Tratado da Terra do Brasil
Pêro de Magalhães Gândavo
CAPÍTULO VII
DA
CONDIÇAO E COSTUMES DOS INDIOS DA TERRA
Não se
pode numerar nem comprender a multidão de barbaro gentio
que semeou a natureza por toda esta
terra do Brasil; porque ninguém pode pelo sertão dentro
caminhar seguro, nem passar por terra onde não
acha povoações de indios armados contra todas as nações
humanas, e assi como são muitos permitiu
Deos que fossem contrarios huns dos outros, e que houvesse entrelles
grandes odios e discordias, porque
se assi não fosse os portuguezes não poderião
viver na terra nem seria possivel conquistar tamanho poder
de gente.
Havia muitos
destes indios pela Costa junto das Capitanias, tudo enfim estava
cheio delles quando
começarão os portuguezes a povoar a terra; mas porque
os mesmos indios se alevantarão contra elles e
fazião-lhes muitas treições, os governadores
e capitães da terra destruirão-nos pouco a pouco e
matarão
muitos delles, outros fugirão pera o Sertão, e assi
ficou a costa despovoada de gentio ao longo das
Capitanias. Junto dellas ficarão alguns indios destes nas
aldêas que são de paz, e amigos dos portugueses.
A lingua deste
gentio toda pela Costa he, huma: carece de tres letras -scilicet,
não se acha nella F, nem
L, nem R, cousa digna de espanto, porque assi não têm
Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem
sem Justiça e desordenadamente.
Estes indios
andão nús sem cobertura alguma, assi machos como femeas;
não cobrem parte nenhuma de
seu corpo, e trazem descoberto quanto a natureza lhes deu. Vivem
todos em aldêas, póde haver em cada
huma sete, oito casas, as quaes são compridas feitas a maneira
de cordoarias; e cada huma dellas está
cheia de gente duma parte e doutra, e cada hum por si tem sua estancia
e sua rede armada em que
dorme, e assi estão todos juntos huns dos outros por ordem,
e pelo meio da casa fica hum caminho
aberto pera se servirem. Não ha como digo entre elles nenhum
Rei, nem Justiça, sómente em cada aldêa
tem hum principal que he como capitão, ao qual obedecem por
vontade e não por força; morrendo este
principal fica seu filho no mesmo lugar; não serve doutra
cousa se não de ir com elles á guerra, e
conselha-los como se hão de haver na peleja, mas não
castiga seus erros nem manda sobrelles cousa
alguma contra sua vontade. Este principal tem tres, quatro mulheres,
a primeira tem em mais conta, e faz
della mais caso que das outras. Isto tem por estado é por
honra. Não adorão cousa alquma nem têm pera
si que ha na outra vida gloria pera os bons, e pena pera os maos,
tudo cuidão que se acaba nesta e que as
almas fenecem com os corpos, e assi vivem bestialmente sem ter conta,
nem peso, nem medida.
Estes indios
sãs mui belicosos e têm sempre grandes guerras huns
contra os outros; nunca se acha nelles
paz nem he possivel haver entrelles amizade; porque humas nações
pelejão contra outras e matão-se
muitos delles, e assi vai crecendo o odio cada vez mais e ficão
imigos verdadeiros perpetuamente. As
armas com que pelejão são arcos e frechas; a cousa
que apontarem não na errão, são mui certos
com esta
arma e mui temidos na guerra, andão sempre nella exercitados.
E são mui inclinados a pelejar, e mui
valentes e esforçados contra seus adversarios, e assi parece
cousa estranha ver dous, tres mil homens nús
duma parte e doutra com grandes assobios e grita frechando huns
aos outros; e emquanto dura esta peleja
nunca estão com os corpos quedos meneando-se duma parte pera
outra com muita ligeireza pera que não
possão apontar nem fazer tiro em pessoa certa; algumas velhas
costumão apanhar-lhes as frechas pelo
chão e servi-los emquanto pelejão. Gente he esta mui
atrevida e que teme muito pouco a morte e quando
vão á guerra sempre lhes parece que têm certa
a victoria e que nenhum de sua companhia hade morrer. E
quando partem dizem, vamos matar: sem mais consideracão,
e não cuidão que tambem podem ser
vencidos. Não dão vida a nenhum cativo, todos matão
e comem, emfim que suas guerras são mui
perigosas, e devem-se ter em muita conta porque huma das cousas
que desbaratou muitos portuguezes foi
a pouca estima em que tinhão a guerra dos indios, e o pouco
caso que fazião delles, e assi morrerão
muitos miseravelmente por não se aperceberem como convinha;
destes houve muitas mortes desastradas:
e isto acontece cada passo nestas partes.
