanidade

Mas o que mais intriga os especialistas é o que faz um conjunto de sons ser tão agradável ao ouvido humano, já que essa é uma característica exclusiva da nossa espécie e foi descoberta há milhares de anos. Para alguns, foi a observação da natureza que despertou no homem a curiosidade pelos sons organizados. As primeiras músicas saíram na era pré-histórica e hoje viraram a forma de cultura mais abrangente da civilização, além de um negócio que movimenta quantidades astronômicas de dinheiro e dita as regras da vida de muita gente no mundo.

O que é música?

A definição mais aceita é que as músicas são sequências de sons e silêncios que se desenvolvem em um ritmo coordenado. Isso pode ser aplicado tanto para o instrumental quanto para a canção.

Apesar disso, ainda é difícil definir o que é som e o que é apenas barulho. Para o compositor John Cage, por exemplo, todo som é música. "Não existe barulho, apenas som", disse em uma de suas mais famosas.

Talvez essa discussão nunca seja solucionada, assim como a discussão sobre o que de fato é arte, mas o fato é que a organização de sons e silêncios agrada ao ouvido humano, o que cai na definição de especialistas.

Etimologia

O festival britânico Glastonbury é uma das maiores reuniões anuais de fãs de música de todo o mundo
Divulgação
O festival britânico Glastonbury é uma das maiores reuniões anuais de fãs de música de todo o mundo

A história dessa forma de arte é talvez mais difícil de ser compreendida do que as outras, até porque ela não deixa vestígios físicos. As pinturas rupestres, por exemplo, ficaram nas paredes das cavernas por milhares de anos, mas é impossível determinar se um grupo de seres humanos já produzia canções e sons organizados na pré-história, uma vez que era impossível registrar isso (convenhamos que os discos e CDs estão alguns milênios a frente dessa era).

O que se sabe é a etimologia da palavra. Música vem do grego "mousike", que em tradução livre significa "arte das musas". Na mitologia grega, havia nove musas que inspiraram as artes musicais, plásticas e literárias. Tanto que o termo é muito parecido em quase todos os idiomas: "music" em inglês, "musica" em espanhol e italiano, "musik" em alemão e "musique" em francês.

Música na Ásia

As primeiras evidências de produção de músicas são do período Paleolítico, há cerca de 2,5 milhões de anos. Em alguns sítios, arqueólogos chegaram a encontrar instrumentos como flautas feitas de ossos de animais. Uma das mais famosas é a flauta Divje Babe, que data de 40 mil anos atrás e é feita a partir do fêmur de um urso.

A flauta Divje Babe, feita de osso, é um dos primeiros instrumentos musicais da humanidade
Reprodução/National Geographic
A flauta Divje Babe, feita de osso, é um dos primeiros instrumentos musicais da humanidade

Entretanto, a música no Oriente era muito mais desenvolvido nos primórdios da humanidade. A China abriga a maior e mais antiga coleção de instrumentos musicais já encontrada, usada entre 7000 e 6600 AC.

A cultura indiana é uma das que tem vestígios mais antigos de produção musical. A civilização do Vale do Indo, que existiu cerca de cinco milênios antes de Cristo, tinha esculturas que representavam dança e instrumentos musicais arcaicos, como flautas e tambores.

Ainda na Ásia, regiões como o Irã, Afeganistão, Tadjiquistão e Sri Lanka têm vestígios de produções musicais que datam de milênios antes da era moderna.

Música na Grécia Antiga

Mas as músicas como o Ocidente conhece hoje surgiram na Grécia Antiga. A música era importantíssima na vida social e cultural da civilização daquele períodos e os cantores tinham muito prestígio no teatro. Tanto que isso era uma matéria escolar e os homens aprendiam a teoria a partir dos 6 anos. Essa modalidade de canções voltadas para o entretenimento se mesclava aos cânticos religiosos e toda a parte da música que era voltada aos rituais.

Entre os instrumentos daquele período, destacaram-se a lira, usada até hoje, e a tíbia, instrumento parecido com a flauta que também era muito utilizado por índios no norte do Brasil.

