Ubirajara
José de Alencar
A GUERRA
Itaquê
esperava sentado na cabana e cercado do carbeto dos anciões.
Jurandir entrou; Araci ficou na porta, orgulhosa do esposo que a
conquistara e da admiração que ele ia inspirar aos
guerreiros da sua nação.
Itaquê
falou
- Quando o
estrangeiro chegou à cabana de Itaquê, ninguém
lhe perguntou quem era e donde vinha. O hóspede é
senhor.
"Mas agora o estrangeiro saiu vencedor do combate do casamento
e conquistou uma esposa na taba dos tocantins.
"É
preciso que ele se faça conhecer; porque a filha de Itaquê,
o pai da nação dos tocantins, jamais entrará
como esposa na taba, onde habite quem tenha ofendido a um só
de seus guerreiros."
O estrangeiro
disse
- Morubixaba,
abarés, moacaras, e guerreiros da valente nação
tocantim, vós tendes presente o chefe dos chefes da grande
nação araguaia.
"Eu sou
Ubirajara, o senhor da lança; e o maior guerreiro depois
do grande Camacã, cujo sangue me gerou. Se quereis saber
por que tomei este nome, ouvi a minha maranduba de guerra."
Ubirajara contou
o seu encontro com Pojucã; o combate em que o venccu e a
festa do triunfo, até o momento em que deixou a taba dos
araguaias.
Terminou dizendo
que no seguinte sol partiria, para assistir ao combate da morte,
como prometera ao prisioneiro.
Ninguém
interrompeu a maranduba de guerra. Ubirajara ouviu um gemido; mas
não soube que rompera do seio de Araci.
Itaquê
arquejou como o rio ao peso da borrasca.
- Tu és
Ubirajara, senhor da lança. Eu sou Itaquê, pai de Pojucã.
Tenho em face o matador de meu filho; mas ele é meu hóspede!
"Chefe
dos araguaias, tu és um jovem guerreiro; pergunta a Camacã
que te gerou, qual deve ser a dor do pai, que não pode vingar
a morte do filho. "
O grande chefe
vergou a cabeça ao peito, como o cedro altaneiro batido pelo
tufão.
Pojucã
tinha sua taba mais longe, na outra margem do rio. Ele partira na
última lua para rastejar a marcha dos tapuias; e voltava
senhor do caminho da guerra quando encontrou Ubirajara.
Seu pai e os
guerreiros de sua taba pensavam que ele buscava na floresta o caminho
da guerra. Mal sabiam que a essa hora esperava prisioneiro na taba
dos araguaias o combate da morte.
Anciões
e guerreiros emudeceram. Todos respeitavam a dor do pai, e não
ousavam perturbá-la.
Jacamim, a
mãe de Pojucã, aproximara-se. O grande chefe ouviu
seu gemido.
- A esposa
de Itaquê não chora na presença do matador de
seu filho. A voz do esposo, a mãe teve força para
esconder no seio sua tristeza e mostrar-se digna do grande chefe
dos tocantins.
Ubirajara falou
- A vingança
é a glória do guerreiro; Tupã a deu aos valentes.
Ubirajara venccu Pojucã em combate leal e aceita o desafio
de Itaquê e de todos os chefes tocantins.
- Tu és
meu hóspede; enquanto Itaquê brandir o grande arco
da nação tocantim, ninguém ofenderá
o amigo de Tupã na taba de seus guerreiros.
Dizendo assim,
o grande chefe ergueu-se e trocou com o estrangeiro a fumaça
da despedida.
- Parte. O
sol que viu o estrangeiro na cabana hospedeira o acompanhará
amigo; mas com a sombra da noite, mil guerreiros, mais velozes que
o nandu, partirão para levar-te a morte.
Ubirajara tomou
suas armas e disse
- O hóspede
vai deixar tua cabana, chefe dos tocantins; tu verás chegar
o guerreiro inimigo.
***
Itaquê seguiu o estrangeiro até o terreiro; em torno
dele se reuniram os abarés, os moacaras e os guerreiros para
assistirem à partida.
Ubirajara caminhou
com passo lento e grave até o fim da taba.
Chegado ali,
tornou rápido à entrada da cabana e retrocedeu, apagando
no chão o vestígio de seus passos.
A nação
tocantim o observava imóvel.
