Til
José de Alencar
Capítulo XXX
A
enjeitada
Dois dias decorreram
depois da festa do Congo.
Jão Fera
derreado a um tronco de árvore, no mato que cerca a tapera,
espreita a chegada de Berta. A menina o tinha chamado, quando o
avistara na enxovia; e ele que se fora entregar para fugir ao seu
desprezo acudiu prontamente. Desde a véspera a esperava naquele
sítio.
Não deixava,
porém, o capanga de nutrir receios a respeito do modo por
que Berta o acolheria. Talvez aquele gesto lhe escapasse sem ela
o sentir; e agora tornando a vê-lo crescesse o horror que
lhe inspirava depois das mortes por ele perpetradas. Nesse caso
voltaria para a prisão.
Acabava de fazer
ainda uma vez esta reflexão quando ouviu crepitarem as folhas
sob o passo ligeiro de Berta, que atravessou o terreiro com alvoroto,
e correu para Zana acocorada junto à parede.
A louca recebeu
a menina com viva efusão de contentamento, que se manifestava
em gritos inarticulados e gaifonas de toda a sorte. Sôfrega,
não esperou Berta que passasse aquela expansão; travando
das mãos da preta e cravando nela os olhos como se pudesse
perscrutar-lhe a consciência, exclamou com ansiedade:
- Minha mãe,
Zana!... Você não se lembra dela?... De minha mãe!...
Tartamudeou
a louca sons incompreensíveis, e sua fisionomia embotou-se,
tomando a expressão pasma e fixa, que lhe imprimia uma imobilidade
quase marmórea.
Acaso já
conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era apenas
uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiapó?
Eis o que havia
ocorrido:
Aí em
frente da tapera, ao morno clarão da lua, começara
Luís Galvão na noite da festa a fazer a sua mulher
a confissão plena da aventura de que fora teatro aquele sítio,
e ele o triste herói.
Não ocultou
a mínima circunstância; referiu tudo: a sua repugnância
de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção
pérfida com que a requestara; a cilada de que serviu-se para
surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento
em que a deixou.
Que esforço
não foi preciso para sobrepujar o vexame dessa revelação?
Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se; mas consumou
esse grande ato de contrição que devia remir sua alma.
Quando chegaram
à casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lágrimas e soluços
que tragou em silêncio; as ânsias e desesperos que recalcou
no peito, ninguém os viu. Mas a manga de seu roupão
que ela mordia para não deixar escapar o grito, ficou despedaçada.
Apeando-se,
correu a seu quarto e trancou-se. Luís Galvão compreendeu
que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, não a
importunando com banais consolações. Acendeu um cigarro;
e velou o resto da noite fumando.
Na manhã
seguinte cada um dos dois consortes, pálido, como espectro
que abandona o túmulo, viu refletir-se no outro a desolação
que em si produzira aquela noite fatal.
D. Ermelinda
chegou-se com um triste, porém meigo sorriso, e apertando
a mão do marido, murmurou-lhe ao ouvido:
- Meu amigo,
é preciso reconhecer a sua... a nossa filha!...
Arrasaram-se
de lágrimas os olhos de Luís, que apertou estremecidamente
a mulher ao coração, erguendo os olhos ao céu.
- Que santa
me deste tu, meu Deus, a mim que não mereço!
Logo depois
do almoço, D. Ermelinda foi à casa de nhá Tudinha
e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação
que o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato de mulher e
mãe quis a boa senhora poupar à enjeitada a dor que
havia de curtir se viesse a conhecer a desgraça de Besita.
Imaginou pois
um meio delicado de revelar a lúgubre história. Besita
casara com Luís às ocultas, por causa da oposição
do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís
pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era
viúvo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada
como uma estranha em casa alheia.
Eis o que ideara
D. Ermelinda, e o que nhá Tudinha, contente pela ventura
da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa
mesma tarde. As perguntas e instâncias que sucederam à
surpresa de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração
de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.
Uma voz íntima
dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da história de
sua mãe; e era este segredo que ela buscava escrutar no cérebro
enfermo da negra, onde sabia, que estava sepultado.
Desde muito
tempo tinha ela o pressentimento, de que o terrível drama
representado pela estranha mímica da louca, se prendia à
existência dela, Berta, por um fio misterioso. Agora tinha
a certeza.
Cheia de ânsia,
em face da negra esfinge que emudecia, lançou a menina em
trono um olhar de desespero, e avistou Jão Fera a alguns
passos.
Teve um assomo
de alegria e correu para o capanga; mas recuou horrorizada, e balbuciou
apontando para as mãos suplicantes que lhe estendia o Bugre:
- Não
me toques. Tuas mãos têm sangue!...
