Donald Trump: conheça a história do polêmico presidente dos EUA

Donald Trump ainda é um mistério para muita gente: afinal, qual sua trajetória até chegar a tão cobiçada cadeira na Casa Branca? Saiba tudo sobre a carreira do presidente republicano

Herdeiro de uma fortuna na área da construção. Magnata do negócio. Protagonista de tabloides norte-americanos. Estrela da televisão. E, desde 20 de janeiro de 2017, o presidente eleito pelo partido Republicano dos Estados Unidos da América. Por mais de 40 anos, Donald Trump tem sido visto, considerado e sustentado como celebridade global. Mas poucos entendem e conhecem sua história de vida completa – e a fonte de como ele pode ter chegado à Casa Branca.

Como um candidato desacreditado, motivo de piada, pode ter chegado aonde chegou com um discurso extremista sobre imigração, com um passado cheio de polêmicas e acusações de assédio sexual? Como Donald Trump conseguiu vencer Hillary Clinton em uma das eleições mais controversas da História do país?

Família imigrante

A família paterna de Trump veio da Alemanha. Seu avô se mudou para os Estados Unidos e fez uma fortuna em Yukon, onde oferecia estadia, comida e bebidas alcóolicas aos trabalhadores que buscavam suas próprias fortunas nas minas de ouro.

Família de Donald Trump (à esquerda): relação da família pode explicar um pouco o comportamento do agora presidente
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Família de Donald Trump (à esquerda): relação da família pode explicar um pouco o comportamento do agora presidente

 “Qualquer pessoa que tenha conhecido Fred [pai do presidente], e eu encontrei algumas delas, e que conheça Donald, saberia que existe uma linha direta entre pai e filho. Fred era muito engajado, uma pessoa divertida para se falar. Todo mundo afirma que ele tinha uma grande personalidade, mas também era ambicioso demais. Então, ele não queria ser apenas rico, queria ser muito rico. Mas, para ser muito rico, desejava ser poderoso e ter amigos poderosos. Por isso, Fred, muito precocemente, se envolveu com a política”, conta Michael D’Antonio, quem escreveu o livro “The Truth About Trump” (A verdade sobre Trump, em tradução livre), uma biografia não autorizada.  

Fred Trump é referência para o filho: workaholic e ambicioso, começou os negócios imobiliários
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Fred Trump é referência para o filho: workaholic e ambicioso, começou os negócios imobiliários

Para o biógrafo, foi o pai de Trump quem o ensinou a se relacionar bem, a comunicar e a ‘jogar com as pessoas’. Foi com essa educação que o empresário – hoje bilionário – conseguiu construir um império, controlando pelo menos 16 mil apartamentos no Queens e no Brooklyn.

Fred era extremamente workaholic (viciado em trabalho), então era uma pessoa que levantava antes de todos da família e ia para casa apenas na hora do jantar, além de trabalhar durante a noite. Nos finais de semana, ele também se dedicava ao trabalho, e falava aos filhos: “se você deseja passar um tempo comigo, me acompanhe e, talvez, irá absorver alguma coisa do que eu faço enquanto trabalho”.

Em 1999, aos 43 anos, o patriarca da família de quatro filhos morreu em decorrência do alcoolismo, um incidente que influenciou Trump para o resto da vida, já que evita álcool e cigarros. Na época, o agora presidente afirmou: “meu pai foi minha inspiração”.

Já a mãe do presidente norte-americano, Mary Anne MacLeod, é escocesa, tendo imigrado ao país norte-americano na década de 1920. Ela nasceu em Lewis (parte nordeste de Lewis e Harris, a maior ilha da parte oeste das Hébridas Exteriores da Escócia), em uma família bastante pobre. Após a morte de grande parte dos jovens e homens da ilha na Primeira Guerra Mundial, muitas mulheres acabaram fugindo para a América do Norte em busca de novas oportunidades – e talvez um bom casamento, assim como aconteceu com ela, que acabou encontrando Fred Trump e se casando com ele em 1936.

A mãe de Donald Trump tem origem escocesa e se mudou para os Estados Unidos na década de 1920
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A mãe de Donald Trump tem origem escocesa e se mudou para os Estados Unidos na década de 1920

Mary Anne era uma pessoa “teatral”. Ela poderia ser descrita como alguém que adorava receber atenção, que gostava de contar histórias e que nas festas poderia ser o centro de todos.

