A VIUVINHA
José de Alencar
Capítulo
III
Deve fazer uma
idéia, minha prima, do que será a véspera do
casamento para um homem que ama.
A alma, a vida, pousa no umbral dessa nova existência que
se abre, e daí lança um volver para o passado e procura
devassar o futuro.
Aquém a liberdade, a isenção, a tranqüilidade
de espírito, que se despedem do homem; além a família,
os gozos íntimos, o lar doméstico, esse santuário
das verdadeiras felicidades do mundo que acenam de longe.
No meio de tudo isto, a dúvida e a incerteza, essas inimigas
dos prazeres humanos, vêm agitar o espírito e toldar
o céu brilhante das esperanças que sorriem.
O futuro valerá o passado?
E nessa questão louca e insensata debate-se o pensamento,
como se a prudência e sabedoria humana pudessem dar-lhe uma
solução, como se os cálculos da previdência
fossem capazes de resolver o problema.
É isto pouco mais ou menos o que se passava no espírito
de Jorge quando caminhava pela Praia da Glória seguindo o
caminho de sua casa.
Davam dez horas no momento em que o moço chegava à
rua de Matacavalos, à porta de um pequeno sobrado, onde habitava,
depois da sua retirada do mundo
Ao entrar, o escravo preveniu-lhe que uma pessoa o esperava no seu
gabinete; o moço subiu apressadamente e dirigiu-se ao lugar
indicado.
A pessoa que lhe fazia essa visita fora de horas era seu antigo
tutor, o amigo de seu pai, a quem por algum tempo substituiu com
a sua amizade sincera e verdadeira.
O Sr. Almeida era um velho de têmpera antiga, como se dizia
há algum tempo a esta parte; os anos haviam aumentado a gravidade
natural de sua fisionomia.
Conservava ainda toda a energia do caráter, que se revelava
na vivacidade do olhar e no porte firme de sua cabeça calva.
- A sua visita a estas horas... disse o moço entrando.
- Admira-o? perguntou o Sr. Almeida.
- Certamente; não porque isto não me dê prazer;
mas acho extraordinário.
- E com efeito o é; o que me trouxe aqui não foi o
simples desejo
de fazer-lhe uma visita.
- Então houve um motivo imperioso?
- Bem imperioso.
- Neste caso, disse o moço, diga-me de que se trata, Sr.
Almeida; estou pronto a ouvi-lo.
O velho tomou uma cadeira, sentou-se à mesa que havia no
centro do gabinete e,
aproximando um pouco de si o candeeiro que esclarecia o aposento,
tirou do bolso uma dessas grandes carteiras de couro da Rússia,
que colocou defronte de si.
O moço, preocupado por este ar grave e solene, sentou-se
em face e esperou com inquietação a decifração
do enigma.
- Chegando à casa há pouco, entregaram-me uma carta
sua, em que me participava o seu casamento.
- Não o aprova? perguntou o moço inquieto.
- Ao contrário, julgo que dá um passo acertado; e
é com prazer que aceito o
convite que me fez de assistir a ele.
- Obrigado, Sr. Almeida.
- Não é isto, porém, que me trouxe aqui; escute-me.
O velho recostou-se na cadeira, e, fitando os olhos no moço,
considerou-o um
momento, como quem procurava a palavra por que devia continuar a
conversa.
- Meu amigo, disse o Sr. Almeida, há cinco anos que seu pai
faleceu.
- Trata-se de mim então? perguntou Jorge, cada vez mais inquieto.
- Do senhor e só do senhor.
- Mas o que sucedeu?
- Deixe-me continuar. Há cinco anos que seu pai faleceu;
e há três que, tendo
o senhor completado a sua maioridade, eu, a quem o meu melhor amigo
havia confiado a sorte de seu filho, entreguei-lhe toda a sua herança,
que administrei durante dois anos com o zelo que me foi possível.
- Diga antes com uma inteligência e uma nobreza bem raras
nos tempos de hoje.
- Não houve nada de louvável no que pratiquei; cumpri
apenas o meu dever de
homem honesto e a promessa que fiz a um amigo.
- A sua modéstia pode ser dessa opinião; porém
a minha amizade e o meu
reconhecimento pensam diversamente.
- Perdão; não percamos tempo em cumprimentos. A fortuna
que lhe deixara
seu pai, e que ele ajuntara durante trinta anos de trabalho e de
privações, consistia em cem apólices, e na
sua casa comercial, que representava um capital igual, ainda mesmo
depois de pagas as dívidas.
