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Til
José de Alencar

 


Capítulo XIV
O beijo

Brincando e cantando, atravessava Berta os cafezais, já esquecida dos lances que passara, e contente por ter deixado Jão escapo.

Sobressaltou-a, porém, o ramalhar das árvores, agitadas por forte impulso; cuidando que a ameaçava novo perigo, voltou o rosto para descobrir a causa do rumor.

Devia ser ameaçador o que viu; pois desfechou numa carreira cega por entre o arvoredo, sem embaraçar-se com as vergônteas a lhe baterem no rosto, e os gravetos que rasgavam a saia de seu vestido novo de cassa.

Amiúde olhava para trás e redobrava de ligeireza, sentindo-se perseguida por um inimigo que vinha sobre ela com extrema velocidade e não tardaria a alcança-la.

Com efeito já o estrépito dos passos no chão se confundiam; e soava a seus ouvidos o sussurro da respiração que resfolgava com o esforço da corrida.

Ouviu-se um grito de susto.

Colhida em sua carreira, a gentil menina estremecia entre os braços de Afonso, como a rola nas mãos do travesso menino; mas não podia estanvar o riso brejeiro que, represo nos lábios mimosos, lhe estava borbulhando na covinha das faces e no gesto petulante.

- E agora! exclamou o rapaz apinhando os lábios num beijo papudo.

- Ai!

Soltando este chilro, a menina arrepiou-se toda, como para esconder-se em si mesma, e fechou os olhos.

Decorrido algum tempo, e admirada de não sentir na face calor algum, nem ouvir o estalo que esperava, abriu o cantinho do olho, e viu o camarada confuso, tímido, com a vista baixa e o rosto vermelho como um chichá.

O brincão do rapaz, tão desembaraçado e atrevido, quando bolia com Berta em presença da irmã ou perto da gente, agora que se achava só com a menina, a grande distância de casa e num sítio ermo, tomara-se de um súbito enleio, e mostrava-se constrangido.

Foi a muito custo e para disfarçar o acanhamento que ele, desviando o rosto, disse à menina:

- Você não me quer bem!

- Quero, sim! acudiu a moça que recuperara sua travessa isenção.

- E a Miguel?

- Também!

- Mas Miguel é quase seu irmão.

- E você?

- Eu não! replicou vivamente Afonso.

O dito de Berta sem dúvida o molestara; pois tão prontamente e com tamanho calor o contestou ele. Ficou séria a menina, a qual lhe tornou já amuada:

- É sim!

- Mas... arriscou Afonso titubeando, os irmãos... não... se casam, Berta.

- Porque não é preciso! replicou a travessa com um arzinho arrebitado, que enfeitiçava.

- Como assim? interrogou o rapaz cujos dezoito anos se maravilhavam da importante descoberta feita pela menina.

- Pois então! Os irmãos não vivem juntos? Não brincam diante de todo mundo, como nós fazemos? Quem não sabe que a gente se quer bem? Mas ninguém fala mal por isso. Casar para que? Agora, aqueles que estão longe, que tem vergonha de se gostarem, é outra coisa; carecem perder o medo. Como Linda e Miguel! Estes, sim, precisam muito!

- É verdade!

- Não vê como ela anda sempre desconsolada e ele tão macambúzio?

- Então nós, Berta... não precisamos? insistiu Afonso.

- Não sei! Linda há de estar cansada de esperar-me! respondeu a menina com jeito de afastar-se.

Atalhou-lhe Afonso o passo.

- Não deixo!

- Solte-me, Afonso! disse Berta querendo desprender o braço da mão do rapaz.

- Dá o que prometeu?

- Que sabido! Não prometi nada!

- Então eu tomo!

- É capaz? disse Berta em tom de desafio.

- Eu tomo mesmo!

E o maganão enlaçou com o braço a flexível cintura da menina, que dobrou-se com a haste da gracíola, para esquivar o rosto aos lábios cobiçosos do saboroso encarnado.

- Eu grito! Disse ela.

- Que me importa.

- Por vida de D. Ermelinda, Afonso!

- Não quer que eu tome à força? Pois me dê por sua vontade!

- Eu dou.

- Então venha.

- Logo.

- Há de ser já.

- Daqui a bocadinho.

- Assim não vale o ajuste. Dá ou não?

- Um só!

- Um para começar.

- Aonde?

- Espere, que eu lhe mostro!

