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Viagens na Minha Terra
Almeida Garret




Prólogo da 2ª Edição (1846)

Os editores desta obra, vendo a popularidade
extraordinária que ela tinha alcançado quando publicada
em fragmentos na Revista, entenderam fazer um serviço às
letras e à glória do seu país, imprimindo-a agora reunida
em um livro, para melhor se poder avaliar a variedade, a
riqueza e a originalidade de seu estilo inimitável, da
filosofia profunda que encerra e sobretudo o grande e
transcendente pensamento moral a que sempre tende, já
quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, já
quando seriamente discute por suas leviandades e
pequenezas.
As Viagens na Minha Terra são um daqueles livros
raros que só podem ser escritos por alguém, como o autor
de Camões e de Catão, de D. Branca e do Portugal na
Balança da Europa, do Auto de Gil Vicente e do Tratado
de Educação, do Alfageme e de Frei Luiz de Souza, do Arco
de Santana, da História Literária de Portugal, de
Adosinda e das Leituras históricas e de tantas produções
de tão variado gênero, possui todos os estilos e,
dominando uma língua de imenso poder, a costumou a
servir-lhe e obedecer-lhe; por quem com a mesma
facilidade sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas
graves discussões e demonstrações da ciência - voa às
mais altas regiões da lírica, da epopéia e da tragédia,
lida com as fortes paixões do drama, e baixa às não menos
difíceis trivialidades da comédia; por quem ao mesmo
tempo, e como que mudando de natureza, pode dar-se todo
às mais áridas e materiais ponderações da administração e
da política, e redigir com admirável precisão, com uma
exação ideológica que talvez ninguém mais tenha entre
nós, uma lei administrativa ou de instrução pública, uma
constituição política ou um tratado de comércio.
Orador e poeta, historiador e filósofo, crítico e
artista, jurisconsulto e administrador, erudito e homem
de Estado, religioso cultor da sua língua e falando
corretamente as estranhas - educado na pureza clássica da
antigüidade, e versado depois em todos as outras
literaturas - da meia idade, da renascença e
contemporânea - o autor das Viagens na Minha Terra é
igualmente familiar com Homero e com Dante, com Platão e
com Rousseau, com Tucídides e com Thiers, com Guizot e
com Xenofonte, com Horácio e com Lamartine, com Maquiavel
e com Chateaubriand, com Shakespeare e Eurípedes, com
Camões e Calderón, com Goethe e Vírgilio, Schiller e Sá
de Miranda, Sterne e Cervantes, Fénelon e Vieira,
Rabelais e Gil Vicente, Addisson e Bayle, Kant e
Voltaire, Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os
Enciclopedistas e com os Santos Padres, com a Bíblia e
com as tradições sânscritas, com tudo que a arte enfim e
a ciência moderna têm produzido. Vê-se isto dos seus
escritos, e especialmente se vê deste que agora
publicamos apesar de composto bem claramente ao correr da
pena.
Mas ainda assim, e com isto somente, ele não faria o
que faz se não juntasse a tudo isto o profundo
conhecimento dos homens e das coisas, do coração humano e
da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais, um
verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas cortes com
os príncipes, no campo com os homens de guerra, nos
gabinetes com os diplomáticos e homens de Estado, no
parlamento, nos tribunais, nas academias, com todas as
notabilidades de muitos países - e nos salões enfim com
as mulheres e com os frívolos do mundo, com as elegâncias
e com as fatuidades do século.
De tantas obras de tão variado gênero com que, em
sua vida ainda tão curta, este fecundo escritor tem
enriquecido a nossa língua, é esta talvez, tornamos a
dizer, a que ele mais descuidadamente escreveu; mas é
também a que, em nossa opinião, mais mostra os seus
imensos poderes intelectuais, a sua erudição vastíssima,
a sua flexibilidade de estilo espantosa, uma filosofia
transcendente, e por fim de tudo, o natural indulgente e
bom de um coração reto, puro, amigo da justiça, adorador
da verdade, e inimigo declarado de todo o sofisma.
