O Subterrâneo
do Morro do Castelo
Lima Barreto
Correio da Manhã - sábado, 27 de maio de 1905
OS SUBTERRÂNEOS
DO MORRO DO CASTELO
A Nova Galeria
Pressentimentos
O Crucifixo de Ouro
O bocado não
é para quem o... encontra.
Dia a dia se vai tornando mais interessante este caso dos subterrâneos
do Castelo, que veio trazer à banalidade chata de nossa vida
burguesa uma nota estranha de aventura romanesca, fazendo vibrar
o espírito popular que tem algo de feminino pela curiosidade
com que espreita pela fechadura de todas as casas, na ânsia
de tudo saber e penetrar, até os últimos detalhes.
Ninguém imaginaria a princípio que esse fato corriqueiro,
que se chama em engenharia um movimento de terras, tomasse em pouco
tempo as proporções extraordinárias de uma
expedição de Jasão, de uma viagem do Cândido
ao país do Eldorado.
Para alguns velhos, revolvedores da papelada secular, traças
de arquivos e bibliotecas, o morro do Castelo sempre foi, porém,
uma caixa impenetrável de segredos, um cofre de surpresas
para onde os seus olhos perscrutadores se volviam curiosos, na esperança
de advinhar-lhe o conteúdo do bojo.
O engenheiro Dutra pronunciou o Sésamo abre-te naquela furna
de Ali Babá; a sua picareta demolidora foi a varinha mágica
que tirou o encanto secular do morro, despedaçando o modelo
resistente, abatendo com fragor grandes moles de granito, levando
a eletricidade irreverente ao soturno âmbito dos subterrâneos,
onde a voz humana ecoa hoje, após três séculos
de silêncio e paz, com o tom diabólico de profanação
que teria a música de "cake-walk" nas catacumbas
de Roma.
Devem tremer no fundo da cova as ossadas dos jesuítas que
solaparam a montanha e hoje a sentem profanada pelo progresso iconoclasta
que deixa em sua passagem o cheiro acre do acetileno ou a claridade
baça das lâmpadas elétricas.
No intuito muito nosso de servir ao público, não temos
poupado esforços para trazê-lo a par de quanto de novo
aparece naquele saco de coisas curiosas e interessantes.
Às nossas notas anteriores temos a acrescentar mais as seguintes.
Os trabalhos, graças aos esforços do incansável
engenheiro Dutra, vão adiantadíssimos.
Arrebentada a dinamite a larga e fortíssima parede que obstruía
a principal entrada do subterrâneo, foi ele percorrido numa
extensão de nove metros e sessenta centímetros; aí
continuava a galeria em plano superior, numa diferença de
nível de um metro e meio.
Neste ponto era grande a quantidade de entulhos que interceptava
a passagem: retirado este, foram cavados alguns degraus e a exploração
continuou em linha reta num percurso de 23 metros. Daí parte
uma derivação para a direita, já percorrida
em 14 metros e meio de sua extensão.
O ramo principal continua, porém, contando-se 4 metros até
a parede final que parece, entretanto, disfarçar a passagem
para diante.
No braço secundário a que nos referimos há
um fato interessantíssimo a notar: um pequeno trecho do solo,
a terra que o constitui é diferente da vizinha, parecendo
ter sido ali colocada e socada.
Batendo-a fortemente com o pé, ouve-se um som oco e abafado
que faz imaginar com sobeja razão existir embaixo um compartimento
vazio ou... cheio de apóstolos.
Como quer que seja, esse fato muito impressionou os Drs. Frontin,
Getúlio das Neves, Berla e alguns frades capuchinhos que
ontem visitaram o subterrâneo.
Hoje vai ser desvendado o segredo e praza aos céus não
seja aquilo um conto do vigário, diga-se, do jesuíta.
Nota à margem: o crucifixo de ouro, encontrado nas escavações,
está em poder do presidente da República; S. Exa.
mostrou desejo de possuí-lo para mascote do seu fim de governo
e por intermédio do Dr. Frontin conseguiu que o Dr. Dutra
abrisse mão do estimado objeto.