Quando estes
indios tomão alguns contrarios, se logo com aquelle impeto
os não matão, levão-nos vivos
pera suas aldêas (ou sejão portuguezes ou quaesquer
outros indios seus imigos), e tanto que chegão a
suas casas lanção huma corda mui grossa ao pescoço
do cativo pera que não possa fugir, e armão-lhe
huma rede em que durma e dão-lhe huma india moça,
a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, pera
que durma com elle, e tambem tenha cuidado de o guardar, e não
vai pera parte que não no acompanhe.
Esta india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber; e depois
de o terem desta maneira cinco ou
seis mezes ou o tempo que querem, determinão de o matar;
e fazem grandes cerimonias e festas aquelles
dias, e aparelhão muitos vinhos pera se embedarem, e fazem-nos
da raiz duma herva que se chama
aypim, a qual fervem primeiro e depois de cozida mastigão-na
humas moças virgens espremem-na nuns
potes grandes, e dalli a tres ou quatro dias o bebe. E o dia que
hão de matar este cativo, pela manhã se
alguma ribeira está junto daldêa levão-no a
banhar nella com grandes cantares e foliaz tanto que chegão
com ele á aldêa, atão-no pela cinta com quatro
cordas cada huma pera sua parte e tres, quatro indios
pegados em cada ponta destas e assi o levão ao meio dum terreiro,
e tirão tanto por estas cordas que não
se possa bolir pera huma parte nem pera outra, as mãos deixão
soltas porque folgão de o ver defender
com ellas. Aquelle que o hade matar empenna-se primeiro com pennas
de papagaio de muitas cores por
todo o corpo: ha de ser este matador o mais valente da terra, e
mais honrado. Traz na mão huma espada
dum pao mui duro e pesado com que costumão de matar, e chega-se
ao padecente dizendo-lhe muitas
cousas e ameaçando-lhe sua geração que o mesmo
ha de fazer a seus parentes; e depois de o ter
afrontado com muitas palavras injuriosas da-lhe huma grande pancada
na cabeça, e logo da primeira o
mata e lhe fazem pedaços. Está huma india velha com
hum cabaço na mão, e assi como elle cae acode
muito de pressa com elle a meter-lho na cabeça pera tomar
os miollos e o sangue: tudo emfim cozem e
assão, e não fica delle cousa que não comam.
Isto he mais por vingança e por odio que por se fartarem.
Depois que comem a carne destes contrarios ficão nos odios
confirmados e sentem muito esta injuria, e
por isso andão sempre a vingar-se huns contra os outros.
E se a moça que dormia com o cativo fica
prenhe, aquella criança, que pare depois de criada, matão-na
e comem-na e dizem que aquella menina ou
menino era seu contrario verdadeiro por isso estimão muito
comer-lhe a carne e vingar-se delle. E porque
a mãi sabe o fim que hão de dar a esta criança,
muitas vezes quando sente prenhe mata-a dentro da
barriga e faz com que morra. E acontece algumas vezes affeiçoar-se
tanto a este cativo e tomar-lhe tanto
amor que foge com elle pera sua terra pera o livrar da morte. E
assi alguns portuguezes ha que desta
maneira escaparão e estão hoje em dia vivos; e muitos
indios que do mesmo modo se salvarão, ainda que
são alguns tam brutos que não querem fugir depois
de os terem presos; porque houve algum que estava já
no terreno atado pera padecer e davão-lhe a vida e não
quiz senão que o matassem, dizendo que seus
parentes o não terião por valente, e que todos correrião
com elle; e daqui vem não estimarem a morte; e
quando chega aquella hora não na terem em conta nem mostrarem
nenhuma tristeza naquelle passo.
Finalmente que
são estes indios mui deshumanos e crueis, não se movem
a nenhuma piedade: vivem
como brutos animaes sem ordem nem concerto de homens, são
mui deshonestos e dados á sensualidade
e entregão-se aos vicios como se nelles não houvera
rezão de humanos ainda que todavia sempre têm
resguardo os machos e as fêmeas em seu ajuntamento, e mostrão
ter nisto alguma vergonha. Todos
comem carne humana e têm-na pela melhor iguaria de quantas
pode haver: não de seus amigos com
quem elles têm paz se não dos contrarios. Tem esta
qualidade estes indios que de qualquer cousa que
comão por pequena que seja hão de convidar com ella
quantos estiverem presentes, só esta proximidade
se acha entrelles. Comem de quantos bichos se crião na terra,
outro nenhum engeitão por peçonhento que
seja, sómente aranha.