Para o biógrafo, a relação da família pode explicar (pelo menos um pouco) o comportamento do agora presidente: cresceu sem uma referência materna forte e não teve o zelo do pai, então tenta “chamar a atenção” desde então.

Infância e vida militar

Nascido em 14 de junho de 1946, em Nova York. O exílio de Donald de sua família aconteceu quando ele tinha apenas 13 anos, sendo matriculado na Academia Militar de Nova York (New York Military Academy). Talvez seja um dos acontecimentos mais marcantes da vida do mandatário: em um dia de verão de 1959, Fred chegou para o filho, que acabara de voltar da escola, e disse que ele iria para um colégio militar, cerca de 100 quilômetros de distância. Assim, iria perder o conforto e luxo da casa onde vivia.

Apesar de ser uma instituição de ensino privada, a academia militar era extremamente rigorosa – o que significava que nenhum dos meninos matriculados poderia voltar para sua casa até que estivesse na faculdade. Segundo D’Antonio, todos os homens que passaram pela New York Military Academy tiveram “problemas de ajuste social”. E com Trump não foi diferente.

Sua maior influência foi um rapaz chamado Ted Dobias, que esteve no Exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial e marchou toda a Itália para que tomassem o controle do país de Mussolini. Ted voltou da guerra e conseguiu um emprego no colégio – onde, segundo descreveu o próprio presidente republicano, os tutores não pensariam duas vezes na hora de “dar um soco nos alunos”.

O exílio de Donald aconteceu quando ele tinha apenas 13 anos, sendo matriculado na Academia Militar de NY
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O exílio de Donald aconteceu quando ele tinha apenas 13 anos, sendo matriculado na Academia Militar de NY

Ao biógrafo, Ted Dobias afirmou que Donald foi o estudante mais manipulador que ele já encontrou em sua vida. Para o professor, isso pode ser considerado de maneira positiva e negativa, uma vez que, explica, isso fez com que conseguisse extrair o que necessitava da New York Military Academy.

Muitas pessoas questionam sobre a característica militar na figura de Donald, já que ele não parece se comportar da maneira mais disciplinada possível (e isso ficou ainda mais evidente durante a campanha presidencial, em 2016). Porém, nas palavras de Michael D’Antonio, “ele é realmente um ‘showman’, mas possui uma disciplina por trás disso”.

“É irônico falar sobre Donald como um homem disciplinado, quando pensamos sobre as afirmações agressivas que fez na campanha, e a apresentação caricatural que faz de si. Esta é uma pessoa focada na busca daquilo que deseja. Se você entra em seu caminho, será atropelado. Ele é muito impulsivo, muito agressivo, mas muito disciplinado”, descreve D’Antonio.

Casamentos e filhos

O magnata já foi casado três vezes, embora sua esposa mais famosa e emblemática seja a primeira, Ivana Zelnickova, uma atleta e modelo tcheca. O casal teve três filhos, Donald Jr., Ivanka e Eric – antes de se divorciarem em 1990. O processo de divórcio foi uma batalha que protagonizou seguidas manchetes dos tabloides norte-americanos. As histórias divulgadas incluíam alegações sobre abuso, embora ela tenha tentado “diminuir” os incidentes posteriormente.

Em 2005, Donald se casou com sua atual esposa, Melania Knauss; com ela, teve seu filho caçula, Barron William Trump
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Em 2005, Donald se casou com sua atual esposa, Melania Knauss; com ela, teve seu filho caçula, Barron William Trump

Depois disso, em 1993, ele se casou com a atriz Marla Maples, com quem teve uma filha chama Tiffany. O segundo casamento do empresário acabou em 1999. Finalmente, em 2005, Donald se casou com sua atual esposa, Melania Knauss, que também é modelo; com ela, teve seu filho caçula, Barron William Trump.

Se você apenas lê as reportagens – e com certeza já se deparou com os escândalos sexuais em que Trump está envolvido – pode imaginar que ele possui uma família desestruturada. Contudo, seus filhos são, na verdade, bem leais ao pai. Claro, depois de um divórcio conturbado, os herdeiros ficaram furiosos, especialmente Donald Trump Jr. Afinal, eram obrigados a ver seus pais na capa do “New York Post” e “Daily News” frequentemente.