Por fim o estrangeiro
postou-se no centro da ocara e com o formidável tacape vibrou
no largo escudo um golpe, que repercutiu pela taba como o estrondo
da montanha.
- O hóspede
passou o limiar da cabana que o tinha acolhido, e apagou seu rastro
na taba dos tocantins.
"Quem
está aqui é um guerreiro armado, que pisa senhor a
taba de seus inimigos.
"Itaquê,
morubixaba dos tocantins, Ubirajara, o senhor da lança, grande
chefe dos araguaias, te envia a guerra na ponta de sua seta."
Quando o guerreiro
acabou de proferir estas palavras, Itaquê levantou os olhos
e viu cravada na figura do tucano, que era o símbolo da nação,
a seta de Ubirajara.
Mil arcos se
ergueram, mil tacapes brandiram. A voz possante de Itaquê
abateu as armas de seus guerreiros.
Disse o morubixaba
- A lei da
hospitalidade é sagrada. A cólera do estrangeiro não
deve perturbar a serenidade do varão tocantim.
Depois voltou-se
para o inimigo.
- Ubirajara,
grande chefe dos araguaias, Itaquê, o pai da poderosa nação
tocantim, aceita a guerra que tu lhe enviaste. Recebe em teu escudo
o penhor do combate.
A corda do
grande arco da nação tocantim brandiu, e a seta de
Itaquê mordeu o escudo de Ubirajara.
- Vai buscar
teus guerreiros e nós combateremos à frente das nações.
- Ubirajara
combaterá até que lhe restituas a esposa; assim como
ele a conquistou a seus rivais, saberá conquistá-la
a ti e à tua nação.
O chefe araguaia
partiu. No seio da floresta encontrou Araci que o esperava.
A formosa virgem
fora à cabana do casamento buscar a rede nupcial e preparar-se
para acompanhar o esposo.
- Ubirajara
parte; mas antes de cinco sóis ele estará aqui para
te conquistar à tua nação.
- A esposa
te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e
ela entregou-se a seu senhor. Araci te pertence; deves levá-la.
A virgem tocantim
desejava seguir Ubirajara à taba dos araguaias. Falava em
sua alma a ternura da esposa e da irmã.
Partindo, ela
unia-se para sempre a seu guerreiro e esperava que o amor o moveria
a salvar Pojucã.
Ubirajara pensou
e disse
- Se Ubirajara
tivesse rompido a liga de Araci, ela era sua esposa; e ninguém
a arrebataria de seus braços. Mas a virgem tocantim não
pode abandonar a cabana onde nasceu, sem a vontade de seu pai.
Araci suspirou
- Ubirajara
vai deixar a lembrança de Araci nos campos dos tocantins.
Jandira o espera na taba dos araguaias e lhe guarda o seu sorriso
de mel.
- A luz de
teus olhos, Araci, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na taba
dos seus, onde ressoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe à
tua cabana.
"Quando
ele partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé
não o acompanhasse, a deu a Pojucã como esposa do
túmulo."
- O goaná
do lago voa longe, longe, para banhar-se nas águas da chuva
que alagaram a várzea; mas logo volta ao seu ninho, e não
se lembra mais da moita onde dormiu.
- Ubirajara
é um guerreiro, ele não aprende com o goaná
do lago, que foge do perigo, mas com o gavião, grande chefe
dos guerreiros do ar, que nunca mais abandona o rochedo onde assentou
a sua oca.
- Se Ubirajara
amasse a esposa, também não a abandonaria. Os braços
de Araci já cingiram o colo de seu guerreiro. O tronco não
desprende de si a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.
Ubirajara calcou
a mão sobre a cabeça de Araci
- Itaquê
respeitou a lei da hospitalidade no corpo de Ubirajara; Ubirajara
não deixará a traição na terra hospedeira.
"Araci
não deve querer para esposo um guerreiro menos generoso do
que seu pai."
A virgem emudeccu.
Ela sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro.
Antes de partir,
o chefe consolou a esposa
- Ubirajara
vai pedir ao gavião suas asas para voltar ao seio de Araci.
Ele virá à frente de sua nação, conduzido
pela luz de teus olhos.
"As outras
mulheres são o prêmio de um combate entre os servos
de seu amor. Araci terá essa glória; que ela será
o prêmio da maior guerra que já viram as florestas."