Tem sido acusado de céptico: é a acusação mais
absurda e que só denuncia, em quem a faz, ou grande
ignorância ou grande má fé. Quando o nosso autor lança
mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que ele
maneja com tanta força e destridade, e que talvez por
isso mesmo, cônscio do seu poder, ele raras vezes toma
nas mãos, veja-se que é sempre contra a hipocrisia,
contra os sofismas, e contra os hipócritas e sofistas de
todas as cores, que ele o faz. Crenças, opiniões,
sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias
que tanto ferem, não as dirige nunca sobre indivíduos;
vê-se que despreza a fácil vingança, que, com tão
poderosas armas, podia tomar de inimigos que não o
poupam, de invejosos que o caluniam, e a quem, por cada
dictério insulso e efêmero com que o têm pretendido
injuriar, ele podia condenar ao eterno opróbio de um
pelourinho imortal como as suas obras. Ainda bem que o
não faz! mais imortais são as suas obras, e quanto a nós,
mais punidos ficam os seus êmulos com esse desprezo do
homem superior que se não apercebe de sua malignidade
insulsa e insignificante.
Voltando à acusação de cepticismo, ainda dizemos que
não pode ser céptico o espírito que concebeu e em si
achou cores com que pintar tão vivos caracteres de
crenças tão fortes como a de Catão, de Camões, de Frei
Luís de Souza, e aqui nesta nossa obra, os de Frei Dinis,
de Joaninha, da Irmã Francisca.
Não analisamos agora as Viagens na Minha terra: a
obra não está ainda completa e não podia completar-se
portanto o juízo: dizemos somente o que todos dizem e o
que todos podem julgar já.
A nosso rogo, e por fazer mais digna da sua
reputação esta Segunda publicação da obra, o autor
prestou-se a dirigi-la ele mesmo, corrigiu-a, aditou-a,
alterou-a em muitas partes, e a ilustrou com as notas
mais indispensáveis para a geral inteligência do texto:
de modo que sairá muito melhorada agora do que primeiro
se imprimiu.


CAPÍTULO I

De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar
na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como
resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens.
Parte para Santarém. Chega ao terreiro do Paço, embarca
no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução
Cronológica e a Baixa de Lisboa. Lorde Byron e um bom
charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os Bordas-
d'Água: os da calça larga levam a melhor.

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos
Alpes, (1) de inverno, em Turim, que é quase tão frio como
S. Petersburgo - entende-se. Mas com este clima, com esse
ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e
o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui
escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio,
viajo até a minha janela para ver uma nesguita de Tejo
que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de
árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos
entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas
viagens nem as suas impressões pois tinham muito que ver!
Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer
assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos
que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de
quanto eu pensar e sentir se há de fazer crônica.
Era uma idéia vaga; mais desejo que tenção, que eu
tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse
Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e
monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de
um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por
mexeriquice quis encabeçar em desígnio político
determinado a minha visita. (2).
Pois por isso mesmo vou: pronunciei-me.
São 17 deste mês de julho, ano da graça de 1843, uma
Segunda feira, dia sem nota e de boa estréia. Seis horas
da manhã a dar em S. Paulo, e eu a caminhar para o
Terreiro do Paço. Chego muito a horas, envergonhei os
mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que
todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Já vou
quase no fim da praça quando oiço o rodar grave mas
pressuroso de uma carroça d'ancien régime: é o nosso
chefe e comandante, o capitão da empresa, o Sr. C. da T.
que chega em estado.
Também são chegados os outros companheiros; o sino
dá o último rebate. Partimos.
