Ubirajara
José de Alencar
O COMBATE NUPCIAL (59)
Chegou o dia,
em que os noivos de Araci deviam disputar a posse da formosa virgem.
Era a hora
em que o sol transpondo a crista da montanha, estende pelo vale
sua araçóia d'ouro.
A grande nação
tocantim cerca a vasta campina. No centro estão os anciões,
que formam o grande carbeto.
Em frente aparece
Araci, a estrela do dia, que há de ser o prêmio da
constância e fortaleza do mais destro guerreiro.
Jacamim acompanha
a filha; nesse momento remoça com a lembrança do dia
em que Itaquê a conquistou, lutando com os mais feros mancebos
tocantins.
De um e outro
lado seguem pela ordem da idade os moacaras. Cada um cerca-se da
esposa, das servas e das filhas, que vieram para assistir ao combate.
É a
única das festas guerreiras, em que o rito de Tupã
consente a presença das mulheres, porque trata-se de sua
glória.
Contemplando
o esforço heróico dos mais nobres guerreiros para
conquistar a formosura de uma virgem, as outras virgens aprendem
a prezar a castidade, e as esposas se ufanam de guardar a fé
no primeiro amor.
Itaquê,
o grande chefe dos tocantins, preside ao combate, orgulhoso pela
valente nação que dirige, como pela formosa virgem
de que é pai.
Quando seus
olhos admiram a multidão de guerreiros, servos do amor de
Araci, que se preparam a disputar a esposa, o grande chefe ergue
a fronte soberba como o velho ipê da floresta coroado de flores.
Os noivos se distinguem dos outros guerreiros pelo bracelete de
contas verdes, que o guerreiro cinge ao pulso da esposa, quando
rompe a liga da virgindade.
Lá caminha
Pirajá, o grande pescador, senhor dos peixes do rio, a quem
obedece o manati e o golfinho.
Junto dele
ergue-se Uiraçu, que tomou este nome do valente guerreiro
dos ares, pelo ímpeto do assalto.
Vem depois
Araribóia, a grande serpente das lagoas, Cauatá, o
corredor das florestas, Cori, o altivo pinheiro, e tantos outros,
ainda mancebos, e já guerreiros de fama.
Entre todos,
porém, assoma Jurandir. Sua fronte passa por cima da cabeça
dos outros guerreiros, como o sol quando se ergue entre as cristas
da serrania.
Os músicos
fizeram retroar os borés, anunciando o começo da festa;
e os servos do amor se estenderam em linha pelo meio da campina.
Então
os nhengaçaras levantaram o canto nupcial
"A esposa
é a alegria e a força do guerreiro. Ela acende em
suas veias um fogo mais generoso que o do cauim, e prepara para
seu corpo o repouso da cabana.
"Por isso,
o primeiro desejo do mancebo, quando ganha nome de guerra, é
conquistar uma esposa.
"Não
basta ser valente guerreiro para merecer a virgem formosa, filha
de um grande chefe; é preciso a paciência para sofrer
e a perseverança no trabalho.
"Araci,
a estrela do dia, filha de Itaquê, será a alegria e
a glória do mais forte e do mais valente.
"Os filhos
que ela gerar em seu seio, onde corre o sangue do grande chefe,
serão os maiores guerreiros das nações."
***
Itaquê
deu o sinal; o combate começou.
Pirajá
foi o primeiro que saiu a campo, e clamou esgrimindo o tacape
- Araci, estrela
do dia, tu serás esposa do guerreiro Pirajá, que te
vai conquistar pela força de seu braço.
Avançou
Uiraçu, e disse
- A virgem
formosa ama ao guerreiro Uiraçu e há de pertencer-lhe.
A noiva cantou
- Araci ama o mais forte e mais valente. Ela pertencerá ao
vencedor, que vencer a bravura dos outros guerreiros, como venceu
a vontade da esposa.
A voz maviosa
da virgem afagou a esperança de todos os campeões;
mas seus olhos ternos só viam o nobre semblante de Jurandir,
o escolhido de sua alma.
Os dois guerreiros
travaram a pugna; os tacapes girando nos ares encontravam-se como
dois madeiros arrojados pelo remoinho da cachoeira.
Afinal Pirajá,
ameaçado pelo bote do adversário, recuou um passo
do lugar em que se postara. Pela lei do combate estava vencido,
e teve de deixar o campo.
Araribóia
tomou o seu lugar; e o combate prosseguiu com vária fortuna,
até Cori que, expelindo o vencedor, manteve-se firme contra
todos que vieram disputá-lo.
Faltava Jurandir.
O estrangeiro avançou gravemente, como convinha a um grande
guerreiro da nação araguaia.