Os filhos de Donald Trump são bastante leais ao pai, apesar de escândalos e polêmicas
Reprodução/Instagram
Os filhos de Donald Trump são bastante leais ao pai, apesar de escândalos e polêmicas

Porém, criou a todos com uma noção de que “o sangue importa mais do que qualquer coisa”, então seus filhos carregam uma forte lealdade entre si. “Acho que Donald não foi o pai mais atencioso do mundo. Mas foi, provavelmente, mais engajado com a criação dos filhos do que seu pai havia sido. Certamente, não teria coragem de despachar um deles para uma academia militar porque estavam o irritando”, afirma o biógrafo.

A relação entre pai e filhos, inclusive, é algo tão importante para a família que ela é levada para os negócios. “Quando alguém, como Mark Cuban, critica Donald por contratar seus filhos, argumentando que não está sendo um empresário criativo e arrojado, confiando na família, acho que não entende o que a marca Trump realmente é. Trump é sobre família, é sobre nome, e é sobre anexar o sobrenome a diferentes produtos ou peças de propriedade. Eles licenciam o nome. E seus filhos são as pessoas em quem ele mais confia”, explica o biógrafo do presidente.

O empresário

Muitas pessoas perguntam como o empresário se tornou um tão rico e poderoso, mas se esquecem de que ele já nasceu em uma das famílias mais ricas de todo o país. Na década de 1970, seu pai já havia reunido US$ 200 milhões.

Trump costuma dizer que “pegou um empréstimo milionário do seu pai” – e é verdade. Não foi especificamente com uma folha de cheque, mas Fred permitiu que o filho gerenciasse um negócio imobiliário nos bairros do Brooklin e Queens.

A famosa Trump Tower – que tem nada menos que 68 andares em plena Quinta Avenida
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A famosa Trump Tower – que tem nada menos que 68 andares em plena Quinta Avenida

E isso acabou crescendo tanto que chegou ao ponto de se transformar em um projeto milionário, com imóveis na luxuosa Manhattan: ou seja, ele transformou o Hotel Commodore em Grand Hyatt, e ergueu o prédio mais famoso da empresa, a famosa Trump Tower – que tem nada menos que 68 andares em plena Quinta Avenida. Assim, acabou assumindo o controle do empreendimento – mudando seu nome para “Trump Organization”, em 1971.

Além do reinado no setor imobiliário, o presidente dos Estados Unidos também construiu um império do entretenimento. De 1996 a 2015, foi proprietário dos concursos de beleza Miss Universo, Miss USA e Miss Teen USA. Em 2003, deu início a um reality show no canal da NBC chamado “The Apprentice” (O Aprendiz, em tradução livre), em que os competidores brigavam por uma posição em uma das empresas do apresentador e produtor do programa. Ele ficou à frente do programa por 14 temporadas, o que lhe rendeu um total de US$ 213 milhões.

Como se não bastasse, também escreveu diversos livros, possui uma empresa que vende de tudo, desde gravatas até água engarrafada. De acordo com a “Forbes”, seu patrimônio líquido é de US$ 3,7 bilhões, embora ele próprio tenha repetidamente insistido que vale US$ 10 bilhões.

Fama

A vida de celebridade começou ainda nos anos 1960. Na época, começou a trabalhar na produção de uma peça em Broadway, algo praticamente desconhecido de sua biografia. Mesmo não havendo uma boa repercussão com esse trabalho, que foi encerrado após 10 semanas em cartaz, seu dom para o ‘show biz’ se tornou bastante evidente.

Aliás, sua afinidade com o mundo da fama começou ainda cedo. Quando ainda era um estudante na academia militar, foi o líder do Corpo de Cadetes que desfilava pela Quinta Avenida no “Columbus Day Parade”. Desse modo, ficava à frente dos demais, para ser notado. Pior ainda: era tão importante para ele ser destaque na multidão durante este desfile que chegou a reclamar, fazendo com que seu grupo fosse colocado na frente do bloco feminino – o que permitiu que estivesse na primeira fileira.

Em 2003, deu início a um reality show no canal da NBC chamado “The Apprentice”
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Em 2003, deu início a um reality show no canal da NBC chamado “The Apprentice”

Dessa forma, é possível afirmar que ele sempre esteve buscando atenção com sua personalidade teatralizada. Depois de participar na Broadway, percebeu que seu nome, sua imagem e mesmo sua aparência (que era a esperada para um homem de Manhattan na década de 1970) poderiam lhe servir de maneira benéfica. Assim, se promoveu na imprensa e, antes de começar a subir tijolos, passou pelo jornal “New York Times”, já como um bilionário em ascensão. Como ele fez isso? Ninguém sabe a resposta ao certo.