Numa regata(3) de vapores o nosso barco não ganhava
decerto o prêmio. E se, no andar do progresso, se
chegarem a instituir alguns ístmicos ou olímpicos para
esse gênero de carreiras - e se para elas houver algum
Píndaro ansioso de correr, em estrofes e antiestrofes,
atrás do vencedor que vai coroar de seus hinos imortais -
não cabe nem um triste minguado epodo a este cansado
corredor de Vila Nova. É um barco sério e sisudo que se
não mete nessas andanças.
Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este
majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que
é, vista de fora, a mais bela e grandiosa parte da
cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali,
algumas raras feições se percebem, ou mais exatamente se
adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crônicas. Da
Fundição para baixo tudo é prosaico e burguês, chato,
vulgar e sensabor com um período da Dedução Cronológica,
aqui e ali assoprado numa tentativa ao grandioso do mau
gosto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.
Assim o povo, que tem sempre o melhor gosto e mais
puro que essa escuma descorada que anda ao de cima das
populações, e que se chama a si mesma por excelência a
Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre de Deus
e o Beato e Xabregas e Marvila e as hortas de Chelas. A
um lado a imensa majestade do Tejo em sua maior extensão
e poder, que ali mais parece um pequeno mar mediterrâneo;
do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores,
palácios, mosteiros, sítios consagrados a recordações
grandes ou queridas. Que outra saída tem Lisboa que se
compare em beleza com esta? Tirado Belém, nenhuma. E
ainda assim, Belém é mais árido.
Já saudamos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que
foi de Xira, e depois da restauração, e depois outra vez
de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as
restaurações sempre sucede e há de suceder, em ódio e
execração tal que nem uma pobre vila a quis para
sobrenome.
A questão não era de restaurar nem de não restaurar,
mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é
o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.
É a reflexão com que um dos nossos companheiros de
viagem acudiu ao princípio de ponderação que ia
involuntariamente fazendo a respeito de Vila Franca.
Mas eu não tenho ódio nenhum a Vila Franca, nem a
esse famoso círio que lá foi fazer a monarquia. Era uma
coisa que estava na ordem das coisas, e que por força
havia de suceder. Este necessário e inevitável
reviramento por que vai passando o mundo, há de levar
muito tempo, há de ser contrastado por muita reação antes
de completar-se...
No entretanto, vamos acender os nossos charutos, e
deixe-mos os precintos aristocráticos da ré; à proa, que
é país de cigarro livre.
Não me lembra que Lorde Byron celebrasse nunca o
prazer de fumar a bordo. É notável o esquecimento no
poeta mais embarcadiço, mais marujo que ainda houve, e
que até cantou o enjôo, a mais prosaica e nauseante das
misérias da vida! Pois num dia destes, sentir na face e
nos cabelos a brisa refrigerante que passou por cima da
água enquanto se aspiram molemente as narcóticas
exalações de um bom cigarro de Havana, é uma das poucas
coisas sinceramente boas que há no mundo.
Fumemos!
Aqui está um campino fumando gravemente o seu
cigarro de papel, que me vai emprestar lume.
- Dou-lho eu, senhor... - acode cortesmente outra
figura mui diversa, cujas feições, trajo e modos
singularmente contrastam com os do moçarabe ribatejano.
Acenderam-se os charutos, e atentamos mais devagar
na companhia que estávamos.
Era um efeito notável e interessante o grupo a que
nos tínhamos chegado, e destacava pitorescamente do resto
dos passageiros, mistura híbrida de trajos e feições
descaracterizadas e vulgares - que abunda nos arredores
de uma grande cidade marítima e comercial. Não assim este
grupo mais separado com que fomos topar. Constava ele de
uns doze homens, cinco eram desses famosos atletas da
Alhandra, que vão todos os domingos colher o pulverem
olympicum na praça de Santana, e que, à voz soberana e
irresistível de: unha, à unha, à cernelha!... correm a
arcar com mais generosos , não mais possantes, animais
que eles, ao som das imensas palmas, e a troco dos raros
pintos por que se manifesta o sempre clamoroso e sempre
vazio entusiasmo das multidões. Voltavam à sua terra os
meus cinco lutadores ainda em trajo de praça, ainda
esmurrados e cheios de glória da contenda da véspera. Mas
ao pé destes cinco e de altercação com eles - já direi
por quê - estavam seis ou sete homens que em tudo
pareciam seus antípodas.
