Ubirajara
José de Alencar
A HOSPITALIDADE
Na entrada
do vale ergue-se a grande taba dos tocantins. É a hora em
que as sombras abraçam os troncos das árvores e o
sol descansa em meio da carreira.
A floresta
emudece e todos os viventes se abrigam da calma que abrasa.
Ubirajara deixa
o escuro da mata e caminha para a grande taba dos tocantins.
Quando chegou
à distância do tiro de uma flecha despedida pelo mais
robusto guerreiro, tocou a inúbia.
O guerreiro
de vigia respondeu; e o chefe araguaia, quebrando a seta, alçou
a mão direita para mostrar a senha da paz.
Então
avançou para a taba; na entrada da caiçara que cercava
o campo dos tocantins, atirou ao chão a seta partida.
Os guerreiros
que tinham acudido ao som da inúbia, deixaram passar o estrangeiro
sem inquirir donde vinha, nem o que trouxera.
Era este o
costume herdado de seus maiores; que o hóspede (41) mandava
na taba aonde Tupã o conduzia.
Ubirajara passou
entre os guerreiros e dirigiu-se à cabana mais alta que ficava
no centro da ocara.
A figura do
tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, dizia
que era ali a cabana do grande chefe. Mas Ubirajara já o
sabia; pois antes de penetrar na taba, subira à grimpa do
mais alto cedro da floresta para conhecer o sítio once habitava
Araci, a estrela do dia.
A cabana estava
deserta naquele instante, mas ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam
no terreiro.
Ubirajara transpôs
o limiar e, levantando a voz, disse
- O estrangeiro
chegou.
Acudiram as
mulheres e conduziram Ubirajara à presença do grande
chefe dos tocantins.
Itaquê
passava as horas da ardente calma à sombra da frondosa gameleira,
que podia abrigar cem guerreiros embaixo de sua rama.
Repousando
dos combates, o formidável guerreiro não desdenhava
as artes da paz (42) em que era tão consumado como nas batalhas.
Assim honrava
as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho à família
de que era pai, e à nação de que era chefe.
Nesse momento
as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas,
urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em
forma de pente. Itaquê manejava a lançadeira (43),
tão destro como na peleja vibrava o tacape. Sua mão
ligeira tramava a teia de uma rede, que entretecia das penes douradas
do galo-da-serra.
Quando chegou
Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter rematado
a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá
que estava a seu lado, e veio ao encontro do hóspede.
- O estrangeiro
veio à cabana de Itaquê, grande chefe da nação
tocantim; disse Ubirajara.
- Bem-vindo
é o estrangeiro à cabana de Itaquê, grande chefe
da nação tocantim.
Então
o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãe de seus filhos
- Jacamim,
prepara o cachimbo do grande chefe, pare que ele e o estrangeiro
troquem a fumaça da hospitalidade.
Os mensageiros
já corriam pela taba, avisando os guerreiros moacaras da
vinda do hóspede à cabana de Itaquê.
Os moacaras,
revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o passo
grave à oca principal, a fim de honrar o hóspede do
grande chefe da nação tocantim.
Ali chegados,
cada um dirigiu ao estrangeiro a pergunta da hospitalidade e deu-lhe
a boa-vinda.
***
Depois que Itaquê ofereccu a Ubirajara o cachimbo da paz,
e com ele trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram
a saudação da chegada
"O hóspede
é mensageiro de Tupã. Ele traz a alegria à
cabana; e quando parte, leva consigo a fama do guerreiro que teve
a fortuna de o acolher.
"Nas tabas
por onde passe, e na terra de seus pais, ele conta aos velhos, que
depois ensinam aos moços, as proezas dos heróis que
viu em seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.
"O hóspede
é mensageiro de Tupã. Ele traz consigo a sabedoria;
na cabana do guerreiro, que tem a fortune de o acolher, todos o
escutam com respeito.
"Em suas palavras prudentes, os anciões da taba aprendem,
para ensinar aos moços, os costumes dos outros povos, as
façanhas de guerras desconhecidas por eles, e as artes da
paz, que o estrangeiro viu em suas viagens.