O chefe araguaia
pôs as mãos nos ombros de Araci; duas vezes uniu o
seu ao rosto dela, por uma e outra face, para exprimir que nada
os podia separar.
Quando o guerreiro
desapareccu na floresta, Araci caminhou para a cabana do esposo,
que ficara triste e solitária.
A virgem fechou
a porta; sentou-se na soleira e cantou sua tristeza.
***
Dois sóis tinham passado; e viera a noite.
A última
estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pisou os campos
dos araguaias.
Sua mão
robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação
araguaia derramou-se ao longe pelo vale, como o estrondo da montanha
que arrebenta.
Com o primeiro
raio do sol que subia o píncaro da serra, chegaram à
grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos os seus
guerreiros, convocados à ocara da nação.
Ubirajara mandou
que Pojucã, o prisioneiro, viesse à sua presença
- Vê
o mar de meus guerreiros que enche a terra, como as águas
do grande rio quando alaga a várzea. Eles esperam o aceno
de Ubirajara para inundarem teus campos.
"A nação
tocantim carece neste momento do braço de seus maiores guerreiros;
vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a glória
de Ubirajara, seu vencedor.
"Tu és
livre, Pojucã; parte e voa, que a guerra dos araguaias te
segue os passos."
O semblante
do filho de Itaquê ficou sombrio
- Pojucã
é um chefe ilustre; não merece esta desonra. Tu lhe
prometeste a morte dos bravos. Ele exige o combate.
O chefe araguaia
contou a maranduba da hospitalidade
- Ubirajara
não sabia que Pojucã era filho de Itaquê; pois
ele nunca pisaria como hóspede a cabana de um guerreiro,
a quem tivesse decepado um filho.
"É
preciso que recuperes a liberdade para que não se diga que
Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins."
Pojucã
não respondeu. Ele reconhecera que a honra do seu vencedor
exigia sua volta à taba dos seus.
- Parte. Nós
combateremos à frente das nações. Ubirajara
pertence a Itaquê; mas depois dele, terás a glória
de ser vencido outra vez por este braço.
- Ubirajara
é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupã não
consente que Pojucã seja vencedor, ele não quer maior
glória do que a de morrer combatendo Ubirajara.
Pojucã
foi à cabana de seu vencedor buscar as armas. Ubirajara arrimou-se
ao tacape, como o rochedo que se apóia ao tronco do ipê,
e meditou.
Quando passou
o chefe tocantim que voltava à sua taba, Ubirajara levantou
a cabeça e disse:
- Os olhos
de Ubirajara te acompanham; tu és irmão de Araci e
vais para junto dela. Dize à estrela do dia que seu esposo
está com ela.
O conselho
dos abarés se reunira para meditar sobre a guerra. O velho
Majé, a quem irritava o desaparecimento da filha, reparou
que sem o voto do carbeto se convocasse a nação.
Veio um mensageiro
chamar o grande chefe para o carbeto. Ubirajara chegou. Antes que
falasse a voz dos anciões, o guerreiro levantou o arco e
disse
- O conselho
dos anciões governa a taba e medita nas coisas da paz Toda
a nação respeita sua prudência e sabedoria.
"Mas enquanto
Ubirajara brandir o grande arco dos araguaias, tem a guerra fechada
em sua mão.
"Quando
ele soltar o grito do combate, a voz que falar da paz, emudecerá
para sempre, ainda que venha da cabeça do abar que a lua
já embranqueceu.
"Quem
não quiser assim, venha arrancar da mão de Ubirajara,
este arco que ele conquistou por seu valor."
Os abarés
estremeceram. Mas o carbeto meditou e decidiu que a maior glória
e sabedoria da nação era ter o seu grande arco de
guerra na mão de um chefe como Ubirajara.
Camacã
tratou com os anciões acerca da defesa das tabas; e o grande
chefe abriu o caminho da guerra.
***
Quando Ubirajara
desdobrou sua guerra pela margem do grande rio, ele viu que uma
nação tapuia preparava-se para assaltar a taba dos
tocantins.
O grande chefe
tocou a inúbia, cuJa voz chamava o jovem Murinhém
(63), primeiro dos cantores araguaias.
