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Sermão III - Maria Rosa Mística
Padre António Vieira

 


§ III

O que diz Davi e o que não diz em sua meditação. Ao que medita não lhe fala Deus de outra parte, nem de fora,
senão dentro nele. O que tanto desejaram e não alcançaram os profetas, é o que gozam os professores da devoção do
Rosário, se se aplicam a ela tão inteiramente como devem. Os que dizem que meditam e não ouvem. Sendo o Verbo
de Deus, a palavra de Deus, ninguém pode considerar suas obras nem meditar seus mistérios que o não ouça. As
duas portas da palavra.

Beati qui audiunt verbum Dei.

Daqui se segue que, quanto forem mais altos os mistérios que meditarem, tanto mais altas serão também as ilustrações com
que Deus lhes falará aos ouvidos. Qual era a matéria das meditações de Davi naquele tempo: Meditatus sum in omnibus
operibus tuis, in factis manuum tuarum meditabar (11). Meditava nas obras universais da onipotência, com que Deus
criara e sustentava o mundo, e nas particulares da providência, com que escolhera, defendia e conservava o seu povo, que
era o que Deus até então mais maravilhosamente tinha obrado. E se a meditação destas obras, posto que grandes, tão
inferiores, merecia que o mesmo Deus respondesse a ela e fosse ouvido de quem as meditava, que juízo se deve fazer das
inspirações, dos impulsos e das falas interiores, com que Deus penetrará os corações, e baterá suavemente os ouvidos dos
que atentamente meditarem os altíssimos mistérios da Encarnação, do nascimento, da vida, da morte, da ressurreição do
Filho de Deus, que são os de que se compõe o Rosário? Se as obras da criação, que só custaram a Deus uma palavra,
falavam e eram com tanta admiração ouvidas de quem as meditava, as obras da Redenção, que custaram à mesma Palavra
de Deus o sangue, do qual sangue, diz S. Paulo que fala melhor que o de Abel: Melius loquentem quam Abel (Hebr 12, 24)
-- que vozes serão as suas na atenta e profunda meditação delas, e quanto mais se farão ouvir? O mesmo profeta, que
antevia os futuros que não chegou a ver, o disse: Ostende nobis, Domine, misericordiam tum, et salutare tuum da nobis.
Audiam quid loquatur in me Dominus Deus (12): Acabai, Senhor, de mostrar aos homens até onde chegam os extremos
de vossa misericórdia; acabai de nos dar e mandar ao mundo o nosso ou o vosso Salvador, pois é vosso Filho: Salutare
tuum da nobis. -- E então quando ele vier -- se vier, Davi, em vossos dias -- e nascer e morrer, e obrar todos os outros
mistérios da Redenção, que é o que esperais da sua vinda, e da vista e consideração desses mesmos mistérios? -- O que
principalmente espero, e sobretudo desejo, é o que hei de ouvir interiormente quando ele dentro em mim me falar: Audiam
quid loquatur in me Dominus Deus. -- Notai o que diz Davi e o que não diz. Não diz que suspirava com tantas ânsias pela
vinda do Messias, para ouvir o que ele havia de pregar exteriormente ouvido, senão para lhe ouvir o que lhe havia de falar
interiormente meditado: Audiam quid loquatur in me. -- Como se dissera não me alvoroça o que há de dizer a todos, senão
o que me há de dizer a mim; nem tanto o que me há de dizer a mim, quanto o que me há de dizer em mim: in me. A Moisés
falou-lhe Deus da sarça, a Jó falou-lhe de uma nuvem, ao Sumo Sacerdote falava-lhe do Propiciatório, ao que medita não lhe
fala Deus de outra parte, nem de fora, senão dentro nele; in me -- porque dentro dele está a meditação, por meio da qual lhe
fala. Combinai o loquatur in me com o meditabor in te: eu meditarei nele, e ele falará em mim: eu com o silêncio e ele com
a voz, eu calando e ele falando, ele dizendo e eu ouvindo: Audiam quid loquatur in me.

