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Til
José de Alencar

 


Capítulo VI
A restituição

Ao cabo de quinze anos voltara o Ribeiro a São Paulo.
Não se animaria contudo, se os anos, e mais ainda uma irrupção no rosto, não lhe tivessem alterado completamente as feições. Em Portugal o chamavam de Barroso, apelido que substituiu ao seu para maior segurança.
Já estava há meses na província, quando resolveu ir a Santa Bárbara. Com a vista daqueles lugares acendeu-se o ódio sopitado; um pensamento de serôdia vingança despontou em seu espírito e medrou.
Ouvira falar do Chico Tinguá como inculca de um sujeito que se incumbia, mediante boa espórtula, de arranjar esses negócios. Tocou no ponto ao vendeiro; este expediu o bacorinho a Jão Fera, que não tardou no rancho, onde se fechara o ajuste, mediante o sinal de vinte patacões.
Nenhum dos dois reconhecera o outro. Jão poucas vezes antes da morte de Besita vira o Ribeiro, e este nunca reparara no capanga, que raro tinha encontrado e de passagem em casa da noiva. Acrescia a mudança operada pela idade e outras circunstâncias.
Todavia notou Jão que esse homem lhe inspirava profunda aversão; e cada vez que o avistava tinha ímpetos de puxar briga com ele e mata-lo. Na Ave-Maria especialmente, no dia da tocaia, a não ser o urutu que espantou o cavalo, o Ribeiro cairia com o coração traspassado.
Ao vê-lo passar, na volta do caminho, entre os claros da folhagem, teve o capanga uma espécie de visão; pareceu desenhar-se a seus olhos a mesma face fouveira de raiva e terror, que rápida perpassara diante dele na tarde do assassinato de Besita, mas ficara para sempre estampada em sua reminiscência.
De seu lado o Ribeiro, embora não tivesse a menor suspeita do homem com quem lidava, não podia eximir-se de um involuntário confrangimento, quando se aproximava de Jão Fera. E se este carregava sobre ele o duro olhar, corria-lhe pela medula um frio glacial.
Assim estava impaciente de ver concluído o negócio para livrar-se do capanga; mas correram-lhe as coisas às avessas, pois agora depois do que passara na venda do Tinguá, sabia que o tinha no encalço, e tratou de aprecatar-se.
Contudo não esquecera o Ribeiro a sua vingança, embora tomasse ela outra feição da que tinha em princípio. Depois da tocaia na Ave-Maria, passara pelas Palmas e vira a família de Luís Galvão, reunida no terreiro, gozando a frescura da tarde, ao expirar de um dia cálido.
Afonso lia para a mãe e a irmã. D. Ermelinda acompanhava com os olhos as mutações das alvas nuvens que o vento carmeava no azul do céu, Linda fazia trabalhos de lã.
A serenidade e enlevo desse quadro pungiram acremente a alma do Ribeiro. Invejou a felicidade de Luís Galvão. Invejou a felicidade de Luís Galvão, no seio daquela família encantadora e no meio dos gozos que dá a riqueza.
Suas idéias tomaram um rumo desconhecido. Ele que tinha consumido toda a mocidade em uma vida aventureira e vagabunda, e se isolara inteiramente no mundo, sem outra companhia, além dos parceiros de jogo e prazer, sentiu de repente penetra-lo um eflúvio da vida calma, sossegada, que desliza docemente no lar doméstico, entre as alegrias íntimas e as festas singelas da família.
Mas já estava adiantado em anos para tratar agora de criar uma família. Seria como o tardo lavrador que planta a árvore da qual não verá o fruto. O que lhe servia era uma família já formada, com seu macio conchego, seus hábitos encantadores, onde ele chegasse e tomasse o seu canto, como um conviva, que acha na mesa do banquete o talher preparado.
E não estava ali, perto dele, a família de que precisava? Onde encontraria mulher mais agradável? Podia nunca esperar que viesse a ter outros filhos mais lindos e prendados do que esse par gentil?
Por estranhos que pareçam estes pensamentos, de tal modo se imbuíram no espírito do Ribeiro, que ele acabou rindo-se de seu primeiro projeto. Matar apenas Luís Galvão numa emboscada, como pretendia, era uma vingança brutal e estéril que afagava o seu ódio e nada mais.
Fazer porém desaparecer o fazendeiro, e tomar o seu lugar, como fizera ele outrora; essa era uma desforra de mestre, que não só ajustava as contas do passado, como garantia o futuro. Aplicando ao sedutor a pena de talião, fazia ele, Ribeiro, ainda por cima um bom negócio.
Desde então empregou toda sua atividade em levar ao cabo a obra, cuja realização fora marcada para a noite de São João.
Ao recolher, se manifestará no canavial das Palmas um incêndio que se há de atribuir a algum foguete desgarrado. Luís Galvão naturalmente acudirá para acautelar maior estrago. Nem os escravos da roça, fechados nos quartéis por Monjolo, nem os pajens trancados por artes do Faustino, poderão acompanhar o senhor.
Gonçalo Pinta, emboscado no caminho, derrubará Luís Galvão com uma cacetada e o lançará nas chamas, para acreditar-se que foi vítima do incêndio, e não de uma trama pérfida e covarde.
Então Ribeiro ou Barroso, que figura passar casualmente pela estrada, acode e extinguindo com o auxílio dos camaradas o incêndio, já de antemão cortado por largo aceiro, conduzirá o corpo do Galvão à casa e oferecerá à viúva seus serviços.
Eis o plano, em virtude do qual esperava Barroso estar casado com D. Ermelinda e senhor das Palmas, antes de findo o ano do luto.
Depois de fazer ao Faustino e a Monjolo as últimas recomendações, voltava ele acompanhado pelo Pinta, quando inesperadamente saiu-lhe ao encontro, de dentro do mato, Jão Fera.
O Barroso vacilou na sela; e o Gonçalo Suçuarana ficou ainda mais rajado, com a palidez que lhe afulou o semblante. Todavia não fizera o Bugre o menor gesto de ameaça; apenas lhes tomara a frente, postando-se no meio do caminho.
- É hoje véspera de São João. Seu dinheiro aqui está; não lhe devo mais nada.
Estas palavras foram ditas pelo capanga na sua voz arrastada e mansa, estendendo ao Barroso um maço de notas, que ele recebeu maquinalmente com a mão bamba.
- Agora passe bem. Havemos de encontrar-nos! continuou o Bugre, cujo olhar despediu uma chispa.
E desapareceu.

