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Til
José de Alencar

 


Capítulo VII
O marmanjo

No terreiro da fazenda das Palmas, junto à escada da casa de morada, os animais de montaria mordiam os freios de prata, raspando o chão com a ponta do casco.
Tinha-os pelas rédeas um mulato de libré cor de pinhão, avivada de preto e escarlate, com botas envernizadas de canhão amarelo, e chapéu de oleado a meia copa. Recostado ao socalco do patamar com ares de capadócio, o pajem fazia sinais para uma janela, onde aparecia amiúde a trunfa riçada de uma crioula.
Vinha chegando-se com a proverbial pachorra paulistana um camarada, que mastigava o último bocado do almoço, e preparava o cigarro de palha. Aceso o pito e tomada a primeira fumaça, passou revista primeiro nos arreios do baio e da rosilha, depois nos cascos; e não achando coisa de maior, foi contudo, para mostrar a sua valia, aqui apertando um loro, ali afrouxando uma cilha e repuxando uma correia da cabeça.
- Esta corja de pajens, dizia a rir para o mulato em forma de cumprimento, só serve de emporcalhar a casa. Ficam velhos e não aprendem.
- Corja é súcia, sô Mandu. Olhe lá! rebateu o pajem.
Nisto apontou a mucama à janela.
- Falta muito ainda, Rosa? perguntou o mulato.
- Já está acabando. Não tem tempo de ir mais à roça, ver Florência, não, rapaz.
- Ai, que dor de canela!
- Ixe! Quem conta com pajem!
- Assim, menina! exclamou o camarada. Tem aqui uma barra para seu pimpão.
- Sai daí! chasqueou o mulato. Jabuticabinha de sinhá é lá para o beiço de caipira? Vá comer sua broa de milho, homem, e deixe de partes.
A mucama soltou uma risada e desapareceu de repente a um puxão que de dentro lhe deu o pajem Faustino.
- Assim é que serve a mesa?
- Salta, moleque! Menos confiança comigo.
- Hô xente! Moleque como nós. Tenho muita xibança nisso. Não é como esse mestiço do inferno, cor de burro; mas você não tem vergonha mesmo de vir engraçar com ele na janela.
- Sinhá está ouvindo! disse a rapariga em tom de ameaça.
- Melhor pra mim! Eu cá não me embaraço.
Este curto diálogo travou-se na saleta da entrada, onde o Faustino veio pilhar a mucama, que escapulira do serviço da mesa para se faceirar com o mulato. Apanhada em flagrante, a Rosa, muito senhora de si tornou à sala de jantar, onde ninguém dera pela sua falta.
Ali, estava posta para o almoço a larga mesa de jacarandá, coberta com alva toalha de linho adamascado; e rodeada naquele momento, como de ordinário, por cinco pessoas.
A cabeceira, contra os costumes da terra, ocupava-a a dona da casa, senhora de 38 anos, e não formosa; porém tão prendada de inata elegância, que seus traços e toda sua pessoa tomava um particular realce. Se não tinha bonitos olhos, ninguém sabia olhar como ela; a boca sem primores de forma, enflorava-se com o sorriso inteligente e a palavra brilhante.
Filha de um capitalista de Campinas, D. Ermelinda recebera em um colégio inglês da corte educação esmerada, que desenvolveu a natural distinção de seu espírito. Recolhida à sua província, teria sem dúvida perdido ao atrito dos costumes do interior aquele tom fidalgo, se fosse ele um artifício do hábito, em vez de um dom, que era da natureza, o qual o exemplo não fizera senão polir.
À expansão dessa natureza delicada, ao perfume de bom gosto que derramava em trono de si, deve-se atribuir a ausência de cor local que se notava senão em toda casa, ao menos na família. Aquela esfera que recebia a influência imediata da dona da casa, não era paulista, mas fluminense; e não fluminense pura, senão retocada já pelo apuro escocês e pela graça francesa.
