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Viagens na Minha Terra
Almeida Garret




CAPÍTULO VI

Prova-se como o velho Camões não teve outro remédio senão
misturar o maravilhoso da mitologia com o do
Cristianismo. - Dá-se razão, e tira-se depois ao Padre
José Agostinho. - No meio destas dissertações acadêmico-
literárias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso
Ter f[é neste mundo. Diz-se neste mundo, porque, quanto
ao outro já era sabido. - Os Lusiadas, o Fausto e a
Divina Comédia - Desgraça do Camões em ter nascido antes
do Romantismo. - Mostra-se como a Estige e o Cocito
sempre são melhores sítios que o Inferno e o Purgatório.
- Vai o A. em procura do Marquês de Pombal, e dá com ele
nas ilhas Beatas do poeta Alceu. - Partida de uíste entre
os ilustres finados. - Compaixão do Marquês pelos pobres
homens de Ricardo Smith e J.B. Say. - Resposta dele e da
sua luneta às perguntas peralvilhas do A. - Chegada a
este mundo e ao Cartaxo.

O mais notável, e não sei se diga, se continuarei ao
menos dizer, o mais indesculpável defeito que até aqui
esgravataram os críticos e zoilos na Ilíada dos povos
modernos, os imortais Lusíadas, é sem dúvida a
heterogênea e heterodoxa mistura de teologia com a
mitologia, do maravilhoso alegórico do paganismo, com os
graves símbolos do Cristianismo. A falar a verdade, e por
mais figas que a gente queira fazer ao Padre José
Agostinho - ainda assim! ver o Padre Baco revestido in
pontificalibus diante de um retábulo, não me lembra de
que santo, dizendo o seu dominus vobuscum provavelmente a
algum acólito bacante ou coribante, que lhe responde o et
cum spiritu tuo!... não se pode; é um que realmente... E
então aquele famoso conceito com que ele acaba, digno da
Fênix Renascida:
O falso Deus adora o verdadeiro!
Desde que entendo, que leio, que admiro Os Lusíadas,
enterneço-me, choro, ensoberbeço-me com a maior obra de
engenho que apareceu no mundo, desde a Divina Comédia até
ao Fausto.
O italiano tinha em fé em Deus, o alemão no
cepticismo, o português na sua pátria. É preciso crer em
alguma coisa para ser grande - não só poeta - grande seja
no que for. Uma Brízida velha que eu tive quando era
pequeno, era famosa cronista de histórias da carochinha,
porque sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua
estrela, Lafayette creu na república-rei de Luís Fillipe;
e para que ousemos também celebrare doméstica facta,
todos os nossos grandes homens ainda hoje crêem, um na
Junta do Crédito, outro nas classes inativas, outro no
mestre Adonirão, outro finalmente na beleza e na
realidade do sistema constitucional que felizmente nos
rege.
Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes
com elas. A um pobre homem o que lhe fica para crer? Eu,
apesar dos críticos ainda creio no nosso Camões; sempre
cri.
E contudo, desde a idade da inocência em que tanto
me divertiam aquelas batalhas, aquelas aventuras, aquelas
histórias de amores, aquelas cenas todas, tão naturais,
tão bem pintadas - até esta fatal idade da experiência,
idade prosaica em que as mais belas criações do espírito
parecem macaquices diante das realidades do mundo, e os
nobres movimentos do coração quimeras de entusiastas, até
esta idade de saudades do passado e esperanças no futuro,
mas sem gozos no presente, em que o amor da pátria
(também isto será fantasmagoria?) e o sentimento íntimo
do belo me dão na leitura dos Lusíadas outro deleite
diverso mas não inferior ao que noutro tempo me deram -
eu senti sempre aquele grande defeito do nosso grande
poema; e nunca pude, por mais que buscasse, achar-lhe,
justificação não digo - nem sequer desculpa.