Isto é o que considerava aquele tão grande rei como profeta, o qual, porém, não chegou a ter a ventura de ver e ouvir o por
que tanto suspirava. Por isso aos apóstolos, que a tiveram, disse o Senhor: Dico vobis quod multi prophetae et reges
voluerunt videre quae vos videtis, et non viderunt, et audire quae auditis, et non audierunt (Lc 10, 24): Para que
conheçais e estimeis o bem de que gozais, vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram,
e ouvir o que vós ouvis, e não o ouviram. -- Um destes reis e um destes profetas, e o principal de todos eles, foi Davi, de
quem o mesmo Cristo era e se chamou filho; e esta ventura que tanto desejou e não alcançou o rei mais mimoso e o profeta
mais alumiado de Deus é a que gozam os professores da devoção do Rosário, se se aplicam a ela tão inteiramente como
devem. Davi desejava ver os mistérios de Cristo, e ouvir o que interiormente lhe dizia: Audiam quid loquatur in me; e todos
os que atentamente meditam os mistérios do Rosário, por meio da mesma meditação, vêem a Cristo e ouvem a Cristo. Vêem
a Cristo porque, meditando seus mistérios, o fazem presente; e ouvem a Cristo porque os mesmos mistérios meditados falam:
e se alguém não ouve o que o Senhor lhe diz por eles, é que os não medita.

Dirá, porém, algum dos que se têm por exercitados nesta meditação, que ele medita, mas não ouve. E para escusar este
silêncio ou falta de ouvir, dirá também que os mistérios do Rosário todos são obras de Cristo, e não palavras, e que a
meditação pode representar e ver o que ele fez, mas não pode representar nem ouvir o que ele não disse. A este argumento
que não parece totalmente sofístico, responde Santo Agostinho, e com tanta agudeza como sua. Quem é Cristo? É o Verbo
de Deus, e a palavra do Padre: logo, ninguém pode considerar suas obras nem meditar seus mistérios que o não ouça. E por
quê? Porque a palavra não pode obrar senão falando; e como todas as obras da palavra falam, todas se ouvem: Quia ipse
Christus Verbum Dei est, etiam factum verbi verbum nobis est (13). Porque Cristo é palavra de Deus, também as obras
dessa palavra são palavras, porque a palavra não pode obrar senão falando. E se essas obras, que são palavras, alguém as
não ouve, é porque lhes não entende a língua: Habent enim si intelligantur linguam suam. -- Reparai na exceção de
Agostinho, com que ficam excluídos os que dizem que meditam e não ouvem. Essas obras e esses mistérios de Cristo, si
intelligantur: se se entendem, falam, se se não entendem, são mudos. As palavras que somente são palavras podem-se
ouvir, ainda que se não entendam; as obras que são palavras, se não se entendem, não se ouvem. Por isso vós não ouvis,
porque não entendeis; e a causa por que não entendeis, é porque não meditais. Meditai e observai bem o que se vos
representa em cada mistério, e logo ouvireis. A mesma Palavra divina o diz assim: Beatus homo qui audit me (Prov 8, 34):
Bem-aventurado o homem que me ouve. -- E que há de fazer o homem, Palavra divina, para vos ouvir? -- Duas coisas:
Vigiar e observar às minhas portas: Qui vigilat ad fores meas, et observat ad postes ostii mei (14). -- A palavra tem duas
portas, uma por onde sai e outra por onde entra: a porta por onde sai, é a boca, e, no nosso caso, o mistério, a porta por
onde entra, é o ouvido, e, no nosso caso, a meditação. Se vós não meditais, como quereis ouvir? Meditai e observai vigilante
e atentamente o mistério, e logo entendereis e ouvireis o que Deus vos diz nele: Qui vigilat, qui observat, qui audit. -- E,
ouvindo desta maneira, sereis dobradamente bem-aventurados, por testemunho de ambas as Escrituras: Beatus homo qui
audit me, beati qui audiunt ver bum Dei.

