O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
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Capítulo V
O Bibelot
Não era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena
já subira aquela larga escada de pedra, com grupos de mármores
de Lisboa de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da Piedade;
penetrara por aquele pórtico de colunas dóricas, atravessara
o átrio ladrilhado, deixando à esquerda e à
direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o angustioso mistério
da loucura; subira outra escada encerada cuidadosamente e fora ter
com o padrinho lá em cima, triste e absorvido no seu sonho
e na sua mania. Seu pai a trazia às vezes, aos domingos,
quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma.
Há quanto tempo estava ele ali? Ela não se lembrava
ao certo; uns três ou quatro meses, se tanto.
Só o nome da casa metia medo. O hospício! É
assim como uma sepultura em vida, um semi-enterramento, enterramento
do espírito, da razão condutora, de cuja ausência
os corpos raramente se ressentem. A saúde não depende
dela e há muitos que parecem até adquirir mais força
de vida, prolongar a existência, quando ela se evola não
se sabe por que orifício do corpo e para onde.
Com que terror, uma espécie de pavor de cousa sobrenatural,
espanto de inimigo invisível e onipresente, não ouvia
a gente pobre referir-se ao estabelecimento da praia das Saudades!
Antes uma boa morte, diziam.
No primeiro aspecto, não se compreendia bem esse pasmo, esse
espanto, esse terror do povo por aquela casa imensa, severa e grave,
meio hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janelas
gradeadas, a se estender por uns centos de metros, em face do mar
imenso e verde, lá na entrada da baía, na Praia das
Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos, pensativos, meditabundos,
como monges em recolhimento e prece.
De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e respeitável,
perdia-se logo a idéia popular da loucura; o escarcéu,
os trejeitos, as fúrias, o entrechoque de tolices ditas aqui
e ali.
Não havia nada disso; era uma calma, um silêncio, uma
ordem perfeitamente naturais. No fim, porém, quando se examinavam
bem, na sala de visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares
aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como
alheados e mergulhados em um sonho íntimo sem fim, e via-se
também a excitação de uns, mais viva em face
à atonia de outros, é que se sentia bem o horror da
loucura, o angustioso mistério que ela encerra, feito não
sei de que inexplicável fuga do espírito daquilo que
supõe o real, para se apossar e viver das aparências
das cousas ou de outras aparências das mesmas.
Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa
própria natureza fica amedrontado, sentindo que o germe daquilo
está depositado em nós e que por qualquer cousa ele
nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora
compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros
e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não
há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é
outro muito outro do que ele vem a ser após.
E essa mudança não começa, não se sente
quando começa e quase nunca acaba. Com o seu padrinho, como
fora? A princípio, aquele requerimento... Mas que era aquilo?
Um capricho, uma fantasia, cousa sem importância, uma idéia
de velho sem conseqüência. Depois, aquele ofício?
Não tinha importância, uma simples distração,
cousa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura declarada,
a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe
uma outra, que nos rebaixa... Enfim, a loucura declarada, a exaltação
do eu, a mania de não sair, de se dizer perseguido, de imaginar
como inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo!
A primeira fase do seu delírio, aquela agitação
desordenada, aquele falar sem nexo, sem acordo com que se realizava
fora dele e com os atos passados, um falar que não se sabia
donde vinha, donde saía, de que ponto do seu ser tomava conhecimento!
E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu um cataclismo,
que o fazia tremer todo, desde os pés à cabeça,
e enchia-o de indiferença para tudo mais que não fosse
o seu próprio delírio.
A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam à
matroca. Para ele, nada disso valia, nada disso tinha existência
e importância. Eram sombras, aparências; o real eram
os inimigos, os inimigos terríveis cujos nomes o seu delírio
não chegava a criar. A velha irmã, atarantada, atordoada,
sem direção, sem saber que alvitre tomar. Educada
em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o irmão,
ela não sabia lidar com o mundo, com negócios, com
as autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiência
e ternura de irmã, oscilava entre a crença de que
aquilo fosse verdade e a suspeita de que fosse loucura pura e simples.
Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude
pai) que se interessava, chamando a si os interesses da família
e evitando a demissão de que estava ameaçado, transformando-a
em aposentadoria, que seria dele? Como é fácil na
vida tudo ruir! Aquele homem pautado, regrado, honesto, com emprego
seguro, tinha uma aparência inabalável; entretanto
bastou um grãozinho de sandice...