Mas até morrer aprender, diz o adágio: e assim é. E
também é aforismo de moral, aplicável outrossim a coisas
literárias: que para a gente achar a desculpa aos
defeitos alheios, é considerar - é pôr-se uma pessoa nas
mesmas circunstâncias, ver-se envolvido nas mesmas
dificuldades.
Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre
Camões, com vontade de o justificar, e pronto (assim são
as caridades deste mundo) a sair a campo de lança em
riste e a quebrá-la com todo antagonista que por aquele
fraco o atacar. E por que será isto? Porque chegou a
minha hora; e, si parva licet componere magnis ( a bossa
proeminente hoje é a latina), aqui me acho com este meu
capítulo nas mesmas dificuldades em que o nosso bardo se
viu com o seu poema.
Já preveni as observações com o texto acima: bem sei
quem era Camões e quem sou eu; mas trata-se da entalação,
que é a mesma apesar da diferença dos entalados. o Autor
dos Lusíadas viu-se entalado entre as crenças dos seu
país e as brilhantes tradições da poesia clássica que
tinha por mestra e modelo.
Não havia então românticos nem romantismo, o século
estava muito atrasado. As odes de Vítor Hugo não tinham
ainda desbancado as de Horácio; achavam-se mais líricos e
mais poéticos os esconjuros de Canídia do que os
pesadelos de um enforcado no oratório; chorava-se com as
Tristes de Ovídio, porque se não lagrimejava com as
Meditações de Lamartine. Andrômaca despedindo-se de
Heitor às portas de Tróia, Príamo suplicante aos pés do
matador de seu filho, Helena lutando entre o remorso do
seu crime e o amor de Páris, não tinham sido ainda
eclipsados pelas declamações da mãe Eva às grades do
paraíso terreal. O combate de Aquiles e Heitor, das
hostes argivas com as troianas, não tinha sido metido num
chinelo pelas batalhas campais dos anjos bons e anjos
maus à metralhada por essas nuvens. Dido chorando por
Enéias não tinha sido reduzida a donzela choramingas de
Alfama carpindo pelo seu Manel que vai para a Índia.
Realmente o século estava muito atrasado: Milton não
se tinha ainda sentado no lugar de Homero, Shakespeare no
de Eurípedes, e Lorde Byron acima de todos; enfim não
estava ainda anglizado o mundo, portanto a marcha do
intelecto no mesmo terreno, é tudo uma ,séria.
Ora pois o nosso Camões, criador da epopéia, e -
depois de Dante - da poesia moderna, viu-se atrapalhado;
misturou a sua crença religiosa com o seu credo poético e
fez, tranchons le mot, uma sensaboria.
E aqui direi eu com o vate Elmano:
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo

Vou fazer outra sensaboria, eu, neste belo capítulo
da minha obra prima. Que remédio! Preciso falar com um
ilustre finado, preciso de evocar a sombra de um grande
gênio que hoje habita com os mortos. E aonde irei eu? Ao
inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse dele na
hora dos últimos arrependimentos. Ao purgatório, ao
empíreo? Apesar do exemplo da Divina Comédia, não me
atrevo a fazer comédias com tais lugares de cena, - e não
sei, não gosto de brincar com essas coisas.
Não lhe vejo remédio senão recorrer ao bem parado
dos Elísios, da Estige, do Cocito e seu termo: são
terrenos neutros em que se pode parlamentar com os mortos
sem comprometimento sério e...
Eis-me aí no erro de Camões - e nas unhas dos
críticos: e as zagunchadas a ferver em cima de mim, que
fiz, que aconteci...
Mas, senhores, ponderem, venham cá: o que há de um
homem fazer? O Dante não sei que gíria teve que batizou
Públio Vírgilio Marão para lhe servir de cicerone nas
regiões do inferno, do paraíso e do purgatório cristão, e
teve tão boa fortuna que nem o queimou a Inquisição, nem
o descompôs a Crusca, nem sequer o mutilaram os censores,
nem o perseguiram delegados por abuso de liberdade de
imprensa, nem o mandaram para os dignos pares... Não se
tinham ainda descoberto as mangações liberais que se usam
hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade ganha
e sustentada à ponta de espada, com muito coração e
poucas palavras, muito patriotismo, poucas lei... e menos
relatórios. Não havia em Florença nem gazeta para louvar
as tolices dos ministros, nem ministros para pagar as
tolices da gazeta.
