D.
Catarina
-
Ouvi tudo... tudo o que lhe dissestes... e peço-vos
que não nos façais mal. Sois amigo de
meu pai, ele é vosso amigo; não lhe
digais nada. Fui imprudente, fui, mas que quereis?
(Vendo que Caminha não diz nada.) Então?
falai... poderei contar convosco?
Caminha
-
Comigo? (D. Catarina inquieta, aflita, pega-lhe na
mão; ele retira-lha com aspereza.) Contar comigo!
para que, minha senhora D. Catarina? Amais um mancebo
digno, por que vós o amais... muito, não?
D.
Catarina
-
Muito.
Caminha
-
Muito, dizeis... E éreis vós que estáveis
aqui, com ele, nesta sala solitária, juntos
um do outro, a falarem naturalmente do céu
e da terra... ou só do céu, que é
a terra dos namorados. Que dizeis?...
D.
Catarina, baixando os olhos.
-
Senhor...
Caminha
-
Galanteios, galanteios, de que se há de falar
lá fora... (Gesto de D. Catarina.) Ah! cuidais
que estes amores nascem e morrem no paço? -
Não; passam além; descem à rua,
são o mantimento dos ociosos e ainda dos que
trabalham, porque, ao serão, principalmente
nas noites de inverno, em que se há de ocupar
a gente, depois de fazer as suas orações?
Com que, éreis vós? Pois digo-vos que
o não sabia; suspeitava, porque não
podia talvez ser outra... E confessais que lhe quereis
muito. Muito?
D.
Catarina
-
Pode ser fraqueza; mas crime...onde está o
crime?
Caminha
-
O crime está em desonrar as cãs de um
nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praças;
o crime está em escandalizar a corte, com essas
ternuras, impróprias do alto cargo que exerceis,
do vosso sexo e estado... esse é o crime. E
parece-vos pequeno?
D.
Catarina
-
Bem; desculpai-me, não direis nada...
Caminha
-
Não sei.
D.
Catarina
-
Peço-vos... de joelhos até... (Faça
um gesto para ajoelhar-se, ele impede-lho.)
Caminha
-
Perderieis o tempo; eu sou amigo de vosso pai.
D.
Catarina
-
Contar-lhe-eis tudo?
Caminha
-
Talvez.
D.
Catarina
-
Bem mo diziam sempre; sois inimigo de Camões.
Caminha
-
E sou.
D.
Catarina
-
Que vos fez ele?
Caminha
-
Que me fez? (Pausa.) D. Catarina de Ataíde,
quereis saber o que me fez o vosso Camões?
Não é só a sua soberba que me
afronta; fosse só isso, e que me importava
um frouxo cerzidor de palavras, sem arte nem conceito?
D.
Catarina
-
Acabai.
Caminha
-
Também não é porque ele vos ama,
que eu o odeio; mas vós, senhora D. Catarina
de Ataíde, vós o amais... eis o crime
de Camões. Entendeis?
D.
Catarina, depois de um instante de assombro.
-
Não quero entender.
Caminha
-
Sim, que também eu vos quero, ouvis? - E quero-vos
muito... mais do que ele, e melhor do que ele; porque
o meu amor tem o impulso do ódio, nutre-se
do silêncio, o desdém o avigora, e não
faço alarde nem escândalo; é um
amor...
D.
Catarina
-
Calai-vos! Pela Virgem, calai-vos!
Caminha
-
Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverência.)
Mandais alguma outra coisa?
D.
Catarina
-
Não, ficai, ficai. Jurai-me que não
direis nada...
Caminha
-
Depois da confissão que vos fiz, esse pedido
chega a ser mofa. Que não diga nada? Direi
tudo, revelarei tudo a vosso pai. Não sei se
a ação é má ou boa; sei
que vos amo, e que detesto esse rufião, a quem
vadios deram foros de letrado.
D.
Catarina
-
Senhor! É demais!
Caminha
-
Defendei-o, não é assim?
D.
Catarina
-
Odiai-o, se vos apraz; insulta-o, é que não
é de cavaleiro...
Caminha
-
Que tem? O amor desprezado sangra e fere.
D.
