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A VIUVINHA
José de Alencar


Capítulo X

Cinco anos decorreram depois dos tristes acontecimentos que acabamos de narrar.
Estamos na Praça do Comércio.
Naquele tempo não havia, como hoje, corretores e zangões, atravessadores, agiotas, vendedores de dividendos, roedores de cordas, emitidores de ações; todos esses tipos modernos, importados do estrangeiro e aperfeiçoados pelo talento natural.
Em compensação, porém, ali se faziam todas as transações avultadas; aí se
tratavam todos os negócios importantes com uma lisura e uma boa-fé que se tornou proverbial à praça do Rio de Janeiro.
Eram três horas da tarde.
A praça ia fechar-se; os negócios do dia estavam concluídos; e dentro das colunas que formam a entrada do edifício poucas pessoas ainda restavam.
Entre estas notava-se um negociante, que passeava lentamente ao comprido do
saguão, e que por momentos chegava-se à calçada e lançava um olhar pela Rua Direita.
Era um moço que teria quando muito trinta anos, de alta estatura e de um porte
elegante; à primeira vista parecia estrangeiro.
Tinha uma dessas feições graves e severas que impõem respeito e inspiram ao mesmo tempo a afeição e a simpatia. Sua barba, de um louro cinzento, cobria-lhe todo o rosto e disfarçava os seus traços distintos.
A fronte larga e reflexiva, um pouco curvada pelo hábito do trabalho e da
meditação, e o seu olhar fixo e profundo, revelavam uma vontade calma, mas firme e tenaz.
A expressão de tristeza e ao mesmo tempo de resignação que respirava nessa
fisionomia devia traduzir a sua vida; ao menos fazia pressentir na sua existência o predomínio de uma necessidade imperiosa, de um dever, talvez de uma fatalidade.
Ninguém na praça conhecia esse moço, que aí aparecera havia pouco tempo; mas as suas maneiras eram tão finas, os seus negócios tão claros e sempre à vista, as suas transações tão lisas, que os negociantes nem lhe perguntavam o seu nome para aceitarem o objeto que ele lhes oferecia.
Todas as pessoas já tinham partido, e ficara apenas o moço, que sem dúvida
esperava alguém; entretanto, ou porque ainda não tivesse chegado a hora aprazada, ou porque já estivesse habituado a constranger-se, não dava o menor sinal de impaciência.
Finalmente a pessoa esperada apontou na entrada da Rua do Sabão e aproximou-
se rapidamente.
A senhora, que talvez tenha imaginado um personagem de grande importância vai decerto sofrer uma decepção quando souber que o desconhecido era apenas um mocinho de dezenove para vinte anos.
Um observador ou um homem prático, o que vale a mesma coisa, reconheceria nele à primeira vista um desses virtuosi do comércio, como então havia muitos nesta boa cidade do Rio de Janeiro.
A classificação é nova e precisa uma explicação.
A lei, a sociedade e a polícia estão no mau costume de exigir que cada homem tenha uma profissão; donde provém esta exigência absurda não sei eu, mas o fato é que ela existe, contra a opinião de muita gente.
Ora, não é uma coisa tão fácil, como supõe-se, o ter uma profissão. Apesar do novo progresso econômico da divisão do trabalho, que multiplicou infinitamente as indústrias, e por conseguinte as profissões, a questão ainda é bem difícil de resolver para aqueles que não querem trabalhar.
Ter uma profissão quando se trabalha, isto é simples e natural, mas ter uma profissão honesta e decente sem trabalhar, eis o sonho dourado de muita gente, eis o problema de Arquimedes para certos homens que seguem a religião do dolce far niente.
O problema se resolveu simplesmente.
Há uma profissão cujo nome é tão vago, tão genérico que pode abranger tudo. Falo da profissão de negociante.
Quando um moço não quer abraçar alguma profissão trabalhosa, diz-se negociante, isto é, ocupado em tratar dos seus negócios.
Um maço de papéis na algibeira, meia hora de estação na Praça do Comércio, ar atarefado, são as condições do ofício.
Mediante estas condições o nosso homem é tido e havido como negociante; pode passear pela Rua do Ouvidor, apresentar-se nos salões e nos teatros.
Quando perguntarem quem é este moço bem vestido, elegante, de maneiras tão afáveis, responderão - É um negociante.
Eis o que eu chamo virtuosi do comércio, isto é, homens que cultivam a indústria mercantil por curiosidade, por simples desfastio, para ter uma profissão.
É tempo de voltar dessa longa digressão, que a senhora deve ter achado muito aborrecida.
O mocinho negociante, tendo chegado à Praça do Comércio, tomou o braço da pessoa que o esperava, dizendo-lhe:
- Está tudo arranjado.
- Seriamente? exclamou o outro moço, cujos olhos brilharam de alegria.
- Pois duvidas!
- Então, amanhã...
- Ao meio-dia.
- Obrigado! disse o moço apertando a mão de seu companheiro com efusão.
- Obrigado, por quê? O que fiz vale a pena de agradecer? Ora, adeus!... Vem
jantar comigo.
- Não, acompanho-te até lá; mas preciso estar às quatro horas em minha casa.
Os dois moços de braço dado dobraram o canto da Rua Direita.