A música era um dos aspectos sociais mais importantes na Grécia Antiga
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A música era um dos aspectos sociais mais importantes na Grécia Antiga

É da Grécia Antiga a composição musical completa mais antiga da história da humanidade: o Epitáfio de Sícilo, encontrada perto de Aidin, na Turquia. A obra foi feita entre 200 AC e 100 DC por alguém chamado Sícilo e era uma homenagem a sua esposa. A letra dizia o seguinte: "Enquanto viveres, brilha / De todo não te aflijas / Pois curta é a vida / E o tempo cobra seu tributo". A pedra ainda tinha outra inscrição, que dizia o seguinte: "Eu sou um túmulo, um ícone. Sícilo me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal."

Música na Idade Média

Durante a Idade Média, a música se desenvolveu cada vez mais, principalmente na área religiosa. A Igreja Católica Romana passou a incluir o canto em seus rituais e a desenvolver a produção e leitura de partituras entre seus seguidores. Apesar das partituras já existirem na Grécia Antiga, foi a Igreja que introduziu essa técnica no período medieval para registrar as músicas. O único repertório medieval encontrado na Europa que data de antes do ano 800 é de cantos gregorianos.

Entretanto, a música também se desenvolveu fora das catedrais. Entre 476 e 1700, compositores como Léonin, Pérotin e Guillaume de Machaut se destacaram. Léonin é até hoje conhecido como o primeiro grande compositor de órgano, um dos tipos de polifonia mais populares da música, e um dos percussores da Escola de Notre-Dame. Pérotin também fez parte da Escola de Notre-Dame, e é considerado o sucessor de Léonin.

Já Guillaume de Machaut é considerado o maior compositor do século XIV e introduziu novidades no ritmo, na melodia e na harmonia de suas obras. É dele a composição "Missa de Notre Dame", que é um dos maiores marcos da música na Idade Média.

Música renascentista

Obra de Gerard van Honthorst, de 1623, retrata a música no período renascentista
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Obra de Gerard van Honthorst, de 1623, retrata a música no período renascentista

Ao contrário do que aconteceu na Idade Média, a música no período renascentista, entre 1400 e 1600, foi mais desenvolvida fora da Igreja. Com a invenção da prensa em 1450, as partituras passaram a ser impressas, o que permitiu que elas fossem mais difundidas na comunidade e sua produção fosse mais barata. Com isso, os estilos musicais conseguiram ser espalhados mais rapidamente e por uma área maior do que no período anterior, quando as partituras eram copiadas à mão.

Apesar da música secular ter se desenvolvido mais, a Igreja continuava sendo um personagem importante na produção cultural. Os corais cresceram ainda mais e os músicos e compositores eram geralmente funcionários da Igreja. No século XV, os compositores escreveram muitos cantos sacros e músicas ricamente polifônicas, o que era uma novidade para a época. Entretanto, a música passou a chamar a atenção da nobreza e os grande compositores eram disputados pela Igreja e pelos reis, rainhas e príncipes.

Entre os grandes nomes da música, estavam Guillaume Dufay, Giovanni Pierluigi da Palestrina, Thomas Morley e Orlande de Lassus. Guillaume era o grande expoente da Escola de Borgonha, na Itália, e foi muito importante na transição da produção medieval para a produção renascentista. Ele é conhecido por ser o pai da missa polifônica, misturando técnicas italianas, inglesas e francesas. Já Giovanni Pierluigi da Palestrina era o grande nome da Escola de Roma, ao lado de Orlande de Lassus, enquanto Thomas Morley representava a Escola Inglesa, focada principalmente em madrigais.

Música barroca

Obra de Giovanni Pannini retrata concerto barroco em teatro na Argentina
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Obra de Giovanni Pannini retrata concerto barroco em teatro na Argentina

O período imediatamente seguinte ao renascentista é o barroco, que aconteceu entre 1600 e 1750. Foi nessa época que a música ficou ainda mais diversificada e complexa. Isso porque o período barroco apresentou as primeiras óperas da história, ou seja, os músicos compuseram pela primeira vez partituras em que o canto dramático era acompanhado por uma orquestra. O primeiro a fazer uma obra dessas foi Claudio Monteverdi, no século XVII.