Estava há uns meses no hospício, o seu padrinho, e
a irmã não o podia visitar. Era tal o seu abalo de
nervos, era tal a emoção ao vê-lo ali naquela
meia-prisão, decaído dele mesmo que um ataque se seguia
e não podia ser evitado.
Vinham ela e o pai, às vezes o pai só, algumas vezes
Ricardo, e eram só os três a visitá-lo.
Aquele domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo,
nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam
num céu de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava
nas calçadas.
O pai vinha lendo os jornais e ela, pensando, de quando em quando
folheando as revistas ilustradas que trazia para alegrar e distrair
o padrinho.
Ele estava como pensionista; mas, embora assim, no começo,
ela teve um certo pudor em se misturar com os visitantes.
Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar misérias;
recalcou porém, dentro de si, esse pensamento egoísta,
o seu orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em
destaque a sua elegância natural. Amava esses sacrifícios,
essas abnegações, tinha o sentimento da grandeza deles,
e ficou contente consigo mesma.
No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em
saltar no portão do manicômio. Como em todas as portas
dos nossos infernos sociais, havia de toda a gente, de várias
condições, nascimentos e fortunas. Não é
só a morte que nivela; a loucura, o crime e a moléstia
passam também a sua rasoura pelas distinções
que inventamos.
Os bem-vestidos e os mal-vestidos, os elegantes e os pobres, os
feios e os bonitos, os inteligentes e os néscios, entravam
com respeito, com concentração, com uma ponta de pavor
nos olhos como se penetrassem noutro mundo.
Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas,
fumo, meias, chinelas, às vezes livros e jornais. Dos doentes
uns conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num
mutismo feroz e inexplicável; outros indiferentes; e era
tal a variedade de aspectos dessas recepções que se
chegava a esquecer o império da doença sobre todos
aqueles infelizes, tanto ela variava neste ou naquele, para se pensar
em caprichos pessoais, em ditames das vontades livres de cada um.
E ela pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como
ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como
na variedade da vida a tristeza pode mais variar que a alegria e
como que dá o próprio movimento da vida.
Verificando isso, quase teve satisfação, pois a sua
natureza inteligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas
que seu espírito fazia.
Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delírio
parecia querer desaparecer completamente. Chocando-se com aquele
meio, houve logo nele uma reação salutar e necessária.
Estava doido, pois se o punham ali...
Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia
um sorriso de satisfação por baixo do bigode já
grisalho. Tinha emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um
pouco brancos, mas o aspecto geral era o mesmo. Não perdera
totalmente a mansuetude e a ternura no falar, mas quando a mania
lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado. Ao vê-los disse
amavelmente:
- Então vieram sempre... Estava à espera...
Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abraço na afilhada.
- Como está Adelaide?
- Bem. Mandou lembranças e não veio porque... adiantou
Coleoni.
- Coitada! disse ele, e pendeu a cabeça como se quisesse
afastar uma recordação triste; em seguida, perguntou:
- E o Ricardo?
A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço
e alegria. Via-o já escapo à semi-sepultura da insânia.
- Está bom, padrinho. Procurou papai há dias e disse
que a sua aposentadoria já está quase acabada.
Coleoni tinha-se sentado. Quaresma também e a moça
estava de pé, para melhor olhar o padrinho com os seus olhos
muito luminosos e firmes no encarar. Guardas, internos e médicos
passavam pelas portas com a indiferença profissional. Os
visitantes não se olhavam, pareciam que não queriam
conhecer-se na rua. Lá fora, era o dia lindo, os ares macios,
o mar infinito e melancólico, as montanhas a se recortar
num céu de seda - a beleza da natureza imponente e indecifrável.
Coleoni, embora mais assíduo nas visitas, notava as melhoras
do compadre com satisfação que errava na sua fisionomia,
num ligeiro sorriso. Num dado momento aventurou:
- O major já está muito melhor; quer sair?
Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu
firme e vagarosamente:
- É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incomodar-te
tanto, mas vocês que têm sido tão bons, hão
de levar tudo isso para conta da própria bondade. Quem tem
inimigos deve ter também bons amigos...
O pai e a filha entreolharam-se; o major levantou a cabeça
e parecia que as lágrimas queriam rebentar. A moça
interveio de pronto:
- Sabe, padrinho, vou casar-me.
- É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós
vínhamos preveni-lo.
- Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.
- É um rapaz...
- Decerto, interrompeu o padrinho sorrindo.
E os dous acompanharam-no com familiaridade e contentamento. Era
um bom sinal.
- É o Senhor Armando Borges, doutorando. Está satisfeito,
padrinho? fez Olga gentilmente.
- Então é para depois do fim do ano.