O Dante foi proscrito e exilado, mas não se ficou a
escrever, deu catanada que se regalou nos inimigos da
liberdade da sua pátria.
Quem dera cá um batalhão de poetas como aquele!
Que fosse porém um triste vate de hoje escrever no
século das luzes o que escrevia Dante no século das
trevas! Os próprios filósofos gritavam: Que escândalo!
Ateus professos clamavam contra a irreverência; gentes
que não têm religião, nem a de Mafona, bradavam pela
religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos
outros, caiam depois todos sobre o poeta, e, se o não
pudessem enforcar, pelo menos declaravam-no republicano,
que dizem eles que é uma injúria muito grande.
Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso
mistifório; é a mais cômoda invenção deste mundo; vou-me
com ela, e ralhe a crítica quanto quiser.
Quero procurar no reino as sombras não menor pessoa
que o Marques de Pombal; tenho e lhe fazer uma pergunta
séria antes chegar ao Cartaxo. E nós já vamos por entre
as ricas vinhas que o circundam como uma zona de verdura
e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
pensamento as portas fatais, - depressa a untuosa
sopetarra com que hei de atirar às três gargantas do
canzarrão. Vamos...
Mas em que distrito daquelas regiões acharei eu o
primeiro-ministro de el-rei D. José? Por onde está Ixião
e Tântalo, por onde demora Sísifo e outros manganões que
tais? Não, esse é um bairro muito triste, e arrisca-se a
Ter por administrador algum escandecido que me atice as
orelhas.
Nos Elísios com o pai Anquises e outros barbaças
clássicos do mesmo jaez? Eu sei? também isso não. Há de
ser naquelas ilhas bem aventuradas de que fala o poeta
Alceu e onde ele pôs a passear, por eternas verduras, as
almas tiranicidas de Harmódio e Aristogíton...
Oh! esta agora!... Sebastião José de Carvalho e
Melo, Conde de Oeiras, Marquês de Pombal, de companhia
com seus inimigos políticos!... Aí é que se enganam; não
há amigos nem inimigos políticos em se largando o mando
e as pretensões a ele. Ora, passado os umbrais da
eternidade, é de fé que se não pensa mais nisso; C.J. X
1, que morreu a assinar uma portaria, já tinha largado a
pena quando chegou ali pelos Prazeres;(9) quanto mais !...
O homem há de estar nas ilhas beatas. Vamos lá...
E ei-lo ali; lá está o bom do marquês a jogar o
uíste com o Barão de Bidefeld, com o Imperador Leopoldo e
com o poeta Dinis. A partida deve ser interessante,
talvez aposte essa gente toda - esses manes todos que
estão à roda; Que cara fez o marquês a uma finadinho que
lhe foi meter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O
intrometido de M. de Talleyrand. Estava-lhe caindo. Mas
não viu nada: o nobre Marquês sempre soube esconder o seu
jogo.
A mim é que ele já me viu.
- Que diz? Ah! ... sim senhor, sou português; e
venho fazer uma pergunta a V.Ex.ª, esclarecer-me sobre um
ponto importante.
Deitou-me a tremenda luneta.
- Para que mandou V.Ex.ª arrancar as vinhas do
Ribatejo?
Apertou a luneta no sobrolho e sorriu-se.
- Elas aí estão centuplicadas, que até já invadiram
o pinhal da Azambuja. Fez V.Ex.ª um despotismo inútil, e
agora...
- Agora quem bebe por lá todo esse vinho?
Não sabia o que havia de responder. Ele sacudiu a
cabeleira de anéis, virou-me as costas, deu o braço a
Colbert, passou por pé de Ricardo Smith e de J. Batista
Say, que estavam a disputar, encolheu os ombros em ar de
compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia
por aqueles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da
nossa vista.
