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A VIUVINHA
José de Alencar


A D...
Janeiro de 1857.

Capítulo I

Se passasse há dez anos pela Praia da Glória, minha prima, antes que as novas ruas que se abriram tivessem dado um ar de cidade às lindas encostas do morro de Santa Teresa, veria de longe sorrir-lhe entre o arvoredo, na quebrada da montanha, uma casinha de quatro janelas com um pequeno jardim na frente.
Ao cair da tarde, havia de descobrir na última das janelas o vulto gracioso de uma menina que aí se conservava imóvel até seis horas, e que, retirando-se ligeiramente, vinha pela portinha do jardim encontrar-se com um moço que subia a ladeira, e oferecer-lhe modestamente a fronte, onde ele pousava um beijo de amor tão casto que parecia antes um beijo de pai.
Depois, com as mãos entrelaçadas, iam ambos sentar-se a um canto do jardim, onde a sombra era mais espessa, e aí conversavam baixinho um tempo esquecido; ouvia-se apenas o doce murmúrio das vozes, interrompidas por esses momentos de silêncio em que a alma emudece, por não achar no vocábulo humano outra linguagem que melhor a exprima.
O arrulhar destes dois corações virgens durava até oito horas da noite, quando uma senhora de certa idade chegava a uma das janelas da casa , já então iluminada, e debruçando-se um pouco, dizia com a sua voz doce e afável:
- Olha o sereno, Carolina!
A estas palavras os dois amantes se erguiam, atravessavam o pequeno espaço que os separava da casa, e subiam os degraus da porta, onde eram recebidos pela senhora que os esperava.
- Boa-noite, D. Maria, dizia o moço.
- Boa-noite, Sr. Jorge; como passou, respondia a boa senhora.
A sala da casinha era simples e pequena, mas muito elegante; tudo nela respirava esse aspecto alegre e faceiro que ri-se com a vista.
Aí nessa sala passavam as três pessoas de que lhe falei um desses serões de família, íntimos e tranqüilos, como já não os há talvez nessa bela cidade do Rio de Janeiro, invadida pelos usos e costumes estrangeiros.
Os dois moços sentavam-se ao piano; as mãozinhas distraídas da menina roçavam apenas pelo teclado, fazendo soar uns ligeiros arpejos que serviam de acompanhamento a uma conversação em meia voz.
D. Maria, sentada à mesa do meio da sala, jogava a paciência; e quando levantava
a vista das cartas, era para olhar a furto os dois moços e sorrir-se de satisfeita e feliz.
Isto durava até a hora do chá; e pouco depois Jorge retirava-se, beijando a mão da boa senhora, que neste momento tinha sempre uma ordem a dar e fingia não ver o beijo de despedida que o moço imprimia na fronte cândida da menina.
Agora, minha prima, se quer saber o segredo da cena que lhe acabei de descrever, cena que se repetia todas as tardes havia um mês, dê-me alguns momentos de atenção, que vou satisfazê-la.
Este moço que designei com o nome de Jorge, e que realmente tinha outro nome, em que decerto há de ter ouvido falar, o filho de um negociante rico que falecera, deixando-o órfão em tenra idade; seu tutor, velho amigo de seu pai, zelou a sua educação e a sua fortuna, como homem inteligente e honrado que era.
Chegando à maioridade Jorge tomou conta de seu avultado patrimônio e começou a viver essa vida dos nossos moços ricos, os quais pensam que gastar o dinheiro que seus pais ganharam é uma profissão suficiente para que se dispensem de abraçar qualquer outra.
Temos, infelizmente, muitos exemplos dessas esterilidades a que se condenam homens que, pela sua posição independente, podiam aspirar a um futuro brilhante.
Durante três anos o moço entregou-se a esse delírio do gozo que se apodera das almas ainda jovens; saciou-se de todos os prazeres, satisfez todas as vaidades.
As mulheres lhe sorriram, os homens o festejaram; teve amantes, luxo, e até essa glória efêmera, auréola passageira que brilha algumas horas para aqueles que pelos seus vícios e pelas suas extravagâncias excitam um momento a curiosidade pública.
Felizmente, como quase sempre sucede, no meio das sensações materiais, a alma se conservara pura; envolta ainda na sua virgindade primitiva, dormira todo o tempo em que a vida parecia ter-se concentrado nos sentidos, e só despertou quando, fatigado pelos excessos do prazer, gasto pelas emoções repetidas de uma existência desregrada, o moço sentiu o tédio e o aborrecimento, que é a última fase dessa embriaguez do espí-rito.
Tudo que até então lhe parecera cor-de-rosa tornou-se insípido e monótono, todas essas mulheres que cortejara, todas essas loucuras que o excitaram, todo esse luxo que o fascinara, causavam-lhe repugnância; faltava-lhe um quer que seja, sentiu um vácuo imenso; ele, que antes não podia viver senão em sociedade e no bulício do mundo, procurava a solidão.
Uma circunstância bem simples modificou a sua existência.
Levantou-se um dia depois de uma noite de insônia, em que todas as recordações de sua vida desregrada, todas as imagens das mulheres que o haviam seduzido perpassaram como fantasmas pela sua imaginação, atirando-lhe um sorriso de zombaria e de escárnio.
Abriu a janela para aspirar o ar puro e fresco da manhã, que vinha rompendo.
Daí a pouco o sino da igrejinha da Glória começou a repicar alegremente; esse toque argentino, essa voz prazenteira do sino, causou-lhe uma impressão agradável.
Vieram-lhe tentações de ir à missa.
A manhã estava lindíssima, o céu azul e o sol brilhante; quando não fosse por espírito de religiosidade excitava-o a idéia de um belo passeio a um dos lugares mais pitorescos da cidade.


