Til
José de Alencar
Capítulo XXVII
Despedida
Abriu-se a janela
da alcova de Linda.
Assustada e
inquieta a menina aproximava-se do parapeito, mas não se
anima a debruçar. Com a face unida à ombreira, e o
corpinho oculto pelo relevo do portal para que não a vejam
dos lados do edifício, alonga o olhar ansioso pelas plantações.
Não tarda
a hora do almoço.
É esse
o momento em que D. Ermelinda costuma determinar o serviço
doméstico. A menina aproveita-o para escapar à vigilância
materna, que desde véspera de São João a acompanhava
incessante como a própria sombra.
Grande alteração
havia sofrido a família depois da festa. O interior da casa,
que dantes respirava tão serena alegria, tornou-se triste
e sombrio. Em vez da cordialidade que dantes ali reinava, nota-se
o afastamento, que isola uns dos outros corações habituados
à mútua efusão.
D. Ermelinda
ainda recalcava no íntimo o segredo que a torturava. Por
vezes tentara exprobrar a Galvão aquela mácula do
passado; e no momento fugia-lhe o ânimo de que se revestira
anteriormente. Uma explicação naquelas circunstâncias
podia romper o vínculo que a prendia ao esposo. Temia, pois,
rasgar o véu já tão ralo de uma ilusão
em que ela ainda se embebia, para refugiar-se contra o desespero.
A inclinação
de Linda por Miguel também a fortalecia no obstinado silêncio
que persistia em guardar, apesar das insistências de Luís
Galvão. Carecia do conselho do marido e da autoridade do
pai, naquele árduo empenho de arrancar a filha a uma paixão
funesta.
De seu lado,
Luís Galvão não vivia menos contrariado e aborrecido.
A causa da tristeza de D. Ermelinda não era para ele um mistério;
embora a senhora se recusasse a declara-la, tinha ele perscrutado
o segredo da súbita mudança.
Combinando certos
pormenores, como os remoques dos camaradas junto à janela,
na noite de São João; e lembrando-se que vira D. Ermelinda
aproximar-se naquele instante, suspeitou do que havia acontecido;
e as alusões que às vezes escapavam à senhora
não deixavam a menor dúvida.
Imagine-se quanto
não sofreu Luís Galvão, humilhado assim na
estima da mulher, ele que sentia-se rebaixado ante a própria
consciência, quando recordava aquela vergonha de sua mocidade!
Outrora, se
lhe passara pela mente que sua mulher viria a conhecer aquele segredo,
havia em sua alma um acerbo confrangimento. Por vezes, quis arredar
para longe a Berta, cuja intimidade na casa pelas relações
com nhá Tudinha, lhe avivava a cada instante a lembrança
de Besita.
Mas Luís
Galvão era desses homens que vivem muito à superfície
d'alma, onde o contentamento do mundo, os prazeres efêmeros
e as impressões do momento formam uma camada que sopita alguma
reminiscência mais profunda.
Ao cabo de algum
tempo, a presença de Berta já não lhe despertava
nenhuma triste recordação; ao contrário, produzia
nele uma doce emoção. O aspecto dessa gentil menina,
retrato vivo de sua mãe, refloria para ele as rosas da sua
mocidade.
Toda a tristeza
de seu amor por Besita ficava no fundo d'alma como um sentimento,
e só flutuava a suave fragrância daquele afeto da juventude.
Às vezes,
contudo, pensando no futuro daquela menina, um remorso o pungia;
bradava-lhe a consciência que um meio ainda lhe restava, um
único, de expiar seu crime: era resgatar o abandono da mãe
pelo amor da filha.
Em véspera
de partir para Campinas, impressionado um momento com os pressentimentos
de D. Ermelinda a propósito de tocaias, escreveu ele seu
testamento reconhecendo Berta. Fora esse o papel esquecido, à
cata do qual voltou a pretexto de amostrar, levando-o consigo para
faze-lo aprovar por um tabelião.
Essa resolução
serenara de todo seu ânimo; e o remordimento que às
vezes o confrangia de todo aplacar-se quando sobreveio a ocorrência
da noite de São João perturbar, não somente
o sossego de seu espírito, como a calma felicidade de sua
mulher.
Nestas circunstâncias
reconhecia Luís Galvão que só havia um meio
de resolver a crise: era confessar o fato à sua mulher, franca
e lealmente; mostrar-se a ela qual fora, e reconquistar a sua estima
pela sinceridade dessa confissão, que exprimia o seu arrependimento.
Mas também
ele hesitava no momento de provocar a declaração;
e retraía-se vivamente, receoso de que essa revelação
cavasse entre a mulher e ele o abismo da separação
eterna.