Aos verdadeiros paulistas da têmpera antiga, de antes quebrar que torcer, aos grandes turrões, nutridos de lombinho de porco e couve crua, não deixava de escandalizar esse enxerto carioca no meio das suas matas, e por isso, já desconfiados de natureza, mostravam-se espantadiços, quando entravam na casa das Palmas.
À direita de D. Ermelinda estava o dono da casa, Luís Galvão, cujo aspecto franco e jovial granjeava a simpatia ao primeiro acesso. Era um bonito homem, de fisionomia inteligente e regular estatura, que revelava em sua compostura digna a consciência do próprio mérito.
Do comedimento do modo prazenteiro, bem como do alinho do traje, transpirava o influxo da suprema distinção do espírito de sua mulher. Naturezas há que têm a força de imprimirem o seu cunho naqueles que o cercam; outras se apoderam da índole alheia insinuando-se nela pelo afeto, impregnando-a de sua essência.
A de D. Ermelinda era destas últimas. Fora por uma lenta filtração moral, que ela conseguira transmitir ao marido um toque do seu garbo nativo, embotando as asperezas de uma educação grosseira e extirpando hábitos da infância descurada.
À esquerda da mãe ficava o filho, como à direita do pai a filha, ambos na flor da juventude. Chamava-se o primeiro Afonso, como o avô. À Segunda tratavam todos pelo apelido, senão diminutivo, de Linda, formado das últimas sílabas de seu nome, que era o mesmo da mãe.
Finalmente, no segundo lugar da esquerda defronte da moça via-se um menino de 15 anos de idade, cuja figura destoava de todo o ponto, no quadro daquela família, que respirava a graça e a inteligência.
Era feio, e não só isso, porém mal amanhado e descomposto em seus gestos. Tinha um ar pasmo que embotava-lhe a fisionomia; e da pupila baça coava-se um olhar morno, a divagar pelo espaço com expressão indiferente e parva.
Curvado como um arco sobre a mesa, com as vestes em desalinho e os cabelos revoltos, abraçava uma xícara de almoço, que lhe ficava abaixo do queixo; e escancarando a boca enorme para sorver de um bocado a grande broa de milho, ensopada no café, mastigava a tenra massa a fortes dentadas e sofregamente como se estivesse rilhando um couro.
Percebia-se logo que a influência de D. Ermelinda não penetrara nesse membro enfezado da família, refratária a todo o preceito de ordem e arranjo. Por isso a dona da casa, quando presidia a mesa de seu lugar de honra, observando o serviço e ocupando-se de todos, não transpunha aquele ângulo, onde sentava-se o pequeno. Se acontecia a seu olhar, circulando a sala, passar por aí, cegava-se e fugia com desgosto.
Naquele momento acabava o menino de fazer uma das costumadas estrepolias, virando com o queixo a xícara, que entornou-lhe todo o café no peito da camisa.
- Hô, hô, hô!... fez ele com um riso gutural e apatetado.
Acudiu a Rosa, para enxugar-lhe com o guardanapo a cara, pois ele não se mexia.
- Que vergonha! murmurou a crioula em meia voz. Marmanjo deste tamanho não sabe comer na mesa.
Um raio maligno lampejou na pupila baça do pequeno.
- Nhô Brás! gritou a rapariga tomada de dor.
O menino por baixo da mesa fisgara-lhe o garfo na coxa.

Capítulo VIII
Pressentimento

Passou despercebido para as pessoas da família o acidente do café entornado.
D. Ermelinda parecia preocupada; sem tomar parte no almoço, acompanhava os movimentos do marido com uma inquietação nervosa, que procurava reprimir, porém ressumbrava-lhe da fisionomia assustadiça. Não se difundiu, portanto, em sua expressão o tédio, que ordinariamente lhe inspiravam, quando assistia à mesa, àqueles desasos de Brás.