"O hóspede
é mensageiro de Tupã. O primeiro que apareceu na taba
dos avós da nação tocantim, foi Sumé,
que veio donde a terra começa e caminhou pare onde a terra
acaba.
"Dele
aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer
a farinha; e a tirar do caju e do ananás o generoso cauim,
que alegra o coração do guerreiro.
"O hóspede
é mensageiro de Tupã. Quando o estrangeiro entra na
cabana, o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe
se ele é um chefe ilustre ou o grande Sumé que volta
de sua viagem.
"O sábio
ensina, por onde passa, os segredos da paz, e o herói, as
façanhas da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade,
a glória de ter abrigado um grande varão.
"O hóspede
é mensageiro de Tupã. Por seu caminho vai deixando
a abundância e a festa; depois do banquete da boa-vinda, as
árvores vergam com os frutos e a caça não cabe
na floresta.
"A cabana,
que fecha a porta ao hóspede, o vento a arranca, o fogo do
céu a abrasa. O guerreiro que não se alegra com a
chegada do hóspede, vê murchar ao redor de si a esposa,
os filhos, as mulheres e as roças que ele plantou.
"Bem-vindo
seja o estrangeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da
nação tocantim, que teve a glória de ser escolhido
pelo hóspede.
"Os guerreiros
exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te saúdam,
mensageiro de Tupã."
Enquanto na
cabana ressoa o canto da boa-vinda, Jacamim, a esposa de Itaquê,
chamou as amantes do marido, sues servas, pare ajudá-la a
preparar o banquete da hospitalidade.
As servas pressurosas
estenderam à sombra da gameleira as alvas esteiras de palmas
entrançadas de airi; e colocaram sobre elas os urus cheios
de farinha-d'água.
Trouxeram também
os camucins rasos, onde se apinhavam as moquecas envoltas em folhas
de banana, e peças de carne, assada no biaribi, que ainda
fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.
Depois suspenderam
a caça mais volumosa, veados e antas, assim como as igaçabas
de cauim, nos ramos inclinados da árvore, em altura que o
braço do guerreiro pudesse alcançar.
Frutas de várias
espécies, pencas douradas de bananas, cachos roxos de açaí,
os rubros croás e os fragrantes abacaxis, enchiam o jirau
levantado no meio do terreiro.
***
Jacamim conduzira
o hóspede à sombra da gameleira, onde o esperava o
banquete da chegada.
Ao lado de
Ubirajara sentou-se Itaquê e depois os moacaras que tinham
vindo para a festa da hospitalidade.
Os guerreiros
comeram em silêncio. As mulheres diligentes os serviam, enchendo
de vinho de caju e ananás as largas cumbucas, tintas com
a pasta do crajuru que dá o mais brilhante carmim.
Quando o hóspede,
depois de satisfeito o apetite, lavou o rosto e as mãos,
Jacamim ordenou às servas que recolhessem os restos das provisões,
e retirou-se com elas.
Também
afastaram-se os jovens guerreiros, que ainda não tinham voz
no conselho. Só ficaram sentados com o hóspede, Itaquê,
e os moacaras, senhores das cabanas.
O cachimbo
do grande chefe passou de mão em mão e cada ancião
bebeu a fumaça da erva de Tupã, que inspira a prudência
no carbeto.
Então
disse o chefe
- Itaquê
deseja dar a seu hóspede um nome que lhe agrade; e precisa
que o ajude a sabedoria dos anciões.
A lei da hospitalidade
não consentia que se perguntasse o nome ao estrangeiro que
chegava, nem que se indagasse de sua nação.
Talvez fosse
um inimigo; e o hóspede não devia encontrar na cabana
onde se acolhia, senão a paz e a amizade.
O chefe, que
tinha a fortuna de receber o viajante, escolhia o nome de que ele
devia usar enquanto permanecia na cabana hospedeira.
Foi Ipê
quem primeiro falou
- Tu chamarás
ao hóspede Jutaí, porque sua cabeça domina
o cocar dos mais fortes guerreiros, como a copa do grande pinheiro
aparece por cima da mata.