Ele queria
dar ao vencedor de tantos combates, o tempo preciso para descansar.
A mão
do guerreiro arrastava pelo chão o tacape, que desdenhava
erguer para um combate sem glória.
Quando Jurandir
achou-se em face do vencedor, levantou a voz e disse
- Para merecer
Araci, a estrela do dia, Jurandir queria vencer a cem guerreiros,
e não, combater um guerreiro fatigado.
"Tu empunhas
um tacape; toma outro, habituado a vencer; ele restituirá
a teu braço a força que perdeu. Basta a Jurandir esta
mão, para te arrebatar todas as tuas vitórias. "
Disse, e arremessou
a arma aos pés do adversário.
Cori, pensando
que seu rival o atacava, desfechou-lhe o golpe. Mas Jurandir aparou-o
na mão firme e, arrebatando o tacape que o ameaçava,
arrancou o guerreiro do chão.
Assim o pinheiro
que o tufão arrebata, antes de partir o tronco, desprende
a raiz da terra, onde nada o abalava.
Jurandir ficou
só no campo. Mas todos os noivos se haviam mostrado valentes
guerreiros; talvez nas outras provas saíssem vencedores.
***
Os músicos
tocaratn os borés; e os jovens caçadores trouxeram
para o meio do campo a figura da noiva (60).
Era um grosso
toro de madeira, no qual a mão destra de um pajé entalhara,
com o dente da cutia, a cabeça de uma mulher.
Três caçadores vergavam com o peso da carga e foram
precisos dez para trazê-lo desde a cabana do pajé até
o campo, onde ficou semelhante a uma mulher sentada.
Na véspera,
o pajé burnira de novo com a folha da sambaiba o toro de
madeira, e o esfregara com a banha do teiú, para que ele
escorregasse da mão do guerreiro como o lagarto da mão
do caçador.
Depois os mancebos
guerreiros espalharam pelo campo, troncos de árvores cortadas
com as ramas e as folhas; e fincaram cercas de estacas entre os
barrancos da várzea que ia morrer à margem do rio.
Itaquê
deu o sinal; e os guerreiros começaram a nova prova, mais
difícil que a primeira.
Era preciso
que o guerreiro, à disparada, levantasse do chão,
sem parar, o toro de madeira; e se defendesse dos rivais que o assaltavam
para tomá-lo.
Esse jogo era
o emblema da agilidade e robustez, que o marido devia possuir, para
disputar a esposa e protegê-la contra os que ousassem desejá-la.
Na primeira
corrida foi Jurandir quem mais rápido chegou. Como o condor
que, rebatendo o vôo, leva nas garras a tartaruga adormecida;
assim o veloz guerreiro suspendeu a figura da esposa e com ela arremessou-se
pela campina.
Os outros o
seguiam ardendo em ímpetos de roubar-lhe a presa. Na planície
aberta seria vão intento porque nenhum corria como o estrangeiro.
Mas Jurandir
achava diante de si, para tolher-lhe o passo, as árvores
derrubadas, os barrancos profundos e outros obstáculos de
propósito acumulados.
Não
hesitou, porém, o destemido mancebo. Saltou as corcovas,
galgou as caiçaras, e subiu pelos galhos que estrepavam o
chão.
Uma vez os
guerreiros aproximaram-se tanto, que Jurandir sentiu nos cabelos
o sopro da respiração ofegante. Em frente, erguia-se
a alta estacada.
Se tentasse
subir, carregado como estava, os guerreiros com certeza o alcançariam
a tempo de arrancar-lhe a presa.
Então
arremessou pelos ares o toro de madeira, como se fosse o tacape
de um jovem caçador; e seguiu após.
Sempre vencedor
dos assaltos dos rivais, Jurandir percorreu a vasta campina, e foi
colocar a figura da esposa no meio do carbeto dos anciões.
Ali era o termo
da correria. O guerreiro que chegava a esse ponto com a sua carga,
saía triunfante da prova.
Ele mostrava
como arrebataria a esposa do meio dos inimigos e a defenderia contra
seus ataques até recolhê-la em um asilo seguro.
De todos os
guerreiros só Cori e Uiraçu conseguiram ganhar a prova;
mas nenhum com a galhardia de Jurandir
Cori por vezes
foi alcançado, e só à confusão dos outros
deveu escapar-se. Uiraçu recuperou a presa já perdida,
porque Pirajá, que havia empolgado, falseou na corrida e
tombou.
Os três
vencedores entraram de novo em campo para decidir entre si. O triunfo
não se demorou. Jurandir o arrebatou, como o gavião
arrebata a presa que disputam duas serpes.
Soaram os borés;
e ao som do canto de triunfo entoado pelos nhengaçaras, os
chefes e os guerreiros saudaram o vencedor dos vencedores.