Eu surdi cá neste mundo, e achei-me em cima da
azêmola, ao pé do grande café do Cartaxo.


CAPÍTULO VII

Reflexões importantes sobre o Bois de Boulogne, as
carruagens de molas, Tortoni, e o café do Cartaxo. - Dos
cafés em geral, e de como são característicos da
civilização de um país. - O Alfageme. - Hecatombe imolada
pelo A. - História do Cartaxo. - Demonstra-se como a Grã-
Bretanha deveu sempre a sua força e toda a sua gl[ória a
Portugal. - Shakespeare e Laffite, Milton e Châteaux-
Margaux, Nelson e o Príncipe de Joinville. - Prova-se
evidentemente que M. Guizot é a ruína de Albion e do
Cartaxo.

Voltar à meia noite do Bois de Boulogne - o bosque
por excelência , - descer, entre as nuvens de poeira, o
longo estádio dos Campos Elísios , entrever, na rápida
carreira, o obelisco de Lúxor, as árvores das Tulherias,
a coluna da praça Vandome, a magnificência heteróclita da
Madalena, e enfim sentir parar, de uma sofreada
magistral, os dois possantes ingleses que nos trouxeram
quase de um fôlego até ao bulevar de Gand; aí entreabrir
molemente os olhos, levantando meio corpo dos regalados
coxins de seda, e dizer: Ah! estamos em Tortoni... que
delícia um sorvete com este calor! - é seguramente, é dos
prazeres maiores desse mundo, sente-se a gente viver; é
meia hora de existência que vale dez anos de ser rei em
qualquer outra parte do mundo.
Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma
coisa dos sabores e dissabores deste mundo, fie-se na
minha palavra, que é de homem experimentado: o prazer de
chegar por aquele modo a Tortoni, o apear da elegante
caleche balançada nas mais suaves molas que fabricasse
arte inglesa do puro aço de Suécia, não alcança, não se
compara ao prazer e consolação da alma e corpo que eu
senti ao apear-me da minha choiteira mula à porta do
grande café do Cartaxo.
Fazem idéia do que é o café do Cartaxo? Não fazem.
Se não viajam, não saem, se não vêem mundo esta gente de
Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a rua do Oiro
e o teatro de S. Carlos, como hão de alargar a esfera de
seus conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à
altura do século?
Coroai-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer
sonetos à dama nova, ide que não prestais para nada, meus
queridos lisboetas; ou discuti os deslavados horrores de
algum melodrama velho que fugiu assobiado da Porte Saint-
Martin e veio esconder-se na rua dos Condes. Também
podeis ir aos Toiros - estão embolados, não há perigo...
Viajar?... qual viajar! até a Cova da Piedade,
quando muito, em dia que lá haja cavalinhos. Pois
ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as
praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas
as ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do
Marrare.
Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.
O café é uma das feições mais características de uma
terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer
parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o, e
tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas
leis, os seus costumes, a sua religião.
Levem-me de olhos tapados onde quiserem, não me
desvendem senão no café; e protesto-lhes que em menos de
dez minutos lhes digo a terra em que estou se for país
sublunar.
Nós entramos no café do Cartaxo, o grande café do
Cartaxo, e nunca se encruzou turco em divã de seda do
mais esplêndido café de Constantinopla, com tanto gozo de
alma e satisfação de corpo, como nós nos sentamos nas
duras e ásperas tábuas das esguias banquetas mal
sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento
bordalengo.
Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade
clássica: será um paralelogramo pouco maior que a minha
alcova; à esquerda duas mesas de pinho, à direita o
mostrador envidraçado onde campeiam as garrafas obrigadas
de licor de amêndoa, de canela, de cravo. Pendem do teto
laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os
pingentes de papel, convidando a lascivo repouso a
inquieta raça das moscas. Reina uma frescura admirável
naquele recinto.
Sentamo-nos, respiramos largo, e entramos em
conversa com o dono da casa, homem de trinta a quarenta
anos, de fisionomia esperta e simpática, e sem nada de
repugnante vilão ruim que é tão usual de encontrar por
semelhantes lugares da nossa terra.