Disse Tapir
- Chama ao
hóspede Boitatá, porque ele tem os olhos da grande
serpente de fogo, que voa como o raio de Tupã.
Os moacaras,
cada um por sua vez, falaram; e como a voz começava do mais
moço para acabar no mais velho, as últimas falas eram
menos guerreiras e traziam a prudência da idade.
Assim Caraúba,
que era o segundo antes do chefe, disse
- Itaquê,
o hóspede é o núncio da paz. Tu deves chamá-lo
Jutorib, porque ele trouxe a alegria à tua cabana.
Guaribu, cujos
anos enchiam a corda de sua existência de mais nós,
do que tem o velho cipó da floresta, falou por último
- O viajante
é senhor na terra que ele pisa como hóspede e amigo;
e o nome é a honra do varão ilustre, porque narra
sua sabedoria. Pergunta ao estrangeiro como ele quer ser chamado
na taba dos tocantins.
- Bem dito!
Itaquê,
aprovando as palavras prudentes do ancião, perguntou a Ubirajara
que nome escolhia; este lhe respondeu
- Eu sou aquele
que veio trazido pela luz do céu. Chama-me Jurandir (44).
Nesse momento,
Araci, a estrela do dia, apareceu por entre as palmeiras e caminhou
para a cabana.
Os mais valentes
entre os jovens guerreiros tocantins acompanhavam a formosa caçadora.
Eram os servos do amor, que disputavam a beleza da virgem.
Os cantores
saudaram de novo o hóspede pelo nome que ele escolhera
- Tu és
aquele que veio trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos
Jurandir; para que te alegres ouvindo o nome de tua escolha.
"Tu és
aquele que veio trazido pela luz do céu. Nós te chamaremos
Jurandir; e o nome de tua escolha alegrará o ouvido dos guerreiros.
"
***
De longe Araci viu o estrangeiro, sentado entre os anciões,
como o frondoso jacarandá no meio dos velhos troncos das
aroeiras.
A virgem reconheceu
logo o caçador araguaia e adivinhou que ele viera à
cabana de Itaquê para disputar sua beleza aos guerreiros tocantins.
O coração
de Araci encheu-se de alegria. Seus negros cabelos estremeceram
de contentamento, como as penas da jaçan quando pressente
o formoso inverno.
O estrangeiro
não queria ser conhecido; pois deixara o cocar das plumas
da arara, que eram o ornato guerreiro de sua nação.
Mas a imagem do jovem caçador ficara na lembrança
da virgem, como fica na terra a verde folhagem, depois da lua das
águas.
A lei da hospitalidade
proibia à virgem revelar o segredo do estrangeiro, só
dela sabido. Nesse momento foi à sua alma que obedeceu e
não ao costume da nação.
Quando Araci
chegou ao terreiro, os anciões se preparavam para ouvir a
maranduba do hóspede. Os guerreiros e as mulheres escutavam
em silêncio.
O estrangeiro
começou
- Jurandir
é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não
viveu bastante para saber o que os anciões da grande nação
tocantim aprenderam nas guerras e nas florestas.
"O moço
é o tapir que rompe a mata, e voa como a seta. O velho é
o jabuti (45) prudente que não se apressa.
"O tapir
erra o caminho e não vê por onde passa. O jabuti observa
tudo, e sempre chega primeiro.
"Jurandir
é moço; mas conhece as grandes florestas; e atravessou
mais rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu
pai.
"A primeira
água em que Jaçanã, sua mãe, o lavou,
quando ele rasgou-lhe o seio, foi a do grande lago onde Tupã
guardou as águas do dilúvio, depois que as retirou
da terra.
"Ainda
Jurandir não era um caçador, quando ele se banhou
no pará sem fim (46), onde os rios despejam a sua corrente,
e cujas águas quando dormem se mudam em sal.
"Duas
vezes Jurandir seguiu o pai dos rios, desde a grande montanha onde
nasce, até a várzea sem fim que ele enche com suas
águas.
"Ele viu
o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois chefes
tocam a inúbia antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
"Vêm
de um lado as águas do mar; são os guerreiros azuis,
com penachos de araruna; vêm do outro as águas do rio;
são os guerreiros vermelhos com penachos de nambu.