§ IV

Deve-se rezar o Rosário pelos ouvidos, não só por ser conveniente e mais útil, mas por ser totalmente necessário.
Distinção entre o falar e ouvir nas palavras do filósofo Sofar, amigo de Jó. Para Deus é mais aprazível a
conversação dos simples, porque falam pouco e ouvem muito. Abraão, o homem que mais cortesmente soube falar
com Deus. O justo não é justo porque fala muito, senão porque medita muito. 0 rezar sem meditar, não é oração, é
verbosidade. Deus, aos que concedeu o ouvir, tira-lhes o falar, como a Moisés na sarça ardente. Os sussurros de
Deus, frutos da oração vocal à mental.

Temos declarado a teórica do Rosário rezado pelos ouvidos. Mas antes que passemos à praxe, para que a recebamos e
aceitemos melhor, será bem que vejamos as razões por que deve ser praticado por este modo, não só vocal, senão
mentalmente, não só rezando, senão meditando, nem só falando, senão ouvindo. Digo, pois, que se deve rezar o Rosário
pelos ouvidos, não só por ser mais conveniente e mais útil, mas por ser totalmente necessário. Mais conveniente da parte de
Deus, porque assim lhe é mais agradável; mais útil da parte nossa, porque assim nos é mais proveitoso; e totalmente
necessário, da parte do Rosário, porque, falando só, e não ouvindo, não será Rosário.

Prova esta última proposição -- pela qual é bem comecemos, como fundamento das demais -- aquele antiquíssimo filósofo
Sofar, um dos três amigos de Jó, e distingue e aperta o ponto com tal energia, que ninguém em toda a Escritura o fez melhor:
Numquid qui multa loquitur, non audiet? Aut vir verbosus justificabitur? Utinam Deus loqueretur tecum, et aperiret
labia sua tibi (Jó 11, 2. 5)! É possível que tu, que falas muito, não queres ouvir? E cuidas que o teu muito falar te há de fazer
justo? Oh! se Deus abrira a boca e falara contigo! -- Cada palavra desta sentença é uma declarada censura contra o abuso
geral com que se reza o Rosário. O instituto santíssimo e prudentíssimo desta soberana devoção dividiu-a em orações e
mistérios, para que nós, como compostos de corpo e alma, ora falássemos vocalmente com Deus, ora o ouvíssemos
mentalmente. E seria bem falarmos nós tudo e não ouvirmos nada: Numquid qui multa loquitur, non audiet? Pois isto é o
que fazem ou desfazem os que só falam, e não meditam; os que só rezam com a boca, e não pelos ouvidos. Toda a oração,
como já a definimos com S. Gregório Niceno, é um colóquio e conversação do homem com Deus; e a lei da boa e cortês
conversação é falar e ouvir. E se a personagem que nos admite à prática for muito superior, que ensina a cortesia e a
reverência? Falar pouco e ouvir muito. Notável coisa é que goste Deus de conversar com os simples: Cum simplicibus
sermocinatio ejus (15)! Não é muito mais aprazível a conversação dos doutos, dos eruditos, dos discretos? Para Deus, não.
Esses falam muito e ouvem pouco; os simples falam pouco e ouvem muito. Esses ouvem-se a si, e Deus quer quem o ouça a
ele. Por isso gosta da conversação dos simples.