Capítulo XI

Seguiram pela Rua do Ouvidor.
Não sei que interesse, dizia o nosso negociante continuando a conversa; não
sei que interesse tens tu, Carlos, em resgatares aquela letra!
É uma especulação que algum dia te explicarei, Henrique, e na qual espero
ganhar.
- É possível, respondeu o outro, mas permitirás que duvide.
- Por quê?
- Ora, é boa! uma letra de um homem já falecido, de uma firma falida! Aposto
que não sabias disto?!
- Não; não sabia! disse Carlos sorrindo amargamente.
- Pois então deixa contar-te a história.
- Em outra ocasião.
- Por que não agora? Reduzo-te isto a duas palavras, visto que não estás disposto a escutar-me.
- Mas...
- Trata-se de um negociante rico, que faleceu, deixando ao filho coisa de 300
contos de réis e algumas dívidas, na importância de um terço dessa quantia. O filho gastou o dinheiro, e deixou que protestassem as letras aceitas pelo pai, o qual, apesar de morto, foi declarado falido.
Enquanto seu companheiro falava, Carlos se tinha tornado lívido; conhecia-se
que uma emoção poderosa o dominava, apesar do esforço de vontade com que procurava reprimi-la.
- E esse filho... o que fez? perguntou com voz trêmula.
- O sujeito, depois de ter-se divertido à larga, quando se viu pobre e desonrado,
enfastiou-se da vida, e fez viagem para o outro mundo.
- Suicidou-se!
- É verdade; mas o interessante foi que na véspera de sua morte se tinha casado
com uma menina lindíssima.
- Conheces?
- Ora! quem não conhece a Viuvinha no Rio de Janeiro? É a moça mais linda, a
mais espirituosa e a mais coquette dos nossos salões.
A conversa foi interrompida, os dois amigos caminharam por algum tempo sem
trocarem palavra.
Carlos ficara triste e pensativo; o seu rosto tinha neste momento uma expressão
de dor e resignação que revelava um sofrimento profundo, mas habitual.
Quanto ao seu companheiro, fumava o seu charuto, olhando para todas as
vidraças de lojas por onde passava e apreciando essa exposição constante de objetos de gosto, que já naquele tempo tornava a Rua do Ouvidor o passeio habitual dos curiosos.
De repente soltou uma exclamação, e apertou com força o braço de seu amigo.
- O que é? perguntou este.
- Nada mais a propósito! Ainda há pouco falamos dela, e ei-la!
- Onde? exclamou Carlos estremecendo.
- Não a viste entrar na loja do Wallerstein?
- Não; não vi ninguém.
- Pois verás.
Com efeito, uma moça vestida de preto, acompanhada por uma senhora já idosa,
havia entrado na loja do Wallerstein.
A velha nada tinha de notável e que a distinguisse de uma outra qualquer velha;
era uma boa senhora que fora jovem e bonita, e que não sabia o que fazer do tempo que outrora levava a enfeitar-se.
A moça, porém, era um tipo de beleza e de elegância. As linhas do seu rosto tinham uma pureza admirável.
Nos seus olhos negros e brilhantes radiava o espírito, esse espírito da mulher
cheio de vivacidade e de malícia. Nos seus lábios mimosos brincava um sorriso divino e fascinador.
Os cabelos castanhos, de reflexos dourados, coroavam sua fronte como um diadema, do qual se escapavam dois anéis, que deslizavam pelo seu colo soberbo.
Trajava um vestido de cetim preto, simples e elegante; não tinha um ornato, nem
uma flor, nem outro enfeite, que não fosse dessa cor triste, que ela parecia amar.
Essa extrema simplicidade era o maior realce da sua beleza deslumbrante. Uma
jóia, uma flor, um laço de fita, em vez de enfeitá-la, ocultariam uma das mil graças e mil perfeições que a natureza se esmerara em criar nela.
Os dois moços pararam à porta do Wallerstein; enquanto seu amigo olhava a moça com o desplante dos homens do tom, Carlos, através da vidraça, contemplava com um sentimento inexprimível aquela graciosa aparição.
Os caixeiros do Wallerstein desdobraram sobre o balcão todas as suas mais ricas
e mais delicadas novidades, todas as invenções do luxo parisiense, verdadeiro demônio tentador das mulheres.
A cada um desses objetos de gosto, a cada uma das mimosas fantasias da moda,
ela sorria com desdém e nem sequer as tocava com a sua alva mãozinha, delicada como a de uma menina.
As fascinações do luxo, as bonitas palavras dos caixeiros e as instâncias de sua
mãe, tudo foi baldado. Ela recusou tudo, e contentou-se com um simples vestido preto e algumas rendas da mesma cor, como se estivesse de luto, ou se preparasse para as festas da Semana Santa.
- Assim, depois de cinco anos, disse-lhe sua mãe em voz baixa, persistes em
conservar este luto constante.
A Viuvinha sorriu.
- Não é luto, minha mãe: é gosto. Tenho paixão por esta cor; parece-me que
ela veste melhor que as outras.
- Não digas isto, Carolina; pois o azul desta seda não te assenta perfeitamente?
- Já gostei do azul; hoje o aborreço! É uma cor sem significação, uma cor morta.
- E o preto.
- Oh! O preto é alegre!
- Alegre! exclamou um caixeiro, admirado dessa opinião original em matéria
de cor.
- Eu pelo menos o acho, replicou a moça tomando de repente um ar sério: é a
cor que me sorri.
Esta conversa durou ainda alguns minutos.
Poucos instantes depois, as duas senhoras saíram e o carro que as esperava à
porta desapareceu no fim da rua.
Carlos despediu-se do seu companheiro.
- Então amanhã sem falta!
- Ah! Ainda insistes no negócio?
- Mais do que nunca!
- Bem. Já que assim o queres...
- Posso contar contigo?
- Como sempre.
- Obrigado.
Henrique continuou a arruar, fazendo horas para o jantar.
Carlos dobrou a Rua dos Ourives e dirigiu-se à casa. Morava em um pequeno sótão de segundo andar no fim da Rua da Misericórdia.