- Sim, senhor, graças à sua inteligente administração,
achava-me possuidor de
duzentos contos de réis, a que dei bem mau emprego, confesso.
- Não desejo fazer-lhe exprobrações ; o senhor
não é mais meu pupilo, é um
homem; já não lhe posso falar com autoridade de um
segundo pai, mas simplesmente com a confiança de um velho
amigo.
- Mas um amigo que me merecerá sempre o maior respeito.
- Infelizmente o senhor não tem dado provas disto; durante
perto de um ano
acompanhei-o como uma sombra, importunei-o com os meus conselhos,
abusei dos meus direitos de amigo de seu pai, e tudo isto foi debalde.
- É verdade, disse o moço abaixando tristemente a
cabeça, para vergonha
minha é verdade!
- A vida elegante o atraía, a ociosidade o fascinava; o senhor
lançava pela
janela às mãos cheias o ouro que seu pai havia ajuntado
real a real.
- Basta; não me lembre esse tempo de loucura que eu desejava
riscar da minha
vida.
- Conheço que o incomodo; mas é preciso. Durante este
primeiro ano, em que
ainda tive esperanças de o fazer voltar à razão,
não houve meio que não empregasse, não houve
estratagema de que não lançasse mão. Responda-me,
não é exato?
- Alguma vez o neguei?
- Diga-me do fundo da sua consciência: julga que um pai no
desespero podia
fazer mais por um filho do que eu fiz pelo senhor?
- Juro que não! disse Jorge estendendo a mão.
- Pois bem, agora é preciso que lhe diga tudo.
- Tudo?...
- Sim; ainda não concluí. Os seus desvarios de três
anos arruinaram a sua
fortuna.
- Eu o sei.
- As suas apólices voaram umas após outras, e foram
consumidas em jantares,
prazeres e jogos.
- Restava-me, porém, a minha casa comercial.
- Resta-lhe, continuou o velho carregando sobre esta palavra, a
sua
casa comercial, mas três anos de má administração
deviam naturalmente ter influído no estado dessa casa.
- Parece-me que não.
- Sou negociante, e sei o que é o comércio. Depois
que o vi finalmente voltar à
vida regrada, quis ocupar-me de novo dos seus negócios; indaguei,
informei-me e ontem terminei o exame da sua escrituração,
que obtive de seus caixeiros quase que por um abuso de confiança.
O resultado tenho-o aqui.
- O velho pousou a mão sobre a carteira.
- E então? perguntou Jorge com ansiedade.
O Sr. Almeida, fitando no moço um olhar severo, respondeu
lentamente à sua
pergunta inquieta:
- O senhor está pobre!
Capítulo
IV
Para um homem
habituado aos cômodos da vida, a essa descuidosa existência
da gente rica, que tem a chave de ouro que abre todas as portas,
o talismã que vence todos os impossíveis, essa palavra
pobre é a desgraça, é mais do que a desgraça,
é uma fatalidade.
A miséria com o seu cortejo de privações e
de desgostos, a humilhação de uma posição
decaída, a terrível necessidade de aceitar, senão
a caridade, ao menos a benevolência alheia, tudo isto desenhou-se
com as cores mais carregadas no espírito do moço à
simples palavra que seu tutor acabava de pronunciar.
Contudo, como já se havia de alguma maneira preparado para
uma vida laboriosa pelo tédio que lhe deixaram os seus anos
de loucura, aceitou com uma espécie de resignação
o castigo que lhe dava a Providência.
- Estou pobre, disse ele respondendo ao Sr. Almeida, não
importa; sou moço,
trabalharei, e como meu pai hei de fazer uma fortuna.
O velho abanou a cabeça com uma certa ironia misturada de
tristeza.
- O senhor duvida? O meu passado dá-lhe direito para isso;
mas um dia lhe provarei o contrário, e lhe mostrarei que
mereço a sua estima.
- Esta promessa ma restitui toda. Mas que conta fazer?
- Não sei; a noite me há de inspirar. Liquidarei esse
pouco que me resta...
- Esse pouco que lhe resta?
- Sim.
- Não me compreendeu então; disse-lhe que estava pobre;
não lhe resta senão a miséria e...
- E... balbuciou o moço pálido e com a alma suspensa
aos lábios do velho,
cuja voz tinha tomado uma entonação solene ao pronunciar
aquele monossílabo.
