O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
 |
 |
Capítulo IV
Desastrosas Conseqüências de um Requerimento
Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em
torno da mesa de solo, na tarde memorável da festa comemorativa
do pedido de casamento de Ismênia, se tinham desenrolado com
rapidez fulminante. A força de idéias e sentimentos
contidos em Quaresma se havia revelado em atos imprevistos com uma
seqüência brusca e uma velocidade de turbilhão.
O primeiro fato surpreendeu, mas vieram outros e outros, de forma
que o que pareceu no começo uma extravagância, uma
pequena mania, se apresentou logo em insânia declarada.
Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se
a sessão da Câmara, o secretário teve que proceder
à leitura de um requerimento singular e que veio a ter uma
fortuna de publicidade e comentário pouco usual em documentos
de tal natureza.
O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensável
ao elevado trabalho de legislar não permitiram que os deputados
o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam próximo
à Mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente
inconvenientes à majestade do lugar. O riso é contagioso.
O secretário, no meio da leitura, ria-se, discretamente;
pelo fim, já ria-se o presidente, ria-se o oficial da ata,
ria-se o contínuo - toda a Mesa e aquela população
que a cerca riram-se da petição, largamente, querendo
sempre conter o riso, havendo em alguns tão fraca alegria
que as lágrimas vieram.
Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço,
de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir
uma penosa tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo diante dela.
Merecia raiva, ódio, um deboche de inimigo talvez, o documento
que chegava à Mesa da Câmara, mas não aquele
recebimento hilárico, de uma hilaridade inocente, sem fundo
algum, assim como se se estivesse a rir de uma palhaçada,
de uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown.
Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só
viam nele um motivo para riso franco e sem maldade. A sessão
daquele dia fora fria; e, por ser assim, as seções
dos jornais referentes à Câmara, no dia seguinte, publicaram
o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.
Era assim concebida a petição:
"Policarpo
Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público,
certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil;
certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever
em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante
contingência de sofrer continuamente censuras ásperas
dos proprietários da língua; sabendo, além,
que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com
especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante
à correção gramatical, vendo-se, diariamente,
surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos
do nosso idioma - usando do direito que lhe confere a Constituição,
vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua
oficial e nacional do povo brasileiro.
O suplicante, deixando de parte os argumentos históricos
que militam em favor de sua idéia, pede vênia para
lembrar que a língua é a mais alta manifestação
da inteligência de um povo, é a sua criação
mais viva e original; e, portanto, a emancipação política
do país requer como complemento e conseqüência
a sua emancipação idiomática.
Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima,
aglutinante, é a única capaz de traduzir as nossas
belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza
e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais
e cerebrais, por ser criação de povos que aqui viveram
e ainda vivem, portanto possuidores da organização
fisiológica e psicológica para que tendemos, evitando-se
dessa forma as estéreis controvérsias gramaticais,
oriundas de uma difícil adaptação de uma língua
de outra região à nossa organização
cerebral e ao nosso aparelho vocal - controvérsias que tanto
empecem o progresso da nossa cultura científica e filosófica.
Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar
meios para realizar semelhante medida e cônscio de que a Câmara
e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade
P. e E. deferimento."
Assinado e devidamente
estampilhado, este requerimento do major foi durante dias assunto
de todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com comentários
facetos, não havia quem não fizesse uma pilhéria
sobre ele, quem não ensaiasse um espírito à
custa da lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso;
a curiosidade malsã quis mais. Indagou-se quem era, de que
vivia, se era casado, se era solteiro. Uma ilustração
semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na rua.
Os pequenos jornais alegres, esses semanários de espírito
e troça, então! eram de um encarniçamento atroz
com o pobre major. Com uma abundância que marcava a felicidade
dos redatores em terem encontrado um assunto fácil, o texto
vinha cheio dele: o Major Quaresma disse isso; o Major Quaresma
fez aquilo.