Na Alemanha, os compositores passaram a escrever partituras para pequenos grupos com instrumentos de corda e de sopro, mas também compuseram para as orquestras clássicas, com instrumentos como órgão, cravo (uma espécie de piano) e clavicórdio.

Foi nessa época que formas de música foram criadas, entre elas a fuga, a invenção, a sonata e o concerto. Os grandes nomes do período são também os grandes nomes da música: Johann Sebastian Bach, George Frideric Handel, Georg Philipp Telemann e Vivaldi.

O alemão Bach se destacou por sua habilidade com o órgão e o cravo, tornando-se especialista na construção de órgãos. Suas composições mais famosas são os "Concertos de Brandenburgo", o "Cravo Bem-Temperado", as "Sonatas e Partitas" para violino solo, a "Missa em Si Menor", a "Tocata e Fuga em Ré Menor", a "Paixão segundo São Mateus", a "Oferenda Musical" e a "Arte da Fuga".

Outro nome reverenciado da época, Vivaldi ficou conhecido por sua grande obra, "As Quatro Estações". Entretanto, o italiano chegou a escrever mais de 500 concertos, além de muitas óperas, motetos, sonatas e cantatas.

George Frideric Handel e Georg Philipp Telemann também se destacaram na época por trabalhos na ópera. O primeiro chegou a compor mais de 600 obras e foi reconhecido por seus contemporâneos como um dos grandes nomes da música, enquanto Telemann é conhecido por ter avançado em suas técnicas e se tornado um dos percussores do período clássico.

Música clássica

O período clássico foi relativamente curto, não durou nem um século, entre 1730 e 1820, mas foi um dos mais importante para a música. Tentando reproduzir os ideais da cultura greco-romana nas artes e na filosofia, o período viu grandes nomes surgirem e mudarem para sempre a história.

Representação da música no período do classicismo
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Representação da música no período do classicismo

Ao contrário dos séculos anteriores, as músicas feitas no período clássico eram simples, majoritariamente homofônicas, feitas no fortepiano e no órgão.

A música instrumental era a mais importante no período, o que fez com que vertentes criadas no barroco, como a sonata, o concerto e a sinfonia, fossem ainda mais desenvolvidas. A sonata foi a que mais se destacou, uma vez que as compostas entre os séculos XVIII e XIX eram bem diferentes daquelas do período anterior.

Um dos grandes legados desse período foi a popularização de concertos públicos. Assim como no barroco, a aristocracia, a corte e a Igreja ainda davam muito dinheiro para a música, mas os compositores conseguiam sobreviver sem serem empregados exclusivos dessas instituições. A música ficou ainda mais popular naquela época e fez com que shows e apresentações fossem cada vez mais comuns -- o que demandou a construção de espaços públicos que comportassem eventos dessa natureza, como casas de ópera e teatros.

Entre os nomes que se destacaram na música clássica estão Wolfgang Amadeus Mozart, Ludwig van Beethoven e Franz Schubert.

Um dos maiores nomes da música de todos os tempos, Mozart nasceu na cidade de Salzburg, na Áustria, em 1756, mas fez sua carreira em Vienna, a capital do país. Durante sua vida, o músico compôs mais de 600 trabalhos, entre elas “Eine Kleine Nachtmusik”, a obra mais famosa do austríaco.

Outro nome famoso, Beethoven era contemporâneo de Mozart: nasceu em 1770 e morreu em 1827. Junto com Schubert, o alemão também inaugurou o período romântico. Entre seus trabalhos mais famosos, estão “Missa Solemnis” e a ópera “Fidelio”, enquanto Schubert ficou conhecido por “Serenata”, “Sinfonia em Dó Maior” e a “Serenata Inacabada”.

Música romântica

Outro período curto, o romantismo durou entre 1810 e 1900 e a música herdou muitos elementos da literatura e da arte desse movimento, principalmente a ênfase nas emoções e no indivíduo. Por isso, a música letrada passou a ter maior destaque. Mas aqueles que insistiram na música instrumental tentaram usar os instrumentos para contar histórias e invocar imagens e paisagens.

Entretanto, alguns compositores conseguiram unir elementos clássicos ao novo momento, fazendo óperas com forte expressão emocional sobre os sentimentos humanos.