Têm estes
indios machos por costume arrancar toda a barba e não consentem
nenhum cabello em parte
alguma de seu corpo, salvo na caeça, ainda que arredor della
por baixo tudo arrancão. As femeas
presão-se muito de seus cabellos e trazem-nos muito compridos
e penteados e as mais dellas ennastrados.
Os machos costumão trazer o beiço furado e huma pedra
no buraco metida por galantaria, outros ha que
trazem o rosto todo cheio de buracos e assi parecem mui feios e
disformes: isto lhes fazem quando são
meninos. Tambem alguns indios andão pintados por todo o corpo,
pelo qual fazem huns riscos escritos na
carne: isto não traz se não quem tem feito alguma
valentia. E assi tambem machos como femeas
costumão tingir-se com sumo duma fruita que se chama genipapo,
que he verde quando se piza e depois
que põe no corpo e se enxuga fica mui negro e por muito que
se lave não se tira se não aos nove dias: isto
tudo fazem por galantaria.
Estas indias
guardão castidade a seus maridos e são muito suas
amigas, porque tambem elles sofrem mal
adulterios; casão osmais delles com suas sobrinhas, filhas
de seus irmãos ou irmãs, estas são suas
mulheres verdadeiras, e não lhas podem negar seus pais.
Algumas indias
se achão nestas partes que jurão e prometem castidade,
e assi não casão nem conhecem
homem algum de nenhuma qualidade, nem no consentirão ainda
que por isso as matem. Estas deixão
todo o exercicio de mulheres e imitão os homens e seguem
seus officios como se não fossem mulheres, e
cortão seus cabellos da mesma maneira que os machos trazem,
e vão á guerra com seu arco e frechas e á
caça: emfim que andão sempre na companhia dos homens,
e cada huma tem mulher que a serve e que
lhe faz de comer como se fossem casados.
Estes indios
vivem mui descançados, não têm cuidado de cousa
alguma se não de comer e beber e matar
gente; e por isso são mui gordos em estremo; e assi tambem
com qualquer desgosto emagrecem muito; e
como se agastão de qualquer cousa comem terra e desta maneira
morrem muitos delles bestialmente.
Todos seguem muito o conselho das velhas, tudo o que ellas lhes
dizem fazem e têm-no por muito certo:
daqui vem a muitos moradores não comprarem nenhumas por lhes
não fazerem fugir seus escravos.
Quando estas
indias parem a primeira cousa que fazem depois do parto lavão-se
todas num ribeiro e ficão
tam bem dispostas como se não parirão; em lugar dellas
se deitão seus maridos nas redes, e assi os visitão
e curão como se elles fossem os paridos.
Quando algum
destes indios morre costumão enterra-lo numa cova assentado
sobre os pés, com sua rede
ás costas em que elle dormia, e logo pelos primeiros dias
põem-lhe de comer em cima da cova. Outras
muitas bestialidades usão estes indios que aqui não
escrevo, porque minha tenção foi não ser comprido,
e
passar por tudo isto com brevidade.
DOS RESGATES
Estes indios
não possuem nenhuma fazenda, nem procurão acquiri
la como os outros homens, sómente
cubição muito algumas cousas que são deste
Reino-scilicet, camisas, pellotes, ferramentas e outras
cousas que elles têm em muita estima e desejão muito
alcançar dos portuguezes. A troco disto se vendião
huns aos outros, e os portuguezes resgatavão muitos delles
e salteavão quantos querião sem ninguem lhes
ir á mão, mas já agora não ha isto na
terra nem resgates como soía, porque depois que os padres
da
Companhia vieraõ a estas partes proverão neste negocio
e vedarão muitos saltos que fazião os
portuguezes por esta Costa, os quaes encarregavão muito suas
consciencias com cativarem muitos indios
contra direito e moverem-lhes guerras injustas. E por isso ordenarão
os padres e fizerão com os Capitães
da terra que não houvesse mais resgates nem consentissem
que fosse nenhum portuguez a suas aldêas
sem licença do mesmo Capitão. E quantos escravos agora
vêm novamente do Sertão ou das outras
Capitanias todos levão primeiro á Alfândega
e alli os examinão e lhes fazem proguntas quem os vendeu,
ou como forão resgatados, porque ninguem os pode vender se
não seus pais ou aquelles que em justa
guerra os cativão, e os que achão mal acquiridos põem-nos
em sua liberdade, e desta maneira quantos
indios se comprão são bem resgatados, e os moradores
da terra não deixão por isso de ir muito avante
com suas fazendas.
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