Sermão
pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda
Padre António Vieira
§ V
Chegado a este
ponto, de que não sei nem se pode passar, parece-me que nos
está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o
fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir,
e convencer destas nossas razões, senão que está
clamando por outra parte vossa divina justiça; e como sois
igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar
de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes.
Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que
somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou
de me aquietar com esta resposta, que antes esses mesmos pecados
muitos e grandes são um novo e poderoso motivo dado por vós
mesmo para mais convencer vossa bondade.
A maior força dos meus argumentos não consistiu em
outro fundamento até agora, que no crédito, na honra
e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomen
tuum. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome,
que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomen tuum,
Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim: "Por amor
de vosso nome, Senhor, estou certo - dizia Davi - que me haveis
de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer
pecados, senão muitos e grandes." Multum est enim. Oh!
motivo digno só do peito de Deus! Oh! conseqüência
que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira
que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a
Deus que são muitos e grandes. Sim; e não por amor
do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra
e glória do mesmo Deus, a qual quanto mais e maiores são
os pecados que perdoa, tanto maior é e mais engrandece e
exalta o seu santíssimo nome: Propter nomen tuum, Domine,
propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo Davi distingue
na misericórdia de Deus grandeza e multidão. A grandeza:
Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum
multitudinem miserationum tuarum. E como a grandeza da misericórdia
divina é imensa e a multidão de suas misericórdias
infinita; e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar;
para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria
de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia
que os pecados sejam grandes e à mesma multidão das
misericórdias, que sejam muitos: Multum est enim. Razão
tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão
de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também
de instar em vos pedir a razão por que não desistis
de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuum avertis? Quare
oblivisceris inopiae et tribulationis nostrae?
Esta mesma razão vos pediu Jó quando disse: Cur non
tollis peccatum meum et quare non aufers iniquitatem meam? E posto
que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras
que argüísse por vossa parte, enfim se deu por vencido
e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis
in loco Deo impingis, quod ejus, qui deliquit, non miseretur? -
diz S. Cirilo Alexandrino - Basta, Jó, que criminais e acusais
a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais
que cometestes pecados e maldades; e com as mesmas palavras pedis
razão a Deus por que as castiga? Isto é dar a razão,
e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais,
são a razão do castigo: pois se dais a razão,
por que a pedis? - Porque ainda que Deus para castigar os pecados,
tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir
do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua
glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo
gloriam habet; ob quam causam mei non miseretur? Pede razão
Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir (responde
por ele o mesmo santo, que o argüiu), porque, se é condição
de Deus usar de misericórdia, e é grande e não
vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão
tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar? O mesmo Jó
tinha já declarado a força deste seu argumento nas
palavras antecedentes com energia para Deus muito forte: Peccavi,
quid faciam tibi? Como se dissera: "Se eu fiz, Senhor, como
homem em pecar, que razão tendes vós para não
fazer, como Deus, em me perdoar?" Ainda disse e quis dizer
mais: Peccavi, quid faciam tibi? "Pequei, que mais posso fazer?"
E que fizestes vós, Jó, a Deus, em pecar? - Não
lhe fiz pouco; porque lhe dei ocasião a me perdoar, e perdoando-me,
ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa,
a graça que me fizer; e ele dever-me-á a mim, como
ocasião, a glória que alcançar.
E se é assim, Senhor, sem licença, nem encarecimento;
se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se
aumenta a vossa glória, que é o fim de todas as vossas
ações; não digais que nos não perdoais,
porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes
porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória
à grandeza e multidão de vossas misericórdias.
Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis
de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos,
em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste
último castigo, em que, contra toda a esperança do
mundo e do tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior
que nunca passou a Equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá-la;
e que grande glória foi de vossa onipotência poder
o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur, ostendis
potentiam. Desplantar uma nação, como nos ides desplantando,
e plantar outra, também é poder que vós cometestes
a um homenzinho de Anatote: Ecce constitui te super gentes et super
regna, ut evellas et destruas et disperdas et dissipes et aedifices
et plantes. O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória
de vossa infinita onipotência, é em perdoar e usar
de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime,
et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós,
que somos criaturas fracas; mas em perdoar, venceis-vos a vós
mesmo, que sois todo poderoso e infinito. Só esta vitória
é digna de vós, porque só vossa misericórdia
pode pelejar com armas iguais contra vossa justiça; e sendo
infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai,
pois, benigníssimo Senhor, por esta grande glória
vossa: Propter magnam gloriam tuam: perdoai por esta glória
imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomen tuum.
E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo,
não já misericordioso, senão justíssimo
Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por
satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não
sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta
o vosso Profeta: Deus Judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur
per singulos dies? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz,
não é de todos os dias nem de muitos, por que se não
dará por satisfeita com rigores de anos e tantos anos? Sei
eu, Legislador Supremo, que nos casos de ira, posto que justificada,
nos manda vossa santíssima Lei que não passe de um
dia, e que antes de se pôr o Sol tenhamos perdoado: Sol non
occidat super iracundiam vestram. Pois se da fraqueza humana, e
tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos
vossa mesma Lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão
breve e tão preciso, vós, que sois Deus infinito e
tendes um coração tão dilatado como vossa mesma
imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos
homens por exemplo, como é possível que os rigores
de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha
e torne a nascer o Sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada
e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça
cuidei eu que vos chamavam as Escrituras, porque, ainda quando mais
fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas, passava
o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este
Sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias
e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico
a outro, sempre vos vê irado.
Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a
Terra e os homens, mas com o que dirá o Céu e o mesmo
Sol. Quando Josué mandou parar o Sol, as palavras da língua
hebraica em que lhe falou, foram, não que parasse, senão
que se calasse: Sol tace contra Gabaon. Calar mandou ao Sol o valente
capitão, porque aqueles resplandores amortecidos com que
se ia sepultar no Ocaso, eram umas línguas mudas com que
o mesmo Sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes
altíssimas, com que desde o Céu lhe lembrava a Lei
de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança,
pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam
vestram. E se Deus, como autor da mesma Lei, ordenou que o Sol parasse,
e aquele dia (o maior que viu o Mundo) excedesse os termos da natureza
por muitas horas e fosse o maior, foi para que, concordando a justa
lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de
executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor
do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo;
mas esteja o Sol parado até que se acabe o castigo, para
que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites
de um dia.
Pois se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa Lei; se
fazeis milagres e tais milagres para que ela se conserve inteira,
e se Josué manda calar e emudecer o Sol, porque se não
queixe e dê vozes contra a continuação de sua
ira, que quereis que diga o mesmo Sol, não parado nem emudecido?
Que quereis que diga a Lua e as estrelas, já cansadas de
ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus
criados, não para apregoar vossas justiças, senão
para cantar vossas glórias: Coeli enarrant gloriam Dei?
Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e
verdadeiro Sol, seja o epílogo e conclusão de todas
as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomen tuum.
Se o Sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué
manda calar o Sol, porque lhos não estranhe; como pode estranhar
vossa divina justiça que useis conosco de misericórdia,
depois da execução de tantos e tão rigorosos
castigos continuados, não por um dia ou muitos dias de doze
horas, senão por tantos e tão compridos anos, que
cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador,
sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois Sol e Sol de justiça,
antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai
já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo
de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências
humanas, de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos
merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai-nos por seus rogos,
ou perdoai-nos por seus impérios; que, se como criatura vos
pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar
e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso
exemplo perdoemos; e perdoai-nos também a exemplo nosso,
que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte
nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.
Amen.
Sermão
pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, de
Padre Antônio Vieira
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