D.
Manuel
-
Cuido que não.
Caminha
-
Que não?
D.
Manuel
-
Acabou, como tudo acaba.
Caminha,
sorrindo.
-
Anda lá; não sei se me dizeis tudo.
Amigos sois, e não é impossível
que também vós... Onde está a
nossa gentil senhora D. Francisca de Aragão?
D.
Manuel
-
Que tem?
Caminha
-
Vede: um simples nome vos faz estremecer. Mas sossegai,
que não sou vosso inimigo; mui ao contrário,
amo-vos, e a ela também... e respeito-a muito.
Um para o outro nascestes. Mas, adeus, faz-se tarde,
vou ter com El-rei. (Sai pela direita.)
CENA
II
DOM MANUEL DE PORTUGAL
-
Este homem!... Este homem!... Como se os versos dele,
duros e insossos... (Vai à porta por onde Caminha
saiu e levanta o reposteiro.) Lá vai ele; vai
cabisbaixo; rumina talvez alguma coisa. Que não
sejam versos! (Ao fundo aparecem D. Antônio
de Lima e D. Catarina de Ataíde.)
CENA III
D.
MANUEL DE PORTUGAL,
D. CATARINA DE ATAÍDE, D. ANTÔNIO DE
LIMA
D.
Antônio de Lima
-
Que espreitais aí, senhor D. Manuel.
D.
Manuel
-
Estava a ver o porte elegante do nosso Caminha. Não
vades supor que era alguma dama. (Levanta o reposteiro.)
Olhai, lá vai ele a desaparecer. Vai a El-rei.
D.
Antônio
-
Também eu. Tu, não, minha boa Catarina.
A rainha espera-te. (D. Catarina faz uma reverência
e caminha para a porta da esquerda.) Vai, vai, minha
gentil flor... (A D. Manuel.) Gentil, não a
achais?
D.
Manuel
-
Gentilíssima.
D.
Antônio
-
Agradece, Catarina.
D.
Catarina
-
Agradeço; mas o certo é que o senhor
D. Manuel é rico de louvores...
D.
Manuel
-
Eu podia dizer que a natureza é que foi conosco
pródiga de graças; mas, não digo;
seria repetir mal aquilo que só poetas podem
dizer bem. (D. Antônio fecha o rosto.) Dizem
que também sou poeta, é verdade; não
sei; faço versos. Adeus, senhor D. Antônio...
(Corteja-os e sai. D. Catarina vai a entrar, à
esquerda. D. Antônio detém-na.)
CENA IV
D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA DE ATAÍDE
D.
Antônio
-
Ouviste aquilo?
D.
Catarina, parando.
-
Aquilo?
D.
Antônio
-
"Que só poetas podem dizer bem" foram
as palavras dele. (D. Catarina aproxima-se.) Vês
tu, filha? tão divulgadas andam já essas
coisas, que até se dizem nas barbas de teu
pai!
D.
Catarina
-
Senhor, um gracejo...
D.
Antônio, enfadando-se.
-
Um gracejo injurioso, que eu não consinto,
que não quero, que me doe... Que só
poetas podem dizer bem E que é poeta! Pergunta
ao nosso Caminha o que é esse atrevido, o que
vale a sua poesia... Mas, que seja outra e melhor,
não a quero para mim, nem para ti. Não
te criei para entregar-te às mãos do
primeiro que passa, e lhe dá na cabeça
haver-te.
D.
Catarina, procurando moderá-lo.
-
Meu pai...
D.
Antônio
-
Teu pai e teu senhor!
D.
Catarina
-
Meu senhor e pai... juro-vos que... Juro-vos que vos
quero e muito... Por quem sois, não vos irriteis
contra mim!
D.
Antônio
-
Jura que me obedecerás.
D. Catarina
-
Não é essa a minha obrigação?
D.
Antônio
-
Obrigação é, e a mais grave de
todas. Olha-me bem, filha; eu amo-te como pai que
sou. Agora, anda, vai.
CENA
V
D. ANTÔNIO DE LIMA, D. CATARINA
DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO
D.
Antônio
-
Mas não, não vás sem falar à
senhora D. Francisca de Aragão, que aí
nos aparece, fresca como a rosa que desabotoou agora
mesmo, ou, como dizia a farsa do nosso Gil Vicente,
que eu ouvi há tantos anos, por tempo do nosso
sereníssimo senhor D. Manuel... Velho estou,
minha formosa dama...