Um deles, além de outras referências, ocupou uma página
inteira com o assunto da semana. Intitulava-se a ilustração:
"O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma",
e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar
para o choupo que se via à esquerda. Um outro referia-se
ao caso pintando um açougue, "O açougue Quaresma";
legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro:
- O senhor tem língua de vaca?
O açougueiro respondia: - Não, só temos língua
de moça, quer?
Com mais ou menos espírito, os comentários não
cessavam e a ausência de relações de Quaresma
no meio de que saíam fazia com que fossem de uma constância
pouco habitual. Levaram duas semanas com o nome do subsecretário.
Tudo isso irritava profundamente Quaresma. Vivendo há trinta
anos quase só, sem se chocar com o mundo, adquirira uma sensibilidade
muito viva e capaz de sofrer profundamente com a menor cousa. Nunca
sofrera críticas, nunca se atirou à publicidade, vivia
imerso no seu sonho, incubado e mantido vivo pelo calor dos seus
livros. Fora deles, ele não conhecia ninguém; e, com
as pessoas com quem falava, trocava pequenas banalidades, ditos
de todo o dia, cousas com que a sua alma e o seu coração
nada tinham de ver.
Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse
mais que a todos.
Esse encerramento em si mesmo deu-lhe não sei que ar de estranho
a tudo, às competições, às ambições,
pois nada dessas cousas que fazem os ódios e as lutas tinha
entrado no seu temperamento.
Desinteressado de dinheiro, de glória e posição,
vivendo numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d'alma
que vão habitar esses homens de uma idéia fixa, os
grandes estudiosos, os sábios, e os inventores, gente que
fica mais terna, mais ingênua, mais inocente que as donzelas
das poesias de outras épocas.
É raro encontrar homens assim, mas os há e, quando
se os encontra, mesmo tocados de um grão de loucura, a gente
sente mais simpatia pela nossa espécie, mais orgulho de ser
homem e mais esperança na felicidade da raça.
A continuidade das troças feitas nos jornais, a maneira com
que o olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nele
a sua idéia. À medida que engolia uma troça,
uma pilhéria, vinha-lhe meditar sobre a sua lembrança,
pesar-lhe todos os aspectos, examiná-la detidamente, compará-la
a cousas semelhantes, recordar os autores e autoridades; e, à
proporção que fazia isso, a sua própria convicção
mostrava a inanidade da crítica, a ligeireza da pilhéria,
e a idéia o tomava, o avassalava, o absorvia cada vez mais.
Se os jornais tinham recebido o requerimento com facécias
de fundo inofensivo e sem ódio, a repartição
ficou furiosa. Nos meios burocráticos, uma superioridade
que nasce fora deles, que é feita e organizada com outros
materiais que não os ofícios, a sabença de
textos de regulamentos e a boa caligrafia, é recebida com
a hostilidade de uma pequena inveja.
É como se se visse no portador da superioridade um traidor
à mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não há
só uma questão de promoção, de interesse
pecuniário; há uma questão de amor-próprio,
de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé
como eles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, às
olhadelas superiores dos ministros, com mais títulos à
consideração, com algum direito a infringir as regras
e os preceitos.
Olha-se para ele com o ódio dissimulado com que o assassino
plebeu olha para o assassino marquês que matou a mulher e
o amante. Ambos são assassinos, mas, mesmo na prisão,
ainda o nobre e o burguês trazem o ar do seu mundo, um resto
da sua delicadeza e uma inadaptação que ferem o seu
humilde colega de desgraça.
Assim, quando surge numa secretaria alguém cujo nome não
lembra sempre o título de sua nomeação, aparecem
as pequeninas perfídias, as maledicências ditas ao
ouvido, as indiretas, todo o arsenal do ciúme invejoso de
uma mulher que se convenceu de que a vizinha se veste melhor do
que ela.
Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem célebres
nas informações, na redação, na assiduidade
ao trabalho, mesmo os doutores, os bacharéis, do que os que
têm nomeada e fama. Em geral, a incompreensão da obra
ou do mérito do colega é total e nenhum deles se pode
capacitar que aquele tipo, aquele amanuense, como eles, faça
qualquer cousa que interesse os estranhos e dê que falar a
uma cidade inteira.
A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada efêmera
irritaram os seus colegas e superiores. Já se viu! dizia
o secretário. Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor
alguma cousa! Pretensioso! O diretor, ao passar pela secretaria,
olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento não cogitasse
do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista era o
menos terrível, mas chamou-o logo de doido.
O major sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alusões
e isso mais aumentava o seu desespero e a teimosia na sua idéia.
Não compreendia que o seu requerimento suscitasse tantas
tempestades, essa má vontade geral; era uma cousa inocente,
uma lembrança patriótica que merecia e devia ter o
assentimento de todo o mundo; e meditava, voltava à idéia,
e a examinava com mais atenção.
A extensa publicidade, que o fato tomou, atingiu o palacete de Real
Grandeza, onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros
das empreitadas de construções de prédios,
viúvo, o antigo quitandeiro retirara-se dos negócios
e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo edificara e tinha
todos os remates arquitetônicos do seu gosto predileto: compoteiras
na cimalha, um imenso monograma sobre a porta da entrada, dous cães
de louça, nos pilares do portão da entrada e outros
detalhes equivalentes.
A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um porão
alto, tinha um razoável jardim na frente, que avançava
pelos lados, pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro,
onde pelo calor os pássaros morriam tristemente. Era uma
instalação burguesa, no gosto nacional, vistosa, cara,
pouco de acordo com o clima e sem conforto.
No interior o capricho dominava, tudo obedecendo a uma fantasia
barroca, a um ecletismo desesperador. Os móveis se amontoavam,
os tapetes, as sanefas, os bibelots e a fantasia da filha, irregular
e indisciplinada, ainda trazia mais desordem àquela coleção
de cousas caras.
Viúvo, havia já alguns anos, era uma velha cunhada
quem dirigia a casa e a filha, quem o encaminhava nas distrações
e nas festas. Coleoni aceitava de bom coração esta
doce tirania. Queria casar a filha, bem e ao gosto dela, não
punha, portanto, nenhum obstáculo ao programa de Olga.
Em começo, pensou em dá-la a seu ajudante ou contramestre,
uma espécie de arquiteto que não desenhava, mas projetava
casas e grandes edifícios. Primeiro sondou a filha. Não
encontrou resistência, mas não encontrou também
assentimento. Convenceu-se de que aquela vaporosidade da menina,
aquele seu ar distante de heroína, a sua inteligência,
o seu fantástico não se dariam bem com as rudezas
e a simplicidade campônias de seu auxiliar.
Ela quer um doutor - pensava ele - que arranje! Com certeza, não
terá ceitil, mas eu tenho e as cousas se acomodam.
Ele se havia habituado a ver no doutor nacional, o marquês
ou o barão de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza;
lá, é visconde; aqui, é doutor, bacharel ou
dentista; e julgou muito aceitável comprar a satisfação
de enobrecer a filha com umas meias dúzias de contos de réis.
Havia momentos que se aborrecia um tanto com os propósitos
da menina. Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites
no Lírico, nos bailes; amando estar sentado em chinelas a
fumar cachimbo, era obrigado a andar horas e horas pelas ruas, saltitando
de casa em casa de modas atrás da filha, para no fim do dia
ter comprado meio metro de fita, uns grampos e um frasco de perfume.
Era engraçado vê-lo nas lojas de fazendas cheio de
complacência de pai que quer enobrecer o filho, a dar opinião
sobre o tecido, achar este mais bonito, comparar um com outro, com
uma falta de sentimento daquelas cousas que se adivinhava até
no pagá-las. Mas ele ia, demorava-se e esforçava-se
por entrar no segredo, no mistério, cheio de tenacidade e
candura perfeitamente paternais.