- Não quero mostras, fale.

- Aqui!

- Na boca? Logo não vê!

- Que tem?

- Se quiser, há de ser no... no... na... Feche os olhos!

- Para que?

- Então não dou!

- Você quer me lograr?

- Palavra!

De arrogante que estava poucos momentos antes, tornara-se o Afonso novamente submisso, e tímido suplicava a carícia de que ameaçara a menina, prestando-se humilde a todos os seus caprichos e negaças.

Fechou ele os olhos, e Berta cerrando-lhe por cautela as pálpebras com a palma da mão esquerda, acenou um beijo, que derramou-lhe nas faces tépida fragrância. Mas antes que os lábios tocassem a macia penugem, caiu-lhe sobre a orelha um piparote, que por ser de unha rosada e faceira não deixou de doer, tanto como dói um espinho de rosa.

Quando Afonso, arrebatado ao enlevo da carícia que já libava no hálito perfumado, deu acordo de si, tinha-lhe fugido a menina dentre os braços, e uma risada fresca e límpida trinava ali perto, entre as moitas.

Este logro abateu o gênio folgazão do moço. Em vez de correr após a menina e desforrar-se da peça que lhe acabava de pregar, deixou-se ficar tristonho e aborrecido. Era o amor que assim esfumava com laivos de melancolia os brincos e travessuras da adolescência.

Vendo o camarada ressentido, não se conteve Berta que o ficara espiando, partida entre o prazer da pirraça e o susto da desforra com que ela contava.

Aproximou-se compadecida; e com uma graciosa inflexão da fronte docemente enrubescida e uma gentil expressão de ternura e bondade, pousou os lábios na face do mancebo.

- Está; não fique zangado!

Estremeceu Afonso. A fronte reclinando com o enlevo da carícia repousou lânguida sobre a formosa cabeça da menina, cujos cabelos anelados amaciava com a mão trêmula. Assim o cedro alterneiro, se o cortam pela raiz, entrelaça as ramas da copa frondosa às grinaldas do cipó florido.

Quanto a Berta, conchegada ao seio do mancebo, ria-se maliciosamente para disfarçar o rubor; e lançava de esguelha um olhar brejeiro ao semblante do camarada.

De chofre repeliram-se um ao outro.

Miguel estava em face deles.

Capítulo XV
Confissão

Miguel estava pálido, que assustava; os lábios trêmulos não podiam pronunciar uma palavra. Conhecia-se o esforço que ele empregava para conter o ímpeto de sua cólera.

Afonso ficara confuso; e com os olhos vagos e o gesto constrangido, cogitava um pretexto para retirar-se; mas nem um lhe acudia.

Foi Berta quem primeiro recobrou-se do sossôbro.

- Que anda fazendo, Miguel?

- Vim procurá-la. Em casa estão todos com cuidado.

- Não tenha susto que eu não me perco! replicou a menina sorrindo.

- Você não vem, Berta? perguntou Afonso.

- O senhor não veio só? Pode voltar do mesmo modo.

Aproveitou Afonso a despedida para afastar-se desse lugar onde em verdade não estava a gosto. Ainda indeciso, parando de instante em instante, à espera dos outros, encaminhou-se para a casa.

Berta, ficando só com Miguel, contemplava o semblante abatido do mancebo, e condoia-se da mágoa que tinha involuntariamente causado.

- Que tem você, Miguel?

- Ainda pergunta, Inhá?

- É porque eu quero bem a Afonso?

- Não carece dizer; eu já sabia.

- Mas eu também lhe quero! disse Berta com encantadora singeleza.

- Como a ele? perguntou vivamente Miguel.

Corou Inhá, lembrando-se do beijo dado na face de Afonso, o que ela nunca se animaria a fazer com o filho de nhá Tudinha, apesar de ser este seu colaço.

Tornou Miguel com um modo sentido e grave:

- Não se pode querer bem assim, Inhá, senhão a uma pessoa: aquela que se escolheu para marido.

Berta soltou uma risada zombeteira:

- Como Linda quer a você, não é?

- Tantas vezes que lhe tenho pedido para não repetir esse gracejo! Mas como sabe que ele mortifica-me, por isso mesmo não o esquece.

- Você é um ingrato, Miguel! disse Berta com a voz queixosa e um suspiro que partia do íntimo d`alma. Não para o amor que lhe tem!

- E sou eu só o ingrato?