- Esperamos que seja por aí, disse o italiano.
- Gostas muito dele? indagou o padrinho.
Ela não sabia responder aquela pergunta. Queria sentir que
gostava, mas estava que não. E por que casava? Não
sabia... Um impulso do seu meio, uma cousa que não vinha
dela - não sabia... Gostava de outro? Também não.
Todos os rapazes que ela conhecia não possuíam relevo
que a ferisse, não tinham o "quê", ainda
indeterminado na sua emoção e na sua inteligência,
que a fascinasse ou subjugasse. Ela não sabia bem o que era,
não chegava e extremar na percepção das suas
inclinações a qualidade que ela queria ver dominante
no homem. Era o heróico, era o fora do comum, era a força
de projeção para as grandes cousas; mas nessa confusão
mental dos nossos primeiros anos, quando as idéias e os desejos
se entrelaçam e se embaralham, Olga não podia colher
e registrar esse anelo, esse modo de se lhe representar e de amar
o indivíduo masculino.
E tinha razão em se casar sem obedecer à sua concepção.
É tão difícil ver nitidamente num homem, de
vinte a trinta anos, o que ela sonhara que era bem possível
tomasse a nuvem por Juno... Casava por hábito de sociedade,
um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e aguçar
a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu sem
convicção ao padrinho:
- Gosto.
A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse
rápida, não convinha fatigar a atenção
do convalescente. Os dous saíram sem esconder que iam esperançados
e satisfeitos.
Na porta já havia alguns visitantes à espera do bonde.
Como não estivesse o veículo no ponto, foram indo
ao longo da fachada do manicômio até lá. Em
meio do caminho, encontraram, encostada ao gradil, uma velha preta
a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ela:
- Que tem, minha velha?
A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar, úmido
e doce, cheio de uma irremediável tristeza e respondeu:
- Ah, meu sinhô!... É triste... Um filho, tão
bom, coitado!
E continuou a chorar. Coleoni começou a comover-se; a filha
olhou-a com interesse e perguntou no fim de um instante:
- Morreu?
- Antes fosse, sinhazinha.
E por entre lágrimas e soluços contou que o filho
não a conhecia mais, não lhe respondia às perguntas;
era como um estranho. Enxugou as lágrimas e concluiu:
- Foi "cousa-feita".
Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquela humilde
dor.
O dia estava fresco e a viração, que começava
a soprar, enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão
de Açúcar erguia-se negro, hirto, solene, das ondas
espumejantes, e como que punha uma sombra no dia muito claro.
No Instituto dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada
do instrumento parecia sair daquelas cousas todas, da sua tristeza
e da sua solenidade.
O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca.
É bom ver-se a cidade nos dias de descanso, com as suas lojas
fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos ressoam
como em claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto,
faltam-lhe as carnes, que são a agitação, o
movimento de carros, de carroças e gente. Na porta de uma
loja ou outra, os filhos do negociante brincam em velocípedes,
atiram bolas e ainda mais se sente a diferença da cidade
no dia anterior.
Não havia o hábito de procurar os arrabaldes pitorescos
e só encontravam, por vezes, casais que iam apressadamente
a visitas, como eles agora. O Largo de São Francisco estava
silencioso e a estátua, no centro daquele pequeno jardim
que desapareceu, parecia um simples enfeite. Os bondes chegavam
preguiçosamente ao largo com poucos passageiros. Coleoni
e sua filha tomaram um que os levasse à casa de Quaresma.
Lá foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras
já apareciam nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes
charutos ou cigarros, grupos de caixeiros com flores estardalhantes;
meninas em cassas bem engomadas; cartolas antediluvianas ao lado
de vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos fartos
de matronas sedentárias; e o domingo aparecia assim decorado
com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostentação
dos tolos.
Dona Adelaide não estava só. Ricardo viera visitá-la
e conversavam. Quando o compadre de seu irmão bateu no portão,
ele contava à velha senhora o seu último triunfo:
- Não sei como há de ser, Dona Adelaide. Eu não
guardo as minhas músicas, não escrevo - é um
inferno!
O caso era de pôr um autor em maus lençóis.
O Senhor Paysandón, de Córdova (República Argentina),
autor muito conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito, pedindo
exemplares de suas músicas e canções. Ricardo
estava atrapalhado. Tinha os versos escritos, mas a música
não. É verdade que as sabia de cor, porém,
escrevê-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua
força.
- É o diabo! continuou ele. Não é por mim;
a questão é que se perde uma ocasião de fazer
o Brasil conhecido no estrangeiro.