Caiu de joelhos
o facínora, e assim, arrastando-se até os pés
de Berta, murmurava:
- Por piedade,
Nhazinha!... Nunca mais!...
Ergueu a menina
a fronte resplandecente, como se a cingisse a auréola da
caridade.
- Tu juras?...
Tu juras nunca mais fazer mal a ninguém?
- Juro.
Tirou Berta
do seio a cruz presa com o bentinho ao cordão de ouro; e
o Bugre a beijou repetindo o juramento. Depois sacou as armas da
cinta, e arremessou-as longe de si.
Nesse instante
Zana que descobrira Jão atirou-se para beijar-lhe as mãos
com fervor; e apanhando a faca, procurou prende-la entre os dedos
do Bugre.
- Não
careço mais, Zana!... Ela está vingada. Posso morrer!
Esta cena despertou
no espírito de Berta uma recordação. Acudiram-lhe
as palavras do caiapó na festa da vila:
- Jão,
tu conheceste minha mãe!
- Quem lhe disse,
Nhazinha?
- Conta-me como
ela morreu!
- Não...
- Conta! Eu
quero!
Referiu o Bugre
com a voz trêmula e o seio opresso a história de Besita
desde que a conhecera até o momento em que a tinha perdido
para sempre. Não disse ele se tinha amado a moça;
mas na palavra balbuciante Berta lhe sentia palpitar o coração
aos ímpetos da paixão imensa.
Quando terminou
essa dolorosa narração, Berta que a ouvira com um
respeitoso silêncio, apenas cortado pelo contínuo soluço
que fazia arfar-lhe o seio, alçou ao céu os olhos
cheios de lágrimas.
- E ele é
meu pai!...
Depois erguendo-se
de um ímpeto, e apertando as mãos grosseiras do Bugre:
- Não!
Não!... exclamou ela. Meu pai és tu, que me recebeste
dos braços de minha pobre mãe, com seu último
suspiro. És tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando
ela deixou este mundo, não tiveste no coração
outro sentimento mais, senão ódio a todos, menos a
mim, que te lembrava ela. Oh! Eu compreendo agora, Jão, o
que te fez mau!... Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela, para
fazer-te bom!...
Falando assim,
com sublime exaltação Berta abraçou o Bugre,
que sentiu-se tomado de uma vertigem, e tropeçando agarrou-se
à parede para não cair.
Capítulo
XXXI
Alma
sóror
Descamba o sol.
Berta sentada
à sombra do oitão da casa de nhá Tudinha, deitou
sobre os joelhos a camisa que estava cosendo para Jão, e
embebeu no azul diáfano do horizonte um olhar profundo, coalhado
de lágrimas.
A seus pés,
Zana agachada na esteira, contempla extática o rosto da menina;
e de vez em quando o prazer íntimo que ela sente, derrama-se
em sua fisionomia, e banha-lhe o rosto de um riso baço.
Ao lado, o Brás
contempla Til com surda inquietação, que se trai a
espaço pela contração dos músculos faciais
e pela extrema mobilidade da pupila espantada.
Algumas braças
distante, Jão curvado sobre a enxada, carpa a terra preparando
as leiras para a plantação do feijoal. De vez em quando
pára um instante, enxuga com a manga da camisa o suor abundante
que lhe escorria da testa, e sopra os calos de que o trabalho já
lhe encruou as mãos. Nessa ocasião crava com desassossego
um olhar em Berta.
Miguel assomou
à porta da casa, e desprendendo-se do estreito abraço
em que o cingia a mãe lacrimosa, dirige-se para o lugar onde
estava a menina.
Importantes
acontecimentos tinham passado na última semana decorrida
depois da confissão que Luís Galvão fizera
à sua mulher.
Berta recusou
obstinadamente reconhecer Luís Galvão como seu pai.
A todos os rogos e instâncias respondia com um meigo sorriso:
- Não
acredito, estão me enganando; meu pai é Jão.
Foi ele quem teve dó de minha mãe, e quem me criou!...
Não tenho outro senão ele!
Assim em compensação
de tantas míseras crianças abandonadas por aqueles
que lhes deram o ser, houve então um pai enjeitado.
Muitas vezes
Luís Galvão insistia em reconhecer a filha e leva-la
para a sua casa, onde acharia em D. Ermelinda uma terna e boa mãe:
- Mãe,
dizia Berta, não quero outra senão aquela que me está
esperando no céu. Mas há uma coisa que me faria muito
feliz. Esse lugar que não pode ser meu, eu dou a Miguel.
Ele quer tanto bem à Linda!...
Não teve
Luís Galvão coragem para resistir ao pedido de Berta.