***
Quando voltou o silêncio, Ogib, o grande pajé dos tocantins,
estava em pé no meio do campo.
Junto dele,
uma das velhas mães dos guerreiros segurava o camucim da
constância (61), que tinha o bojo pintado de vermelho.
O pajé
disse
- Não
basta que o guerreiro seja forte e valente, para merecer a esposa.
"É
preciso que tenha a constância do varão, e não
se perturbe com o sofrimento.
"É
preciso que ele tenha a paciência do tatu, e suporte sereno
as mortificações das mulheres, e as importunações
das crianças.
"O guerreiro
que não tem constância e paciência, depressa
gasta suas forças.
"O rio
que se derrama pela várzea, nunca verá suas margens
cobertas de grandes florestas.
"Assim
é o guerreiro que não sabe sofrer, e derrama sua alma
em lamentações.
"Nunca
ele será pai de uma geração forte e gloriosa,
nem verá sua cabana povoar-se dos guerreiros de seu sangue.
"Se queres
merecer a filha de Itaquê, mostra, Jurandir, que és
varão ainda maior do que o famoso guerreiro que todos admiram."
O grande pajé
levantou o tampo do camucim, e descobriu uma abertura, bastante
para caber o punho do mais robusto guerreiro.
Jurandir meteu
a mão no vaso. O semblante sempre grave do guerreiro cobriu-se
de um sorriso doce como da luz a alvorada; e seus olhos, mais contentes
que dois saís, pousaram no rosto de Araci.
O camucim da
constância continha um formigueiro de saúvas, que o
pajé havia fechado ali na última lua.
Açuladas
pela fome de tantos dias, as formigas vorazes se prepararam para
dilacerar a primeira vítima que lhes caísse nas garras.
A dentada da
saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa;
quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira.
Todas as vistas
se fitaram no semblante do guerreiro para espreitar-lhe o mínimo
gesto de sofrimento.
Mas Jurandir
sorria; e seus lábios ternos soltaram o canto do amor. De
propósito o guerreiro adoçou a voz, para não
parecer que disfarçava o gemido com o rumor do grito guerreiro.
Assim cantou
ele
- A dor é
que fortalece o varão, assim como o fogo é que enrija
o tronco da craúba, da qual o guerreiro fabrica o arco e
o tacape.
"A juçara
tem setas agudasmas Araci quando atravessa a floresta, colhe o coco
de mel, embora a palmeira lhe espinhe a mão.
"O ferrão
da saúva dói mais do que o espinho da juçara;
mas Jurandir acha o mel dos lábios de Araci mais doce do
que o coco da palmeira.
"Quando
Jurandir era jovem caçador, gostava de tirar a cutia da toca,
embora o seu dente agudo lhe sarjasse a carne.
"O ferrão
da saúva não dói como o dente afiado; e Jurandir
sabe que o pêlo dourado da cutia, não é tão
macio como o colo de Araci.
"Jurandir
despreza a dor. Seus olhos estão bebendo o sorriso da virgem,
mais suave que o leite do sapoti. Sua mão está sentindo
o roçar dos cabelos da virgem formosa."
Os anciões
deram sinal para concluir a prova da constância; mas o guerreiro
continuou o seu canto de amor.
- A cumari
arde no lábio do guerreiro; mas torna mais gostosa a carne
do veado assado no moquém.
"O cauim
queima a boca do guerreiro; mas derrama a alegria dentro d'alma.
"A saúva
arde como a cumari e queima como o cauim; porém torna os
beijos de Araci mais saborosose o amor de Jurandir espuma como o
vinho generoso.
"Araci
há de sorrir de felicidade, quando o filho de seu guerreiro
lhe rasgar o seio.
"Jurandir
não tem corpo para sofrer, quando o sorriso de Araci lhe
enche a alma de amor."
Foi preciso
quebrar o camucim para que o guerreiro pudesse retirar a mão,
de inflamada que ficara.
O grande pajé
esfregou na pele vermelha o suco de uma erva dele conhecida; e logo
desapareceu a inchação.
***
Faltava a última prova, chamada a prova da virgem.
As outras serviam
para conhecer o valor, a destreza e robustez do guerreiro, assim
como a força de seu amor.
Nesta era que
a virgem podia mostrar seu agrado pelo vencedor; ou livrar-se de
um esposo, que não soubera ganhar-lhe o afeto.
Os cantores
disseram
"Tupã
deu asas à nambu para que ela escape às garras do
carcará.
"Tupã
deu ligeireza à virgem, para que ela fuja do guerreiro que
não quer por esposo.
"Mas a
nambu, quando ouve o canto do companheiro, espera que ele chegue
para fabricar,seu ninho.