Assim ansiavam
por uma explicação, que os aterrava a ambos; e por
isso evitavam-se, temendo que uma palavra escapa os arrastasse ao
precipício onde podia se despenhar a paz e a ventura de sua
mútua existência.
A estes motivos
de mágoa e desgostos acrescia a lúgubre impressão,
que tinham deixado o incêndio do canavial e as atrocidades
de Jão Fera.
Todos o acusavam,
exceto Luís Galvão, que lhe devia a existência;
mas calava-se a respeito dos sucessos da noite fatal.
Nestas circunstâncias
lembrara-se Luís Galvão de propor à mulher
uma viagem à corte; e ela aceitara com fervor a idéia.
Deixar as Palmas era um meio de escapar à tirania das pungentes
recordações, e de afastar Linda de Miguel.
Ouvindo na véspera
à noite o anúncio da viagem, a moça, cujo coração
pressentia a oposição da mãe à sua escolha,
compreendeu toda a extensão de seu infortúnio.
Ansiosa, pois,
esperava Miguel, que havia uma semana, depois de São João,
furtivamente vinha todas as manhãs até à cerca
da horta para vê-la por entre as árvores.
Nessa manhã,
avistando-o de longe, Linda correu ao quintal, e trêmula aproximou-se
da cerca, além da qual se ocultava o moço. Ali, defronte,
um do outro, os dois amantes não se animavam a quebrar o
silêncio, nem mesmo a se olhar.
- Linda!...
murmurou o moço afinal.
- O senhor não
sabe? interrompeu a voz trêmula da menina. Vamos para o Rio
de Janeiro.
- A senhora?...
exclamou o rapaz sucumbido.
Linda soltou
uma exclamação de susto. D. Ermelinda, vendo a filha
passar, a acompanhara e surpreendera os dois amantes.
Não se
irritou a senhora, que viu a aflição pintada no rosto
da filha.
Ao contrário,
abraçando-a com ternura, chamou a Miguel, o qual procurava
esconder-se à sua vista. Aproximou-se o moço, pálido
e confuso, para ouvir estas palavras pronunciadas com um tom de
meiga severidade:
- Diga adeus
a Linda, Miguel; mas para sempre! Ela não pode pertencer-lhe!...
O moço
abraçou Linda e partiu soluçando. A menina escondeu
o pranto no seio da mãe, que a furto enxugava os olhos.
Capítulo XXVIII
O
congo
A cidade da
Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta
nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio.
No centro, e
sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons
edifícios, entre os quais a veneração do povo
aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que
foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre.
Fronteira à
matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara,
construída ao uso antigo, com seu campanário no meio
e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada
dos outros edifícios.
Era domingo;
e havia na vila reboliço de festa.
Pelas ruas,
de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente
a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função.
Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e
atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares
com o chio estridente.
Pouco mais de
nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à ribeira
junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta
e Miguel, que também vinham atraídos pela festa.
O rancho subiu
ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido,
investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas.
Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento.
No trato dos
dois moços entre si havia agora um certo constrangimento.
Miguel acusado severamente pela própria consciência
de ter mentido a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por
esse elo que de todo não se rompera, fugia de conversar com
Berta.
Na melancolia
da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir
um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se
dentro d'alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido.
Por isso, Berta
evitava também a companhia do moço, receosa de trair
a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar
Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de
sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo
de sua melancolia.
Nhá Tudinha,
sempre contente e prazenteira, não desmentia a sua habitual
agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se
a cada instante para chamar a atenção dos dois moços
a propósito de suas observações.
Atravessando
o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram
sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina,
e seu primeiro movimento foi acenar ligeiramente com a mão,
chamando o capanga.
Depois do castigo
que em um ímpeto de indignação lhe infligira,
nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Bárbara.
Passados alguns dias e desvanecida a impressão da cena medonha
a que assistira, sua alma embebeu-se dos eflúvios da piedade;
e ela tinha dó quando lembrava-se da humildade com que Jão
Fera sofrera uma punição tão cruel para seus
brios.
Vendo ao capanga
depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso de
bondade chamou-o. Porém logo apercebeu-se de seu equívoco.
O rosto de Jão Fera lhe aparecera, mas por entre os varões
de ferro da enxovia, em que a princípio não reparou.
Acabrunhado
pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto
de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se
à prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava
ele encarcerado na cadeia da vila.
Compenetrando-se
da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava Jão
Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaçava,
curvou a menina a fronte com um gesto de mágoa e resignação.
Foi rápido
este incidente e ocorreu durante o trajeto da família pela
face lateral da cadeia até a próxima rua cuja esquina
dobrou.
Nas horas mais
quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao cair
da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moças e
a massa do povo se apinhou pelos cantos das ruas.
