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Sermão III - Maria Rosa Mística
Padre António Vieira

 


Quinimmo, beati qui audiunt verbum Dei (1).

§ I

Vantagens da oração mental sobre a vocal. Os dois altares do Templo de Salomão A oração mental e vocal nas
figuras do Testamento Velho. Já ouvimos quão alta é a oração vocal do Rosário; hoje veremos quão profunda é a
mental.

Quanta é a diferença que tem -- posto que estejam tão juntos -- na rosa o cheiro e a virtude, na árvore a folha e o fruto, no
mar a concha e a pérola, no céu a aurora e o dia, no homem o corpo e a alma, e, para que o digamos por seus próprios
termos, quanta é a vantagem que faz o entendimento à voz, tanta é a que tem -- posto que irmãs entre si -- a oração mental
sobre a vocal. A vocal é o exterior da oração, a mental o interior; a vocal é a parte sensível, a mental a que não se sente; a
vocal é um corpo formado no ar, a mental o espírito que a informa e lhe dá vida. A vocal recita preces, a mental contempla
mistérios; a vocal fala, a mental medita; a vocal lê, a mental imprime; a vocal pede, a mental convence. A vocal pode ser
forçada, a mental sempre é voluntária; a vocal pode não sair do coração, a mental entra nele e o penetra, e, se é duro, o
abranda. A vocal exercita a memória, a mental discorre com o entendimento e move a vontade, a vocal caminha pela estrada
aberta, a mental cava no campo, e não só cultiva a terra, mas descobre tesouros.

No Templo de Salomão havia dois altares um interior junto ao Sancta Sanctorum, em que se queimavam timiamas, outro
exterior, no átrio, em que se matavam reses. Os que oram mentalmente, diz Orígenes, sacrificam no altar de dentro; os que
oram com vozes, no de fora: Cum corde oravero, ad altare interius ingredior; cum autem quis clara voce et verbis cum
sono prolatis offerre videtur hostiam in altari quod foris est. -- Apenas há figura no Testamento Velho em que se não
veja retratada esta grande diferença. A oração vocal é a voz do Precursor no deserto, a mental é o conceito da mesma voz,
que reconhece o Messias e lhe manda seguir os passos; a vocal é a boca do leão de Sansão, a mental são as abelhas que
nela fabricam os favos, mais doces pelo mistério que pelo mel; a vocal é o estalo da funda de Davi, a mental é a pedra que
rompe a testa ao gigante, e, porque lhe penetrou o cérebro, o deitou em terra; a vocal são as trombetas de Jericó, que batem
os muros, a mental é a espada de Josué, que degola os inimigos e sacrifica os despojos; a vocal é o pregão de Saul, a mental
é a guerra apregoada, a que debela os amonitas, que liberta Jabes e descativa os cercados. Enfim, da vocal sobem ao céu
vapores, da mental se acendem lá relâmpagos e descem raios, que alumiam os olhos, que ferem os peitos, que amortecem as
paixões e desfazem em cinza os vícios.

Estes são os efeitos da oração do Rosário, que não só devemos celebrar, mas distinguir enquanto vocal e mental. Enquanto
vocal, é maior no número; enquanto mental, no peso; enquanto vocal, reza muitas vezes duas orações; enquanto mental,
contempla e medita quinze mistérios; enquanto vocal, fala e solicita o cuidado de Cristo com Marta; enquanto mental está
sem nenhum outro cuidado aos pés de Cristo, e ouve com Maria. Uma orava com a boca, e outra orava com os ouvidos. E
isto é o que determino dizer e declarar hoje. Já vimos quão alta é a oração vocal do Rosário; hoje veremos quão profunda é
a mental. Marcela disse: Beatus venter: Cristo respondeu: Beati qui audiunt. Marcela levantou a voz para que Cristo a
ouvisse, e o Senhor abriu--lhe os ouvidos para que ela aprendesse. Aquele notável quinimmo bem mostrou que a lição era
nova e mais subida; e assim o será também a do nosso discurso. No passado vimos como se reza o Rosário com a boca:
Extollens vocem -- neste veremos como se há de rezar o mesmo Rosário pelos ouvidos: Beati qui audiunt. -- Para que nos
ouça a Virgem Santíssima -- cuja é a obra e o invento -- e nos assista com sua graça, digamos: Ave Maria.

