D.
Antônio, sorrindo a custo.
-
Sois, sois. Manhosamente sutil, ou sutilmente manhosa,
à escolha; eu é que sou uma triste secura
de dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, não?
(Corteja-a e dirige-se para a porta.)
D.
Manuel, interpondo-se.
-
Deixai que vos levante o reposteiro. (Levanta o reposteiro.)
Ides ter com Sua Alteza, suponho?
D.
Antônio
-
Vou.
D.
Manuel
-
Ides levar-lhe notícias da Índia?
D.
Antônio
-
Sabeis que não é o meu cargo...
D.
Manuel
-
Sei, sei; mas dizem que... Senhor D. Antônio,
acho-vos o rosto anuviado, alguma coisa vos penaliza
ou turva. Sabeis que sou vosso amigo; perdoai se vos
interrogo. Que foi? Que há?
D.
Antônio, gravemente.
-
Senhor D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu conto
sessenta; deixai-me passar. (D. Manuel inclina-se,
levantando o reposteiro. D. Antônio desaparece.)
CENA
XIII
D. MANUEL DE PORTUGAL, D. FRANCISCA
DE ARAGÃO
D.
Manuel
-
Vai dizer tudo a El-rei.
D.
Francisca
-
Credes?
D.
Manuel
-
Camões contou-me o encontro que tivera com
o Caminha aqui; eu ia falar ao senhor D. Antônio;
achei-o agora mesmo, ao pé de uma janela, com
o dissimulado Caminha, que lhe dizia: "Não
vos nego, senhor D. Antônio, que os achei naquela
sala, a sós e que vossa filha fugiu desde que
eu lá entrei."
D.
Francisca
-
Ouvistes isso?
D.
Manuel
-
D. Antônio ficou severo e triste. "Querem
escândalo?..." foram as suas palavras.
E não disse outras; apertou a mão ao
Caminha, e seguiu para cá... Penso que foi
pedir alguma coisa a El-rei. Talvez o desterro.
D.
Francisca
-
O desterro?
D.
Manuel
-
Talvez. Camões há de voltar agora aqui;
disse-me que viria falar ao senhor D. Antônio.
Para quê? Que outros lhe falem, sim; mas o meu
Luís que não sabe conter-se... D. Catarina?
D.
Francisca
-
Foi lançar-se aos pés da rainha, a pedir-lhe
proteção.
D.
Manuel
-
Outra imprudência. Foi há muito?
D.
Francisca
-
Pouco há.
D.
Manuel
-
Ide ter com ela, se é tempo, dizei-lhe que
não, que não convém falar nada.
(D. Francisca vai a sair, e pára ) Recusais?
D.
Francisca
-
Vou, vou. Pensava comigo uma coisa. (D. Manuel vai
a ela.) Pensava que é preciso querer muito
aqueles dois para nos esquecermos assim de nós.
D.
Manuel
-
É verdade. E não há mais nobre
motivo da nossa mútua indiferença. Indiferença,
não; não o é, nem o podia ser
nunca. No meio de toda essa angústia que nos
cerca, poderia eu esquecer a minha doce Aragão?
Poderieis vós esquecer-me. Ide agora, nós
que somos felizes, temos o dever de consolar os desgraçados.
(D. Francisca sai pela esquerda.)
CENA XIV
D. MANUEL DE PORTUGAL, D. ANTÔNIO DE LIMA
D.
Manuel
-
Se perco o confidente dos meus amores, da minha mocidade,
o meu companheiro de longas horas... Não é
impossível. - El-rei concederá o que
lhe pedir D. Antônio. A culpa, - força
é confessá-lo, - a culpa é dele,
do meu Camões, do meu impetuoso poeta; um coração
sem freio... (Abre-se o reposteiro, aparece D. Antônio.)
D. Antônio!
D.
Antônio, da porta, jubiloso.
-
Interrogastes-me há pouco; agora hei tempo
de vos responder.
D.
Manuel
-
Talvez não seja preciso.
D.
Antônio, adianta-se
-
Adivinhais então?
D.
Manuel
-
Pode ser que sim.
D. Antônio
-
Creio que adivinhais.
D.
Manuel
-
Sua Alteza concedeu-vos o desterro de Camões.
D.
Antônio
-
Esse é o nome da pena: a realidade é
que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a
paz a um ancião.
D.
Manuel
-
Senhor D. Antônio...
D.
Antônio
-
Nem mais uma palavra, senhor D. Manuel de Portugal,
nem mais uma palavra. - Mancebo sois; é natural
que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a
velhice ama o respeito. Até à vista,
senhor D. Manuel, e não turveis o meu contentamento.
(Dá um passo para sair.)
D.
Manuel
-
Se matais vossa filha?
D.
Antônio
-
Não a matarei. Amores fáceis de curar
são esses que aí brotam no meio de galanteios
e versos. Versos curam tudo. Só não
curam a honra os versos; mas para a honra dá
Deus um rei austero, em pai inflexível... Até
à vista, senhor D. Manuel. (Sai pela esquerda.)