Até aí ele ia bem e calcava a contrariedade. Só
o contrariavam bastante as visitas, as colegas da filha, suas irmãs,
com seus modos de falsa nobreza, os seus desdéns dissimulados,
deixando perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante
da sociedade das amigas e das colegas de Olga.
Não se aborrecia, porém, muito profundamente; ele
assim o quisera e a fizera, tinha que se conformar. Quase sempre,
quando chegavam tais visitas, Coleoni afastava-se, ia para o interior
da casa. Entretanto, não lhe era sempre possível fazer
isso; nas grandes festas e recepções tinha que estar
presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta nobreza
da terra que o freqüentava. Ele ficara sempre empreiteiro,
com poucas idéias além do seu ofício, não
sabendo fingir, de modo que não se interessava por aquelas
tagarelices de casamentos, de bailes de festas e passeios caros.
Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava
e sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que
fazia parte o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas não
foi isso que o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos - uma
ninharia! A questão, porém, é que Pacheco jogava
com seis cartas. A primeira vez que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe
simples distração do distinto jornalista e famoso
advogado. Um homem honesto não ia fazer aquilo! E na segunda,
seria também? E na terceira?
Não era possível tanta distração. Adquiriu
a certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade
não esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando
vieram a jogar outra vez e o passe foi posto em prática,
Vicente acendeu o charuto e observou com a maior naturalidade deste
mundo:
- Os senhores sabem que há agora, na Europa, um novo sistema
de jogar o poker?
- Qual é? perguntou alguém.
- A diferença é pequena: joga-se com seis cartas,
isto é, um dos parceiros, somente.
Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar, e a ganhar,
despediu-se à meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns
comentários sobre a partida e não voltou mais.
Conforme o seu velho hábito, Coleoni lia de manhã
os jornais, com o vagar e a lentidão de homem pouco habituado
à leitura, quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre
do Arsenal.
Ele não compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam
tanta troça, caíam tão a fundo sobre a cousa,
que imaginou o seu antigo benfeitor enleado numa meada criminosa,
tendo praticado, por inadvertência, alguma falta grave.
Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda
tinha, mas daí quem sabe? Na última vez que o visitou
ele não veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilhéria...
Apesar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro
compadre. Havia nele não só a gratidão de camponês
que recebeu um grande benefício, como um duplo respeito pelo
major, oriundo da sua qualidade de funcionário e de sábio.
Europeu, de origem humilde e aldeã, guardava no fundo de
si aquele sagrado respeito dos camponeses pelos homens que recebem
a investidura do Estado; e, como, apesar dos bastos anos de Brasil,
ainda não sabia juntar o saber aos títulos, tinha
em grande consideração a erudição do
compadre.
Não é, pois, de estranhar que ele visse com mágoa
o nome de Quaresma envolvido em fatos que os jornais reprovavam.
Leu de novo o requerimento, mas não entendeu o que ele queria
dizer. Chamou a filha.
- Olga!
Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava
português, punha nas palavras uma rouquidão singular,
e salpicava as frases de exclamações e pequenas expressões
italianas.
- Olga, que quer dizer isto? Non capisco...
A moça sentou-se a uma cadeira próxima e leu no jornal
o requerimento e os comentários.
- Che! Então?
- O padrinho quer substituir o português pela língua
tupi, entende o senhor?
- Como?
- Hoje, nós não falamos português? Pois bem:
ele quer que daqui em diante falemos tupi.
- Tutti?
- Todos os brasileiros, todos.
- Ma che cousa! Não é possível?
- Pode ser. Os tchecos têm uma língua própria,
e foram obrigados a falar alemão, depois de conquistados
pelos austríacos; os lorenos, franceses...
- Per la madonna! Alemão é língua, agora esse
acujelê, ecco!