- E as dívidas de seu pai, articulou o Sr. Almeida no mesmo
tom.
Jorge deixou-se cair sobre a cadeira com desânimo; este último
golpe o prostrara; a sua energia não resistia.
O velho, cuja intenção real era impossível
de adivinhar, porque às vezes tornava-
se benévolo como um amigo e outras severo como um juiz, encarou-o
por algum tempo com uma dureza de olhar inexprimível:
- Assim, disse ele, eis um filho que herdou um nome sem mancha e
uma fortuna de duzentos contos de réis; e que, depois de
ter lançado ao pó das ruas as gotas de suor da fronte
de seu pai amassadas durante trinta anos, atira ao desprezo, ao
escárnio e à irrisão pública esse nome
sagrado, esse nome que toda a praça do Rio de Janeiro respeitava
como o símbolo da honradez. Diga-me que título merece
este filho?
- O de um miserável e de um infame, disse Jorge levantando
a cabeça: eu o sou! Mas a memória de meu pai, que
eu venero, não pode ser manchada pelos atos de um mau filho.
- O senhor bem mostra que não é negociante.
- Não é preciso ser negociante para compreender o
que é honra e probidade, Sr. Almeida.
Mas é preciso ser negociante para compreender até
que ponto obriga a honra
e a probidade de um negociante. Seu pai devia; em vez de saldar
essas obrigações com a riqueza que lhe deixou, consumiu-a
em prazeres; no dia em que o nome daquele que sempre fez honra à
sua firma for declarado falido, a sua memória está
desonrada.
- O senhor é severo demais Sr. Almeida.
- Oh! não discutamos; penso desta maneira; não sou
rico, mas procurarei salvar o nome de meu amigo da desonra que seu
filho lançou sobre ele.
- E o que me tocará a mim então?
- Ao senhor, disse o velho erguendo-se, fica-lhe a miséria,
a vergonha, o remorso, e talvez que mais tarde, o arrependimento.
A angústia e o desespero que se pintavam nas feições
de Jorge tocavam quase à
alucinação e ao desvario; às vezes era como
uma atonia que lhe paralisava a circulação, outras
tinha ímpetos de fechar os olhos e atirar a matéria
contra a matéria, para ver se neste embate a dor física,
a anulação do espírito, moderavam o profundo
sofrimento que torturava sua alma.
Por fim uma idéia sinistra passou-lhe pela mente, e agarrou-se
a ela como um
náufrago a um destroço de seu navio; o desespero tem
dessas coincidências; um pensamento louco é às
vezes um bálsamo consolador, que, se não cura, adormece
o padecimento.
O moço ficou de todo calmo; mas era essa calma sinistra que
se assemelha ao silêncio que precede as grandes tempestades.
Tudo isto se passou num momento, enquanto o Sr. Almeida, com o seu
sorriso
irônico, abotoava até a gola da sua sobrecasaca, dispondo-se
a sair.
- Estamos entendidos, senhor; pode mandar debitar-me nos seus livros
pelas dívidas de seu pai. Boa noite.
- Adeus, senhor.
O velho saiu direito e firme como um homem no vigor da idade.
Jorge escutou o som de suas passadas, que ecoaram surdamente no
soalho, até o
momento em que a porta da casa fechou-se
Então curvou a cabeça sobre o braço, apoiado
ao umbral da janela, e chorou.
Quando um homem chora, minha prima, a dor adquire um quer que seja
de
suave, uma voluptuosidade inexprimível; sofre-se, mas sente-se
quase uma consolação em sofrer.
Vós, mulheres, que chorais a todo o momento, e cujas lágrimas
são apenas um
sinal de vossa fraqueza, não conheceis esse sublime requinte
da alma que sente um alívio em deixar-se vencer pela dor;
não compreendeis como é triste uma lágrima
nos olhos de um homem.
Capítulo
V
Uma hora seguramente
se passara depois da saída do velho.
O relógio de uma das torres da cidade dava duas horas.
Jorge conservou-se na mesma posição; imóvel,
com a cabeça apoiada sobre o braço, apenas se lhe
percebia o abalo que produzia de vez em quando um soluço
que o orgulho do homem reprimia, como que para ocultar de si mesmo
a sua fraqueza.
Depois nem isto; ficou inteiramente calmo, ergueu a cabeça
e começou a passear
pelo aposento: a dor tinha dado lugar à reflexão;
e ele podia enfim lançar um olhar sobre o passado, e medir
toda a profundeza do abismo em que ia precipitar-se.