Na verdade, em 1975, ele participava com idas e vindas de um programa de TV como desenvolvedor. Ainda neste período, não tinha feito nada de concreto, mas sabia como conseguir os holofotes – seja para ser manchete nos tabloides com sua “guerra” contra Rupert Murdoch ou Robin Leach, como também para ser capa de revistas sobre “Ricos e Famosos”. Ele estava sempre aparecendo, todo mundo já sabia seu nome.

Desse modo, foi conquistando espaço na mídia norte-americana: inicialmente em Nova York, que é o centro da comunicação mundial, até que conseguiu se posicionar como uma figura nacionalmente relevante.  Houve um tempo nos anos 80, que repetidas pesquisas de fim de ano classificavam Trump entre as 10 pessoas mais admiradas da América. E isso não acontece “por acaso”, Donald tinha essa estratégia de buscar atenção desde o início de sua carreira, fazendo o que fosse preciso para obter reconhecimento (e conseguiu).

Escândalos sexuais

Nem se quisesse, Trump escaparia de ser lembrado como um homem polêmico, envolvido em diversos casos de escândalos sexuais. Muitas mulheres já o acusaram de agressão sexual – mas, ao que tudo indica, continua passando impune a isso.

E é claro que durante a corrida presidencial muitos desses casos acabaram explodindo, na época, um grupo de mulheres acusou o candidato de assédio sexual, a que seu comitê chamou de “assassinato à reputação”. Na época, o jornal “The New York Times” publicou dois casos, e o “Palm Beach Post” falou sobre um terceiro: em todos houve relatos de agressão de cunho sexual por parte do magnata, e de terem disso vítimas de suas “investidas” (ou seja, assédio).

Trump fez trabalhos
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Trump fez trabalhos "artísticos" no começo de sua carreira como showman

Uma das polêmicas que quase derrubou o candidato envolvia uma gravação feita em 2005, em que ele aparece falando que sua condição de celebridade “permite” que abuse das mulheres. “Quando você é uma estrela, pode fazer o quer quiser”, afirma durante uma conversa. Depois das imagens reveladas, o republicano chegou a pedir desculpas pelo episódio durante um debate com Hillary.

Jessica Leeds, agora com 74 anos, contou que, há quase três décadas, durante um voo, foi tocada por Trump. Ela foi tão incomodada que precisou sair da poltrona e pedir ajuda de uma aeromoça. “Parecia um polvo. Suas mãos estavam por toda parte”, disse.

Outro relato que chocou o país no ano passado foi de Rachel Crooks, atualmente com 33 anos, que afirmou que em 2005, quando se encontrou com o magnata em um de seus edifícios de Nova York, foi atacada por ele, sendo beijada no rosto e na boca. “Foi muito inapropriado. Me senti péssima por ter pensado que eu era tão insignificante a ponto de fazer isso”, disse.

A terceira vítima, que falou ao “Palm Beach Post”, é Mindy McGillivray, que agora tem 36 anos. Segundo contou, em 2003, Trump começou a tocá-la quando os dois se encontraram, por acaso, em um resort onde trabalhava como assistente de um fotógrafo. “Tocou nas minhas nádegas. Fiquei chocada e dei um pulo”, lembra.

Testemunhas das duas vítimas confirmaram saber das agressões desde a época em que ocorreram. Não foi explicado por que os amigos das três mulheres não apresentaram denúncias à polícia.

Depois de as denúncias serem levadas à imprensa, o chefe de comunicação da campanha do republicano, Jason Miller, afirmou que as informações do “The New York Times” eram “uma peça de ficção”, pontuando que as reportagens eram apenas uma campanha “de assassinato à reputação contra o senhor Trump”.

Na ocasião, Miller não perdeu tempo e atacou os veículos jornalísticos, com quem ele e o então candidato possuem um relacionamento tenso. “É um poço para onde a imprensa está disposta a descer, no esforço para determinar a eleição presidencial no dia 8 de novembro”.

O magnata também não ficou quieto depois das acusações graves. Em um discurso realizado em comício na Flórida no dia 13 de outubro, ele disse que “as acusações de abuso sexual feitas contra ele são totalmente falsas”, também atribuindo culpa à “imprensa mentirosa”.