CENA XV
D. MANUEL DE PORTUGAL, logo CAMÕES
D. Manuel
-
Perdido... está tudo perdido.(Camões
entra pelo fundo.) Meu pobre Luís! Se soubesses...
Camões
-
Que há?
D.
Manuel
-
El-rei... El-rei atendeu às súplicas
do senhor D. Antônio. Está tudo perdido.
Camões
-
E que pena me cabe?
D.
Manuel
-
Desterra-vos da corte.
Camões
-
Desterrado! Mas eu vou ter com Sua Alteza, eu direi...
D.
Manuel, aquietando-o.
-
Não direis nada; não tendes mais que
cumprir a real ordem; deixai que os vossos amigos
façam alguma coisa; talvez logrem abrandar
o rigor da pena. Vós não fareis mais
do que agravá-la.
Camões
-
Desterrado! E para onde?
D.
Manuel
-
Não sei. Desterrado da corte é o que
é certo. Vede... não há mais
demorar no paço. Saiamos.
Camões
-
Aí me vou eu, pois, caminho do desterro, e
não sei se da miséria! Venceu então
o Caminha? Talvez os versos dele fiquem assim melhores.
Se nos vai dar uma nova Eneida, o Caminha? Pode ser,
tudo pode ser... Desterrado da corte! Cá me
ficam os melhores dias, e as mais fundas saudades.
Crede, senhor D. Manuel, podeis crer que as mais fundas
saudades cá me ficam.
D.
Manuel
-
Tornareis, tornareis...
Camões
-
E ela? Já o saberá ela?
D.
Manuel
-
Cuido que o senhor D. Antônio foi dizer-lho
em pessoa. Deus! Aí vem eles.
CENA XVI
OS MESMOS, D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE
ATAÍDE
D.
Antônio aparece à porta da esquerda,
trazendo D. Catarina pela mão. - D. Catarina
vem profundamente abatida.
D.
Catarina, à parte, vendo Camões.
-
Ele! Dai-me força, meu Deus! (D. Antônio
corteja os dois, e segue na direção
do fundo. Camões dá um passo para falar-lhe,
mas D. Manuel contém-no. D. Catarina, prestes
a sair, volve a cabeça para trás.)
CENA XVII
D. MANUEL DE PORTUGAL, CAMÕES
Camões
-
Ela aí vai... talvez para sempre... Credes
que para sempre?
D.
Manuel
-
Não. Saiamos!
Camões
-
Vamos lá; deixemos estas salas que tão
funestas me foram. (Indo ao fundo e olhando para dentro.)
Ela aí vai, a minha estrela, aí vai
a resvalar no abismo, de onde não sei se a
levantarei mais... Nem eu... (Voltando-se para D.
Manuel.) Nem vós, meu amigo, nem vós
que me quereis tanto, ninguém.
D.
Manuel
-
Desanimais depressa, Luís. Por que ninguém?
Camões
-
Não saberia dizer-vos; mas sinto-o aqui no
coração. Essa clara luz, essa doce madrugada
da minha vida, apagou-se agora mesmo, e de uma vez.
D.
Manuel
-
Confiai em mim, nos meus amigos, nos vossos amigos.
Irei ter com eles; induzi-los-ei a....
Camões
-
A quê? A mortificarem um camareiro-mor, a fim
de servir um triste escudeiro que já estará
a caminho de África?
D.
Manuel
-
Ides à África?
Camões
-
Pode ser; sinto umas tonteiras africanas. Pois que
me fecham a porta dos amores, abrirei eu mesmo as
da guerra. Irei lá pelejar, ou não sei
se morrer... África, disse eu? Pode ser que
Ásia também, ou Ásia só;
o que me der na imaginação.
D.
Manuel
-
Saiamos.
Camões
-
E agora, adeus, infiéis paredes; sede ao menos
com passivas; guardai-ma, guardai-ma bem, a minha
formosa D. Catarina! (A D. Manuel.) Credes que tenho
vontade de chorar?
D.
Manuel
-
Saiamos, Luís!
Camões
-
Eu não choro, não; não choro...
não quero... (Forcejando por ser alegre.) Vedes?
até rio! Vou-me para bem longe. Considerando
bem, Ásia é melhor; lá rematou
a audácia lusitana o seu edifício, lá
irei escutar o rumor dos passos do nosso Vasco. E
este sonho, esta quimera, esta coisa que me flameja
cá dentro, quem sabe se... Um grande sonho,
senhor D. Manuel... Vede lá, ao longe, na imensidade
desses mares, nunca dantes navegados, uma figura rútila,
que se debruça dos balcões da aurora,
coroada de palmas indianas? É a nossa glória,
é a nossa glória que alonga os olhos,
como a pedir o seu esposo ocidental. E nenhum lhe
vai dar o ósculo que a fecunde; nenhum filho
desta terra, nenhum que empunhe a tuba da imortalidade,
para dizê-la aos quatro ventos do céu...
Nenhum... (Vai amortecendo a voz.) Nenhum... (Pausa,
fita D. Manuel, como se acordasse, e dá de
ombros.) Uma grande quimera, senhor D. Manuel.Vamos
ao nosso desterro.
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Departamento Nacional do Livro
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