Em vez do calção amarelo e da jaqueta de ramagens
que caracterizavam o homem do forcado, estes vestiam o
amplo saiote grego dos varinos, e o tabardo arrequifado
siciliano de pano de varas. O campino, assim como o
saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da
família pelasga: feições regulares e móveis, a forma
ágil.
Ora os homens do Norte estavam disputando com os
homens do Sul: a questão fora interrompida com a nossa
chegada à proa do barco. Mas um dos ílhavos - bela e
poética figura de homem - voltando-se para nós, disse
naquele seu tom acentuado.
- Ora aqui está quem há de decidir: vejam os
senhores. Eles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais
que ninguém, que não há quem lhes chegue. E os senhores,
a serem cá de Lisboa, hão de dizer que sim. Mas nós...
- Nenhum de nós é de Lisboa: só este senhor que aqui
vem agora.
Era o C. da T. que chegava.
- Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um
homem de forcado, assim que o viu). Isto é um fidalgo
como se quer. Nunca o vi numa ferra, isso é verdade; mas
aqui de Valada a Almerim ninguém corre mais do que ele
por sol e chuva, e há de saber o que é um boi de lei, e o
que é lidar com gado.
- Pois oiçamos lá a questão.
- Não é questão - tornou o ílhavo - mas se este
senhor fidalgo anda por Almeirim, para Almeirim vamos
nós, que era uma charneca outro dia, e hoje é um jardim,
benza-o Deus! mas não foram os campinos que o fizeram,
foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que
é, e fez terra das areias da charneca.
- Lá isso é verdade.
- Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar
trigo aos nateiros do Tejo, que é como quem semeia em
manteiga. É uma lavoura que a faz Deus por sua mão, regar
e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não fazem eles,
que nem sabem ter mão nesses mouchões com o plantio das
árvores: só lá por cima é que algumas têm metido, e é bem
pouco para o rio que é, e as ricas terras que lhes levam
as enchentes. Mas nos , pé no barco, pé na terra, tão
depressa estamos a sachar o milho na charneca, como vimos
por aí abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar na
areia por não haver água... mas sempre labutando pela
vida...
- A força é que se fala - tornou o campino para
estabelecer a questão em terreno que lhe convinha. - A
força é que se fala: um homem do campo que se deita ali à
cernelha de um toiro que uma companhia inteira de varinos
lhe não pegava, com perdão dos senhores, pelo rabo!...
E reforçou o argumento com uma gargalhada
triunfante. que achou eco nos interessados circunstantes
que já se tinham apinhado a ouvir os debates.
Os ílhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a
consciência de sua superioridade, mas acanhados pela
algazarra.
Parecia a esquerda de um parlamento quando vê sumir-
se no burburinho acintoso das turbas ministeriais, as
melhores frases e as mais fortes razões dos seus
oradores.
Mas o orador ílhavo não era homem de se dar assim
por derrotado. Olhou para os seus, como quem os
consultava e animava, com um gesto expressivo, e
voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus
antagonistas:
- Então agora como é e força, quero eu saber, e
estes senhores que digam, qual é que tem mais força, se é
um toiro ou se é o mar.
- Essa agora!...
- Queríamos saber.
- É o mar.
- Pois nós que brigamos com o mar, oito a dez dias a
fio numa tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam
uma tarde com um toiro, qual é o que tem mais força?
Os campinos ficaram cabisbaixos; o público imparcial
aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do
Tejo.


CAPÍTULO II

Declaram-se típicas, simbólicas e míticas estas viagens.