A ópera deu o tom das músicas no período romântico
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A ópera deu o tom das músicas no período romântico

A estrutura da música continuava a mesma, focada em óperas e balés, mas eram sempre modificadas pelos autores mais criativos. Isso fez com que compositores como Pyotr Ilyich Tchaikovsky, Antonín Dvořák e Gustav Mahler ganhassem destaque.

Assim como no período anterior, os concertos públicos ganharam ainda mais importância e viraram uma parte importante da vida em sociedade e possibilitaram o desenvolvimento de formas como as operetas, comédias musicais e outras formas de teatro musical. Por outro lado, a Revolução Industrial do século XIX ajudou a produção de instrumentos de melhor qualidade e menor custo.

Entre as grandes obras do período, destacam-se “O Quebra-Nozes” e “O Lago dos Cisnes”, de Pyotr Ilyich Tchaikovsky; “Sinfonia nº9”, de Antonín Dvořák; e “Sinfonia nº5”, de Gustav Mahler.

Música no século XX

Depois do romantismo, a história da música parou de ser dividida em períodos. O século XX foi extremamente importante para o desenvolvimento dessa cultura, principalmente por causa dos avanços tecnológicos. Com a difusão do rádio e dos tocadores de discos, a música estava chegando cada vez mais às pessoas. A partir de 1901, qualquer um com um aparelho de rádio ou uma vitrola poderia ouvir óperas e sinfonias que antes eram restritas aos mais ricos e àqueles que podiam pagar para ir aos concertos. Além disso, esse foi o primeiro passo para a globalização da música: com esses aparelhos, as pessoas podiam ouvir canções de outros povos, de autores que não moravam em seu país e podiam levar sua própria música para outros lugares.

Música clássica no século XX
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Música clássica no século XX

O século XX também foi marcado pela exploração de novos ritmos, estilos musicais e sons. Boa parte dos gêneros que ouvimos hoje e fazem sucesso em todo o mundo foram criados naquele período. O que acontecia na época também influenciou a produção cultural: os horrores da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, fizeram com que a música nas primeiras décadas do século fossem mais pesadas e sombrias.

Entre os grandes nomes da música clássica da época, destacam-se os compositores Igor Stravinsky, Arnold Schoenberg e John Cage. Stravinsky se destaca com "Le Sacre du printemps" e "O Pássaro de Fogo", enquanto Schoenberg é conhecido por "Der rote Blick" e Cage por "4'33"".

Música no Brasil

No Brasil, a história da música passou a ser documentada em 1549, com a chegada dos jesuítas ao País. Eles foram os responsáveis por criar aldeamentos para os índios e passarem a eles algumas noções de música da Europa, que era dominada pela Igreja. Não há nenhum registro de atividade musical indígena antes da chegada dos portugueses, em 1500.

No século XVII, registros davam conta de que os índios tinham se fascinado pela música europeia e passaram a ser catequizados pelos colonos, que se impressionaram com a participação dos locais e sua utilidade para a construção de instrumentos.

A partir do século XVI, os índios passaram a ser acompanhados pelos negros trazidos da África para serem escravos nas aulas de musicalidade, mas os africanos acabaram se destacando mais e tendo uma atenção especial. Assim, os escravos que mais se destacavam passaram a ser educados musicalmente e integravam orquestras e bandas.

A chegada dos jesuítas ao Brasil também trouxe a música europeia ao País
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A chegada dos jesuítas ao Brasil também trouxe a música europeia ao País

A partir do século XVIII, o Brasil passou a desenvolver melhor a sua própria música em Minas Gerais, com a Escola Mineira. Com a exploração de ouro na região, cidades como Ouro Preto, Mariana e Diamantina passaram por um processo de urbanização com o enorme contingente de europeus que se instalaram na cidade para explorar as redondezas. Consequentemente, a vida musical nessas cidades também cresceu e elas passaram a receber órgãos e partituras importadas da Europa. Foi nessa região que os primeiros compositores importantes do País surgiram, com destaque para José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, que ficou conhecido por suas obras na música sacra. Ele tocava órgão nos templos, regia orquestras e produzia peças para os cultos na Igreja, o que o deixou muito conhecido mesmo após sua morte.

