TU,
SÓ TU, PURO AMOR
Machado de Assis
TU SÓ, TU, PURO AMOR,...
Tu
só, tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga...
Camões, Luz. III, II9.
ADVERTÊNCIA
A composição que ora se reimprime foi
escrita para as festas organizadas, nesta capital,
pelo Gabinete Português de Leitura, no tricentenário
de Camões, e representada no teatro de d. Pedro
II. O desfecho dos amores palacianos de Camões
e de d. Catarina de Athaíde é o objeto
da comédia, desfecho que deu lugar á
subsequente aventura de África, e mais tarde
á partida para a Índia, donde o poeta
devia regressar um dia com a imortalidade nas mãos.
Não pretendi fazer um quadro da corte de d.
João III, nem sei se o permitiam as proporções
mínimas do escrito e a urgência da ocasião.
Busquei, sim, haver-me de maneira que o poeta fosse
contemporâneo de seus amores, não lhe
dando feições épicas, e, por
assim dizer, póstumas.
Na Revista Brazileira, onde esta peçazinha
primeiro viu a luz, escrevi uma nota, que reproduzo,
acrescentando-lhe alguma coisa explicativa. Como na
cena primeira se trata da anedotas que motivou o epigrama
de Camões ao duque de Aveiro, disse eu ali
que, posto se lhe não possa fixar data, usaria
dela por me parecer um curioso rasgo de costumes.
E aduzi: "Engana-se, creio eu, o Sr. Teófilo
Braga, quando afirma que ela só podia ter ocorrido
depois do regresso de Camões a Lisboa, alegando,
para fundamentar essa opinião, que o título
de duque de Aveiro foi criado em 1557. Digo que se
engana o distinto escritor, porque eu encontro o duque
de Aveiro, cinco anos antes, 1552, indo receber, na
qualidade de embaixador, a princesa d. Joana, noiva
do príncipe d. João (Veja Mem. e Doc.
Anexos aos Anéis de d. João III, págs.
440 e 441); e, se Camões só em 1553
partiu para a Índia, não é impossível
que o epigrama e o caso que lhe deu origem fossem
anteriores."
Temos ambos razão, o Sr. Teófilo Braga
e eu. Com efeito, o ducado de Aveiro só foi
criado formalmente em 1557, mas o agraciado usava
o título desde muito antes, por mercê
de D. João III: é o que confirma a própria
carta régia de 30 de agosto daquele ano, textualmente
inserta na Hist. Geneal... de d. Antônio Caetano
de Souza, que cita em abono da assersão o testemunho
de Andrade, na Crônica d'el-rei d, João
III. Naquela mesmas obra se lê (liv. IV, cap.
V) que em 1551, na transladação dos
ossos d'el-rei D, Manuel estivera presente o duque
de Aveiro. Não é pois impossível
que a anedota ocorresse antes da primeira ausência
de Camões.
MACHADO DE ASSIS.
PERSONAGENS
CAMÕES
ANTÔNIO DE LIMA
CAMINHA
D. MANUEL DE PORTUGAL
D. CATARINA DE ATAÍDE
D. FRANCISCA DE ARAGÃO
CENA
PRIMEIRA.
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL
(-
Caminha vem do fundo, da esquerda; vai a entrar pela
porta da direita, quando lhe sai Manoel de Portugal,
a rir).
Caminha
-
Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos
El-rei alguma coisa graciosa, de certo...
D.
Manuel
-
Não; não foi El-rei. Adivinhai o que
seria, se é que o não sabeis já.
Caminha
-
Que foi?
D.
Manuel
-
Sabeis o caso da galinha do duque de Aveiro?
Caminha
-
Não.
D.
Manuel
-
Não sabeis ? - Pois é isto: uns versos
mui galantes do nosso Camões. (Caminha estremece
e faz um gesto de má vontade.) Uns versos como
ele os sabe fazer. (À parte.) Doe-lhe a noticia.