Ao repique de
sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da matriz
a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e
flautas, que compunham a banda de música.
Adiante vinham
o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados
e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros
e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do
imaginário reino africano.
Fazia de rainha
Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama
Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança;
e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
O luxo que ostentavam
fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas
dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios
escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração
que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente
seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam
com certo donaire.
No meio das
figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras,
cobertas ou antes eriçadas da cabeça aos pés
com os molhos de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo
movimento, produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao
qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaças, que tangiam
os pretos assim mascarados.
Esse resquício
dos folgares e danças dos índios caiapós dava
à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro
contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda
européia, ou pelos usos do Oriente.
De ordinário
costumam as pretas fazer a sua folgança do Congo nas proximidades
do Natal; mas nesse ano não a tinha podido aprontar para
aquele tempo.
Quando passava
a cavalgada pela casa onde estava a família de Luís
Galvão, Rosa mordeu-se de inveja ao avistar Florência,
repimpada no melhor cavalo de D. Ermelinda, com a trunfa riçada,
um diadema na testa, e o régio manto escarlate roçagante
pela anca do lindo ginete.
Nesse instante
lamentou ser mucama, condição que a sujeitava a certo
recato, e a privava, portanto, de tomar parte no folguedo. Como
preta da roça teria outra liberdade; e ninguém lhe
disputaria por seguro o título de rainha.
Linda, que via
distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu. Descobrira
defronte, na calçada, Miguel ao lado de Berta; e o ciúme
lhe mordeu o coração. A amiga, apesar do afastamento
a que a obrigava a severidade de D. Ermelinda, lhe fizera um gesto
de adeus; mas ela voltou o rosto para não corresponder àquela
mostra de amizade.
Compreendeu
Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moço.
Capítulo
XXIX
Confissão
Afonso, apenas
avistou Berta, afastou-se da janela onde estava com a família,
esgueirou-se por entre a multidão.
- Berta!...
psiu!... disse ele chegando-se à menina.
- Olha D. Ermelinda!
- Ela não
me enxerga, retorquiu o rapaz escondendo-se atrás de uma
pinha de gente.
- Não
tem medo?... E se ela ralhar com você? acudiu Berta atirando-lhe
um remoque.
- Então
sou alguma criança! disse o rapaz ferido nos brios, e realçando
a estatura para afirmar sua hombridade.
- Mas não
é capaz de fazer uma coisa contra a vontade de sua mãe!
redargüiu Berta com o mesmo chasco, para excitar o amor próprio
do camarada.
- Pois eu lhe
mostro! respondeu Afonso com ar decidido, e adiantou-se para afrontar
as vistas de D. Ermelinda.
Sorriu Inhá,
que voltando-se para o moço, ocupou-se em travessear com
ele, como outrora costumava.
Não tinha
outro modo senão este de apagar no espírito de Linda
o ciúme que a traspassara.
- Como está
Linda? perguntou a menina depois de algum tempo consumindo em gracejos.
Ainda se lembra de Miguel?
- Não
sei!... respondeu Afonso constrangido.
- Teve ordem!...
acudiu Inhá assistindo no remoque anterior.
- Não
vê como anda triste!
- Então
ela sempre quer bem a Miguel?
- Sempre!
- Preciso falar
com ela! Como há de ser?
Nesse instante
um caiapó de alto porte e compleição robusta,
separado do bando que já ia longe de envolta com a cavalgata,
atravessando a rua, parou defronte dos dois moços e afincou-se
a observa-los.
De repente saltou
em frente de Afonso e ouviram-se estas palavras, que rompiam da
croça espessa, como da brenha escapa o rugido da fera:
- Teu pai matou
a mãe dela; tu queres matar a filha; é duas vezes!
Desde alguns
momentos o olhar de Luís Galvão descobrira da janela
fronteira o filho a falar com Berta, e não se arredara mais
do grupo. Aquele quadro brilhante da juventude, borrifado com os
sorrisos de alegria e perfumado com as fagueiras primícias
do coração, despertavam nele reminiscências
tão suaves, dormidas no fundo da lama!
Lembrava-se
das festas de outrora, quando era moço como o filho, e ali,
na mesma vila de Piracicaba, tantas vezes escapulia da família
para seguir o rancho de moças onde ia Besita, e à
surrelfa apertar-lhe a mão, ou trocar uma palavra balbuciada
a medo.
Para mais avivar
as cores a essa tela da mocidade, que os anos tinham desbotado,
ressurgiam aí diante de seus olhos as próprias figuras
do gracioso painel; ele retratado na pessoa de Afonso; ela, revivendo
na gentileza de Berta.
