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Til
José de Alencar

 


Capítulo XII
O assalto

Ao dar o primeiro passo, voltou-se o Bugre rapidamente, para ver o que lhe fossava o calcanhar.

Era o bacorinho ruivo, que chegando naquele instante, esbaforido pela rápida corrida, focinhava os pés do capanga, estirando a tromba para o lado do campo, e soltando um grunhido particular, se não era antes um burburinho.

Não hesitou Jão, à vista destes sinais. Tomando Berta nos braços outra vez, galgou aos saltos por cima dos calhaus e barrocos, agrupados na falda do rochedo, como os degraus de uma escada em espira; e sumiu-se com a menina no bojo da caverna.

Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar de leve o mato, que bordava as abas da penedia; e dentre a folhagem surdiram os canos de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos das árvores.

Houve um instante de silêncio.

As armas, prontas a desfecharem, permaneceram imóveis, talvez à espera de um sinal. Nenhum rosto ou figura humana assomou na cortina da floresta; nem mesmo se lobrigava qualquer vulto por entre a espessura.

Os assaltantes se tinham aproximado sorrateiramente, emboscados atrás do pau, saltando de um toco a outro, com receio da bala certeira, que o bacamarte do capanga podia mandar-lhes por entre as frestas da gruta.

Chegados à borda do mato, ficaram à espreita, com os olhos fitos na solapa, que servia de entrada à caverna, e as espingardas apontadas para aquele alvo aguardando um resultado, que não ousavam provocar.

Tão preocupados estavam de sua própria segurança, que não repararam em um acidente importante. A boca da furna, pouco antes de uma escuridão profunda, desvanecera um tanto; indício de que, ou se abrira na caverna alguma fenda por onde penetrava a luz, ou se fechara a entrada com alguma lasca de pedra, na qual se refrangia a claridade exterior.

Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrás de grosso tronco de árvore:

- Entrega-te, bugre do inferno, senão morres!

Não teve resposta essa intimação; mas a voz depois de curta pausa continuou a bradar:

- Chegou o dia!... Vais sentir o gonzo deste braço, e saber para quanto presta o Suçuarana! Agora é que se quer ver a fama! Salta cá para fora, caborteiro, se és homem!...

Calou-se um instante o Gonçalo para escutar, e não ouvindo rumor na caverna, prosseguiu:

- Estás com medo, hein!... A valentia que arrotavas de papo cheio, fez víspora, não é? A coisa cheira a chamusco; e vais tratando de por-te de molho. Pois olha, desta vez escusa de estares aí embromando, que não escapas, nem por artes do diabo.

Cada vez mais animado com o silêncio e placidez que reinava na caverna como em seus arredores, o Pinta chegou a destacar-se do tronco da árvore, ao qual estava colado e lhe servia de guarita.

Agitando então os longos braços e batendo no chão com a coronha da clavina, berrou ele:

- Estás filado mesmo, Bugre dos trezentos; e quem t'o diz sou eu, Gonçalo Suçuarana, que jurou cortar-te as orelhas, e aqui está para cumprir o prometido.

Ainda não teve resposta a arrogante bravata do Pinta. Mas um seixo desprendeu-se do flanco do penhasco e rolou pela fraga abaixo com grande estrépito, aumentado pela natural repercussão do som nas grotas e barrancos do serrote.

De um salto, digno de onça, que ele tomara por seu xará ou tocaio, o Gonçalo alcançara o tronco protetor, e perfilou-se ao longo dele por tal modo, que não lhe aparecia fora a aba do chapéu sequer, ou a mínima dobra do poncho.

Tanto ele, como sua gente, cuidou que fosse aquele o começo das hostilidades por parte de Jão Fera; e com o dedo no gatilho, o olho da boca da furna, e o ouvido alerta para qualquer rumor, se prepararam para receber a investida do inimigo.

Bem viam que o Bugre não cometeria a imprudência ou tolice de apresentar-se em face deles, na boca da furna, a descoberto, oferecendo-se como alvo aos tiros. Por isso, embora confiados no número, não deixava de invadi-los um terror vago com a lembrança de algum assalto brusco do capanga, favorecido pelos barrocos e fojos daquele sítio escabroso, que ele devia conhecer como sua casa.

