Error processing SSI file
 

 

Camões

- Um instante ainda!

D. Catarina

- Imprudente! Por quem sois, ide-vos meu Luís!

Camões

- A rainha espera-vos?

D. Catarina

- Espera.

Camões

- Tão raro é ver-vos!

D. Catarina

- Não afrontemos o céu... podem dar conosco...

Camões

- Que venham! Tomara eu que nos vissem! Bradaria a todos o meu amor, e a que o faria respeitar!


D. Catarina, aflita pegando-lhe na mão.

- Reparai, meu Luís, reparai onde estais, quem eu sou, o que são estas paredes... domai esse gênio arrebatado, peço-vo-lo eu. Ide-vos em boa paz, sim?

Camões

- Viva a minha corça gentil, a minha tímida corça! Ora vos juro que me vou, e de corrida. Adeus!

D. Catarina

- Adeus!

Camões, com a mão dela presa.

- Adeus

D. Catarina

- Ide... deixai-me ir!

Camões

- Hoje há luar; se virdes um embuçado diante das vossas janelas, quedado a olhar para cima, desconfiai que sou eu; e então, já não é o sol a beijar de longe uma rosa, é o goivo que pede calor a uma estrela.

D. Catarina

- Cautela, não vos reconheçam.

Camões

- Cautela haverei; mas, que me reconheçam, que tem isso? embargarei a palavra ao importuno.

D. Catarina

- Sossegai. Adeus!

Camões

- Adeus!

(D. Catarina dirige-se para a porta da esquerda, e pára diante dela, à espera que Camões saia. Camões corteja-a com um gesto gracioso, e dirige-se para o fundo. - Levanta-se o reposteiro da porta da direita, e aparece Caminha. - D. Catarina dá um pequeno grito, e sai precipitadamente. - Camões detém-se. Os dois homens olham-se por um instante.)


CENA IX
CAMÕES, CAMINHA


Caminha, entrando.

- Discreteáveis com alguém, ao que parece...

Camões

- É verdade.

Caminha

- Ouvi de longe a vossa fala, e reconheci-a. Vi logo que era o nosso poeta, de quem tratava há pouco com alguns fidalgos. Sois o bem-amado, entre os últimos de Coimbra. - Com que, discreteáveis... Com alguma dama?

Camões

- Com uma dama.

Caminha

- Certamente formosa, que não as há de outra casta nestes reais paços. Sua Alteza cuido que continuará, e ainda em bem, algumas boas tradições de El-rei seu pai. Damas formosas, e, quanto possível, letradas. São estes, dizem, os bons costumes italianos. É vós, senhor Camões, por que não ides à Itália?

Camões

- Irei à Itália, mas passando por África.

Caminha

- Ah! Ah! para lá deixar primeiro um braço, uma perna, ou um olho... Não, poupai os olhos, que são o feitiço dessas damas da corte; poupai também a mão, com que nos haveis de escrever tão lindos versos; isto vos digo que poupai...

Camões

- Uma palavra, senhor Pero de Andrade. Uma só palavra, mas sincera.

Caminha

- Dizei.

Camões

- Dissimulais algum outro pensamento. Revelai-mo... intimo-vos que mo reveleis.

Caminha

- Ide à Itália, senhor Camões, ide à Itália.

Camões

- Não resistireis muito tempo ao que vos mando.

Caminha

- Ou à África, se o quereis... ou à Babilônia... À Babilônia melhor; levai a harpa do desterro, mas em vez de a pendurar de um salgueiro, como na Escritura, cantar-nos-eis a linda copla da galinha, ou comporeis umas outras voltas ao mote, que já vos serviu tão bem:

Perdigão perdeu a pena,
Não há mal que lhe não venha.

Ide à Babilônia, senhor Perdigão!

Camões, pegando-lhe no pulso.

- Por vida minha, calai-vos!

Caminha

- Vede o lugar em que estais.

Camões, solta-o.

- Vejo; vejo também quem sois; só não vejo o que odiais em mim.

Caminha

- Nada.

Camões

- Nada?

Caminha

- Coisa nenhuma.

Camões

- Mentis pela gorja, senhor camareiro.

Caminha

- Minto? Vede lá; ia-me deixando arrebatar, ia conspurcando com alguma vilania esta sala de El-rei. Retraí-me a tempo. Menti, dizeis vós? - Pode ser que sim, porque eu creio que efetivamente vos odeio, mas só há um instante, depois que me pagastes com uma injúria o aviso que vos dei.

Camões

- Um aviso?

Caminha

- Nada menos. Queria eu dizer-vos que as paredes do paço nem são mudas, nem sempre são caladas.

Camões

- Não serão; mas eu as farei caladas.

Caminha

- Pode ser. Essa dama era...?

Camões

- Não reparei bem.

Caminha

- Fizestes mal; é prudência reparar nas damas; prudência e cortesia. Com que, ides à África? Lá estão os nossos em Mazagão, cometendo façanhas contra essa canalha de Mafamede; imitai-os. Vede, não deixeis lá esse braço, com que nos haveis de calar as paredes os reposteiros. É conselho de amigo.

Camões

- Por que sereis meu amigo?
Caminha

- Não digo que o seja; o conselho é que o é.

Camões

- Credes, então...?

Caminha

- Que poupareis uma grande dor e um maior escândalo.

Camões

- Percebo-vos. Imaginais que amo alguma dama? Suponhamos que sim. Qual é o meu delito? Em que ordenação, em que rescrito, em que bula, em que escritura, divina ou humana, foi já dado como delito amarem-se duas criaturas?

Caminha

- Deixai a corte.

Camões

- Digo-vos que não.

Caminha

- Oxalá que não!

Camões, à parte.

- Este homem... que há neste homem? Lealdade ou perfídia? (Alto.) Adeus, senhor Caminha. (Pára no meio da cena). Por que não tratamos de versos?... Fora muito melhor...

Caminha.

- Adeus, senhor Camões. (Camões sai.)

CENA X
CAMINHA, logo D. CATARINA DE ATAÍDE

Caminha

- Ide ide, magro poeta de camarins... (Desce ao proscênio.) Era ela, de certo, era ela que aí estava com ele, no meio do paço, esquecidos de El-rei e de todos... Oh temeridade do amor! Do amor? ele... ele... Mas seria ela deveras?... Que outra podia ser?

D. Catarina, espreita e entra.

- Senhor... senhor...

Caminha

- Ela!

1
2
3
4
5
6