Capítulo VII
Fascinação

Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio ter com ela:
- Onde vai?
- Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega por evitar conversa naquele instante.
- Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.
Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço, e impediu assim que ela se afastasse.
- Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer saber? Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como uma pitanga. Escute!
Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia:
- Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida.
À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida.
Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidência:
- Eu também entro no segredo!
Era o Afonso.
- Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço macio que pungia a face do mancebo.
- Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava.
- Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que Inhá estava me chamando para dar-me um bei...
- Um beliscão! atalhou Berta cravando-lhe no braço a unha rosada, mas rija como a garra da araponga.
E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar e que ela bem suspeitava qual fosse.
Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho à porta, antes que a chave desse volta. Começou então uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora, e também para não lograr tão fácil a vitória.
Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador para salvar a rola. Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe cócegas.
Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto.
- Assim, Linda! gritava Berta.
- Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.
- Deixe a outra! acudia Linda.
Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta à chave.
Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa.
Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição; e vinha de dentro da alcova.
- O que foi, Berta? exclamou Afonso.
- Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta.
- Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação.
Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o áspero trincar da lima no ferro.
- É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível pressentimento.
Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar. A luz que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador da irmã. Com muito esforço, inclinando-se o mais possível à direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira da cama.
- Viu-a? perguntou Linda que não cessava de chamar pela amiga.
- Não! respondeu agoniado o irmão.
- Basta, Inhá! disse a filha do fazendeiro, com o tom suplicante. Você nos aflige com esta brincadeira.
- Qual! Ela é pirracenta! replicava Afonso rindo-se para animar a irmã. Mas logo, quando eu a pilhar, há de arrepender-se. Eu cá me contento com uma dúzia; e você, Linda?
Assim galhofando, Afonso aplicava alternativamente os lábios e os olhos ao orifício da fechadura, para falar a Berta, e ver se ela dava sinal de o ouvir.
De repente pareceu-lhe que uma sombra se interpunha entre a porta e o toucador; e afirmando a vista reconheceu o vulto de Berta, que oscilava. Cuidou que a menina, para fazer-lhe negaça, estava de brejeira a bambolear o corpinho.
- Lá está ela se faceirando! exclamou Afonso cheio de contentamento.
- Aonde?
Lembrou-se, porém, o moço que Berta voltava-lhe as costas, em vez de virar-se para a porta, como era natural. Querendo verificar esse reparo, já não o pode, porque a sombra vacilara e desaparecera.
Sofregamente buscava ele de novo enxerga-la; e não o conseguia, quando casualmente seus olhos caíram sobre a face polida do espelho, que ornava o toucador de mogno.
Uma surda exclamação, que o moço não teve tempo de sufocar, lhe prorrompeu dos lábios.
- Ah!
- O que é? interrogou Linda transida de terror.
- Não sei o que ela tem... Sentou-se... Parece que caiu.
Estas palavras, proferiu-as o moço ofegante, recalcando as palpitações violentas, que lhe talhavam a fala, e sem tirar os olhos do espelho do toucador.
Fora ali que vira desenhar-se a imagem de Berta, sentada sobre o pavimento, com o talhe acabrunhado por súbito desmaio das forças; mas a cabeça promovida por um rígido impulso, e as negras pupilas dilatadas em um olhar fixo, estático, de vítreos lampejos.
Não se enganara Afonso; Berta se voltava com efeito para o interior, pois sua imagem refletia-se de frente no espelho. O que olhava, porém, ela com a vista assim pasma? Ansiava o moço por descobrir e não tardou muito.
Na borda inferior do espelho, sobre o friso da moldura de mogno, surgiu um ponto que foi a pouco e pouco avultando. Era a cabeça chata de um animal, coberto de três ordens de escamas transversais dispostas sobre um couro de pardo fulvo mosqueado de preto.
Um brado de horror escapou da gorja angustiada do mancebo, que recuando se arremessou com desespero, para espedaçar a porta.
Mas essa era da cabiúna; e desafiava as forças de muitos homens.
Linda caíra quase desfalecida sobre uma cadeira, ao ver a angústia e o espanto do irmão, o qual, reconhecendo a inutilidade de seus esforços contra a porta, se precipitara para o terreiro, com a idéia de saltar pela janela no interior do aposento.
Nesse momento, e como um eco de seu brado de terror, ouviu-se também do lado do canavial um grito, senão era uma gargalhada selvagem, semelhante ao grasnar do maracujá.