Nos séculos seguintes, a música brasileira passou a seguir as tendências da Europa em relação aos períodos. No século XIX, a chegada da Família Real portuguesa ao Rio de Janeiro fez com que o classicismo também desembarcasse por aqui. Com a mudança da corte para o Rio, o Rei Dom João VI mandou trazer para cá músicos de Lisboa, além de uma vasta biblioteca de partituras. Ele também mandou construir o Real Theatro de São João, hoje conhecido como Teatro João Caetano, na região central da capital fluminense.

O período romântico trouxe dois dos grandes nomes da música brasileira: Francisco Manuel da Silva e Carlos Gomes. O primeiro foi o autor da música do Hino Nacional Brasileiro, enquanto Gomes escreveu duas das maiores óperas brasileiras, "O Guarani" e "O Escravo". A época também viu a disseminação da música por todo o País, principalmente em Recife, São Paulo e Salvador. Ainda durante o período, em 1857, foi criada a Ópera Nacional, que ajudou no desenvolvimento dos compositores e músicos.

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"O Guarani", de Carlos Gomes, é uma das maiores óperas da história do Brasil

No Brasil, o romantismo teve uma de suas características mais desenvolvida que as outras: o nacionalismo. A partir da obra de Carlos Gomes, a música feita no Brasil passou a exaltar as qualidades do País e a se libertar do padrão europeu, incorporando elementos da cultura indígena e da cultura negra. O ápice disso foi a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, quando artistas de todas as áreas apresentaram obras que mudavam os conceitos sobre a arte no País.

A partir do século XX, o Brasil seguiu a tendência global e viu o nascimento de novos estilos musicais. Nessa época, ritmos como o jazz e o blues tomavam corpo para se tornarem as músicas mais populares do planeta.

Jazz

Enquanto a música erudita ainda fazia muito sucesso na Europa, os negros dos Estados Unidos estavam buscando seu próprio espaço na cena. Foi no fim do século XIX que o jazz surgiu nas comunidades afro de Nova Orleans, no sul do país, com raízes na música clássica.

O ritmo é uma junção de elementos de diversas culturas diferentes: traz a harmonia da música erudita europeia, ritmos da música popular americana e notas da música africana. Tudo isso resultou em um dos estilos musicais mais populares do último século.

O jazz surgiu em Nova Orleans no fim do século XIX
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O jazz surgiu em Nova Orleans no fim do século XIX

O surgimento em Nova Orleans tem uma explicação: o sul dos Estados Unidos recebeu muitos escravos na segunda metade do século XIX. De acordo com registros, cerca de 440 mil africanos tinham sido traficados para a América do Norte até 1866. Nova Orleans recebeu principalmente escravos da África Ocidental e da região do Rio Congo, lugares que tinham a música muito bem desenvolvida. No sul americano, esses africanos encontraram latino-americanos e juntos esses povos desenvolveram uma espécie de música afro-latina, que teria precedido o jazz.

Desde que estourou, o jazz teve diversas subdivisões: blues, bebop, cu-bop, hard bop, free jazz, post-bop, soul jazz, jazz-funk, acid jazz e muitas outras. E todas elas deram de presente à humanidade muitos músicos talentosos.

O grande nome do gênero é Louis Armstrong, nascido em New Orleans em 1901. Ele é considerado um dos maiores trompetistas de todos os tempos e foi um dos responsáveis por fazer com que o jazz fosse também tocado por artistas solo e não só por bandas. Entre suas grandes performances, destacam-se "What a Wonderful World", "La Vie en Rose", "When the Saints Go Marching In" e "Hello, Dolly!".

O gênero também teve Miles Davis, nascido em 1926 em Alton, nos Estados Unidos, que começou a ganhar destaque na música ao se apresentar com o saxofonista Charlie Parker. Depois, nos anos 1960, Davis liderou um sexteto com outro grande saxofonista, John Coltrane, e o baixista Paul Chambers. Durante toda sua carreira, o músico gravou 48 álbuns de estúdio e ainda se aventurou em outros gêneros, entre eles o rock.

Louis Armstrong é um dos maiores nomes da história do jazz
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Louis Armstrong é um dos maiores nomes da história do jazz

No Brasil, o jazz nunca foi muito tradicional, mas seus elementos foram incorporados aos ritmos nacionais, como samba, bossa nova, MPB, choro, xaxado, maracatu e baião.