Correio da Manhã - domingo, 28 de maio de 1905
OS ACHADOS
DOS SUBTERRÂNEOS
O Crucifixo de Ouro e o Candieiro de Ferro
O Sr. Rodrigues
Alves, logo ao saber do encontro do crucifixo de ouro, numa das
galerias do morro do Castelo, foi pronunciando o venha a nós
e chamando aos peitos o objeto achado pelo Dr. Dutra. Por seu lado,
o Dr. Frontin, que para estas coisas não é mole, foi
se apossando do candieiro de ferro, encontrado na sala abobadada.
A seguirem as coisas, para o futuro, o mesmo rumo, e dado o caso
de aparecer o S. Inácio de Loiola ou qualquer dos apóstolos,
claro está que aqueles dois senhores se julgarão com
o direito de carregá-los.
Que isso é torto como qualquer das galerias não pode
haver a menor dúvida: tudo o que ali dentro possa estar guardado
e que na opinião do Sr. Léo Junius representa riquezas
fabulosas, pertence de direito ao povo, único soberano -
em doutrina e em imagem de retórica, é verdade.
Qualquer cidadão tem tanto direito ao crucifixo e ao candieiro
como os srs. Rodrigues Alves ou Frontin.
Ora, como é impossível dividir os objetos em partes
iguais pelos milhões de almas que habitam o país -
do Amazonas ao Prata e do Rio Grande ao Pará - ficam eles
sendo de propriedade de todos em geral, sem ser de cada um em particular.
Todo cidadão pode apreciá-los de longe, com a vista
unicamente.
Ninguém afirmará, agora, que nos lugares onde se acham
atualmente possam os objetos ser admirados pelo povo. Além
de ser um pouco cacete, pela formalidade, entrar no Palácio
de Friburgo, não há tolo nenhum que acredite ser o
Sr. Rodrigues Alves capaz de mostrar o crucifixo a quem deseje vê-lo.
Sendo assim, qual deve ser a conclusão a tirar? Simplesmente
esta: tanto o crucifixo como o candieiro devem estar em determinado
ponto, para serem apreciados pelos seus legítimos donos,
e isto em dias marcados pelos encarregados da guarda de tais objetos
e que nada mais são que representantes dos supraditos donos.
Podiam eles ficar na Gávea, na Tijuca, no Saco do Alferes
ou em Santa Teresa, mas isso já dependeria de despesas com
pessoal, instalação, etc.
Há, porém, uma casa mantida exatamente para guardar
semelhantes objetos: é o Museu Nacional.
Por que não mandaram para lá o crucifixo e o candieiro?
Então o Sr. Rodrigues Alves ou o Dr. Frontin, numa terra
em que todos são iguais, podem se apossar de objetos encontrados
em terrenos do Estado e encontrados quando se faziam escavações
por conta desse mesmo Estado?
Se assim é, mandemos plantar batatas a tal igualdade, porque
nenhum deles é melhor do que qualquer homem do povo, único
pagante dos trabalhos feitos no morro do Castelo.
Vamos lá, Sr. Rodrigues Alves e Dr. Frontin, entreguem ao
Museu Nacional o que lhes não pertence: isto aqui não
é, positivamente, a casa da mãe Joana.
Correio da Manhã - terça-feira, 30 de maio de 1905
SUBTERRÂNEOS
DO RIO DE JANEIRO
O labirinto
subterrâneo do morro do Castelo complica-se cada vez mais.
Foram confirmadas as suspeitas de que no terreno adquirido pela
Mitra para construção do palácio arquiepiscopal
existissem novas galerias.
Ontem a turma de exploração, sob a direção
do Dr. Dutra de Carvalho, encontrou a entrada de duas novas galerias.
Os trabalhos de desentulho prosseguem, devendo hoje estarem as galerias
em condições de serem examinadas.