O marido estava a partir para Campinas, onde ia demorar-se três dias afim de concluir alguns negócios, que talvez o levassem a São Paulo. Apesar do hábito dessas e até de maiores ausências, a senhora não podia eximir-se à repugnância que lhe causava semelhante viagem, e empregava todos os esforços para desmanchá-la.
Mas Luís Galvão não era paulista debalde; ele se deixara imbuir da influência da mulher naquela parte da existência do homem que pertence exclusivamente à esposa, e onde, portanto, aceitava como legítima supremacia feminina, tinha contudo sua ponta de birra, e quando, em matéria de lavoura e negócio, ou coisa que não entendia o regime doméstico, se decidia por um alvitre, não havia demovê-lo.
Por causa da viagem se tinha posto o almoço tão cedo, quando o costume era às 9 horas, para dar tempo aos longos passeios que D. Ermelinda recomendava aos filhos, e de que ela muitas vezes dava exemplo com o marido. Ainda nisso havia uma inovação aos usos da terra, onde moça rica, filha de fazendeiro, não anda a pé, a não ser na vila.
Luís Galvão comia com boa disposição e, de vez em quando, replicava ao olhar inquieto da mulher com um sorriso e um gesto de carinhoso motejo, o que chamava aos lábios da elegante senhora uma fugaz enfloração, logo apagada. Quanto a Linda e Afonso, apesar da hora, só para fazer companhia ao pai debicavam com o apetite, pronto sempre, da juventude.
Nenhum destes fez reparo no desastre acontecido com Brás, naturalmente porque semelhantes desaguisados eram tão freqüentes, que já se contava com eles. E então buscavam todos modos de disfarçar, não só para não contrariar ainda mais D. Ermelinda, como para evitar as represálias de que servia-se o pequeno contra qualquer ralho ou motejo.
Dessa vez ficou na garfada à perna da Rosa, que lá se foi coxeando para a camarinha, examinar o arranhão. Entanto o Brás, rachando a meio um pão e metendo em cada bolso uma banda, levantava-se da mesa para ganhar o quintal pela porta da cozinha.
Repetindo Luís Galvão o seu amoroso remoque à inquietação da mulher, esta não se conteve, que não lhe replicasse.
- Tem razão de zombar, Luís! Devo parecer-lhe uma criança; e eu mesma não cesso de acusar-me por esta tolice; mas nem por isso consigo livrar-me dos receios que me assaltam.
- Disposição em que você está, Ermelinda. Que perigo pode haver em um passeio que estou a fazer constantemente, e até mais longe e com maior demora?
- Tudo isto me tenho eu dito cem vezes desde ontem, e não sossego. Nunca fui sujeita a cismas e caprichos, você bem o sabe; entretanto sinto hoje um desassossego, um aperto de coração.
- É nervoso.
- Se não houvesse uma causa real para isso, podia ser; mas há. Essas esperas, que andam deitando por aí, das quais ainda ontem falou o administrador...
- E por que hão de ser elas para mim? Não tenho inimigos, e a ninguém faço mal para que se dêem ao trabalho de livrarem-se de mim.
- Papai é tão estimado! disse Linda; e a voz doce como um favo de mel arpejou a nota moviosa da ternura filial.
- Quem se atreveria?...
O altivo desafio, esboçado nestas palavras, partiu dos lábios de Afonso que alçou a fronte já naturalmente erguida, com um assomo bizarro.
- São os bons, meus filhos, que estão mais sujeitos ao ódio dos maus, os quais se conhecem e ajudam entre si.
- Lembre-se, Ermelinda, que depois das esperas tenho andado por esses caminhos. No dia em que o administrador veio contar-lhe a tal novidade e assustá-la à toa, eu fui a Piracicaba, e duas vezes passei na Ave-Maria. Disse o Pereira depois, que vira dois vultos no mato; entretanto nada me aconteceu. Se havia espera, não era decerto para mim.
Pareceu D. Ermelinda ceder à força desse argumento e ao tom persuasivo do marido; mas o pressentimento a pungia, e o coração perscrutava objeções para resistir à razão.