O fato é que, apenas um mês depois dessas denúncias, outras 13 mulheres apareceram na mídia se dizendo vítimas de assédio. Ele nega e, em um dos casos, disse que a mulher “seria feia demais para ser estuprada” (isso te faz lembrar algum político brasileiro?). Mas, admitiu que espiava “as modelos do Miss Universo nuas porque ‘é famoso’ e, claro, dono da franquia”.

Agora, sem dúvidas, uma de suas polêmicas mais chocantes foi a declaração que fez sobre a própria filha, Ivanka. Em 2015, durante uma entrevista à revista “Rolling Stones”, afirmou que “se não estivesse em um casamento feliz e, você sabe, não fosse pai dela...”.

Em outro momento, numa conversa com jornalistas de uma rádio, se referiu à filha como “uma das Maravilhas do Mundo a qual ele ajudou a criar”, citando atributos físicos para justificar-se. Como se não bastasse, em uma terceira ocasião, no programa de TV “The View”, sentado ao lado de Ivanka, ele afirmou que, se ela não fosse sua filha, talvez a namoraria. E na maior cara de pau ainda questionou às apresentadoras se “isso é terrível?”.

Ainda no quesito machista, Trump se coloca totalmente contrário ao aborto, afirmando que mulheres que abortam deveriam ser punidas por lei. “Você precisa tratar as mulheres como merda”, defendeu.

Escândalos racistas

É difícil negar que o movimento liderado por Trump contra Barack Obama não tenha soado racista em diversos momentos. Isso porque atinge o primeiro presidente afro-americano do país, que foi subliminarmente acusado de “não ser realmente um norte-americano”. Mas, o democrata não engoliu os ataques e, em um jantar para os Correspondentes da Casa Branca, em 2011, fez diversas piadas – colocando o empresário como protagonista em várias delas.

Em vídeos, é possível ver que o bilionário fica sentado, sofrendo com aquilo, apesar de ter afirmado que “não foi tão ruim, pelo menos ele falou sobre mim”. Vaidoso como é, provavelmente foi naquela noite que ele decidiu, de uma vez por todas, que concorreria à presidência e tomaria o lugar do Partido Democrata.

É difícil negar que o movimento liderado por Trump contra Barack Obama não seja racista
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É difícil negar que o movimento liderado por Trump contra Barack Obama não seja racista

E esta não foi a primeira vez que ele esteve envolvido em casos racistas, especialmente se considerarmos que sempre pende para o lado branco de uma questão. Um bom exemplo disso aconteceu em 1973, quando muitas pessoas reportaram a agentes municipais e federais que as propriedades de Trump não podiam ser alugadas por negros. O pior é que, após uma investigação, foi descoberto que os funcionários dos edifícios eram orientados a dizer aos possíveis clientes negros que os “apartamentos não estavam disponíveis”.

Quando o Departamento de Justiça notificou a organização Trump da queixa, o impulso imediato de Donald foi apelar para o “racismo reverso”. Ao contrário de outras empresas, ou seja, ao invés de receber a reclamação da Justiça e mudar as regras, ele ainda entrou com um processo, alegando US$ 100 milhões em danos; seu advogado chamou o Departamento de Justiça de “Gestapo”.

Outro caso em que ele aparece protagonizando um caso racista foi em 1989, quando cinco jovens negros menores de idade foram presos por suspeita de terem estuprado uma mulher no Central Park. Onde Trump entra aqui? Bem, ele comprou uma página completa de um jornal em que defendia: “tragam de volta a pena de morte”. Depois de os acusados terem sido exonerados da pena e liberados, o empresário ainda insistiu que não se tratavam de “boas pessoas” e que não “mereciam a restituição social porque já tinham um histórico negativo”. Mais uma vez, ele ficou do lado provocativo.

Ainda no final dos anos 80, Bryant Gumbel fez um especial na rede de canal “NBC” e entrevistou Trump como um “proeminente empresário americano”.  Qual a grande “revelação” que o empresário fez? “Os negros têm uma vantagem”, afirmando que preferiria ser um jovem negro educado a ser um homem branco na América. Bem, difícil imaginar o que poderia ser mais cínico do que esta afirmação: ainda em 2017, negros continuam em grande desvantagem em relação a emprego, educação e tantas outras oportunidades do que brancos.