Entre os grandes nomes do gênero no País, estão Carlos Malta, Derico, Nico Assumpção, Luis Alves, Bonfiglio de Oliveira, Baden Powell, Naná Vasconcelos e Sérgio Mendes.

Blues

Com uma história parecida com a do jazz, o blues surgiu no sul dos Estados Unidos no final do século XIX, calcado nos ritmos africanos e no folk americano. Mas ao contrário de seu gênero "irmão", o ritmo ficou conhecido por suas letras e marcantes linhas de baixo.

O termo veio de "blue devils", uma expressão que no fim do século XVIII fazia alusão à melancolia e à tristeza. Já no começo do século XIX, a expressão passou a ser associada com o consumo de álcool nos Estados Unidos.

A primeira publicação de uma partitura de blues aconteceu só no século XX, em 1908: foi a da música "I Got The Blues", de Antonio Maggio. Em 1912, foi a vez de Hart Wand compor "Dallas Blues" e W. C. Handy fazer "The Memphis Blues", as primeiras grandes músicas do gênero, difundido principalmente no sul do Texas, no Mississippi, na Georgia e em Nova Orleans, onde o jazz já estava ganhando cada vez mais corpo.

Eric Clapton é um dos guitarristas de blues mais conhecidos
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Eric Clapton é um dos guitarristas de blues mais conhecidos

Desde sua origem, o blues era considerado um som negro, o que fez sua trajetória muito mais difícil. Assim como outros ritmos, o gênero foi acusado de ser "música do diabo" no começo do século XX. Já na década de 1920, quando os brancos passaram a ter maior contato, as canções foram consideradas desonrosas e muita gente dizia que elas incitavam a violência.

Apesar disso, o blues conseguiu se libertar do preconceito e ficar cada vez mais populares ao longo do século XX, principalmente quando seus músicos começaram a flertar com outros ritmos, como o rock.

Entre os grandes nomes do blues, estão Muddy Waters, B.B. King, Howlin' Wolf, Ma Rainey e Eric Clapton. Waters é considerado o pai do Chicago Blues e responsável por obras clássicas como "I'm Your Hoochie Coochie Man", "I've Got My Mojo Working" e "I Can't Be Satisfied".

Já B.B. King, considerado o maior nome do gênero de todos os tempos, ficou famoso por ser um dos melhores cantores e guitarristas de seu tempo. Morto em 2015, o músico emplacou sucessos como "How Blue Can You Get", "Rock Me Baby", "Everyday I Hate The Blues" e "3 O'Clock Blues".

Da lista, Eric Clapton é o único que ainda está vivo. Apesar de ter feito seu nome em bandas de rock como o Cream e The Yardbirds, ele também tocou com John Mayall & the Bluesbreakers e transitou muito bem entre os dois gêneros.

No Brasil, o blues ganhou popularidade com bandas de rock como Legião Urbana e Barão Vermelho, mas também teve seus próprios atos, como Blues Etílicos, Celso Blues Boy e Solon Fishbone.

Rock

Um dos gêneros mais populares hoje em dia, o rock surgiu nos Estados Unidos na década de 1950, com fortes influências do blues, rhythm and blues e música country. A grande novidade que o rock apresentou foi a guitarra elétrica, o principal instrumento que definia as músicas do gênero. Rapidamente, o ritmo foi se diversificando e nas décadas seguintes deu origem a dezenas de subdivisões.

Elvis Presley foi o primeiro ídolo de rock
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Elvis Presley foi o primeiro ídolo de rock

Para alguns especialistas, o rock and roll surgiu em 1951 na cidade de Cleveland, em Ohio, quando um DJ tocou uma música de R&B e a descreveu como "rock and roll". Mas ainda há muitos debates sobre qual foi a primeira gravação do gênero: alguns dizem que foi "Rock Awhile", de Goree Carter, mas muita gente considera outras, como "Rock The Joint", de Jimmy Preston; e "Rocket 88", de Jackie Brenston. Entretanto, a primeira música do ritmo a entrar na lista da Billboard de mais tocadas nos Estados Unidos foi "Rock Around The Clock", de Bill Haley, em 1955.