- Acujelê é da África, papai; tupi é
daqui.
- Per Bacco! É o mesmo... Está doido!
- Mas não há loucura alguma, papai.
- Como? Então é cousa de um homem bene?
- De juízo, talvez não seja; mas de doido, também
não.
- Non capisco.
- É uma idéia, meu pai, é um plano, talvez
à primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas não
de todo doido. É ousado, talvez, mas...
Por mais que quisesse, ela não podia julgar o ato do padrinho
sob o critério de seu pai. Neste falava o bom senso e nela
o amor às grandes cousas, aos arrojos e cometidos ousados.
Lembrou-se de que Quaresma lhe falara em emancipação;
e se houve no fundo de si um sentimento que não fosse de
admiração pelo atrevimento do major, não foi
decerto o de reprovação ou lástima; foi de
piedade simpática por ver mal compreendido o ato daquele
homem que ela conhecia há tantos anos, seguindo o seu sonho,
isolado, obscuro e tenaz.
- Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.
E ele tinha razão. A sentença do arquivista foi vencedora
nas discussões dos corredores e a suspeita de que Quaresma
estivesse doido foi tomando foros de certeza. Em princípio,
o subsecretário suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado
que o supunham insciente no tupi, irritou-se, encheu-se de uma raiva
surda, que se continha dificilmente. Como eram cegos! Ele que há
trinta anos estudava o Brasil minuciosamente; ele que, em virtude
desses estudos, fora obrigado a aprender o rebarbativo alemão,
não saber tupi, a língua brasileira, a única
que o era - que suspeita miserável!
Que o julgassem doido - vá! Mas que desconfiassem da sinceridade
de suas afirmações, não! E ele pensava, procurava
meios de se reabilitar, caía em distrações,
mesmo escrevendo e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em
dous: uma parte nas obrigações de todo o dia, e a
outra, na preocupação de provar que sabia o tupi.
O secretário veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo
as vezes. O expediente fora grande e ele mesmo redigira e copiara
uma parte. Tinha começado a passar a limpo um ofício
sobre cousas de Mato Grosso, onde se falava em Aquidauana e Ponta-Porã,
quando o Carmo disse lá do fundo da sala, com acento escarninho:
- Homero, isto de saber é uma cousa, dizer é outra.
Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em
tupi que se encontravam na minuta, fosse pela alusão do funcionário
Carmo, o certo é que ele insensivelmente foi traduzindo a
peça oficial para o idioma indígena.
Ao acabar, deu com a distração, mas logo vieram outros
empregados com o trabalho que fizeram, para que ele examinasse.
Novas preocupações afastaram a primeira, esqueceu-se
e o ofício em tupi seguiu com os companheiros. O diretor
não reparou, assinou e o tupinambá foi dar ao ministério.
Não se imagina o reboliço que tal cousa foi causar
lá. Que língua era? Consultou-se o Doutor Rocha, o
homem mais hábil da secretaria, a respeito do assunto. O
funcionário limpou o pince-nez, agarrou o papel, voltou-o
de trás para diante, pô-lo de pernas para o ar e concluiu
que era grego, por causa do "yy".
O Doutor Rocha tinha na secretaria a fama de sábio, porque
era bacharel em direito e não dizia cousa alguma.
- Mas, indagou o chefe, oficialmente as autoridades se podem comunicar
em línguas estrangeiras? Creio que há um aviso de
84... Veja, senhor Doutor Rocha...
Consultaram-se todos os regulamentos e repertórios de legislação,
andou-se de mesa em mesa pedindo auxílio à memória
de cada um e nada se encontrara a respeito. Enfim, o Doutor Rocha,
após três dias de meditação, foi ao chefe
e disse com ênfase e segurança:
- O aviso de 84 trata de ortografia.
O diretor olhou o subalterno com admiração e mais
ficou considerando as suas qualidades de empregado zeloso, inteligente
e... assíduo. Foi informado de que a legislação
era omissa no tocante à língua em que deviam ser escritos
os documentos oficiais; entretanto não parecia regular usar
uma que não fosse a do país.