Capítulo VIII
Letargo

Uma cena espantosa acabava de passar na alcova.

Com o rumor que fizera Berta ao bater a porta, na ocasião de entrar, a cascavel alçou a cabeça, e descobrindo o vulto da menina, desdobrou-se para escorregar ao chão.
Apenas tocou o soalho, enroscou-se rapidamente sobre si, na sombra que embaixo do leito projetava o cortinado, e enristou o colo como um dardo inserido na seteira de uma torre e pronto para o arremesso. Ao mesmo tempo a cauda romba e curta, vibrada por uma crispação nervosa, batia no pavimento a primeira das três pancadas fatais que precedem o bote, chocalhando os cascavéis com a sinistra crepitação, que gela a medula ao mais destemido.

Assim com o bote armado, esperou o insidioso réptil se aproximasse o inimigo, para de um jacto cravar-lhe os dois croques terríveis que manam o sutil e mortífero veneno.
Quando Berta, aproveitando-se do descuido de Afonso, conseguira fechar a porta, imediatamente correu à cama a fim de tomar o chapéu que vira sobre as almofadas, e fugir pela janela, travessura que ela tinha em criança feito muitas vezes, e que se propunha a realizar agora antes de dar tempo ao moço para atalhar-lhe o caminho.

No meio do aposento, parou a menina de repente com um involuntário estremecimento. Ouvira o som áspero de um guizo estrídulo, tangido rapidamente; e sentiu logo um enjôo produzido por acre exalação que se derramara no ar.

Atraídos por um impulso misterioso, volveram-se os olhos de Berta, e caíram sobre a boicininga, cujas pupilas fulvas, fulguravam na sombra, jorrando em ondas uma luz fosforescente, como as chamas sulfúreas, que se levantam do seio da terra vulcânica e retalham o negrume da noite.

A fauce hiante, sangüínea, se eriçava com duas serrilhas de dentes aduncos e retorcidos como garras, e no meio dela agitava-se a língua negra, híspida, dardejante, cuja ponta bífida ressaltava como impulsa por oculta mola de dentro de si mesma; pois servia-lhe de estojo a parte inferior.

Foi nesse momento, ao avista a cobra que o grito de terror escapou-se da boca de Berta. Mas às perguntas de Linda e de Afonso, se ainda as ouviu confusamente, não teve ela mais voz para responder-lhes que seus lábios estavam gelados.