§ II

Assunto do sermão: rezar o Rosário pelos ouvidos. Quanta importância tiveram os ouvidos na concepção do Verbo.
Assim como pelos ouvidos de Eva entrou no mundo o veneno e a morte, assim pelos ouvidos da Virgem veio ao
mundo o remédio e a vida. De que modo sai da boca do Padre o Verbo Divino. Por que pede Davi a Deus que ouça a
sua misericórdia pela manhã?

Beati qui audiunt verbum Dei.

Rezar o Rosário pelos ouvidos, como prometi, é o assunto deste sermão, mais novo pelo desuso ou abuso, que pela
novidade da matéria. Este foi o fim principal para que se instituiu a devoção do Rosário, de poucos bem rezado, e de quase
todos mal entendido. Não foi instituído só para nós falarmos com Deus, e Deus nos ouvir a nós, senão para que Deus fale
conosco, e nós ouçamos o que nos diz Deus: Qui audiunt verbum Dei. -- Para restituir, pois, o Rosário à sua primitiva
perfeição, ou para persuadir esta novidade aos que a tiverem por tal e para falar em matéria de si não muito clara com toda a
clareza, dividirei o discurso em três partes. Na primeira, mostrarei que o Rosário se pode rezar pelos ouvidos; na segunda,
que se deve rezar pelos ouvidos: na terceira, como se há de rezar pelos ouvidos: Beati que audiunt.

Começando pela possibilidade, no primeiro mistério do mesmo Rosário, e na soberana Instituidora dele, temos o maior e
mais perfeito exemplar da grande parte que nesta altíssima obra têm os ouvidos. De dois modos concebeu a Virgem Maria o
Verbo Divino, que também de dois modos é palavra de Deus: Verbum Dei. Concebeu-o no ventre e concebeu-o na mente.
Concebeu-o no ventre sacratíssimo, com privilégio singular a nenhuma outra criatura concedido: Beatus venter qui te
portavit -- e concebeu-o na mente, com aquela eminentíssima perfeição a que nenhuma outra alma pode chegar nem aspirar,
posto que todas sejam capazes de conceber o mesmo Verbo mentalmente. E para que vejamos quanta parte tiveram os
ouvidos em uma e outra conceição, ouçamos a S. Bernardo: Missus est coluber tortuosus a diabulo ut venenum per aures
mulieris in ejus mentem transfunderet (2): No princípio do mundo foi mandada a serpente pelo demônio, para que, pelos
ouvidos da mulher, lhe infundisse na mente o veneno. -- E depois? -- Vede a elegância da contraposição. -- Missus est
Gabriel angelus a Deo, ut Verbum Patris per aurem Virginis in ventrem et mentem ipsius eructare: E depois foi
mandado o Anjo Gabriel por Deus, para que, pelos ouvidos da Virgem, assim no ventre como na mente se introduzisse o
Verbo do Padre. -- E a razão, proporção e correspondência por que a divina sabedoria o traçou e dispôs assim foi: Ut
eadem via et antidotum intrare, qua venenum intraverat: para que pelo mesmo sentido do ouvir, por onde entrara a
peçonha, entrasse também a triaga. -- Eva ouviu, Maria ouviu: Eva ao demônio, Maria ao anjo; Eva recebeu na mente o
engano, e no ventre o fruto maldito; Maria concebeu na mente a verdade, e no ventre o fruto bendito: Benedictus fructus
ventris tui. -- E com esta admirável contraposição de demônio o anjo, de mulher a virgem, de fruto a fruto, de corpo a
corpo, e de mente a mente, assim como pelos ouvidos da primeira mulher entrou no mundo o veneno e a morte, assim pelos
ouvidos da segunda -- e sem segunda -- veio ao mesmo mundo o remédio e a vida.

E se além da proporção e correspondência quisermos especular e apurar mais com que propriedade e energia ordenou Deus
que os ouvidos da Senhora tivessem tanta parte neste primeiro mistério, donde manaram todos os outros do Rosário, da
natureza e ofício do mesmo sentido de ouvir tirou a resposta S. Bruno, filosofando excelentemente, e falando com a Virgem
desta maneira: Suscipe Verbum in corde et in utero, o Virgo, quia per aurem ingredietur in te quod nascetur ex te:
Verbum enim est, et via verbi auris est (3): Ouvi, ó Virgem, o anjo; recebei o que vos diz e anuncia na mente e nas
entranhas, e não duvideis que o Filho, que há de nascer de vós, haja de entrar pelos ouvidos em vós. -- Por quê? Porque
esse Filho, que há de ser vosso, é a Palavra do Padre e a porta e o caminho por onde entra a palavra, são os ouvidos:
Verbum enim est, et via verbi auris est.