"Começa
a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira,
batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas.
"Mas o
grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo;
carrega-o nos ombros; solta o grito de triunfo.
"Por muito
tempo os Tetivas (47), que habitam sobre as árvores, vêem
passar correndo as águas do marsão os guerreiros azuis
que fogem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas.
"Jurandir
também viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras (48),
senhoras de seu corpo (49), que vivem embaixo das águas do
grande rio.
"Só
elas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros
cativos de seu amor, sem privá-las da liberdade.
"Por isso,
todas as luas, grande número de guerreiros as visitam em
sua taba; e elas guardam para os mais valentes a flor de sua beleza.
"Quando
chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam somente as filhas;
e enviam aos guerreiros os filhos, donde saem os maiores chefes.
"Feliz
o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flor do
seu sangue. O filho será maior do que ele; e o neto maior
do que o filho.
"Sua geração
vai assim crescendo de tronco em tronco; e forma uma floresta de
guerreiros, onde o último cedro se ergue mais frondoso e
robusto, porque recebe a seiva de seus avós. "
***
Quando Jurandir proferiu as últimas palavras, seus olhos
que tinham muitas vezes buscado Araci, repousaram nela.
A virgem tocantim
compreendeu que o estrangeiro se referia a si; e não escondeu
sua alegria, como não esconde sua flor a juquiri que o rio
beija.
A formosa caçadora
cantou. Sua voz era límpida e sonora como o gorjeio do sabiá,
quando se deleita com o calor do sol.
- Feliz a terra
que recebe a semente do cedro frondoso e robusto; ela se cobrirá
de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se
aí para falar da paz e da guerra.
"Ela é
como a virgem que um chefe ilustre escolheu para sua esposa, e que
se povoa de uma prole numerosa. As nações a respeitam
porque é a mãe de valentes guerreiros; os anciões
escutam seu conselho na paz e na guerra.
"As mulheres
guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do
muriti, que rejeita o fruto antes que ele amadureça e o abandona
à correnteza do rio.
"A esposa
não desprende de si o filho, senão quando ele não
chupa mais seu peito. Ela é como a mangabeira; nutre o fruto
com seu leite, que é a flor de seu sangue.
"Não
é na terra das mulheres guerreiras que o estrangeiro deve
buscar a esposa; mas na taba de sua nação, onde Tupã
guarda para seu valor a mais bela das virgens, aquela que tem o
sorriso de mel."
O hóspede
respondeu
- Jurandir
sabe onde encontrará a virgem que deseja para esposa. A luz
do céu o guia, e nada resiste à força de seu
braço.
Depois de responder ao canto de Araci, o estrangeiro continuou sua
maranduba, que todos ouviram silenciosos.
Ele contou
o que havia aprendido nas praias do mar, habitadas pela valente
nação dos tupinambás, descendentes da mais
antiga geração de Tupi.
Os pajés
dos tupinambás lhe disseram que nas águas do pará
sem fim vivia uma nação de guerreiros ferozes, filhos
da grande serpente do mar.
Um dia esses
guerreiros sairiam das águas para tomarem a terra às
nações que a habitam; por isso os tupinambás
tinham descido às praias do mar, para defendê-las contra
o inimigo.
Os guerreiros
do mar (50) também tinham suas guerras entre si, como os
guerreiros da terra. Então as águas pulavam mais altas
do que os montes; seu estrondo era como o trovão.
Jurandir contou
mais, que nas praias do mar se encontrava uma resina amarela, muito
cheirosa (51), a qual a grande serpente criava no bucho.
Os tupinambás
faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir mostrou a pulseira
que lhe cingia o artelho, presente de um guerreiro daquela nação.
Essas contas
tornavam o pé do guerreiro ágil na corrida, e protegiam
o viajante contra os caiporas da floresta, que apartavam-se de seu
caminho.
Muitas outras
coisas referiu Jurandir; e os anciões admiravam-se de ver
o juízo prudente de um abaré no corpo jovem de tão
forte guerreiro.