Catarina
-
Deixai que lhe chame um amor vilão.
Caminha
-
Sois vós agora que me injuriais. Adeus, senhora
D. Catarina de Ataíde! (Dirige-se para o fundo.)
D.
Catarina, tomando-lhe o passo.
-
Não! Agora não vos peço... intimo-vos
que vos caleis.
Caminha
-
Que recompensa me dais?
D.
Catarina
-
A vossa consciência.
Caminha
-
Deixai em paz os que dormem. Quereis que vos prometa
alguma coisa? Uma só coisa prometo; não
contar a vosso pai o que se passou. Mas, se por denúncia
ou desconfiança, for interrogado por ele, então
lhe direi tudo. E duas vezes farei bem: - não
faltarei à verdade, que é dever de cavaleiro;
e depois... chorareis lágrimas de sangue; e
eu prefiro ver-vos chorar a ver-vos sorrir. A vossa
angústia será a minha consolação.
Onde falecerdes de pura saudade, ai me glorificarei
eu. Chamai-me agora perverso, se o quereis; eu respondo
que vos amo, e que não tenho outra virtude.
(Vai a sair, encontra-se com D. Francisca de Aragão;
corteja-a e sai.)
CENA XI
D. CATARINA DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO
D.
Francisca
-
Vai afrontado o nosso poeta. Que terá ele?
(Reparando em D. Catarina.) Que tendes vós?
Que foi?
D.
Catarina
-
Tudo sabe.
D.
Francisca
-
Quem?
D.
Catarina
-
Esse homem. Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe
tudo.
D.
Francisca
-
Imprudente!
D.
Catarina
-
Duas vezes imprudente; deixei-me estar ao lado do
meu Luís, a ouvir-lhe as palavras tão
nobres, tão apaixonadas... e o tempo corria...
e podiam espreitar-nos... Credes que o Caminha diga
alguma coisa a meu pai?
D.
Francisca
-
Talvez não.
D.
Catarina
-
Quem sabe? Ele ama-me.
D.
Francisca
-
O Caminha?
D.
Catarina
-
Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como
os outros. Triste dom é esse. Sou formosa para
não ser feliz, para ser amada às ocultas,
odiada às escancaras, e, talvez... Se meu pai
vier a saber... que fará ele, amiga minha?
D.
Francisca
-
O senhor D. Antônio é tão severo!
D.
Catarina
-
Irá ter com El-rei, pedir-lhe-á que
o castigue, que o encarcere, não? E por minha
causa... Não; primeiro irei eu... (Dirige-se
para a porta da direita.)
D.
Francisca
-
Onde ides?
D.
Catarina
-
Vou falar a El-rei... Ou, não... (Encaminha-se
para a porta da esquerda.) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei
tudo; ela me amparará. Credes que não?
D.
Francisca
-
Creio que sim.
D.
Catarina
-
Irei, ajoelhar-me-ei a seus pés. Ela é
rainha, mas é também mulher... e ama-me.
(Sai pela esquerda.)
CENA
XII
D. FRANCISCA DE ARAGÃO, D. ANTÔNIO DE
LIMA, depois, D. MANUEL
DE PORTUGAL
D.
Francisca, depois de um momento de reflexão.
-
Talvez chegue cedo demais. (Dá um passo para
a porta da esquerda.) Não; melhor é
que lhe fale... mas, se se aventa a notícia?
Meu Deus, não sei... não sei... Ouço
passos... Entra D. Antônio de Lima. Ah!
D.
Antônio
-
Que foi?
D.
Francisca
-
Nada, nada... não sabia quem era. Sois vós...
(Risonha.) Chegaram galeões da Ásia;
boas notícias, dizem...
D. Antônio
-
Eu não ouvi dizer nada. (Querendo retirar-se.)
Permitis?...
D. Francisca
-
Jesus! Que tendes? Que ar é esse? (Vendo entrar
D. Manuel de Portugal.) Vinde cá, senhor D.
Manuel de Portugal, vinde saber o que tem este meu
bom e velho amigo, que me não quer... (Segurando
na mão de D. Antônio ). Então,
eu já não sou a vossa frescura de maio?
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