O homem que mais cortesmente sou falar com Deus foi Abraão: Loquar ad Dominum, cum sim pulvis et cinis (16) -- e
vede como falava e como ouvia. A primeira vez que Deus apareceu a Abraão foi em Harã, e diz o texto: Dixit autem
Dominus ad Abram (Gên 12, 1): Disse o Senhor a Abrão. -- A segunda vez apareceu-lhe em Siquém, e diz o texto:
Apparuit autem Dominus Abram, et dixit ei (Ibid. 7): Apareceu o Senhor a Abrão, disse-lhe. -- A terceira vez
apareceu-lhe em Canaã, e diz o texto: Dixitque Dominus ad Abram (Gên13, 14): E disse o Senhor a Abrão. -- A quarta
vez apareceu-lhe na mesma terra, e diz o texto: Factus est sermo Domini ad Abram dicens; dixitque Abram: Domine
Deus (Gên 15, 1 s): Disse Deus a Abrão, e Abrão disse a Deus. -- Não sei se reparais nestas quatro aparições, e se achais
nelas alguma diferença. Eu confesso que tenho lido estes textos algumas vezes, e nunca adverti o que advertiu Caetano e
pede a todos que advirtam : Considera, prudens lector, quod in praeteritis tribus visionibus semper Abraham fuit
auditor tantum; in hac autem quarta et audit et respondet: Considere o prudente leitor -- diz Caetano -- que Abraão nas
primeiras três aparições Deus, ouviu e não falou palavra, e só nesta quarta -- ouviu e falou. Pois se falou nesta, por que falou
também nas outras? Porque falava com Deus Quem fala com Deus há de ouvir muito e falar pouco para falar uma vez há de
ouvir quatro. Quem tanto ouve, e tão pouco fala merece que Deus lhe apareça muitas vezes. Ide agora, e falai o Rosário
inteiro sem pausa, sem aguardar compasso, sem dar lugar a Deus a que também ele nos diga alguma coisa; e se vós falais
tudo, e Deus não fala, como o haveis de ouvir?

Vai por diante Sofar: Aut vir verbosus justificabitur? Porventura cuidais que essa verbosidade e esse muito falar vos há de
fazer justo? -- Não. O justo não o faz o muito que fala, senão o falar o muito que medita: Os justi meditabitur sapientiam,
et lingua ejus loquetur judicium (17). Encontrada coisa parece atribuir a meditação à boca, e o juízo à língua: o juízo é o
que medita; a boca e a língua a que fala. Mas o justo de tal maneira ajunta a meditação com a oração, e o mental do juízo
com o vocal das palavras, que ainda com boca e com a língua medita, e não porque fala muito, senão porque medita muito, é
justo. Não justo porque fala muito: Numquid vir verbosus justificabitur? -- mas justo porque medita muito: Os justi
meditabitur sapientiam. -- Mas, para que é ir buscar a prova nas Escrituras, se a temos mais perto na experiência? Contai
os que rezam o Rosário, e contai os justos. São tantos os justos como os que rezam o Rosário? É certo -- ainda mal -- que
por cada cento que rezam o Rosário me não dareis um justo. E donde vem esta desigualdade tão grande, tão enorme e tão
indigna? É porque Vir verbosus non justificabitur. Rezam e não meditam, e o rezar sem meditar, não é orar, é falar: em vez
de ser oração é verbosidade. O que se reza sem meditação, sai da boca; o que primeiro se medita, sai do coração; e, ainda
que seja uma só palavra, é oferta que se pode dedicar a Deus: Eructavit cor meum verbum bonum; dico opera mea regi
(18). Então, cuidam os que isto fazem que a devoção do Rosário está em o rezar ou falar todo inteiro. Os que assim o rezam,
sem meditar, falsamente se arrogam o nome de devotos da Senhora e do seu Rosário. O Rosário que a Senhora instituiu não
é esse: logo, não são devotos do Rosário. Pois, que são? Quando muito são rezadores, e por isso, ou cegos ou mercieiros;
mas justos não. Lembrem-se daquela sentença: Cum oratis, nolite multum loqui (Mt 6, 7): Quando orais não faleis muito.
-- E de quem é esta sentença? É do mesmo Cristo, que diz: Oportet semper orare (Lc 18, 1): Importa orar sempre. -- E o
mesmo Senhor, que nos manda orar sempre, manda que quando oramos não falemos muito, porque o falar não é orar. Por
isso nem ele nos ouve nem nós o ouvimos.