Havia apenas duas horas que a felicidade lhe sorria com todas as
suas cores brilhantes, que ele via o futuro através de um
prisma fascinador; e poucos instantes tinham bastado para transformar
tudo isto em uma miséria cheia de vergonha e de remorsos.
As oscilações da pêndula, que na véspera
respondiam alegremente às palpitações
de seu coração, a bater com a esperança da
ventura, ressoavam agora tristemente, como os dobres monótonos
de uma campa tocando pelos mortos.
Mas não era o pensamento dessa desgraça irreparável,
imensa, que tanto o afligia; os espíritos fortes, como o
seu, têm para as grandes dores um grande remédio, a
resignação.
A pobreza não o acobardava; a desonra, não a temia;
o que dilacerava agora a sua alma era um pensamento cruel, uma lembrança
terrível:
- Carolina!...
A pobre menina, que o amava, que dormia tranqüilamente embalada
por algum sonho prazenteiro, que esperava com a inocência
de um anjo e a paixão de uma mulher a hora dessa ventura
suprema de duas almas a confundirem-se num mesmo beijo!
Podia, ele, desgraçado, miserável, escarnecido, iludir
ainda por um dia esse coração e ligar essa vida de
inocência e de flores à existência de um homem
perdido?
Não: seria um crime, uma infâmia, que a nobreza de
sua alma repelia; sentia-se bastante desgraçado, é
verdade, mas essa desgraça era o resultado de uma falta,
de uma bem grave falta, mas não de um ato vergonhoso.
O seu casamento, pois, não podia mais efetuar-se; o seu dever,
a sua lealdade exigiam que confessasse a D. Maria e a sua filha
as razões que tornavam impossível esta união.
Sentou-se à mesa e começou a escrever com uma espécie
de delírio uma carta à
mãe de Carolina; mas, apenas havia traçado algumas
linhas, a pena estacou sobre o papel.
- Seria matá-la! balbuciou ele.
Outra idéia lhe viera ao espírito; lembrou-se que
no estado a que tinham chegado
as coisas, essa ruptura havia de necessariamente prejudicar a reputação
de sua noiva.
Ele seria causa de que se concebesse uma suspeita sobre a pureza
dessa menina que havia respeitado como sua irmã, embora a
amasse com uma paixão ardente; e este só pensamento
paralisara a sua mão sobre o papel.
Recordou-se de que D. Maria um dia lhe havia dito:
- Jorge, a confiança que tenho na sua lealdade é tal
que entreguei minha filha
antes de pertencer-lhe. Lembre-se que se o senhor mudasse de idéia,
embora ela esteja pura como um anjo, o mundo a julgaria uma moça
iludida. Espero que respeite em sua noiva a sua futura mulher.
E o moço reconhecia quanto D. Maria tinha razão; lembrava-se,
no tempo da sua
vida brilhante, que comentários não faziam seus amigos
sobre um casamento rompido às vezes pelo motivo o mais simples.
Deixar pesar a sombra de uma suspeita sobre a pureza de Carolina,
era coisa que
o seu espírito nem se animava a conceber; mas iludir a pobre
menina, arrastando-a a um casamento desgraçado, era uma infâmia.
Durante muito tempo o seu pensamento debateu-se nesta alternativa
terrível, até que uma idéia consoladora veio
restituir-lhe a calma.
Tinha achado um meio de tudo conciliar; um meio de satisfazer ao
sentimento do seu coração e aos prejuízos do
mundo.
Qual era este meio? Ele o guardou consigo e o concentrou no fundo
d'alma; apenas um triste sorriso dizia que ele o havia achado, e
que sobre a dor profunda que enchia o coração, ainda
pairava um sopro consolador.
Toda a noite se passou nesta luta íntima.
De manhã o moço saiu e foi ver Carolina, para receber
um sorriso que lhe desse forças de resistir ao sofrimento.
A menina na sua ingênua afeição apercebeu-se
da palidez do moço, mas atribuiu-a a um motivo bem diverso
do que era realmente.
- Não dormiste, Jorge? perguntou ela.
- Não.
- Nem eu! disse corando.
Ela cuidava que era só a felicidade que trazia essas noites
brancas, que deviam depois dourar-se aos raios do amor.
Como se enganava!
De volta, Jorge dispôs tudo que era necessário para
seu casamento, e fechou-se no seu quarto até a tarde.
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