Todavia, depois que rolou a pedra do alcantil, se restabeleceu o silêncio que sepultava constantemente esse ermo, e só era interrompido então pelo zumbir das abelhas, ou pelo estalido das articulações dos insetos a saltar sobre a grama.

- Qual! rascou o Gonçalo com seu costumado entono. O cabra não se atreve! Ele conhece o degas; e sabe que eu não brinco.

- Mas desta maneira não se arrocha o cujo! acudiu um da troça.

- isso não! atalhou o Pinta. Aposto em como ele já se pôs ao fresco, muito concho de si, porque pensa que pode escapulir. Mas sai-lhe a coisa às avessas, que lá está da outra banda o Filipe com os outros camaradas.

- Bem pode ser; mas eu duvido. Que necessidade tinha ele de sair da concha onde está muito a seu gosto?

- Lá isso é verdade! Assim não se faz nada; é preciso desencafuar o bicho!

- Então vá lá.

Deram os assaltantes uma descarga sobre a caverna, e no meio do estrondo dos tiros ouviu-se a voz aguda e estrepitosa do Gonçalo Pinta, que mandava o assalto em berros formidáveis.

- Avança, camaradas! Fogo! Matem-me este Bugre endiabrado! Depressa, antes que fuja o danado!

Apesar destas falas, o Gonçalo não se resolvia sair fora da precinta da floresta; e o seu arrojo de ataque não ia além de um passo distante do toco de árvore ao qual logo prudentemente se recolhia. Bem desejava ele que os outros executassem as vozes de mando independente de ato seu, mas não entendiam assim os camaradas que esperavam exemplo.

Cerca de uma hora decorrera nestas hesitações, quando ouviu-se da outra banda da penedia uma descarga de espingardas; e ao mesmo tempo um urro medonho.

Aquele brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes e encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de furor e sanha.

Assim foi com a fala trêmula e soturna que disse o Gonçalo aos companheiros:

- Está seguro o bicho!

Capítulo XIII
Luta

Penetrando na caverna, Jão Fera soltou dos braços a menina, e rolou um grande calhau para trancar a entrada.

À interrogação inquieta que lhe dirigira Berta, respondera ele com um modo brusco e um tom ríspido.

- São eles.

Arrimando então contra o alcantil o corpo, que sentia vergar ao próprio peso, submergiu-se o capanga em profunda cogitação. A consciência desse homem era um antro medonho e tenebroso, onde eles raras vezes penetrava; e nessas ocasiões confrangia-se de terror o coração, que nenhum perigo fizera nunca vacilar.

Berta, agitada por um receio que já se ia desvanecendo, mas viva e estouvada até mesmo nas suas comoções, estava espiando por uma fisga da rocha os movimentos dos assaltantes ocultos entre a folhagem.

Jão continuava absorto; e às vezes, seu olhar fincado no chão, e tão pesado como um vergão de ferro suspenso pela extremidade, se levantava para cravar-se no talhe gracioso da menina, que meneava-se com vivacidade no esforço de alcançar a fenda do rochedo e enfrestar ela a vista.

Sentia o capanga revolto dentro em si todo seu ser, que bramia como o oceano proceloso, arrebentando contra as sirtes. Queria ele conter nas arcas do peito aquelas vagas impetuosas; mas era vão o esforço, que não tardava ser arrebatado por elas.

O toque suave do corpinho mimoso de Berta produzira nele uma embriaguez maior, do que não tivera quando pela primeira vez tomara o gosto à cachaça, ou aspirara o fumo do sangue.

Ele tinha sede; sede imensa, ardente, abrasadora, mas era sede de fogo: só chamas poderiam aplaca-la.

Um turbilhão de pensamentos perpassava-lhe rapidamente pelo espírito sombrio, como nuvens de borrasca se acastelam em céu chumboso. A terra seca espera as primeiras gotas que a devem embeber; assim a alma de Jão buscava em cada um desses pensamentos bálsamo para a dor cruciante que o dilacerava.

A imagem de Besita, que invocara do fundo de seu coração, para amparar a filha, contra sua loucura, e subtraí-la à raiva que se apoderara dele, essa imagem querida, que adorara sempre, como uma santa, lhe aparecia agora, por um incompreensível delírio, excitante e provocadora.