A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse
pelo violão. A sua educação que se fizera,
vendo semelhante instrumento entregue a escravos ou gente parecida,
não podia admitir que ele preocupasse a atenção
de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, suportava a mania
de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta
de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima
pela dedicação com que ele se houve no seu drama familiar.
Os pequenos serviçais e trabalhos, os passos para ali e para
aqui, ficaram a cargo de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade
e diligência.
Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu
antigo discípulo. É um trabalho árduo, esse
de liquidar uma aposentadoria, como se diz na gíria burocrática.
Aposentado o sujeito, solenemente por um decreto, a cousa corre
uma dezena de repartições e funcionários para
ser ultimada. Nada há mais grave do que a gravidade com que
o empregado nos diz: ainda estou fazendo o cálculo; e a cousa
demora um mês, mais até, como se se tratasse de mecânica
celeste.
Coleoni era o procurador do major, mas não sendo entendido
em cousas oficiais, entregou ao Coração dos Outros
aquela parte do seu mandato.
Graças à popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza,
vencera a resistência da máquina burocrática
e a liquidação estava anunciada para breve.
Foi isso que ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido
da filha. Pediram, tanto ele como Dona Adelaide, notícias
do amigo e do irmão.
A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise
não o ficou compreendendo melhor; mas o sentira profundamente
com o sentimento simples de irmã e desejava ardentemente
a sua cura.
Ricardo Coração dos Outros gostava do major, encontrara
nele certo apoio moral e intelectual de que precisava. Os outros
gostavam de ouvir o seu canto, apreciavam como simples diletantes;
mas o major era o único que ia ao fundo da sua tentativa
e compreendia o alcance patriótico de sua obra.
De resto, ele agora sofria particularmente - sofria na sua glória,
produto de um lento e seguido trabalho de anos. É que aparecera
um crioulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar
força e já era citado ao lado do seu.
Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito
ser preto; e segundo: por causa das suas teorias.
Não é que ele tivesse ojeriza particular aos pretos.
O que ele via no fato de haver um preto famoso tocar violão,
era que tal coisa ia diminuir ainda mais o prestígio do instrumento.
Se o seu rival tocasse piano e por isso ficasse célebre,
não havia mal algum; ao contrário: o talento do rapaz
levantava a sua pessoa, por intermédio do instrumento considerado;
mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe
cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso violão que ele
tanto estimava. E além disso com aquelas teorias! Ora! Quer
que a modinha diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!
E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim
diante dele como um obstáculo imprevisto na subida maravilhosa
para a sua glória. Precisava afastá-lo, esmagá-lo,
mostrar a sua superioridade indiscutível; mas como?
A réclame já não bastava; o rival a empregava
também. Se ele tivesse um homem notável, um grande
literato, que escrevesse um artigo sobre ele e a sua obra, a vitória
estava certa. Era difícil encontrar. Esses nossos literatos
eram tão tolos e viviam tão absorvidos em cousas francesas...
Pensou num jornal, O Violão, em que ele desafiasse o rival
e o esmagasse numa polêmica.
Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma,
atualmente recolhido ao hospício, mas felizmente em via de
cura. A sua alegria foi justamente grande quando soube que o amigo
estava melhor.
- Não pude ir hoje, disse ele, mas irei domingo. Está
mais gordo?
- Pouca cousa, disse a moça.
- Conversou bem, acrescentou Coleoni. Até ficou contente
quando soube que Olga ia casar-se.
- Vai casar-se, Dona Olga? Parabéns.
- Obrigada, fez ela.
- Quando é, Olga? perguntou Dona Adelaide.
- Lá para o fim do ano... Tem tempo...
E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações
sobre o casamento.
E ela se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considerações,
impudentes e irritantes; queria fugir à conversa, mas voltavam
ao mesmo assunto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide,
mais loquaz e curiosa que comumente. Esse suplício que se
repetia em todas as visitas, quase a fazia arrepender-se de ter
aceitado o pedido. Por fim, achou um subterfúgio, perguntando:
- Como vai o general?
- Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Ele deve
andar bem, a Ismênia é que anda triste, desolada -
coitadinha!
Dona Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina
alma da filha do general. Cavalcanti, aquele Jacó de cinco
anos, embarcara para o interior, há três ou quatro
meses, e não mandara nem uma carta nem um cartão.
A menina tinha aquilo como um rompimento; e ela, tão incapaz
de um sentimento mais profundo, de uma aplicação mais
séria de energia mental e física, sentia-o muito,
como cousa irremediável que absorvia toda a sua atenção.