Sonho de ser presidente

Quando se pensa sobre Trump como uma figura política, e especialmente como uma pessoa que aspirou à Sala Oval durante anos, pode-se entender melhor o que pensa de si mesmo: que é “O cara”. Segundo palavras do próprio biógrafo, ele pensa que é, pelo menos geneticamente falando, abençoado. Um ser superior que deveria iniciar na carreira política indo diretamente para a Casa Branca – ou seja, nada de passar pelo serviço público ou por outros cargos menores.

Donald realmente acredita que não mereceria menos do que a Casa Branca.

Donald realmente acredita que não mereceria menos do que a Casa Branca, segundo biógrafo
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Donald realmente acredita que não mereceria menos do que a Casa Branca, segundo biógrafo

O fato é que o magnata começou a demonstrar seu interesse em concorrer à presidência em 1987, chegando a entrar na disputa como candidato republicano em 2000. Depois de 2008, ele se tornou um dos membros mais conhecidos do movimento chamado “birther”, que questionou se Barack Obama realmente nasceu nos EUA. Essas alegações foram completamente desmerecidas: afinal, o ex-presidente democrata nasceu no Havaí. Depois de certo tempo, Trump admitiu finalmente que não havia nenhuma verdade nas reivindicações durante a corrida presidencial, embora ele não parecesse estar realmente pedindo desculpas.

Pode soar estranho, mas antes disso, o republicano realmente admirava Barack Obama e sua habilidade de realizar comícios pelo país, reunindo pessoas. Certa vez, chegou a falar que Obama é um ótimo “cheerleader” – e isso não é algo pejorativo: o próprio republicano é um verdadeiro “líder de torcida”, então admira a capacidade de reunir as pessoas e inspirá-las. Porém, entre 2008 e 2011, Donald viu que seria vantajoso se tornar um crítico do presidente democrata...

Escola política

Como candidato e como presidente, Trump tem dezenas de conselheiros políticos, é claro. Porém, existe uma dúvida recorrente sobre quem estava o orientado neste sentido há 20, 30 anos? De acordo com seu biógrafo, além do próprio pai, um grande nome por trás de sua carreira é Roy Cohn.

A campanha de Trump para a presidência foi abalada por polêmicas
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A campanha de Trump para a presidência foi abalada por polêmicas

Roy era conhecido por ser a mão direita de Joe McCarthy (senador republicano), um dos políticos mais controversos da História dos Estados Unidos. E foi neste meio que Donald foi apresentado na vida pública de Nova York: participando de clubes privados e ‘rodinhas’ de políticos e influenciadores ligados a Richard Nixon, que inclusive foi bastante citado por ele durante a campanha presidencial e no discurso de posse.

Discurso conservador

O discurso de Trump pode chocar muitas pessoas que o conheceram somente agora, com a repercussão da campanha eleitoral e consequente vitória. Contudo, nada do que diz é novo. Na verdade, ele tem repetido suas ideias desde a década de 1970: o conceito de que “a América não ganha em nada, que outras pessoas estão tirando algo dos americanos”, por exemplo, é algo que diz desde as décadas de 80 e 90. Na época, ele alvejava os chineses e os japoneses. Depois, começou a falar sobre os mexicanos – e deixou evidente em sua campanha a ideia de que os latinos são como demônios que sugam direitos dos cidadãos dos Estados Unidos da América.

“E muitos norte-americanos realmente foram disciplinados a seguir o que ele vem defendendo repetidamente por mais de 30 anos”, segundo D’Antonio.

Corrida eleitoral e “Make American Great Again”

O segundo semestre de 2015 começou com o anúncio formal de que o magnata concorreria ao cargo na Casa Branca. “Nós precisamos de alguém que tomará esse país e o fará grande de novo. Nós podemos fazer isso”, afirmou no discurso oficial, prometendo que, como alguém que não precisa de dinheiro, poderia responder sem nenhum interesse especial e, portanto, era o candidato perfeito. 

O slogan da campanha do Partido Republicano em 2016 foi: “Make American Great Again”
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O slogan da campanha do Partido Republicano em 2016 foi: “Make American Great Again”

O slogan da campanha do Partido Republicano em 2016 foi: “Make American Great Again” (Fazer a América Grande Novamente, em tradução livre). Mas, uma questão que é importante colocar é: Trump acredita que algum dia os Estados Unidos foram grandes? Quando isso aconteceu?

Sob o ponto de vista de seu biógrafo, é válido lembrar que o presidente faz parte dos Baby Boomers. Ele nasceu no primeiro ano dessa geração, em 1946, e cada estágio de sua vida é uma forma de reflexo sobre a ética dos baby boomers.