Correu o nhengaçara
à presença do grande chefe, e dele recebeu a mensagem
que devia levar ao campo inimigo.
Os cantores
eram respeitados por todas as nações das florestas
como os filhos da alegria; porque serviam de mensageiros entre as
nações em guerra.
Eles penetravam
no campo inimigo, entoando o seu canto de paz; e nenhum guerreiro
ousava ofender aquele a quem Tup concedera a fonte da alegria.
Murinhém
atravessou rápido a campina e apresentou-se em frente de
Canicrã, chefe dos tapuias.
- Ubirajara,
o senhor da lança, que empunha o arco da poderosa nação
araguaia, te manda, a ti, quem quer que sejas, e a todos quantos
te obedecem, a sua vontade.
O tapuia rugiu;
mas seus olhos viam o mar dos guerreiros araguaias que o cercava,
e na frente o grande vulto de Ubirajara, semelhante ao rochedo sombrio
e imóvel do meio dos borbotões da cachoeira.
- Os guerreiros
de Canicrã só conhecem a vontade do seu chefe; e Canicrã
afronta a cólera de Tupã e das nações
que ele gerou. Dize, mensageiro, o que pede Ubirajara ao grande
chefe dos tapuias.
- Ubirajara
te manda que encostes o tacape da guerra. A nação
tocantim aceitou a sua flecha de desafio, e ele não consente
que ninguém combata seu inimigo, antes de o ter vencido.
- Torna e dize
ao grande chefe araguaia, que Canicrã veio trazido pela vingança.
Pojucã, um dos chefes tocantins, penetrou em sua taba e incendiou
a cabana do pajé, que foi devorado pelas chamas.
"Ubirajara
é um grande chefe; ele que diga se o pai da nação
pode sofrer tão dura afronta. Canicrã escutará
a voz de sua amizade. "
O chefe tapuia
tomou uma de suas flechas; arrancou o farpão e deu ao mensageiro
a haste emplumada com as asas negras do anum, que era o emblema
guerreiro de sua nação.
- Toma; entrega
ao grande chefe araguaia o penhor da aliança.
Murinhém
partiu e foi à taba dos tocantins levar igual mensagem. Itaquê
escutou o que lhe mandava Ubirajara e respondeu.
- Antes que
Itaquê trocasse com Ubirajara a seta do desafio, Pojucã
tinha levado a guerra à taba dos tapuias.
"Canicrã
veio trazido pela vingança; e a nação tocantim
não pode recusar o combate. Mas Itaquê sabe honrar
seu nomese Ubirajara quer, ele combaterá juntamente os dois
inimigos."
O mensageiro
tornou ao campo dos araguaias com as respostas dos dois chefes.
Ubirajara ouviu e meditou.
- Escuta a
vontade de Ubirajara para levá-la aos inimigos. O grande
chefe araguaia não roubará a Canicrã a glória
da vingança; ele respeita a honra da nação
tapuia, mas rejeita sua aliança. Restitui o penhor que recebeste.
"Itaquê
pode aceitar o combate que Pojucã foi buscar; Ubirajara não
ofende o nome de um guerreiro, ainda mais de um morubixaba, e do
pai de Araci.
"O chefe
dos araguaias não carece de auxílio para triunfar
de seus inimigosdeseja que a nação tocantim derrote
aos tapuias, para ter ele a glória de vencer ao vencedor.
"Se Itaquê não pode repelir os tapuias, Ubirajara
toma a si castigar os bárbaros; e depois de varrê-los
das florestas, combaterão as duas nações.
"Se os
tocantins necessitam de aliados para resistir ao ímpeto dos
araguaias, Ubirajara espera que Itaquê os chame e que eles
venham.
"Murinhém
falará assim a um e outro chefe; a ambos dirá que
a cabana onde estiver Araci fica sob a guarda de Ubirajara; quem
nela penetrar como inimigo, sofrerá a morte vil do covarde."
O guerreiro
deixou a voz do chefe e falou com a voz de esposo
- A Araci levarás
o canto de amor de Ubirajara. Tu lhe dirás que arme a rede
nupcial e não deixe nossa cabana, enquanto Ubirajara não
a for buscar.
"Conta-lhe
também que o canitar que ela teceu, ainda não deixou
a cabeça do seu guerreiro e há de acompanhá-lo
sempre. "
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