Parecia-lhe que assim cumpria um voto de Besita. D. Ermelinda condescendeu
prontamente com o desejo do marido, ansiosa por vê-lo restituído
à sua tranqüilidade e arrependida da confissão
que provocara.
Combinou-se
que Miguel iria estudar a São Paulo; e dois anos depois se
efetuaria o casamento naquela cidade para onde a família
devia partir logo.
E quem sabe
se voltaria mais às Palmas?
Chegara a véspera
da partida. Miguel fora despedir-se da mãe para seguir lá
pela madrugada com a família caminho da capital. Luís
Galvão lhe pedira ainda uma vez empregasse todos os esforços
para resolver Berta a acompanha-los.
P moço
ao chegar anunciara sua intenção de levar Berta, e
daí o desassossego que transparecia no semblante do Bugre,
e no olhar do idiota, confiado à guarda de nhá Tudinha
durante ausência do tio.
Dirigiu-se Miguel
a Berta e apertou-lhe ambas as mãos.
- Então,
Inhá?...
E seu olhar
exprimia uma súplice interrogação. A menina
moveu lentamente a gentil cabeça.
- Fica?
- É preciso,
Miguel. Quem há de consolar sua mãe?
- Coitada! murmurou
o moço.
E afastou-se
da casa para não ouvir os soluços de nhá Tudinha.
Berta o seguiu.
Por algum tempo
caminharam os dois em silêncio, par a par escutando as emoções
que falavam dentro d'alma opressa. Uma lágrima tremia-lhe
nas pálpebras prestes a estalar.
- Se você
tivesse querido, Inhá, disse timidamente Miguel, poderíamos
ser tão felizes!...
- E você
não é, Miguel? perguntou Berta fitando nele um olhar
melancólico.
- Sou! respondeu
o moço com um suspiro.
Houve um novo
e longo silêncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:
- Meu sonho
era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha mãe e você,
Inhá. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperança;
mas você não quis!
- Não
diga isto, Miguel! exclamou Berta com a voz afogada em lágrimas.
- Quem me separa
destes lugares e talvez para sempre?
Curvou Berta
a cabeça e balbuciou:
- Lembre-se
de Linda!
- Lembro-me
daquela que foi companheira de minha infância, com quem folguei
os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha
pobreza e humildade. Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse
unidos sempre, e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou
para si unicamente a existência tranqüila e feliz que
eu pedia para ambas, e aparta-me de si para longe!
- Miguel!...
Olhares ansiosos
seguiam Berta, que afastava-se lentamente de Miguel na direção
das Palmas.
Jão,
vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoção,
parecia despedir-se de si, para se precipitar aos pés da
menina. Brás, cavado o semblante por violentas contorções,
arrancava os cabelos da grenha ruiva, e mordia o beiço para
não gritar. Zana estendia os braços hirtos, e no afã
de alcançar Berta e aperta-la ao seio, rojava-se pela grama.
Miguel falava
com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lânguida
e meiga inflexão, como nenúfar que se debruça
à beira do regato e não tarda a ser levada pela corrente
que o enamora.
Afinal o moço
enlaçou com o braço a cintura da menina, e a atraiu
sem que ela lhe opusesse a mínima resistência. Pousando
a cabeça trêmula no ombro de seu companheiro de infância,
deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.
Cortou os ares
um grito de angústia. Brás caíra ao chão
como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulsão,
soltando uivos estridentes.
Berta desprendeu-se
dos braços do moço:
- Não,
Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é aqui,
onde todos sofrem.
E rompendo o
doce enlevo que a prendia um momento antes, soluçou:
- Adeus!...
Correu então
para o mísero idiota e sentando-se na grama para deita-lo
ao colo, ocupou-se em afaga-lo.
Quando moderou
o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoção:
- Eu sou Til!...
Til só!...
Compreendeu
Brás a significação destas palavras, e adivinhou
quanta sublime abnegação exprimiam elas?
Nesse instante
Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia sumir-se,
e a brisa trouxe um eco de sua voz:
- Adeus, Inhá!...
Os lábios
de Berta murmuraram frouxamente:
- Para sempre!
Jão de
pé em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam
dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava
sufocar.
Berta pousou
nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:
- Vai trabalhar,
Jão!...
Entrou em casa
para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu
a cena plácida e melancólica do começo da tarde.
Quando o sol
escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se
ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na
primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a
seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido.
Como as flores
que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram
os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar
os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas
pela desgraça.
Era a flor da
caridade, alma sóror.
Til, de José
de Alencar
Fonte:
ALENCAR, José de. Til. 2. ed. São Paulo : Melhoramentos.
Texto proveniente
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A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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