Quando o escritor norte-americano Tom Wolfe escreve o “The ‘Me’ Decade and the Third Great Awakening”, em 1970, ele descreve líderes narcisistas e egocêntricos que pensam, de verdade, que a década de 1950 é um ideal, algo como “meu pai sabe mais”. Então, segundo D’Antonio, Trump carregaria essa ideia de que os anos 50 e 60 eram tempos mais fáceis, disciplinados e previsíveis, de forma bastante romântica – afinal, a economia estava crescendo, apesar do contexto político e social conturbado.

“Penso que, quando Donald fala sobre fazer a América grande de novo, ele fala sobre voltar no tempo, aos anos 50 e início dos anos 60, quando o país poderia ser considerado grande se você fosse um homem branco de classe média ou alta”, afirma o biógrafo.

Vale destacar que o slogan não condiz com as promessas controversas da campanha, que vão desde melhorar o desemprenho da economia, passando pela construção de um muro bilionário entre a fronteira dos EUA e do México até a proibição da imigração de muçulmanos ao país. Apesar dessas características, dos protestos diversos durante a corrida presidencial – e a tentativa de seus rivais republicanos Ted Cruz e Marco Rubio, ele acabou vencendo as primárias (com destaque para a participação de Indiana).

A campanha de Trump para a presidência foi abalada por polêmicas, incluindo o surgimento de uma gravação de 2005, em que ele é visto fazendo “observações lascivas” sobre mulheres. Mas, ele sempre afirmou ao seu “exército” de apoiadores que poderia vencer a candidata democrata Hillary Clinton, contradizendo expectativas, inclusive dentro de seu próprio partido, de que não fosse capaz. Além disso, prometeu que sua presidência poderia “drenar o pântano” em que Washington estaria.

Já no final da corrida, sua concorrente foi atingida pela polêmica dos e-mails oficiais encaminhados por uma conta pessoal – e pode-se dizer que, com isso, o republicano ganhou um fôlego entre os indecisos. E um fato como esse não era esperado por nenhum dos especialistas.

Assim, com a vitória surpreendente, o republicano cruzou o país atrás de seus apoiadores, enquanto o democrata Barack Obama se preparava para a transição do governo.

Ao entrar na Casa Branca no dia 20 de janeiro de 2017, Trump já fez história, antes mesmo de começar seu governo: ele é o primeiro presidente dos Estados Unidos a nunca ter exercido cargos eleitorais ou militares. Além de ser o mais velho.

Ainda é cedo para avaliar o governo, mas podemos perceber que há poucos meses à frente do país, o polêmico presidente parece acreditar estar conseguindo fazer a “América grande de novo”. Pelo menos é o que tanto defende no Twitter.

O que esperar de seu governo

 “Eu não vejo nenhuma evidência de que, sob pressão, ele opte pela moderação. Muito pelo contrário. Eu vejo que, sob pressão, ele dobra a dose de provocação, argumentação e avança no que acredita. Agora, há muitas pessoas que defendem que isso é exatamente o que os Estados Unidos precisam – o que outras rebatem, já que alguém mais frio diante de tantos assuntos polêmicos e difíceis possa parecer mais seguro”, diz o biógrafo de Trump.

Trump é o primeiro presidente dos EUA nunca ter exercido cargos eleitorais ou militares. Além de ser o mais velho
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Trump é o primeiro presidente dos EUA nunca ter exercido cargos eleitorais ou militares. Além de ser o mais velho

Ainda de acordo com D’Antonio, é difícil saber quem realmente será como presidente. Vale lembrar que, por mais de 40 anos, Trump tem construído uma personagem. E é um tipo de pessoa que confunde até mesmo aqueles que o conhecem há décadas.

“Vou lhe dar um grande exemplo disso. Entrevistei Ivana Trump, que o conhece desde meados da década de 1970, sendo casada com ele por décadas. Ela disse no início de nossa entrevista: ‘Oh, eu acho que eu entendo ele. É um garotinho que não recebeu atenção suficiente e tem procurado atenção desde então’. Mas, quando nossa entrevista estava chegando ao fim, ela me interrompeu e disse que ainda estava pensando nessa questão e, de fato, não o conhece de jeito nenhum. Que não conseguia entendê-lo”, conta o biógrafo.

Então, se alguém que foi casado, teve três filhos e conviveu com ele por décadas afirma que não o descobriu, imagina o quão desafiador será para pessoas que não o conhecem avaliarem do que, realmente, ele será capaz?