"A virgem,
quando segue o guerreiro que ela prefere, pensa na cabana do esposo
e corre devagar para chegar depressa."
Araci deixou
a mãe, e avançou até o meio do campo.
O grande pajé
colocou Jurandir na distância de uma muçurana, que
cinge dez vezes a cintura do guerreiro.
Estrela do
dia lançou para as espáduas as longas tranças
negras que voaram ao sopro da brisa.
Arqueou os
braços mimosos, vestidos com franjas de penas, como as asas
brilhantes do arirama, e quando soou o sinal, desferiu a corrida.
Jurandir seguiu-a. Ele conhecia a velocidade do pé gentil
de Araci, que zombava do salto do jaguar.
Nem que pudesse
alcançá-la, o guerreiro o tentaria; depois de vencedor,
queria dever a esposa ao amor dela e não a seu esforço.
Disputaria
Araci não só a todos os guerreiros das nações,
como a todas as nações das florestas; só à
vontade da própria virgem não a disputaria, pois a
queria rendida e não vencida.
Mas sua glória
mandava que ele, o chefe de uma grande nação, se mostrasse
digno da formosa virgem, que o aceitasse por esposo.
Araci voava
pela campina. Às vezes trançava a corrida como o colibri
que adeja de flor em flor, outras vezes fugia mais rápida
do que a seta emplumada de seu arco.
Quando mostrou
a todos que Jurandir não a alcançaria nunca, se ela
quisesse fugir-lhe, reclinou a cabeça para esconder o rubor.
Jurandir abriu
os braços e recebeu a esposa que se entregava a seu amor.
O guerreiro
suspendeu a virgem formosa ao colo; e levou-a à cabana do
amor que ele construira à margem do rio.
***
As ramas de jasmineiro e do craviri vestiam a cabana e matizavam
o chão de flores.
Araci foi buscar
a rede nupcial, que ela tecera de penas de tucano e arara; e Jurandir
conduziu os utensílios da cabana.
Então
o estrangeiro sentou-se com a virgem no terreiro e, antes de passar
a soleira da porta, revelou a Araci quem era o guerreiro que ela
aceitara por esposo.
- Araci pertence
ao grande chefe da nação araguaia. Ela teve a glória
de vencer ao maior guerreiro das florestas. Ela será mãe
dos filhos de Ubirajara; e terá por servas as virgens mais
belas, filhas dos chefes poderosos.
"A palmeira
é formosa quando se cobre de flores e o vento agita as suas
folhas verdes que murmuram; mais formosa, porém, quando as
flores se mudam em frutos, e ela se enfeita com seus cachos vermelhos.
"Araci
também ficará mais formosa quando de seu sorriso saírem
os frutos do amore quando o leite encher seus peitos mimosos, para
que ela suspenda ao colo os filhos de Ubirajara."
Araci ouviu
as palavras do guerreiro, palpitante como a corça; e ornou
a fronte do esposo com o cocar de plumas vermelhas, que tecera em
segredo.
Depois, sentindo os olhos de Ubirajara, que bebiam a sua formosura,
ela vestiu o aimará mais alvo do que a pena da garça.
A túnica
de algodão, entretecida de penas de beija-flor, desce das
espáduas até a curva da perna, cingida pela liga da
virgindade.
Quando Araci
passava entre os guerreiros que admiravam sua beleza, ela não
corava, porque sua castidade a vestia, como a flor à sapucaia.
Mas agora,
em presença do guerreiro a quem ama e para quem guardou sua
virgindade, tem pejo, e esconde sua formosura às vistas de
Ubirajara.
- Os olhos
do esposo são como o sol, disse o guerreiro; eles queimam
a flor do corpo de Araci.
"Araci
tem medo que os olhos do esposo não a achem digna de seu
amor; e vestiu seus enfeites.
"Araci
queria ser como a juriti, e ter no corpo uma penugem macia, que
só a deixasse ver em sua formosura.
"Foi por
isso que tua esposa se cobriu com o seu aimará. Os olhos
de Ubirajara não lhe queimarão mais a flor de seu
corpo."
O guerreiro
respondeu
- A flor do
igapê (62) é mais formosa quando abre, e se tinge de
vermelho aos beijos do sol, do que fechada em botão e coberta
de folhas verdes.
Ubirajara tomou
nos braços a esposa e pôs o pé na soleira da
porta.
Nesse momento
soou um clamor; chegaram os guerreiros que vinham chamar o vencedor
à presença de Itaquê.
O carbeto dos
anciões tinha decidido que o vencedor antes de receber a
esposa, devia declarar quem era; pois fora recebido como estrangeiro,
e ninguém na taba o conhecia.
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