- E esse homem, que foi ontem visto pelos pretos, atravessando a fazenda? Dizem que a desgraça o acompanha, pois ele deixa, por onde passa, um rasto de sangue. Por isso deram-lhe o nome de fera!
- Outra prova de que são imaginários os seus receios, Ermelinda. Jão Bugre ou Jão, como eu o chamava em menino, a exemplo de outros, foi criado em nossa casa; era afilhado de meu pai e até chegou a servir-me de camarada. Depois tornou-se um perverso; porém lembra-se dos benefícios que recebeu de nossa família, e, embora se mostrasse altaneiro comigo, acredito que me respeita.
- Essa gente não é capaz de gratidão, Luís; ao contrário, o benefício os humilha, e eles revoltam-se contra o que chama uma injustiça do mundo.
O Bugre é uma fera, na verdade; contam-se dele as maiores atrocidades; porém esse homem de más entranhas tem um resto do consciência e probiedade. Não há exemplo de haver atirado a alguém por trás do pau, ou de emboscada: ataca sempre de frente, expondo-se ao perigo. O bacamarte só lhe serve para defender-se, quando o perseguem. Também nunca ouvi falar de roubo ou furto que ele cometesse, e isso apesar de viver ele pelos matos, constantemente acossado.
- E ainda não foi preso um criminoso de tantas mortes?
- Não é por falta de diligência. Andam-lhe à pista desde muito tempo; e até, se não me engano, ouvi que tinham prometido um prêmio a quem desse cabo dele; mas até agora não se animaram, tal é o temor que inspira.
- Bem razão tenho eu, portanto, de assustar-me, quando um facinoroso desses aparece dentro da fazenda: talvez ande ele rondando a nossa casa.
- Não se lembra disso; mas, se tivesse a audácia, ele ou outro, acharia a casa bem guardada. Demais, aqui lhe deixo um homem para defendê-la. Não é verdade, Afonso?
- Sem dúvida, meu pai. Na sua ausência nada acontecerá!
- Não é por mim que receio, Luís; antes fosse; não estaria tão inquieta, disse a senhora com um leve reproche.
- Nesse caso eu não partiria! respondeu o marido galanteando.
- Então fique!
- Sim, papai, fique! Dê esse gosto a mamãe, disse Linda.
- Também a senhora não quer que eu vá? Olhe, não se arrependa! replicou o pai com um gesto de zombeteira ameaça. Levo uma certa encomenda de vestidos e enfeites, que só eu sei escolher.
A moça ficou enleada entre a esperança do presente e o desejo da mãe.
- Papai compraria outra vez.
- E a festa? Perguntou o pai sorrindo.
A pêndula soou oito horas.

Capítulo IX
As amostras

Advertido pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio de algibeira e ergueu-se:
- São horas!
Até aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança, que ela mesma não podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:
- Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me grande desarranjo, como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la tão sobressaltada.
- Confesso que esta emoção faz-me mal; já não me sinto boa.
- Então fico: está decidido.
Uma sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia não escapou ao olhar da mãe, que adivinhou a causa dessa mágoa da moça.
- Mas, Luís, esta viagem é necessária, e, no fim de contas, meus sustos não têm razão de ser. Você precisa concluir esse negócio; e Linda ficará queixosa se não tiver os presentes prometidos.
- Eu, mamãe? exclamou a menina com terna exprobração. O que eu desejo é vê-la sempre contente.
- E não é um contentamento fazer-te feliz? Já fui moça como tu; nessa idade a ventura é uma flor, uma fita. Só depois se compreende o que ela vale e o que ela custa, minha filha. Não te envergonhes dessa faceirice. Quem há de tê-la senão tu? Deus fez as estrelas para brilharem.
- Então o que decidem? Perguntou Luís Galvão.
- Vá; eu lhe peço.
- Por minha causa, não! contestou Linda.