A D. Ermelinda
não escapara essa distração; acompanhando a
direção do olhar e reparando na expressão de
ternura e enlevo que se derramava na fisionomia do marido, sobressaltou-a
nova e mais cruel suspeita. À infidelidade do passado acrescentaria
Luís Galvão a perfídia no presente?
Não teve
tempo a desolada senhora de sondar esse novo abismo de dor que se
rasgava em sua alma, já tão atribulada.
Mal lançara
a Afonso o dito misterioso que lhe prorrompeu dos lábios,
o caiapó travando com irresistível impulso do braço
do moço, arrancou-o do lugar onde estava e trouxe-o até
junto da janela de D. Ermelinda.
Aí, afrontando-se
com Luís Galvão, apontou para o filho, e proferiu
estas palavras, obscuras como as outras:
- Teu sangue
mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela!...
Com pasmosa
rapidez passara essa cena estranha. Ainda não se desvanecera
o espanto por ela causado nos assistentes, que já o caiapó
havia desaparecido entre a multidão, sem que fosse possível
indicar por onde se fora.
Ao mesmo tempo
soava grande rumor na praça da matriz; e magotes de povo
a correr pelas ruas deixavam entre o vozeio soturno da turba estas
vozes repassadas de pânico terror, que retalhavam o borborinho
como correntes vivas a sulcarem um brejo:
- Arrombada
a cadeia!...
- Assalto na
vila!
No meio do susto
produzido por este boato, o povo se dispersou, pondo termo à
festa.
Entretanto,
o subdelegado em companhia de alguns cidadãos mais animosos
dirigia-se à cadeia para verificar o fato, divulgado pela
voz pública.
Havia exageração
na notícia: dera-se apenas a fuga de um preso, que arrancara
por um esforço desesperado um varão da enxovia; e
aproveitando-se da distração da sentinela no momento
de passar a cavalgata, saltara na rua, arrebatara a um caiapó
a croça de capim, e perdera-se na turbamulta.
Meia hora depois,
Luís Galvão com a família voltava a Santa Bárbara.
D. Ermelinda
que insistira em ver a festa, na vaga esperança de quebrar
o enleio no qual viviam ela e o marido desde a noite de São
João, se obstinara em voltar para as Palmas naquela mesma
tarde.
A cena da janela
e o dito misterioso do caiapó tinham produzido nela tão
profundo abalo, que já não podia conter as sublevações
da sua dignidade de esposa, indignamente ultrajada por quem mais
a devia zelar.
Era urgente
e indeclinável a explicação, que retardara
por melindre de sua alma e pela natural esquivança que sente-se
em dissipar por todo o sempre a doce ilusão da felicidade.
Apressando o
cavalo, D. Ermelinda transpunha a distância que ainda a separava
da casa. Afonso galopava ao lado de sua mãe, enquanto Luís
Galvão e Linda vinham após largo intervalo, ao passo
moderado dos animais.
Terminava o
crepúsculo; mas a lua assomando no horizonte coava o seu
lívido clarão através da morte-côr, que
o dia expirante ia deixando pelos ermos.
Emudecera o
hino da tarde, repassado de ternas melodias, e a natureza, a máxima
e sublime orquestra, preludiava a elegia da noite. O primeiro grilo
soltava o estrídulo; e o seio da floresta agitada pela viração
da noite, arfava ao ofego de um gemido plangente.
À beira
da estrada via-se um vulto negro, que de longe afigurava-se urna
de algum bugre, esquecida à flor da terra. Ao tropel dos
animais o vulto ergueu a cabeça. Era Zana. Soltando um grito
de espanto, arrojou-se à frente do cavalo de Afonso, e estendeu
as mãos súplices:
- Pelo amor
de Deus, nhô Luís!... Não faça mal a
Nhazinha!... Da outra vez ela chorou tanto! E depois veio o marido
e matou Nhazinha!... Por vida de seu pai, nhô Luís!...
Eu lhe peço de joelhos!
A mísera
negra, na sua alucinação, remontava o curso da existência,
e revivia o tempo já passado, quando Luís fora mancebo
que representava agora seu filho Afonso.
Ao aproximar-se
da cena, ainda ouviu o fazendeiro as últimas palavras de
Zana, e estremeceu; mas revoltando-se afinal contra essa fatal obsessão
que depois de quinze dias o arrastava de humilhação
em humilhação, decidiu romper de uma vez o segredo
que o acabrunhava.
Ao olhar cheio
de ânsia da mulher, respondeu indicando os filhos com um olhar
expressivo.
- Vão
seguindo! disse para Afonso e Linda.
Fez um gesto
à mulher, e tomou para a tapera que ficava a algumas braças
da estrada. D. Ermelinda o seguiu transida de emoção
até a frente da casa em ruínas.
- Foi aqui!...
balbuciou a voz trêmula de Luís.
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