- Então que novidades há por cá pelo Cartaxo,
patrão?
- Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de
Lisboa. Aí está a Revolução de ontem...
- Jornais, meu caro amigo! Vimos fartos disso.
Diga-nos alguma coisa da terra. Que faz por cá o ...
- O mestre J.P., o Alfageme?
- Como assim o Alfageme?
- Chama-lhe o Alfageme ao mestre J.P.; pois então!
Uns senhores de Lisboa que aí estiveram em casa do Sr. D.
puseram-lhe esse nome, que a gente bem sabe o que é; e
ficou-lhe, que agora já ninguém lhe chama senão o
Alfageme. Mas, quanto a mim, ou ele não é Alfageme, ou
não o há de ser por muito tempo. Não é aquele não. Eu bem
me entendo.
A conversação tornava-se interessante, especialmente
para mim: quisemos aprofundar o caso.
- Muito me conta, Sr. Patrão! Com que isto de ser
Alfageme, parece-lhe que é coisa de...
- Parece-me o que é, e o que há de parecer a todo
mundo. E algumas coisas sabemos cá no Cartaxo, do que vai
por ele. O verdadeiro Alfageme diz que era um espadeiro
ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na Ribeira de
Santarém; e o que foi um homem capaz, que punia pelo
povo, e que não queria saber de partidos, (10) e que dizia
ele: "Rei que nos enforque, e papa que nos excomungue,
nunca há de faltar. Assim, deixar os outros brigar,
trabalhemos nós e ganhemos nossa vida". Mas que
estrangeiros que não queria, que esta terra que era nossa
e com a nossa gente se devia governar. E mais coisas
assim: e que por fim o deram por traidor e lhe tiraram
quanto tinha. Mas que lhe valeu o Condestável e o não
deixou arrasar, por era homem de bem e fidalgo às
direitas. Pois não é assim que foi?
- É assim, meu amigo. Mas então daí?
- Então daí o que se tira é que quando havia
fidalgos como o Santo Condestável também havia Alfagemes
como o de Santarém. E mais nada.
- Perfeitamente. Mas por chamaram ao mestre P. o
Alfageme de Cartaxo?
- Eu lhes digo aos senhores: o homem nem era assim,
nem era assado. Falava bem, tinha sua lábia com o povo.
Daí fez-se juiz, pôs por aí suas coisas a direito. - Deus
sabe as que ele entortou também!... ganhou nome no povo,
e agora faz dele o que quer. Se lhe der sempre para bem,
bom será. Os senhores não tomam nada?
O bom do homem visivelmente não queria falar mais: e
não devíamos importuná-lo. Fizemos o sacrifício do bom
número de limões que esprememos em profundas taças -
vulgo, copos de canada - e com água de açúcar, oferecemos
as devidas libações ao gênio do lugar.
Infelizmente o sacrifício não foi de todo incruento.
Muitas hecatombes de mirmidões caíram no holocausto, e
lhe deram um cheiro e sabor que não sei se agradou à
divindade, mas que enjoou terrivelmente aos sacerdotes.
Saímos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a
honra e alegria do Ribatejo. Já ele sabia da nossa
chegada, e vinha no caminho para nos abraçar.
Fomos dar, juntos, uma volta pela terra.
É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo,
asseada, alegre; parece o bairro suburbano de uma cidade.
Não há aqui monumentos, não há aqui história antiga;
a terra é nova, e a sua prosperidade e crescimento datam
de trinta ou quarenta anos, desde que seu vinho começou a
ter fama. Já descaída do que foi pela estagnação daquele
comércio, ainda é contudo a melhor coisa da Borda d'Água.
Não tem história antiga, disse; mas tem-na moderna e
importantíssima.
Que memórias aqui não ficaram da guerra peninsular!
Que espantosas borracheiras aqui não tomaram os mais
famosos generais, os mais distintos militares da nossa
antiga e fiel aliada, que ainda então, ao menos, nos
bebia o vinho!