- Pela minha, disse D. Ermelinda.
Calçadas as luvas e feitos os últimos aprestos, despediu-se o viajante da família e montou a cavalo.
No momento de abraçar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe o peito, e ficou mais tranqüila percebendo o revólver no bolso do casaco. Não obstante, custou-lhe muito essa despedida; seus vagos terrores se alvoroçaram de novo, e foi preciso grande esforço para dominar-se.
Entretanto Luís Galvão, esporeando a rosilha, depois que disse o último adeus com a palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro. Acompanhava-o de perto, a meio-corpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante ia o pajem para abrir as tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio, solto, mas de todo arreado e pronto para o revezo.
- Logo hoje é que seu pai leva um camarada só.
- Por que, mamãe? perguntou Linda.
- O Pereira adoeceu, o outro, ninguém sabe onde anda.
- Se mamãe quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo menção de dirigir-se à cavalariça. Em um instante o alcançarei.
- Não, não Afonso! acudiu vivamente a senhora, já se não viam os viajantes, ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de entrar, voltou-se para os filhos:
- Vão passear!
- E mamãe fica só?
- Preciso descansar um pouco até a hora do almoço.
- Sente alguma coisa, minha mamãe?
- Nada, fadiga apenas. Até logo.
- Quer ir, Afonso?
- Se você quiser, Linda!
- Vão; a manhã está bonita, insistiu a mãe.
D. Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude dispensava nesse momento, pela razão de os não afligir comunicando-lhes a tristeza e inquietação que a assaltava com dobrada força.
Apenas eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com os olhos ao marido, até a volta que fazia o caminho no canto da tigüera e onde se perdia de todo a vista da casa.
Os viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda deu graças a Deus daquela volta inesperada, que lhe restituía o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir.
A angústia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruéis que lhe crivavam a alma nesse breve trato, não os sentira ela talvez em anos de sua vida. Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele havia de atendê-la, ou então de arrastá-la abraçada a seus joelhos.
Aproximavam-se os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente à casa onde Luís Galvão apeou rijo.
- Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sótão a encontrá-lo.
- Ora, respondeu o fazendeiro a rir, não sei onde pus as amostrar da Linda com a lista das encomendas.
Outra vez D. Ermelinda achou em si a força para reagir contra seus imaginários terrores. Esse coração de mãe sacrificava às inocentes alegrias da filha o seu sossego; é uma banalidade sublime, que se encontra por aí, a cada canto, e de que já ninguém se ocupa.
Correu Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos; e enquanto a mulher ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o segredo da secretária e tirou um papel, que rápida e furtivamente escondeu no bolso.
Era este o motivo real da sua volta; o outro não passava de pretexto. Apenas teve Galvão seguro o papel em um bolso, que tirando à sorrelfa um pequeno embrulho do outro, exclamou:
- Aqui está!
- Aonde achou?
- Dentro desta caixa de charutos. Só eu era capaz de achá-lo. Foi quando enchi a carteira.
Abraçando a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que se expandia momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava.
O pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou menos é infalível em todo o coração por magnânimo que seja, como da ânfora onde por muito tempo se guardou o vinho puro e generoso, há sempre lia no fundo.
Luis Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos, mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se ama, e cuja estima se alcançou, não pode haver maior suplício para o homem de brios.
O esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação ou referência do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação para ocultar o verdadeiro motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem conseqüências, e que talvez a outros nem mais lhe roçassem na memória, o estavam remordendo interiormente.
Chegaram afinal os viajantes ao canto da tigüera. Havia junto a um copado guarantã, que lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lançada sobre as altas ribanceiras de um córrego, que regava parte das terras lavradas.
Aí estava a última tronqueira da fazenda.
Voltou-se Luís Galvão para enviar um adeus à mulher, que lhe acenava com o lenço, e desapareceu.

Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV à Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII à Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII à Capítulo XXIX
Capítulo XXX e Capítulo XXXI