Deste modo rezam o Rosário pelos ouvidos aqueles que o exercitam todo, e não de meias; isto é, aqueles que não se
contentam só com repetir de boca as orações vocais, mas consideram e meditam atentamente os mistérios, e ouvem com a
mesma atenção o que neles inspira e fala Deus. A Senhora primeiro considerou o mistério: Cogitabat qualis esset ista
salutatio (4) -- e depois, pelos ouvidos, concebeu o Verbo: Fiat mihi secundum verbum tuum (5). E nós, da mesma
maneira, considerando primeiro mentalmente aquele mistério, e os outros do Rosário, concebemos pelos ouvidos o mesmo, e
não outro Verbo, porque ouvimos o que por meio da meditação dos mesmos mistérios fala Deus conosco.

Sucede na nossa meditação, em admirável prova do que dizemos, o mesmo que ao Eterno Padre na produção do Verbo
Divino. O Verbo Divino, que é a eterna palavra de Deus, de que modo vos parece que sai da boca do Padre. Ego ex ore
Altissimi prodivi (6)? Não pode haver semelhança nem propriedade mais própria. Contempla o Eterno Padre dentro em si
mesmo a essência, os atributos, as perfeições e todos os outros mistérios da divindade, que só ele compreende, e desta
contemplação compreensiva, com que Deus cuida em si, e se conhece e vê a si, nasce o Verbo Divino, que é a Palavra de
Deus e todo o seu dizer: Dicere Deo est cogitando intueri, in quantum, scilicet, intuitu cogitationis divinae concipitur
Verbum Dei (7) -- diz Santo Tomás. Pois, assim como da compreensão, com que Deus contempla intuitivamente os
mistérios da divindade, se produz e nasce o Verbo, assim da meditação com que nós, na parte mental do Rosário,
contemplamos os mistérios da Humanidade, unida à mesma Divindade, nasce o Verbo e Palavra de Deus, com que
interiormente nos fala, e nós interiormente concebemos e mentalmente ouvimos: Qui audiunt verbum Dei.

Altamente está dito. Mas, quem nos confirmará esta tão sublime verdade? Seja o maior e mais experimentado espírito em
uma e outra oração: Auditam fac mihi mane misericordiam tuam (Sl 142, 8): Fazei, Senhor -- diz Davi -- que eu de
manhã ouça a vossa misericórdia. -- Dois grandes reparos encerram estas quatro palavras. Todos, quando oram, pedem a
Deus que, por sua misericórdia, os ouça; porém, Davi não diz que a misericórdia de Deus o ouça a ele, senão que ele ouça a
misericórdia de Deus: Auditam fac mihi misericordiam tuam: Fazei que a vossa misericórdia seja ouvida de mim. -- De
sorte que a misericórdia de Deus é a que há de falar, e Davi o que há de ouvir. A razão deste extraordinário modo de pedir,
ou dizer, depende do segundo reparo: Auditam fac mihi mane: Fazei que eu ouça a vossa misericórdia pela manhã. -- E
que mais tem para este requerimento a hora da manhã que as outras? Davi orava pela manhã, ao meio--dia e à tarde.
Vespere, et mane, et meridie, narrabo (8). -- Davi orava sete vezes no dia: Septies in die laudem dixi tibi (9). -- Pois, se
Davi orava tantas vezes, e em tão diferentes horas do dia, por que não pode nem requer, ou por que não presume nem
espera que Deus lhe fale a ele, e ele ouça a Deus, senão na hora de pela manhã: Auditam fac mihi mane misericordiam
tuam? O mesmo Davi o disse, e com tanta razão como nós o temos dito. Este santo rei orava de vários modos, já
vocalmente, rezando salmos, já mentalmente, meditando, e a hora que particularmente tinha dedicado à meditação era a hora
da manhã: In matutinis meditabor in te (10) -- e como pela manhã é que meditava, pela manhã é que esperava que Deus
lhe havia de falar a ele, e ele havia de ouvir a Deus: Auditam fac mihi mane misericordiam tuam. -- Tão certo é que com
os que meditam fala Deus, e porque meditam, e quando meditam, o ouvem.

Parágrafo I e Parágrafo II
Parágrafo III e Parágrafo IV
Parágrafo V e Parágrafo VI
Parágrafo VII e Parágrafo VIII
Parágrafo IX e Notas