- Se soubesse o bem que Linda lhe quer. Ainda hoje estava tão tristezinha por sua causa, pensando que você não gosta dela!... Mas eu consolei aquele coraçãozinho, e prometi-lhe que você havia de confessar...

- Fez mal, Inhá, muito mal.

- Não tem pena daquela santinha?

- E de mim? Alguém tem pena?

- Tenho eu, que hei de fazer tudo para que você gosto só e só de Linda.

- Não era mais fácil gostar um bocadinho de mim, que lhe quero tanto, Inhá?

- Gosto muito; e por isso mesmo o quero dar à minha Lindazinha.

Fitou Miguel no semblante de Berta um olhar surpreso. As palavras da menina lhe pareciam remoques; e, todavia, era a voz repassada de tanto afeto e sinceridade!

Mais surpreso ficou vendo a efusão de meiguice e ternura que havia no rosto gentil, salpicado quase sempre de graciosa malícia.

- Obrigado, murmurou Miguel afastando-se com despeito.

- Escute, Miguel, disse Inhá pousando a mão carinhosa no ombro do moço para retê-lo. Você há de gostar de Linda!... Me promete, sim? Você já gosta dela... Há quem possa resistir àqueles olhos tão doces, que estão bebendo a alma da gente. E a boquinha?... É um torrãozinho de açúcar escondido em uma rosa! Quando ela ri-se, faz cócegas no coração! Do corpinho, nem se fala. Que cinturinha de abelha! E um ar tão engraçado, um andar tão faceiro, que encanta!

Este esboço, Inhá o fazia ao vivo, e não só com a palavra cintilante, mas com o gesto animado, e o requebro do talhe esbelto. Era ela a própria cera, da qual a sua mímica ia esculpindo a estátua famosa de Linda, com as doces inflexões das formas, o terno volver dos olhos e o desbroche do mimoso sorriso.

Miguel fascinado, rendido, já não resistia com efeito; e nesse momento, pelo menos, ele sentia que amava Linda; mas essa Linda que ali tinha diante dos olhos, e não a outra que vira ao natural, tímida, com as pálpebras cerradas, o lábio trêmulo, e o gesto constrangido.

A mulher que ele adorava nos sonhos de sua juventude, o tipo de sua ardente imaginação, realizava-se naquela moça que vazara a inefável ternura de Linda na graça e gentileza de Berta; e não era uma nem outra, mas a transfusão dessas duas almas em uma beleza sedutora.

Preso dos olhos ao lindo semblante da menina, e suspenso de seu lábio gazil e mimoso, foi Miguel seguindo-a, sem consciência do que fazia.

Próximo à casa ouviu Berta uns risos e cochichos por trás da folhagem; e disfarçando para não despertar as suspeitas de Miguel, aproximou-se da ramada, donde ela pressentira que a estavam espreitando.

E não se enganava. Linda, impaciente com a ausência de Berta, não vendo chegar Afonso que fora em busca da travessa, tinha saído de casa a pretexto de passeio, com o fito de descobrir alguma coisa.

Em caminho encontrou o irmão, que recobrado já do acanhamento, ardia por dar expansão ao gênio alegre, por um instante sufocado. Escondeu-se o folgazão do Afonso com Linda para espreitar o que diziam Berta e Miguel.

Tão embevecido estava este na magia do sorriso da companheira, que apesar de caçador, não percebeu o farfalhar das folhas agitadas pelo buliçoso rapaz e o sussurro dos segredinhos de Linda no ouvido do irmão.

Então, disse Berta para Miguel: confesse, você gosta de Linda?

- Gosto! respondeu o moço com um sorriso.

- Muito?

- Muito!

Voltou-se Berta rapidamente e afastada a ramagem exclamou alegre, descobrindo o vulto de Linda:

- Não lhe disse, Linda? Veja que não a enganei.

Linda corou; e Miguel nesse momento acreditou que a amava, pois a via ainda através do sorriso fascinador de Inhá.

Dirigiram-se todos à casa. Berta com o braço passado à cintura de Linda, achava meio de aproximar a amiga a cada instante de Miguel, entrelaçando as mãos de ambos.

O Afonso com suas estrepolias aumentava a doce confusão de que se aproveitava Berta para estabelecer o contato das duas almas, que ela queria unir.

Assim chegaram à casa, onde já se aprestava o suntuoso banquete.

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