Depois lembrando-se como Besita fora arrebatada a seu amor por um crime, sem que ele a pudesse nem defender, nem vingar, associava esse horroroso acontecimento ao perigo que tinha pouco antes corrido Berta e ao qual sucumbiria se por uma casualidade não chegasse a tempo de socorre-la.

Como sua mãe, Berta se partiria deste mundo e o deixaria só, com aquele amor insano. Era preciso que ela lhe pertencesse, que ela a unisse à sua existência para sempre, a fim de protege-la a todo o instante.

Ali estava a floresta; além o sertão imenso.

Ergueu-se o capanga; mas não teve força de promover um passo. Berta voltara-se de chofre, e caminhava para ele risonha, embora com ligeira palidez nas faces. Colou-se Jão à rocha com tal ímpeto que parecia embutido nela.

- Eles apontaram as espingardas para cá! disse a menina. Venha ver, Jão!

E ela segurou com sua mãozinha delicada o grosso pulso do capanga, a fim de trazê-lo à fenda por onde estivera espiando. Deu o Bugre um salto espantoso, arrancando o braço dos dedos mimosos, como se estes fossem rijas tenazes que lhe triturassem os músculos com dores atrozes.

Algum tempo errou o capanga pela caverna, roçando ou batendo pelos alcantis à semelhança da fera, que palpa os varões do cárcere em que a prenderam. Dera ele tudo para ver-se naquele instante, longe, bem longe dessa furna, onde rugia a paixão indômita; e contudo não se resolvia a fugir.

Sucedeu cair seu olhar sobre o seixo que servia de escora ao tronco do jetaí; e uma idéia horrível atravessou como um relâmpago pela noite do seu pensamento. Lembrou-se de fazer saltar a pedra.

Desabaria o estilhaço de rocha, que servia de abóbada à caverna, esmagando a Berta e a ele; mas era justamente essa catástrofe, que lhe sorria, como um céu azul, no meio da sua terrível alucinação.

A morte os uniria para sempre, livrava a Berta de uma desgraça e a ele de um atentado espantoso. A filha de Besita deixaria o mundo como sua mãe, pura e adorada por ele, mas sem amar a outro, sem condena-lo ao suplício atroz que sofrera por tanto tempo.

Com os olhos fitos no recanto da caverna, estas cismas se atropelavam no cérebro do capanga, que sofria nesse momento uma completa subversão do senso íntimo.

Através do delírio que o esvairava parecia-lhe que o seixo bruto animava-se, vivia, agitava-se; e ele, Jão, tornava-se uma coisa inerte, uma alma sem movimento.

Pouco antes o compelia um ímpeto poderoso de precipitar-se para a pedra, agarrá-la com ambas as mãos, para atirá-la ao despenhadeiro, derrocando dum jacto a caverna.

Agora, porém, era a pedra que arrojava-se para ele, travava de suas mãos, e com elas arrancava-se dali, de onde estava, para aluir a gruta e sepultá-lo vivo sob a pesada abóbada.

E ele que reagia contra o impulso que o arrastava, agora pasmo e sucumbido abandonava-se àquela obsessão. Involuntariamente, como um autômato, se aproximava do seixo, acreditando em sua insânia, que era o seixo e não ele, quem se movia.

Continuava Berta a olhar pela fresta, atenta às ameaças do Gonçalo; e Jão, pasmo, sombrio, abatido, avançava lentamente aos trancos. Já ele tocava o seixo, e curvava-se.

Nesse momento Berta soltou um pequeno grito, e correu a esconder-se junto do Bugre:

- Eles vão atirar, Jão! exclamou ela.

- Nhazinha tem medo de morrer? perguntou o capanga.

- Tenho, sim! respondeu a menina assustada.

A expressão de receio, que se desenhava em sua fisionomia, a salvou. Jão ergueu-se de um salto, arrastou o calhau que obstruía uma solapa do rochedo, por onde a caverna se comunicava com a próxima encosta, e fugiu horrorizado, levando consigo Berta.

Foi então que vendo-o passar de relance pelo desfiladeiro, a gente de Filipe desfechou as armas; e o capanga urrou de sanha e furor.

Por atalhos só dele conhecidos, Jão ganhou a floresta e conduziu a menina até as plantações da fazenda; aí despediu-se dela com estas palavras, proferidas em profunda entonação:

- Nunca mais, Nhazinha, ande só por estes matos.

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