Capítulo XII

A razão por que o moço, saindo da Rua Direita, dera uma grande volta para
recolher-se não fora unicamente o desejo de acompanhar Henrique. Havia outro motivo mais sério.
Ele ocultava a sua morada a todos; o que aliás era-lhe fácil, porque depois de
dois anos que estava no Rio de Janeiro não tinha amigos, e bem poucos eram os seus conhecidos.
Havia muito de inglês no seu trato. Quando fazia alguma transação ou discutia
um negócio, era de extrema polidez. Concluída a operação, cortejava o negociante e não o conhecia mais. O homem tornava-se para ele uma obrigação, um título, uma letra de câmbio.
De todas as pessoas que diariamente encontrava na praça, Henrique era o único
com quem entretinha relações, e essas mesmas não passavam de simples cortesia.
Entrando no seu aposento, Carlos fechou a porta de novo; e, sentando-se em um
tamborete que havia perto da carteira, escondeu a fronte nas mãos com um gesto de desespero.
O aposento era de uma pobreza e nudez que pouco distava da miséria. Entre as
quatro paredes que compreendiam o espaço de uma braça esclarecido por uma janela estreita, via-se a cama de lona pobremente vestida, uma mala de viagem, a carteira e o tamborete.
Nos umbrais da porta, dois ganchos que serviam de cabide. Na janela, cuja soleira fazia às vezes de lavatório, estavam o jarro e a bacia de louça branca, uma bilha d'água, e um copo com um ramo de flores murchas. Junto à cama, em uma cantoneira, um castiçal com uma vela e uma caixa de fósforos. Sobre a carteira, papéis e livros de escrituração mercantil.
Era toda a mobília.
Quando, passado um instante, o moço ergueu a cabeça, tinha o rosto banhado de
lágrimas.
- Era um crime, murmurou ele, mas era um grande alívio!... Coragem!
Enxugou as lágrimas, e, recobrando a calma, abriu a carteira e dispôs-se a
trabalhar. Tirou do bolso um maço de títulos e bilhetes no valor de muitos contos de réis, contou-os e escondeu tudo em uma gaveta de segredo; depois tomou nos seus livros notas das transações efetuadas naquele dia.
Fora um dia feliz.
Tinha realizado um lucro líquido de 6:000$000. Não havia engano; os algarismos ali estavam para demonstrá-lo: os valores que guardava eram a prova.
Mas essa pobreza, essa miséria que o rodeava, e que revelava uma existência
penosa, falta de todos os cômodos, sujeita a duras necessidades?
Seria um avarento?...
Era um homem arrependido que cumpria a penitência do trabalho, depois de ter
gasto o seu tempo e os seus haveres em loucuras e desvarios. Era um filho da riqueza, que, tendo esbanjado a sua fortuna, comprava, com sacrifício do seu bem-estar, o direito de poder realizar uma promessa sagrada.
Se era avareza, pois, era a avareza sublime da honra e da probidade; era
abnegação nobre do presente para remir a culpa do passado. Haverá moralista, ainda o mais severo, que condene semelhante avareza? Haverá homem de coração, que não admire essa punição imposta pela consciência ao corpo rebelde e aos instintos materiais que arrastam ao vício?
Terminadas as suas notas, esse homem, que acabava de guardar uma soma
avultada, que naquele mesmo dia tinha ganho 6:000$000 líquidos, abriu uma gaveta, tirou quatro moedas de cobre, meteu-as no bolso do colete e dispôs-se a sair.
Aquelas quatro moedas de cobre eram um segredo da expiação corajosa, da
miséria voluntária a que se condenara um moço que sentia a sede do gozo e tinha ao alcance da mão com que satisfazer por um mês, talvez por um ano, todos os caprichos de sua imaginação.