Os mais velhos
dos moacaras acreditaram que o hóspede era filho de Sumé,
mandado por seu pai correr as terras que o sábio tinha visto
em sua mocidade.
Calaram porém
seu pensamento, para o comunicarem aos anciões quando se
reunisse o carbeto da nação.
***
O sol já descia para as montanhas, quando terminou a festa
da hospitalidade na cabana de Itaquê.
Os moacaras
partiram. Itaquê voltando à sua ocupação,
deixou o hóspede senhor de sua vontade, para fazer o que
lhe agradasse.
Vieram os jovens
pescadores da taba, com os anzóis e jequis, saber do hóspede
que peixe ele preferia.
Depois deles
chegaram os jovens caçadores que, antes de partir para a
floresta, vinham receber os desejos do hóspede.
Por fim aproximaram-se
as mulheres que já tinham rompido o fio da virgindade; mas
não eram nem esposas, nem amantes de guerreiros.
Essas eram
as mulheres livres, que davam seu amor e o retiravam quando queriam,
mas não recebiam a proteção de um guerreiro,
nem podiam jamais ser mães da prole.
Os filhos,
concebidos no próprio seio, só tinham por mãe
a esposa, que o guerreiro tomou por companheira de sua existência
e raiz de sua geração.
O rito da hospitalidade,
entre os filhos da floresta, manda que se dê ao estrangeiro
amigo tudo que deleita ao guerreiro.
Por isso vinham
as moças (52) oferecer a Jurandir sua beleza, para que ele
escolhesse entre elas uma companheira, que partilhasse sua rede
na cabana hospedeira.
Todas se tinham
enfeitado com seus mais belos ornatos, para agradar aos olhos de
Jurandir; pois não havia para elas maior glória do
que a de merecer o amor do estrangeiro.
Umas traziam
as tranças urdidas com penas vistosas dos pássaros
de sua predileção; outras haviam perfumado da essência
do sassafrás os cabelos soltos, que derramavam sua fragrância
ao sopro da brisa.
Chegando diante
do estrangeiro, começaram uma dança amorosa para mostrar
a graça do seu corpo. Aquelas que tinham a voz doce cantavam
em louvor de Jurandir.
Araci fora
buscar seu balaio de palha vermelha, e sentara-se no terreiro, junto
à porta da cabana. Seus dedos ágeis enfiavam as sementes
de jequiriti, de que fazia um ramal para seu colo gentil.
Enquanto compunha
o colar, a virgem percebia que os olhos de Jurandir abandonavam
os encantos das mulheres e buscavam seu rosto.
Mas ela voltava-se
para a floresta; com o trinado de seus lábios chamava o crajuá,
que voava no olho da palmeira. O passarinho, iludido, vinha, cuidando
ouvir o canto da companheira.
Jurandir apartou
as mulheres e disse
- As moças
tocantins são formosas; qualquer delas alegraria o sono do
estrangeiro. Mas Jurandir não veio à cabana de Itaquê
para gozar do amor de uma noite; ele velo buscar a esposa que há
de acompanhá-lo até à morte, e a virgem que
escolheu para mãe de seus filhos.
Quando Araci
ouviu estas palavras cobriu-se de sorrisos, como o guajeru se cobre
de suas flores alvas e perfumadas, com os orvalhos da manhã.
Jurandir voltou-se
então para a virgem caçadora.
- Estrela do
dia, Araci, conduze-me à presença de Itaquê.
É tempo que ele saiba o segredo do estrangeiro.
- Os sonhos disseram a Araci, duas noites seguidas, que o jovem
caçador chegaria à cabana de Itaquê; ela te
esperou. Quando meus olhos te viram sentado entre os moacaras, logo
conheceram que tu vinhas buscar a esposa.
O estrangeiro
respondeu
- Jurandir
chegou à taba dos seus, e recebeu um nome de guerra e o grande
arco de sua nação. Mas a cabana do chefe estava deserta;
e sua rede não lhe guardou o sono tranqüilo do guerreiro.
Ele ouviu tua voz que o chamava, virgem tocantim, e ergueu-se; tua
luz o guiou, filha do sol, e o trouxe à tua presença.
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