Na época, um dos maiores nomes da música de todos os tempos já estava despontando: Elvis Presley, que gravou seu primeiro trabalho, "That's All Right (Mama)", em 1954. Mas seu primeiro grande hit só viria dois anos depois, com "Heartbreak Hotel".

Já na costa oeste americana, o rock se desenvolvia a sua própria maneira, criando um importante subgênero: o surf rock, representado principalmente por The Beach Boys. Em 1966, o grupo californiano lançou o maior álbum de sua carreira, "Pet Sounds".

Do outro lado do Atlântico, o rock também se desenvolvia no Reino Unido. A década de 1960 viu o surgimento das duas maiores bandas do planeta: The Beatles e The Rolling Stones. O sucesso de ambos os grupos foi tão grande que praticamente engoliu outras excelentes bandas do período, como The Yardbirds, The Kinks e The Troggs.

O quarteto de Liverpool foi o grande responsável pela invasão da música britânica nos Estados Unidos, com o single "I Wanna Hold Your Hand" sendo o mais tocado do país por sete semanas consecutivas em 1964. A Beatlemania durou até 1966, ano em que "Revolver" foi lançado. Mas foi nos anos seguintes que o grupo lançou os álbuns mais conhecidos de sua carreira: "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", em 1967; "The White Album", em 1968; "Yellow Submarine", em 1969; e "Yellow Submarine", em 1969. A banda acabou em 1970 e John Lennon foi assassinado dez anos depois. Em 2001, o guitarrista George Harrison morreu vítima de um câncer.

Os Beatles são considerados a maior banda de todos os tempos
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Os Beatles são considerados a maior banda de todos os tempos

Já os Rolling Stones, na ativa até hoje, tiveram sua era de ouro no declínio dos Beatles, entre 1968 e 1972. Depois de algumas décadas de declínio, a banda de Mick Jagger e Keith Richards voltou a fazer muito sucesso nos anos 2000, com turnês milionárias. Um dos grandes destaques foi o show na Praia de Copacabana, em 2006, que teria sido visto por mais de um milhão de espectadores e se tornou um dos maiores shows de rock da história. A banda voltou ao Brasil em 2016 com shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Nas décadas de 1970 e 1980, o rock passou por diversas modificações e criou inúmeros subgêneros, com destaque para o rock progressivo do Yes, o rock psicodélico de Jimi Hendrix, o glam rock de David Bowie, o soft rock do Fleetwood Mac, o hard rock do Led Zeppelin, o heavy metal do Black Sabbath e o punk dos Ramones.

Na década de 1990, os grandes subgêneros foram o grunge e o britpop. Comandado pelo Nirvana em Seattle, nos Estados Unidos, o grunge ainda deu vida ao Mudhoney, Soundgarden e The Melvins. Do outro lado do Atlântico, Blur e Oasis eram os principais nomes do britpop e as maiores bandas do Reino Unido desde Beatles e Rolling Stones. O gênero ainda teve grandes nomes como Pulp, The Stone Roses e Suede.

Já os anos 2000 deram destaque ao indie rock nos Estados Unidos e na Inglaterra. Os principais nomes são Strokes, Arctic Monkeys, The White Stripes, The Libertines e Interpol.

Rock no Brasil

Cauby Peixoto foi um dos primeiros artistas de rock no Brasil
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Cauby Peixoto foi um dos primeiros artistas de rock no Brasil

No Brasil,o rock começou com uma cantora de samba-canção: foi Nora Ney que gravou aquela que é considerada a primeira música de rock brasileira, uma versão de "Rock Around the Clock", de Bill Haley & His Comets, em 1955. No mesmo ano, a música ganhou uma versão em português, "Ronda das Horas", na voz de Heleninha Freitas.

O primeiro rock original em português foi gravado por Cauby Peixoto em 1957: a canção "Rock and Roll em Copacabana".

A tendência da época era regravar as músicas dos Estados Unidos, como "See You Later, Alligator", que virou "Até Logo, Jacaré"; "The Great Pretender", que virou "Meu Fingimento"; e "Long Tall Sally", que virou "Bata Baby".