Aquelas quatro moedas de cobre eram o preço do seu jantar; eram a taxa fixa e
invariável da sua segunda refeição diária; eram a esmola que a sua razão atirava ao corpo para satisfação da necessidade indeclinável da alimentação.
Os ricos e mesmo os abastados vão admirar-se, por certo, de que um homem
pudesse jantar no Rio de Janeiro, naquele tempo, com 160rs., ainda quando esse homem fosse um escravo ou um mendigo. Mas eles ignoram talvez, como a senhora, minha prima, a existência dessas tascas negras que se encontram em algumas ruas da cidade, e principalmente nos bairros da Prainha e Misericórdia.
Nojenta caricatura dos hotéis e das antigas estalagens, essas locandas descobriram o meio de preparar e vender comida pelo preço ínfimo que pode pagar a classe baixa.
Quando Carlos chegou ao Rio de Janeiro, uma das coisas de que primeiro tratou
de informar-se, foi do modo de subsistir o mais barato possível. Perguntou ao preto de ganho que conduzira os seus trastes, quanto pagava para jantar. O preto dispendia 80rs. O moço decidiu que não excederia do dobro. Era o mais que lhe permitia a diferença do homem livre ao escravo.
Talvez ache a coragem desse moço inverossímil, minha prima. É possível.
Compreende-se e admira-se o valor do soldado; mas esse heroísmo inglório, esse martírio obscuro, parece exceder as forças do homem.
Mas eu não escrevo um romance, conto-lhe uma história. A verdade dispensa a
verossimilhança.
Acompanhemos Carlos, que desce a escada íngreme do sobrado e ganha a rua
em busca da tasca onde costuma jantar.
Passando diante de uma porta, um mendigo cego dirigiu-lhe essa cantilena
fanhosa que se ouve à noite no saguão e vizinhança dos teatros. O moço examinou o mendigo e, reconhecendo que era realmente cego e incapaz de trabalhar, tirou do bolso uma das moedas de cobre e entrou em uma venda para trocá-la.
O caixeiro da taverna sorriu-se com desdém desse homem que trocava uma
moeda de 40rs., e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão. O pobre, reconhecendo que a esmola era de um vintém, guardou a sua ladainha de agradecimentos para uma caridade mais generosa.
Entretanto o caixeiro ignorava que aquela mão que agora trocava uma moeda de
cobre para dar uma esmola, já atirara loucamente pela janela montões de ouro e de bilhetes do tesouro. O pobre não sabia que essa ridícula quantia que recebia era uma parte do jantar daquele que a dava, e que nesse dia talvez o mendigo tivesse melhor refeição do que o homem a quem pedira a esmola.
O moço recebeu a afronta do caixeiro e a ingratidão do pobre com resignação
evangélica, e continuou o seu caminho. Seguiu por um desses becos escuros que da Rua da Misericórdia se dirigem para as bandas do mar, cortando um dédalo de ruelas e travessas.
No meio desse beco via-se uma casa com uma janela muito larga e uma porta
muito estreita.
A vidraça inferior estava pintada de uma cor que outrora fora branca, e que se
tornara acafelada. A vidraça superior servia de tabuleta. Liam-se em grossas letras, por baixo de um borrão de tinta informe e com pretensões a representar uma ave, estas palavras: "Ao Garnizé".
O moço lançou um olhar à direita e à esquerda sobre os passantes, e, vendo que
ninguém se ocupava com ele, entrou furtivamente na tasca.

Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII e Capítulo XIV
Capítulo XV e Capítulo XVI