Faz o A. modestamente o seu próprio elogio. Da marcha da
civilização: e mostra-se como ela é dirigida pelo
cavaleiro da Mancha, D. Quixote, e por seu escudeiro
Sancho Pança. - Chegada à Vila Nova da Rainha. Suplício
de Tântalo. - A virtude galardão de si mesma e sofisma
de Jeremias Bentham. - Azambuja.

Essas minhas interessantes viagens hão de ser uma
obra prima, erudita. brilhante, de pensamentos novos, uma
coisa digna do século. Preciso de do dizer ao leitor,
para que ele esteja prevenido; não cuide que são
quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título
de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as
imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do
adiantamento da espécie.
Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo... é um
mito, palavra grega, e de moda germânica, que se mete
hoje em tudo e com que se explica tudo... quanto se não
sabe explicar.
É um mito porque - porque... Já agora rasgo o véu, e
declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda idéia
que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma
viagenzinha que parece feita a brincar, e no fim de
contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro
novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos
boulevards de Paris.
Houve aqui há anos um profundo e cavo filósofo de
além Reno, que escreveu uma obra sobre a marcha da
civilização, do intelecto - o que diríamos, para nos
entenderem todos melhor, o Progresso. Descobriu ele que
há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha
sem atender à parte material e terrena desta vida, com os
olhos fitos em suas grandes e abstratas teorias, hirto,
seco, duro, inflexível, e que pode bem personalizar-se,
simbolizar-se pelo famoso mito do cavaleiro da mancha, D.
Quixote; - o materialista, que, sem fazer caso nem
cabedal dessas teorias, em que não crê, e cujas
impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem
representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso
amigo velho, Sancho Pança.
Mas, como na história do malicioso Cervantes, estes
dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam
contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais
adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se
poucas, mas progredindo sempre.
E aqui está o que é possível ao progresso humano.
E eis aqui a crônica do passado, a história do
presente, o programa do futuro.
Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina
el-rei Sancho.
Depois há de vir D. Quixote.
O senso comum virá para o milênio, reinado dos
filhos de Deus! Está prometido nas divinas promessas -
como el-rei de Prússia prometeu uma constituição; e não
faltou ainda, porque, porque o contrato não tem dia;
prometeu, mas não disse quando.
Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada
a marcha do nosso progresso social: espero que o leitor
entendesse agora. Tomarei cuidado de lho lembrar de vez
em quando, porque receio muito que se esqueça.
Somos chegados ao triste desembarcadouro de Vila
Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial
em que ainda pousei os meus pés. O sol arde como ainda
não ardeu este ano.
Um imenso arraial de caleças, de machinhos, de
burros e arrieiros, nos espera naquele descampado
africano. É forçoso optar entre os dois martírios da
caleça, ou do macho. Do mal o menos... seja este.
E acolá, oh, suplício de Tântalo! vejo duas
possantes e nédias mulas castelhanas jungidas a um
veículo que, nestas paragens aos pé daqueloutros, me
parece mais esplêndido do que um landau de Hyde Park,
mais elegante do que um caleche de Longchamps, mais
cômodo e elástico do que o mais aéreo brislta da Princesa
Helena. E contudo - oh mágico poder das soituações! - ele
não é senão uma substancial e bem apessoada traquitana de
cortinas.
Togados manes dos antigos desembargadores, veneran-
das cabeleiras de anéis e castanhola, que direis,
ó respeitadas sombras, se desse limbo onde estais
esperando pela ressurreição do Pegas... e do Livro Quinto
- vedes este degenerado e espúrio sucessor vosso, em
calças largas, fraque verde, chapéu branco, gravata de
cor, chicotinho de cautchu na mão, pronto a cavalgar em
mulinha de Palito Métrico como um garraio estudantinho do
segundo ano, e deitando os olhos invejosos para esse
natural próprio e adscritício modo de condução
desembargatória? Oh que direi vós! Com que justo desprezo
não olharei para tanta degradação e derrogação!