(Alto.) Mas, deveras não sabeis do encontro
de Camões com o duque de Aveiro?
Caminha
-
Não.
D.
Manuel
-
Foi o próprio duque que mo contou agora mesmo,
ao vir de estar com El-rei...
Caminha
-
Que houve então?
D.
Manuel
-
Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo,
o duque e o poeta...
Caminha,
com enfado.
-
O poeta! O poeta! Não é mais que engenhar
aí uns poucos versos, para ser logo poeta!
Desperdiçais o vosso entusiasmo, senhor D.
Manuel. Poeta é o nosso Sá, o meu grande
Sá! Mas, esse arruador, esse brigão
de horas mortas...
D.
Manuel
-
Parece-vos então...?
Caminha
-
Que esse moço tem algum engenho, muito menos
do que lhe diz a presunção dele e a
cegueira dos amigos; algum engenho não lhe
nego eu. Faz sonetos sofríveis. E canções...
Digo-vos que li uma ou duas, não de todo mal
alinhavadas. Pois então? Com boa vontade, mais
esforço, menos soberba, gastando as noites,
não a folgar pelas locandas de Lisboa, mas
a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vir
a ser...
D.
Manuel
-
Acabe.
Caminha
-
Está acabado: um poeta sofrível.
D.
Manuel
-
Deveras? Lembra-me que já isso mesmo lhe negastes.
Caminha,
sorrindo.
-
No meu epigrama, não? E nego-lho ainda agora,
se não fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso
o epigrama? Fi-lo por desenfado, não por ódio...
Dizei, que tal vos pareceu ele?
D.
Manuel
-
Injusto, mas gracioso.
Caminha
-
Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum
tempo supus que me desdenháveis. Não
era impossível que assim fosse. Intrigas da
corte dão azo a muita injustiça; mas
principalmente acreditei que fossem artes desse richoso...
Juro-vos que ele me tem ódio.
D.
Manuel
-
O Camões?
Caminha
-
Tem, tem...
D.
Manuel
-
Por quê?
Caminha
-
Não sei, mas tem. Adeus.
D.
Manuel
-
Ides-vos?
Caminha
-
Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante. (Corteja-o
e dirige-se para a porta da direita. D. Manuel dirige-se
para o fundo.)
D.
Manuel, andando.
Eu
já vi a taverneiro
vender vaca por carneiro...
Caminha,
volta-se.
-
Recitais versos?... São vossos?... Não
me negueis o gosto de os ouvir.
D.
Manuel
-
Meus não; são de Camões... (Repete,
descendo a cena.)
Eu
já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...
Caminha,
sarcástico.
-
De Camões?... Galantes são. Nem Virgílio
os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:
Eu
já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...
-
E depois vá, dizei-me o resto, que não
quero perder iguaria de tão fino sabor.
D.
Manuel
-
O duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na
igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe
uma galinha de sua mesa, mas só lhe mandou
um assado. Camões retorquiu-lhe com estes versos,
que o próprio duque me mostrou agora, a rir:
Eu
já vi a taverneiro,
Vender vaca por carneiro.
Mas não vi, por vida minha,
vender vaca por galinha,
senão ao duque de Aveiro.
-
Confessai, confessai senhor Caminha, vós que
sois poeta, confessai que há aí certo
pico, e uma simpleza de dizer... Não vale tanto
de certo como os sonetos dele, alguns dos quais são
sublimes, aquele por exemplo:
De
amor escrevo, de amor trato e vivo...
ou
este
Tanto
de meu estado me acho incerto...
-
Sabeis a continuação?
Caminha
-
Até lhe sei o fim:
Se
me pergunta alguém porque assim ando
respondo que não sei, porém suspeito
que só porque vos vi, minha senhora.
-
(Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora... Sabeis
vós, de certo, quem é esta senhora do
poeta, como eu o sei, como o sabem todos... Naturalmente
amam-se ainda muito?
D.
Manuel, à parte.
-
Que quererá ele?
Caminha
-
Amam-se por força.
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