Correio da Manhã - quarta-feira, 1 de junho de 1905
OS TESOUROS
DO MORRO DO CASTELO
Na Câmara dos Deputados
No expediente
da sessão de ontem, da Câmara dos Deputados, foi lido
um requerimento do engenheiro Henrique G. Dab Verme, dirigido ao
Congresso Nacional e concebido nos seguintes termos:
"O engenheiro
Henrique G. Dab Verme requereu ao Congresso Nacional o favor de
lhe permitir a exploração e desobstrução
das galerias do Morro do Castelo para os fins indicados no seu requerimento
de 16 de abril de 1903, sendo considerada justa a sua pretensão,
sem ônus para a Nação, e por isso a comissão
da fazenda e indústria da Câmara redigiu o projeto
n.321, de 1904, cuja discussão ficou parada por ter-se encerrado
o Congresso.
O suplicante, como é sabido, desde alguns anos se tem dedicado
a estudos arqueológicos, e conhecendo por documentos antigos
que possui, a existência de galerias subterrâneas no
referido morro, pediu o favor da exploração para descobri-los
ao público; sendo certo que ele conhece o lugar em que os
jesuítas depositaram os seus valores, e dado o caso, fossem
estes encontrados, de acordo com a lei vigente, em parte pertenceriam
ao requerente.
Depois de muito tempo gasto e de sacrifícios feitos do maior
valor, quando esperava o suplicante que as suas idéias e
seus sacrifícios seriam recompensados, eis que o governo
manda demolir o dito morro, e neste sentido se está procedendo
a escavações, já se tendo achado duas galerias,
aliás sem muita importância, por serem consideradas
de defesa. Mas assim ir-se-á destruindo obras de arte de
subido valor, além de ser inutilizado o melhor ponto estratégico
da cidade, primitiva fundação de S. Sebastião,
hoje do Rio de Janeiro, donde se poderia com pouca despesa reconstruir
uma poderosa fortificação, sobre os alicerces da iniciada
pelos jesuítas, que vem desde a base desse morro.
Se o governo pretende com o arrasamento descobrir o tesouro que
se supõe existir, o meio empregado não é decerto
o mais próprio, porque levará mais de três anos
para esse arrasamento, e só no fim desse prazo e de haver
despendido muito dinheiro talvez poderá ser encontrado o
esconderijo que servia de depósito aos referidos valores.
Entretanto o requerente com as plantas que possui poderá
facilmente ir direto ao lugar e aí verificar a existência
ou não do citado tesouro, sem aliás destruir as galerias
e salões subterrâneos, que poderão ser expostos
ao público e projetados, para assim se conservar a tradição
da sua construção, forma, direção, monumentos,
etc.
O suplicante já se entendeu com os srs. Ministro da Fazenda
e da Viação, engenheiro-chefe da Avenida Central,
e todos são de opinião que o Congresso Nacional pode
conceder ao requerente a autorização solicitada, e
até, se antes não houvessem sido descobertas todas
as galerias, o suplicante iria mostrá-las.
Além das galerias subterrâneas do Morro do Castelo,
o requerente conhece outras existentes nesta capital e fora dela,
e por isso solicita do Congresso o favor de estender a concessão
para os demais pontos que o suplicante indicar na ocasião
de ser lavrado o respectivo contrato com o Ministério da
Fazenda."
Correio da Manhã - sábado, 3 de junho de 1905
OS SUBTERRÂNEOS
DO RIO DE JANEIRO
Os Tesouros dos Jesuítas
EPÍLOGO
Não espantara
do Castelo a volta rápida do padre João de Jouquières.
Toda a comunidade sabia que o fidalgo francês, habituado à
vida calma e descuidosa das cortes, amando o mundo e as suas paixões,
embora os fingisse desprezar, não se submeteria por muito
tempo às dolorosas provações da catequese no
fundo dos sertões brasileiros.
De resto, o superior da Ordem sentia-se vingado; D. Garça
não quisera escutar os seus protestos de amor, é verdade;
mas agora, ele o sabia claramente, estava nos braços de outro,
do seu ex-amante e isto bastava para que ele se sentisse compensado
da sua humilhação pela humilhação do
rival.