Trump, o muro e os refugiados

Se não a mais polêmica, uma das mais controvérsias promessas do candidato republicano foi sobre a construção de um muro na fronteira entre Estados Unidos e México. Esparramando preconceito ao afirmar que o país latino só “enviava drogas e estupradores” para dentro do território norte-americano, o então candidato afirmou que, se chegasse à presidência, construiria mais de três mil quilômetros de barreira entre países.

A primeira referência que fez sobre o muro aconteceu em 16 de junho de 2016, durante um discurso. Depois disso, continuou a repetir a mensagem de ódio, como em uma ocasião em Nova York na qual disse que o México “enviava seus problemas aos Estados Unidos”.

Enrique Peña Nieto negou se responsabilizar por
Facebbok / Enrique Peña Nieto
Enrique Peña Nieto negou se responsabilizar por "sua parte" na construção do muro entre fronteiras

“Estão enviando gente que tem muitos problemas, estão nos enviando seus problemas, trazem drogas, são estupradores e suponho que alguns até podem ser boa gente, mas eu falo com agentes da fronteira e eles me contam a verdade”, defendeu. “O México não é nosso amigo”, completou.

E se promessa é dívida, Trump já deu sinais de que pretende levar para frente o projeto: no dia 25 de janeiro, apenas cinco dias depois de assumir o comando dos Estados Unidos, assinou um decreto que prevê a construção de concreto entre os dois países, na tentativa de frear a imigração ilegal no território norte-americano.

Vale lembrar que a fronteira entre México e EUA já possui alguns obstáculos, como muros, cercas e barreiras físicas naturais. Segundo o jornal “USA Today”, atualmente são 1.049 quilômetros de “muro” – que deve dobrar de tamanho com o presidente republicano. A construção dessas barreiras tem respaldo na “Lei da Cerca de Segurança” (“Secure Fence Act”, em inglês), que, aprovada em 2006 pelo então presidente George W. Bush, agora pode ser usada a favor do muro de Trump.

A polêmica sobre o muro continua, porém, já que os gastos com a construção poderiam atingir nada menos que US$ 10 bilhões (e alguns especialistas dos EUA chegaram a estimar US$ 25 bilhões) – e o presidente americano quer que o colega mexicano pague por isso também. Já Enrique Peña Nieto, por sua vez. nega a “obedecer”.

O presidente mexicano manifestou-se contrário à construção, afirmando que a população de seu país “não pagará pela obra e que não aceitará que o governo dos EUA confisque parte das remessas enviadas pelos trabalhadores e suas famílias para financiar o projeto”. “Não são negociáveis princípios básicos como nossa soberania, o interesse nacional e a proteção de nossos conterrâneos”, declarou Peña Nieto.

Desdém à imprensa

Em quase todos os eventos da campanha presidencial, o então candidato republicano começava seu discurso esculachando a imprensa. Apontava para os repórteres, descritos por ele como “pessoas terríveis”, a “escória da Terra”, “horríveis”, enquanto o restante da plateia se virava para encarar os tais “monstros”. E, claro, os seguidores de Trump amam isso, assim como seus lobistas.

E segundo o biógrafo de Donald, a verdade é que... Ele não pensa assim. É pura pose. “Esta é uma maneira de configurar um inimigo e também de desacreditar a imprensa para que ele próprio se torne a fonte confiável, então, se diz que ‘os jornalistas são terríveis, eles não vão dizer a verdade’. Então quem é que o eleitor republicano fiel ou o eleitor independente acreditarão? Bem, em Donald Trump”.

Pois é. De acordo com o biógrafo, o presidente norte-americano, na verdade, ama a imprensa. A mídia tem sido seu oxigênio e o ar no balão (enorme) do seu ego. Ele sempre começou seus dias, antes de ser o mandatário do país, lendo o que os jornais e revistas falavam sobre sua pessoa. Sim, buscava seu nome em todas as notícias possíveis, enchendo-se de prazer por todo o holofote conquistado.

Agora, com o poder nas mãos – e a vontade de agradar lobistas e um público conservador – ataca jornalistas, se nega a dar entrevistas e vive falando sobre “falsas notícias”.  No Twitter de Donald Trump, o que não faltam são críticas aos veículos de imprensa norte-americanos.

*Com informações da “CNN”, “BBC News”, “USA Today”, “NY Times”.

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