Hoje nem isso!... hoje bebe a jacobina zurrapa de
Bordéus e as acerbas limonadas de Borgonha. Quem tal
diria da conservativa Albion! Como pode uma leal goela
britânica, rascada pelos ácidos anárquicos daquelas
vinagretas francesas, entoar devidamente o God Save the
King em um toast nacional! Como, sem Porto ou Madeira,
sem Lisboa, sem Cartaxo, ousa um súdito britânico erguer
a voz, naquela harmoniosa desafinação insular que lhe é
própria e que faz parte do seu respeitável caráter
nacional - faz; não se riam: o inglês não canta senão
quando bebe... aliás quando está BEBIDO. Nisi potus ad
arma ruisse. Inverta: Nisi potus in cantum prorumpisse...
E pois, como há de ele assim bebido erguer a voz naquele
sublime e tremendo hino popular Rule Britannia!.
Bebei, bebei bem zurrapa francesa, meus amigos
ingleses; bebei, bebei a peso de oiro, essas limonadas
dos burgraves e margraves de Alemanha; chamai-lhe, para
vos iludir, chamai-lhe hoc, chamai-lhe hic, chamai-lhe o
hic haec hoc todo, se vos dá gosto... que em poucos anos
veremos o estado de acetato a que há de ficar reduzido o
vosso caráter nacional.
Ó gente cega a quem Deus quer perder! Pois não vedes
que não sois nada sem nós, que sem o nosso álcool, donde
vos vinha espírito, ciência, valor, ides cair
infalivelmente na antiga e preguiçosa rudeza saxônia!
Dessas traidoras praias de França donde vos vai hoje
o veneno corrosivo da vossa índole e da vossa força, não
tardará que também vos chegue outro Guilherme bastardo
que vos conquiste e vos castigue, que vos faça
arrepender, mais tarde, do criminoso erro que hoje
cometeis, ó insulares sem fé, em abandonar a nossa
aliança. A nossa aliança, sim, a nossa poderosa aliança,
sem a qual não sois nada.
O que é um inglês sem Porto ou Madeira... sem
Carcavelos ou Cartaxo?
Que se inspirasse Shakespeare com Laffitte, Milton
com Château-Margaux - o chanceler Bacon que se diluísse
no melhor Borgonha... e veríamos os acídulos versinhos,
os destemperados raciocininhos que faziam. Com todas as
suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber
Johannisberg: Byron anates beberia gim, antes água do
Tâmisa, ou do Pamiso, do que essas escorreduras das áreas
de Bordéus.
Tirai-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguém
mais teme que torneis a ter outro Nelson. Entra nos
planos do Príncipe de Joinville fazer-vos beber da sua
zurrapa; são tantos pontos de partido que lhe dais no seu
jogo.
É M. Guizot quem perde a Inglaterra com sua aliança;
e também perde o Cartaxo. Por isso eu já não quero nada
com os doutrinários.
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Há doze anos tornou o Cartaxo a figuras
conspicuamente na história de Portugal. Aqui, nas longas
e terríveis lutas da última guerra de sucessão, esteve
muito tempo o quartel general do Marquês de Saldanha.
Alguns ditirambos se fizeram; alguns ecos das
antigas canções báquicas do tempo da guerra peninsular
ainda acordaram ao som dos hinos constitucionais.
Mas o sistema liberal, tirada a época das eleições,
não é grande coisa para a indústria vinhateira, dizem. Eu
não o creio, porém, e tenho minhas boas razões, que ficam
para outra vez.
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX
Capítulo X e Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII e Capítulo XXIII
Capítulo XXIV e Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo XXXII à Capítulo XXXIV
Capítulo XXXV e Capítulo XXXVI
Capítulo XXXVII e Capítulo XXXVIII
Capítulo XXXIX à Capítulo XLI
Capítulo XLII e Capítulo XLIII
Capítulo XLIV e Capítulo XLV
Capítulo XLVI e Capítulo XLVII
Capítulo XLVIII e Capítulo XLIX