Eu comungava silenciosamente comigo nestas graves
meditações, e revolvia incertamente no ânimo a ponderosa
dúvida: se o administrar justiça direita aos povos valia
a pena de andar um desembargador a pé!... Lutava no meu
ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do
espírito - quando a Providência, que nos maiores apertos
e tentações não nos abandona nunca, me trouxe a generosa
oferta de um amigo e companheiro do vapor, o Sr. L.S.:
era a sua invejada carroça, e nela me deu lugar até a
Azambuja.
A virtude é o galardão de si mesma, disse um
filósofo antigo; e eu não creio no famoso dito de
Bentham, que sabedoria antiga seja um sofisma. O mais
moderno é o mais velho, não há dúvida; mas o antigo que
dura ainda, é porque tem achado na experiência a
confirmação que o moderno não tem. Jeremias Bentham
também fazia o seu sofisma como qualquer outro.
Vamos percorrendo lentamente aquele mal composto
marachão, que poucos palmos se eleva do nível baixo e
salgadiço do solo; de inverno não se passará sem perigo;
ainda agora se não anda sem incômodo e receio. Estamos em
Vila Nova e às portas do nojento caravançal, único asilo
do viajante nesta, hoje, a mais freqüentada das estradas
do reino.
Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado
e em ruínas, este asqueroso lugarejo, desde que ali ao pé
tem a estação dos vapores, que são a comodidade, a vida,
a alma do Ribatejo. Imagino que uma aldeia de alarves nas
faldas do Atlas deve ser mais limpa e cômoda.
Oh! Sancho, Sancho, nem sequer tu reinarás entre
nós! Caiu o carunchoso trono de teu predecessor,
antagonista, e às vezes amo; açoitaram-te essas nádegas
para desencantar a formosa del Toboso, proclamaram-te
depois rei em Barataria, e nesta tua província lusitana
nem o paternal governo de teu estúpido materialismo pode
estabelecer-se para cômodo e salvação do corpo, já que a
alma... oh! a alma...
Falemos noutra coisa.
Fujamos depressa deste monturo. É monótona, árida e
sem frescura de árvores e estradas: apenas alguma rara
oliveira mal medrada, a longos e desiguais espaços,
mostra o seu tronco raquítico e braços contorcidos,
ornados de ramúsculos doentes, em que o natural verde-
alvo das folhas é mais alvacento e desbotado que o
costume. O solo, porém, com raras exceções, é ótimo e, a
troco de pouco trabalho e insignificante despesa, daria
uma estrada tão boa como as melhores da Europa.
Dizia um secretário de Estado, meu amigo, que, para
se repartir com igualdade o melhoramento de ruas por toda
a Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de
rua e bairro todos os três meses. Quando se fizer a lei
de responsabilidade ministerial, para as calendas gregas,
eu hei de propor que cada ministro seja obrigado a viajar
por este seu reino de Portugal ao menos uma vez cada ano,
como a desobriga.
Aí está a Azambuja, pequena mas não triste povoação,
com visíveis sinais de vida, asseadas e com ar de
conforto as suas casas. É a primeira povoação que dá
indício de estarmos nas férteis margens do Nilo
português.
Corremos a apear-nos no elegante estabelecimento que
ao mesmo tempo cumula as três distintas funções, de
hotel, de restaurant e de café da terra.
Santo Deus! que bruxa está à porta! Que antro lá
dentro! Cai-me a pena da mão.
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX
Capítulo X e Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII e Capítulo XXIII
Capítulo XXIV e Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo XXXII à Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV e Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII e Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX à Capítulo XLI
Capítulo XLII e Capítulo XLIII
Capítulo XLIV e Capítulo XLV
Capítulo XLVI e Capítulo XLVII
Capítulo XLVIII e Capítulo XLIX