O ministro, tendo em vista esta informação e várias
outras consultas, devolveu o ofício e censurou o Arsenal.
Que manhã foi essa no Arsenal! Os tímpanos soavam
furiosamente, os contínuos andavam numa dobadoura terrível
e a toda hora perguntavam pelo secretário que tardava em
chegar.
Censurado! monologava o diretor. Ia-se por água abaixo o
seu generalato. Viver tantos anos a sonhar com aquelas estrelas
e elas se escapavam assim, talvez por causa da molecagem de um escriturário!
Ainda se a situação mudasse... Mas qual!
O secretário chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado
do motivo, examinou o ofício e pela letra conheceu que fora
Quaresma quem o escrevera. Mande-o cá, disse o coronel. O
major encaminhou-se pensando nuns versos tupis que lera de manhã.
- Então o senhor leva a divertir-se comigo, não é?
- Como? fez Quaresma espantado.
- Quem escreveu isso?
O major nem quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distração
e confessou com firmeza:
- Fui eu.
- Então confessa?
- Pois não. Mas Vossa Excelência não sabe...
- Não sabe! que diz?
O diretor levantou-se da cadeira, com os lábios brancos e
a mão levantada à altura da cabeça. Tinha sido
ofendido três vezes: na sua honra individual, na honra de
sua casta e na do estabelecimento de ensino que freqüentara,
a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento científico
do mundo. Além disso escrevera no Pritaneu, a revista da
escola, um conto - "A Saudade" - produção
muito elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames
plenamente e distinção, uma dupla coroa de sábio
e artista cingia-lhe a fronte. Tantos títulos valiosos e
raros de se encontrarem reunidos, mesmo em Descartes ou Shakespeare,
transformavam aquele - não sabe - de um amanuense em ofensa
profunda, em injúria.
- Não sabe! Como é que o senhor ousa dizer-me isto!
Tem o senhor porventura o curso de Benjamim Constant? Sabe o senhor
Matemática, Astronomia, Física, Química, Sociologia
e Moral? Como ousa então? Pois o senhor pensa que por ter
lido uns romances e saber um francesinho aí, pode ombrear-se
com quem tirou grau 9 em Cálculo, 10 em Mecânica, 8
em Astronomia, 10 em Hidráulica, 9 em Descritiva? Então?!
E o homem sacudia furiosamente a mão e olhava ferozmente
para Quaresma que já se julgava fuzilado.
- Mas, senhor coronel...
- Não tem mas, não tem nada! Considere-se suspenso,
até segunda ordem.
Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fora seu propósito
duvidar da sabedoria do seu diretor. Ele não tinha nenhuma
pretensão a sábio e pronunciara a frase para começar
a desculpa; mas, quando viu aquela enxurrada de saber, de títulos,
a sobrenadar em águas tão furiosas, perdeu o fio do
pensamento, a fala, as idéias e nada mais soube nem pôde
dizer.
Saiu abatido, como um criminoso, do gabinete do coronel, que não
deixava de olhá-lo furiosamente, indignadamente, ferozmente,
como quem foi ferido em todas as fibras do seu ser. Saiu afinal.
Chegando à sala do trabalho nada disse; pegou no chapéu,
na bengala e atirou-se pela porta afora, cambaleando como um bêbado.
Deu umas voltas, foi ao livreiro buscar uns livros. Quando ia tomar
o bonde encontrou o Ricardo Coração dos Outros.
- Cedo, hein major?
- É verdade.
E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito.
Ricardo avançou algumas palavras:
- O major, hoje, parece que tem uma idéia, um pensamento
muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros,
cava abismos entre os homens...
E os dous separaram-se. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado
a Rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as calças dobradas
nas canelas, sobraçando o violão na sua armadura de
camurça.
|