Oh! se ouvíramos alguma vez a Deus! Isto é o que desejava e exclamava Sofar: Utinam Deus loqueretur tecum, et
aperiret labia sua tibi (Jó ll, 5)! Oh! se Deus abrira uma vez a boca, e falara contigo! -- E qual era a razão deste seu
desejo? Porque falava com os que falam muito e não querem ouvir; e sabia que, tanto que ouvissem a Deus, mais haviam de
querer ouvir que falar. Com ser Deus autor da natureza, no falar e no ouvir tem mui diferentes efeitos. Todo o mudo
naturalmente é surdo, e todo o que ouve a Deus naturalmente emudece. A natureza aos que privou do falar tira-lhes o ouvir,
e Deus aos que concedeu o ouvir tira-lhes o falar. Quando Deus apareceu a Moisés na sarça, e o mandou com a embaixada
a Faraó, escusou-se Moisés com que não sabia falar: Non sum eloquens ab heri et nudiustertius (19). Mas contra isto está
o que se refere nos Atos dos Apóstolos, que Moisés tinha estudado tôdas as ciências dos egípcios, e era nelas e na sua
língua poderosamente eloqüente: Et eruditus est Moyses omni sapientia Aegypticrum, et erat potens in verbis (At 7, 22).
-- Pois, se Moisés era tão sabiamente eloqüente, e tão eloqüentemente sábio, como diz agora que não sabe falar? Ele mesmo
deu a razão: Ex quo locutus es ad servum tuum, impeditioris et tardioris linguae sum (Êx 4 , 10): É verdade, Senhor,
que eu antes deste dia falava expeditamente; mas depois que vós vos dignastes de me falar, e eu vos ouvi, no mesmo ponto
se me tolheu a fala e atou a língua. -- E porque Sofar sabia os segredos desta filosofia, por isso desejava que falasse Deus
uma vez aos que só falam e não ouvem: Nunquid qui multa loquitur non audit? Utinam Deus loqueretur tecum! -- A
Virgem Senhora nossa não instituiu o seu Rosário só para falarmos rezando, senão para ouvirmos meditando; e o Rosário
que é só de boca, e não de ouvidos, é tão diminuto e imperfeito que não merece o nome de Rosário, porque, não meditando
os mistérios, falta a parte principal e essencial dele. Antes quero a têrça parte do teu Rosário meditado, disse a Senhora a um
seu devoto, e ainda menos da terceira parte, que todo ele inteiro sem meditação. E este conselho não só devem tomar todos,
mas é necessário que o tomem, sob pena de o seu Rosário não ser Rosário.

Podem-me dizer, contudo, alguns dos que rezam e não meditam, que rezando o Rosário, sem meditar os mistérios, sentem,
contudo, grandes afetos em seu espírito, assim de compunção para com Deus como de piedade e confiança para com sua
Santíssima Mãe. Oh! como vos enganais convosco mesmos, mas venturosamente! Pergunto: e esse cuidar em Deus e na
Virgem Maria, não é parte de meditação, posto que breve? Assim o prova e convence a Santa Madre Teresa contra os
mesmos que em seu tempo rezavam vocalmente, e tinham medo da oração mental. Os afetos de devoção e piedade que
sentem, quando assim rezam, também são efeitos da meditação, posto que imperfeita, e vozes ou sonidos breves e
sutilíssimos com que Deus então lhes fala ou passa pelos ouvidos. Por isso no Livro de Jó se chamam estas falas de Deus,
não vozes, senão sussurros, e esses que se ouvem furtivamente: Et quasi furtive suscepit auris mea venas susurri ejus
(20). -- Assim que, quando sentis esses afetos, já, sem o entender, começais a rezar pelos ouvidos, que por isso diz:
Suscepit auris mea; e são uns como furtos, que faz a oração vocal à mental, saindo-se da sua esfera, que por isso diz: Quasi
furtive; e são as veias do sonido, que ainda não chegam a ser voz dearticulada, que por isso diz: Venas susurri ejus. Mas
daí mesmo se colhe que, se tão doce é o que se chupa nas veias, que será o beber na fonte? E se tanto obram na alma só os
sussurros, as vozes declaradas que farão? Necessário é, logo, à essência do Rosário que perfeita e inteiramente se reze pelos
ouvidos, para ser verdadeiro Rosário.

Parágrafo I e Parágrafo II
Parágrafo III e Parágrafo IV
Parágrafo V e Parágrafo VI
Parágrafo VII e Parágrafo VIII
Parágrafo IX e Notas