Encontrando-se o olhar da serpente e o seu, cravaram-se de modo, ou antes se imbuíram e penetraram tanto um no outro, que não pode mais a vontade separa-los e romper o vínculo poderoso. Parecia que entre a brilhante pupila negra da menina e a lívida retina da cascavel se estabelecera uma corrente de luz na qual fazia-se o fluxo e refluxo das centelhas elétricas.

A mesma cambraia que retraiu o dorso flexuoso da boicininga espasmou o talhe grácil de Berta, como se uma força única regera a vida nessas duas organizações. Aí estava produzida ao vivo a misteriosa identificação da mulher e da serpente, que deu tema ao poético mito da tentação.

Lentamente a cascavel afrouxava os anéis em que enroscara o toro, até que se espreguiçou ao longo pelo pavimento, pousando lânguida sobre a tábua a cabeça chanfrada. Recolheu-se a língua dentro da bainha, e esta desapareceu por baixo do focinho, que se abatera flacidamente sobre a mandíbula.

Toda a força vital da boicininga se concentrava no olhar, donde coava-se uma flama trepida, por entre as titilações da membrana sutil, que reveste a retina da serpente. Encadeada por esse fio luminoso ao olhar cintilante de Berta, o medonho réptil parecia como deslumbrado por súbito lampejo.

Também a menina sofria a repercussão dessa influência.

As pernas trêmulas vacilavam; invadida por súbito desfalecimento, vergou ao peso do próprio corpo, e convolveu-se como a campânula que frange as pétalas para cerrar o cálice e pender murcha sobre a haste.

Assim deixou-se Berta cair de joelhos e derreando sobre os calcanhares, foi preciso apoiar-se com a mão esquerda no soalho, a fim de suster o busto, que uma força misteriosa impelia avante, como para prostra-la de bruços e colear-lhe o talhe.

Ainda assim não resistia de todo àquela poderosa atração. Com o pescoço distendido, a cabeça lançada à frente, mostrava a ânsia de arrastar-se para vencer a distância que a separava da cascavel.

O desmaio da moça fora a princípio cheio de indizível angústia; apoderou-se dela um incompreensível pavor; queria fugir, e sentia-se elada a si mesma como a um poste de dor. Dir-se-ia que duas forças divergentes, duas naturezas em reação, lutavam dentro de sua alma e a dilaceravam, disputando-lhe o ser, como aves de rapina que brigam pelo cibo.

Uma dessas naturezas abatia-lhe a fronte, que a outra porfiava em manter excelsa; e estorcia-lhe o corpo feito para a estatura nobre e senhoril. Umas vezes, presa da estranha vertigem, via-se em pé, diante de si mesma, imperiosa e cheia de desdém, a esmagar sua própria cabeça. Outras vezes transformada em vípera, eleva-se pelo colo da menina gentil, que ela era, e conchegava-se ao tépido calor de um seio virgem.

Afinal, com um movimento hirto estendeu Berta o braço direito para a cascavel, aberta a mão e crispados os dedos, no ímpeto de tocar o rosto do réptil, ao qual tornou-se mais viva a trepidação do olhar.

Confrangendo-se, a boicininga propulsou de leve a cabeça, como se arrastara um fio invisível, e foi lentamente rojando para Berta. Nesse instante havia Afonso enxergado o réptil; e se precipitara horrorizado para despedaçar a porta,

Entretanto Berta, à proporção que avançava para ela a boicininga, ia-se retraindo; erigia-se o busto, e ressurgia-lhe n'alma essa elação que a desfere ao céu e que imprime na criatura humana a majestade do porte. Assumia a menina outra vez a fina têmpera de seu caráter altivo e inflexível.

Quando a cabeça da cascavel roçou-lhe a ponta dos dedos, um choque íntimo percutiu-lhe o corpo, e estorceu o toro da serpente. Mas passou instantaneamente; o réptil elando-se pelo braço mimoso, veio cingir-lhe as espáduas, formando colar.

Com o toque desse brando serpear sentiu Berta a doçura de uma carícia; a boicininga titilava de volúpia ao tépido calor da cútis acetinada; e escondendo a monstruosa cabeça na conchinha da mão que a menina recolhera ao seio, caiu no letargo.

Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV à Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII à Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII à Capítulo XXIX
Capítulo XXX e Capítulo XXXI