D.
Francisca
-
E que dizia a farsa?
D.
Antônio
-
A farsa dizia:
É
bonita como estrela,
Uma rosinha deaAbril,
Uma frescura de maio,
Tão manhosa.
Tão sutil!
-
Vede que a farsa adivinhava já a nossa D. Francisca
de Aragão, uma frescura de maio, tão
manhosa, tão sutil...
D.
Francisca
-
Manhosa, eu?
D.
Antônio
-
E sutil. Não vos esqueça a rima, que
é de lei. (Vai a sair pela porta da direita;
aparece Camões.)
CENA VI
OS MESMOS, CAMÕES
D.
Catarina, à parte.
-
Ele!
D.
Francisca, baixo a D. Catarina.
-
Sossegai!
D.
Antônio
-
Vinde cá, senhor poeta das galinhas. Já
me chegou aos ouvidos o vosso lindo epigrama. Lindo,
sim; e estou que não vos custaria mais tempo
a fazê-lo do que eu a dizer-vos que me divertiu
muito... E o duque? O duque, ainda não emendou
a mão? Há de emendar, que não
é nenhum mesquinho.
Camões,
alegremente.
-
Pois El-rei deseja o contrário...
D.
Antônio
-
Ah! Sua Alteza falou-vos disso?... Contar-mo-eis em
tempo. (A D. Catarina, com intenção).
Minha filha e senhora, não ides ter com a rainha?
Eu vou falar a El-rei. (D. Catarina corteja-os e dirige-se
para a esquerda; D. Antônio sai pela direita.)
CENA
VII
OS
MESMOS, menos D. ANTÔNIO DE LIMA
(D. Catarina quer sair, D. Francisca de Aragão
detém-na.)
D.
Francisca
-
Ficai, ficai...
D.
Catarina
-
Deixe-me ir!
Camões
-
Fugis de mim?
D. Catarina
-
Fujo... Assim o querem todos.
Camões
-
Todos quem?
D.
Francisca, indo a Camões.
-
Sossegai. Tendes, na verdade, um gênio, uns
espíritos... Que há de ser? Corre a
mais e mais a notícia dos vossos amores...
e o senhor D. Antônio, que é pai, e pai
severo...
Camões,
vivamente a D. Catarina.
-
Ameaça-vos?
D.
Catarina
-
Não; dá-me conselhos... bons conselhos,
meu Luís. Não vos quer mal, não
quer... Vamos lá; eu é que sou desatinada.
Mas passou. Dizei-nos lá esses versos de que
faláveis há pouco. Um epigrama, não
é? Há de ser tão bonito como
os outros... menos um.
Camões
-
Um?
D.
Catarina
-
Sim, o que fizestes a D. Guiomar de Blasfé.
Camões,
com desdém.
-
Que monta? Bem frouxos versos.
D.
Francisca
-
Não tanto; mas eram feitos a D. Guiomar, e
os piores versos deste mundo são os que se
fazem a outras damas. (A D. Catarina.) Acertei? (A
Camões.) Ora, andai, vou deixar-vos; dizei
o caso do vosso epigrama, não a mim, que já
o sei de cor, porém a ela que ainda não
sabe nada... E que foi que vos disse El-rei?
Camões
-
El-rei viu-me, e dignou-se chamar-me; fitou-me um
pouco a sua real vista, e disse com brandura: - "Tomara
eu, senhor poeta, que todos os duques vos faltem com
galinhas, por que assim nos alegrareis com versos
tão chistosos."
D. Francisca
-
Disse-vos isto? é um grande espiríto
El-rei!
D.
Catarina, a D. Francisca.
-
Não é? (A Camões.) E vós
que lhe dissestes?
Camões
-
Eu? nada... ou quase nada. Era tão inopinado
louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse
responder agora... agora que recobrei os espíritos...
dir-lhe-ia que há aqui (leva a mão à
fronte) alguma coisa mais do que simples versos de
desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica absorto um instante,
depois olha alternadamente para as duas damas, entre
as quais se acha.) Um sonho... às vezes cuido
conter cá dentro mais do que a minha vida e
o meu século... Sonhos... sonhos! A realidade
é que vós sois as duas mais lindas damas
da cristandade, e que o amor é a alma do universo!
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