Capítulo
II

Alguns instantes depois Jorge subia a ladeira e entrava na igreja.
A modesta simplicidade do templo impôs-lhe respeito; ajoelhou; não rezou, porque não sabia, mas lembrou-se de Deus, e elevou o seu espírito desde a miséria do homem até a grandeza do Criador.
Quando se ergueu, parecia-lhe que se tinha libertado de uma opressão que o fatigava; sentia um bem-estar, uma tranqüilidade de espírito indefinível.
Nesse momento viu ajoelhada ao pé da grade que separa a capela uma menina de quinze anos, quando muito: o perfil suave e delicado, os longos cílios que vendavam seus olhos negros e brilhantes, as tranças que realçavam a sua fronte pura, o impressionaram.
Começou a contemplar aquela menina como se fosse uma santa; e, quando ela levantou-se para retirar-se com sua mãe, seguiu-a insensivelmente até a casa que já lhe descrevi porque esta moça era a mesma de que lhe falei, e sua mãe D. Maria.
Escuso contar-lhe o que se passou depois. Quem não sabe a história simples e eterna de um amor inocente, que começa por um olhar, passa ao sorriso, chega ao aperto de mão às escondidas, e acaba afinal por um beijo e por um sim, palavras sinônimas no dicionário do coração?
Dois meses depois desse dia começou aquela visita ao cair da tarde, aquela conversa à sombra das árvores, aquele serão de família, aquela doce intimidade de um amor puro e tranqüilo.
Jorge esperava apenas esquecer de todo a sua vida passada, apagar completamente os vestígios desses tempos de loucura, para casar-se com aquela menina, e dar-lhe a sua alma pura e sem mancha.
Já não era o mesmo homem: simples nos seus hábitos e na sua existência, ninguém diria que algum tempo ele tinha gozado de todas as voluptuosidades do luxo; parecia um moço pobre e modesto, vivendo do seu trabalho e ignorando inteiramente os cômodos da riqueza.
Como o amor purifica, D...! Como dá forças para vencer instintos e vícios contra os quais a razão, a amizade e os seus conselhos severos foram impotentes e fracos!
Creia que se algum dia me metesse a estudar as altas questões sociais que preocupam os grandes políticos, havia de cogitar alguma coisa sobre essa força invencível do mais nobre dos sentimentos humanos.
Não há aí um sistema engenhoso que pretende regenerar o homem pervertido, fazendo-lhe germinar o arrependimento por meio da pena e despertando-lhe os bons instintos pelo isolamento e pelo silêncio?
Por que razão há de procurar-se aquilo que é contra a natureza, e desprezar-se o germe que Deus deu ao coração do homem para regenerá-lo e purificá-lo?
Perdão, minha prima; não zombe das minhas utopias sociais; desculpe-me esta distração; volto ao que sou - simples e fiel narrador de uma pequena história.
Em amor, dois meses depressa se passam; os dias são momentos agradáveis e as horas flores que os amantes desfolham sorrindo.
Por fim chegou a véspera do casamento, que se devia fazer simplesmente em casa, na presença de um ou dois amigos; o moço, fatigado dos prazeres ruidosos, fazia agora de sua felicidade um mistério.
Nenhum dos seus conhecidos sabia de seus projetos; ocultava o seu tesouro, com medo que lho roubassem; escondia a flor do sentimento que tinha dentro d'alma, receando que o bafejo do mundo onde vivera a viesse crestar.
A noite passou-se simplesmente como as outras; apenas notava-se em D. Maria uma atividade que não lhe era habitual.
A boa senhora, que exigira como condição que seus dois filhos ficassem morando com ela para alegrarem a sua solidão e a sua viuvez, temia que alguma coisa faltasse à festa simples e íntima que devia ter lugar no dia seguinte.
De vez em quando erguia-se e ia ver se tudo estava em ordem, se não havia esquecido alguma coisa; e parecia-lhe que voltava aos primeiros anos da sua infância, repassando na memória esse dia, que uma mulher não esquece nunca.
Nele se passa o maior acontecimento de sua vida; ou realiza-se um sonho de ventura, ou murcha para sempre uma esperança querida que se guarda no fundo do coração; pode ser o dia da felicidade ou da desgraça, mas é sempre uma data notável no livro da vida.
No momento da partida, quando Jorge se levantou, D. Maria, que compreendia o que essas duas almas tinham necessidade de dizer-se mutuamente, retirou-se.
Os dois amantes apertaram-se as mãos e olharam-se com um desses olhares longos, fixos e ardentes que parecem embeber a alma nos seus raios límpidos e brilhantes.
Tinham tanta coisa a dizer e não proferiam uma palavra; foi só depois de um comprido silêncio que Jorge murmurou quase imperceptivelmente:
- Amanhã!...
Carolina sorriu enrubescendo; aquele amanhã exprimia a felicidade, a realização desse belo sonho cor-de-rosa que havia durado dois meses; a linda e inocente menina, que amava com toda a pureza de sua alma, não tinha outra resposta.
Sorriu e corou.
Jorge desceu lentamente a ladeira, e ao quebrar a rua voltou-se ainda uma vez para lançar um olhar à casa.
Uma luz brilhava nas trevas entre as cortinas do quarto de sua noiva; era a estrela do seu amor, que brevemente devia transformar-se em lua-de-mel.

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Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII e Capítulo XIV
Capítulo XV e Capítulo XVI