Ainda na década de 1950, Tony e Celly Campelo viraram os queridinhos do gênero. Ele lançou um álbum cheio em 1959 enquanto a irmã estourou com o hit "Estúpido Cupido", lançado no mesmo ano. Depois, eles comandaram um programa na Rede Record, o "Crush em Hi-Fi", dedicado a revelar novas bandas brasileiras.

Roberto Carlos foi o principal expoente da Jovem Guarda
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Roberto Carlos foi o principal expoente da Jovem Guarda

A década seguinte viu o surgimento de uma nova onda, o iê-iê-iê, inspirada no sucesso dos Beatles. Foi lá que a Jovem Guarda de Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa ficou famosa, além de nomes como Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, Jerry Adriani, Eduardo Araújo e Dick Danello. Na segunda metade dos anos 1960, a Tropicália interferiu diretamente no rock: enquanto alguns artistas se opunham ao uso da guitarra elétrica, outros escreviam seu nome para sempre na história da música brasileira. Foi aí que apareceram grandes discos, como "Tropicália ou Panis et Circensis" e "Os Mutantes", do trio formado por Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee.

Durante o endurecimento do regime militar no País, principalmente nos anos 1970, o rock passou por profundas mudanças. Os grandes nomes da década foram os Secos & Molhados e Raul Seixas. A influência americana continuou e os brasileiros tentaram até fazer seu próprio festival Woodstock, que aconteceu em 1969. O principal evento foi o Festival de Verão de Guarapari, em 1971, no Espírito Santo.

Os anos 1980 viram o rock nacional desenvolver subgêneros, como o punk das bandas Inocentes, Cólera, Ratos de Porão e Garotos Podres. Mas os grandes nomes da época vieram de Brasília: o Legião Urbana de Renato Russo e o Aborto Elétrico, que depois viraria o Capital Inicial. Plebe Rude e Detrito Federal também se destacaram na capital federal, enquanto o Camisa de Vênus de Marcelo Nova era o grande nome do rock no Nordeste. No Rio, Cazuza e o Barão Vermelho faziam história. A banda continua em atividade até hoje, apesar da morte do cantor em 1990.

Os Mutantes foram uma das bandas mais famosas do Brasil
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Os Mutantes foram uma das bandas mais famosas do Brasil

Nos anos 1990, o rock passou a se misturar com gêneros mais populares no País. Os Raimundos foram responsáveis por fazer um rock com forró, enquanto o Planet Hemp trouxe influências do rap e da black music. O sucesso meteórico das músicas debochadas dos Mamonas Assassinas também marcaram a época: a banda lançou seu disco de estreia em 1995 e acabou no ano seguinte, quando todos os integrantes morreram em um acidente de avião. Bandas que fazem sucesso até hoje, como Paralamas do Sucesso, Titãs e O Rappa, ganharam ainda mais na época.

Já nos anos 2000, o rock paulista voltou a ser o centro das atenções com Charlie Brown Jr., CPM 22, Gram, Hateen, Vanguart e Garotas Suecas. O emo, hardcore melódico, teve um sucesso meteórico às custas de Fresno, NX Zero, Forfun, Strike e Glória. O movimento teria uma reverberação no rock colorido, na década seguinte, com Restart e Cine.

Os Mamonas Assassinas foram um dos maiores sucessos musicais no País nos anos 1990
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Os Mamonas Assassinas foram um dos maiores sucessos musicais no País nos anos 1990

Nesta década de 2010, a música feita em Goiás ganha destaque: o grande nome brasileiro no exterior é o Boogarins, banda goiana conhecida por suas músicas psicodélicas que se aproximam muito do Tame Impala. A região também deu nomes como Carne Doce e Hellbenders. Em outras regiões, o rock alternativo fez sucesso com Vivendo do Ócio, O Terno, Dingo Bells e Apanhador Só. A década ainda marcou uma maior aproximação entre os fãs e as músicas feitas em suas regiões, com destaque para os selos de rock que investiram em bandas, como a Balaclava Records e o Risco. A internet foi outra grande aliada  dos artistas, tanto na divulgação das músicas quanto na aproximação dos fãs e manutenção das comunidades de amantes de música.

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