Entretanto o padre João, sentindo-se traído, concebeu
friamente, calculadamente o seu plano de diabólica vingança.
Ao chegar a S. Sebastião foi o seu primeiro passo dirigido
para o Colégio onde apresentou ao seu prior desculpas tais
que este fingiu aceitar.
Logo na noite imediata, embuçado em longa capa, seguiu pela
galeria do Norte e daí tomou a derivação que
ia ter à casa da sua amante infiel.
Mergulhada na treva espessa de uma noite de inverno, a cidade dormia.
Nas ruas silentes e solitárias nem um rumor sequer vinha
despertar o sono profundo e quieto da população.
Duclerc recolhera-se cedo à casa de sua eleita.
Reconciliados e felizes, as horas passavam-se tão céleres
que cumpria aproveitá-las todas, avaramente, com medo que
fugissem para não mais voltar.
Atravessando a extensa galeria, o padre João sustentava na
mão esquerda uma candeia de azeite, enquanto a direita comprimia
nervosamente o cabo negro de um punhal.
Vencida a pequena escada que dava acesso para a sala onde D. Garça
costumava fazer as suas orações, ei-lo de pé,
em frente ao oratório onde bruxuleava a luz mortiça
de uma lamparina.
Depôs no chão a candeia de azeite que uma forte lufada
de vento apagou.
Depois, pé ante pé, dirigiu-se à sala de jantar
e daí por um pequeno corredor chegou à porta do dormitório
de sua ex-amante.
Os lábios do jesuíta tremiam de ódio e comoção;
entretanto os seus dedos crispados comprimiam com fúria o
cabo do punhal preparando o golpe certeiro e decisivo.
A porta estava semi-aberta; olhou.
Os seus olhos, acostumados à treva, divisaram sobre o leito
alvíssimos dois corpos humanos ligados num mesmo abraço.
O ódio irrompeu então, indomado e terrível
na sua alma, presa de uma angústia sem nome; venceu a pequena
distância que o separava do leito e com o punhal erguido,
pronto a vibrar o golpe, contemplou um momento aqueles dois corpos
adormecidos.
Depois, num movimento rápido e seguro, a lâmina branca
do punhal cravou-se inteira no peito de Duclerc.
Ele não dera um gemido; o ferro atravessara-lhe o coração,
matando-o instantaneamente.
D. Garça despertou sobressaltada; os seus olhos negros e
faiscantes distinguiram na treva do quarto o vulto do jesuíta;
compreendeu tudo e, sentindo ao lado o corpo exâmine e frio
do seu amado, exclamou:
-Mata-me, Jean.
-Não, não te matarei, tornou este; tu és agora
minha, somente minha, não tenho mais rival.
-Enganas-te! exclamou D. Garça, erguendo meio corpo do leito.
Era ele a quem eu amava; mataste-o, pois bem, jamais te tornarei
a pertencer, covarde!
As faces do jesuíta contraíram-se num rictus de ódio
terrível; uma nuvem negra de vingança e de vergonha
passou ante os seus olhos esgazeados; a sua mão crispada
mais uma vez se ergueu e a um golpe de punhal o corpo de D. Garça
caiu redondamente no leito.
***
No dia seguinte espalhava-se por todo S. Sebastião a notícia
da morte misteriosa de Duclerc.
Em vão se fizeram pesquisas para a descoberta do assassino
do capitão francês e da bela italiana.
Mas deu muito o que falar a estranha coincidência de ter sido
encontrado no mesmo dia, no leito da sua cela do colégio,
o corpo inanimado do padre João de Jouquières e junto
ao seu cadáver um vidro de veneno e um punhal tinto de sangue.
***
Aqui termina o manuscrito.
O Subterrâneo
do Morro do Castelo, de Lima Barreto
Fonte:
BARRETO, Lima. O Subterrâneo do Morro do Castelo. Correio
da Manhã - edições de 28-29/4/1905, 2-10/5/1905,
12/5/1905, 14-15/5/1905, 19-21/5/1905, 23-28/5/1905, 30/5/1905,
1/6/1905, 3/6/1905
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
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