Para Ismênia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem
deixado de existir. Arranjar outro era problema insolúvel,
era trabalho acima de suas forças. Cousa difícil!
Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos, dançar, ir a passeios
- ela não podia mais com isso. Decididamente, estava condenada
a não se casar, a ser tia, a suportar durante toda a existência
esse estado de solteira que a apavorava. Quase não se lembrava
das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do
seu nariz duro e fortemente ósseo; independente da memória
dele, vinha-lhe sempre à consciência, quando, de manhã,
o estafeta não lhe entregava carta, essa outra idéia:
não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o Genelício
já estava tratando dos papéis; e ela que esperara
tanto, e fora a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada
diante de todas. Parecia até que ambos estavam contentes
com aquela fuga inexplicável de Cavalcanti. Como eles se
riam durante o carnaval! Como eles atiraram aos seus olhos aquela
sua viuvez prematura, durante os folguedos carnavalescos! Punham
tanta fúria no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar
bem claro a felicidade de ambos, aquela marcha gloriosa e invejada
para o casamento, em face do seu abandono.
Ela disfarçava bem a impressão da alegria deles que
lhe parecia indecente e hostil; mas o escárnio da irmã
que lhe dizia constantemente: "Brinca, Ismênia! Ele está
longe, vai aproveitando" - metia-lhe raiva, a raiva terrível
de gente fraca, que corrói interiormente, por não
poder arrebentar de qualquer forma.
Então, para espantar os maus pensamentos, ela se punha a
olhar o aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores,
e as serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia
bem à sua natureza pobre, comprimida, eram os cordões,
aquele ruído de atabaques e adufes, de tambores e pratos.
Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como
que a idéia que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida
de lhe entrar na cabeça.
De resto, aqueles vestuários extravagantes de índios,
aqueles adornos de uma mitologia francamente selvagem, jacarés,
cobras, jabutis, vivos, bem vivos, traziam à pobreza de sua
imaginação imagens risonhas de rios claros, florestas
imensas, lugares de sossego e pureza que a reconfortavam.
Também aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro
e de uma grande indigência melódica, vinham como reprimir
a mágoa que ia nela, abafada, comprimida, contida, que pedia
uma explosão de gritos, mas para o que não lhe sobrava
força bastante e suficiente.
O noivo partira um mês antes do carnaval e depois do grande
festejo carioca a sua tortura foi maior. Sem hábitos de leitura
e de conversa, sem atividade doméstica qualquer, ela passava
os dias deitada, sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento:
não casar. Era-lhe doce chorar.
Nas horas da entrega da correspondência, tinha ainda uma alegre
esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e voltava
ao seu pensamento: não casar.
Dona Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ismênia,
comentou:
- Merecia um castigo isso, não acham?
Coleoni interveio com brandura e boa vontade:
- Não há razão para desesperar. Há muita
gente que tem preguiça de escrever...
- Qual! fez Dona Adelaide. Há três meses, Senhor Vicente!
- Não volta, disse Ricardo sentenciosamente.
- E ela ainda o espera, Dona Adelaide? perguntou Olga.
- Não sei, minha filha. Ninguém entende essa moça.
Fala pouco, se fala diz meias palavras... É mesmo uma natureza
que parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas não
fala.
- É orgulho? perguntou ainda Olga.
- Não, não... Se fosse orgulho, ela não se
referia de vez em quando ao noivo. É antes moleza, preguiça...
parece que ela tem medo de falar para que as cousas não venham
a acontecer.
- E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni.
- Não sei bem. Mas pelo que pude perceber, o incômodo
do general não é grande e Dona Maricota julga que
ela deve arranjar "outro".
- Era o melhor, disse Ricardo.
- Eu creio que ela não tem mais prática, disse sorrindo
Dona Adelaide. Levou tanto tempo noiva...
E a conversa já tinha virado para outros assuntos, quando
a Ismênia veio fazer a sua visita diária à irmã
de Quaresma.
Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. O sofrimento
dava-lhe mais atividade à fisionomia.
As pálpebras estavam roxas e até os seus pequenos
olhos pardos tinham mais brilho e expansão. Indagou da saúde
de Quaresma e depois calaram-se um instante. Por fim Dona Adelaide
lhe perguntou:
- Recebeste carta, Ismênia?
- Ainda não, respondeu ela, com grande economia de voz.
Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque,
veio atirar ao chão uma figurinha de biscuit, que se esfacelou
em inúmeros fragmentos, quase sem ruído.
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