Sermão
pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda
Padre António Vieira
§ III
Considerai,
Deus meu - e perdoai-me, se falo inconsideradamente - considerai
a quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais. Tirais estas
terras aos portugueses a quem nos princípios as destes; e
bastava dizer a quem as dais, para perigar o crédito de vosso
nome, que não podem dar nome de liberal mercês com
arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor,
"quando dais, não vos arrependeis": Sine paenitentia
enim sunt dona Dei? Mas deixado isto à parte: tirais estas
terras àqueles mesmos portugueses a quem escolhestes entre
todas as nações do Mundo para conquistadores da vossa
Fé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa
singular vossas próprias chagas. E será bem, Supremo
Senhor e Governador do Universo, que às sagradas quinas de
Portugal e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas
listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem
que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas,
arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini
tuo? E que fareis (como dizia Josué) ou que será feito
de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?
Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras
vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram
à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar
vosso nome e vossa Fé (que esse era o zelo daqueles cristianíssimos
reis) que por amplificar e estender seu império. Assim fostes
servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada
e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem
tal imaginaria de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia!
Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios:
Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra. Que a larga
mão com que nos destes tantos domínios e reinos não
foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e
dissimulação de vossa ira, para aqui fora e longe
de nossa Pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes
de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos,
para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o
derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para
que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos
as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos
os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há
baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos
naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois
de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas
mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas
entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que
assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos
fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!
Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha
a paciência, e, contudo, em ocasião semelhante, não
falou (falando convosco) por diferente linguagem. Depois de os filhos
de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão,
como nós a estas, avançou parte do exército
a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já
parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os
israelitas nela tiveram; porque foram rotos e desbaratados, posto
que com menos mortos e feridos, do que nós por cá
costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça?
Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa
a clamar ao Céu: Heu! Domine Deus, quid voluisti traducere
populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei?
"Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes
passar o Jordão e nos metestes de posse destas terras, se
aqui nos haveis de entregar nas mãos dos amorreus e perder-nos?"
Utinam mansissemus trans Jordanem! "Oh! nunca nós passáramos
tal rio!"
Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós
queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de
ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas
nos esperavam nas terras conquistadas: "Oh! Nunca nós
passáramos tal rio!". Utinam mansissemus trans Jordanem!
Prouvera a vossa Divina Majestade que nunca saíramos de Portugal,
nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem
conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas!
Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi
e não ventura; possuí-las para as perder, castigo
foi de vossa ira, Senhor, e não mercê, nem favor de
vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras
aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto
eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços
vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes
primeiro cá por seus aposentadores; para lhe lavrarmos as
terras, para lhe edificarmos as cidades, e depois de cultivadas
e enriquecidas lhas entregardes? Assim se hão de lograr os
hereges e inimigos da Fé, dos trabalhos portugueses e dos
suores católicos? En queis consevimus agros! "Eis aqui
para quem trabalhamos há tantos anos!"
Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o
que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes
as Índias, entregai-lhes as Espanhas (que não são
menos perigosas as conseqüências do Brasil perdido);
entregai-lhes quanto temos e possuímos (como já lhes
entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o Mundo; e a
nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos,
desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade,
Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais
de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não
tenhais.
Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras
da boca de Jó, que como tão lastimado, não
é muito entre muitas vezes nesta tragédia. Queixava-se
o exemplo da paciência a Deus (que nos quer Deus sofridos,
mas não insensíveis), queixava-se do tesão
de suas penas demandando e altercando, por que se lhe não
havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas; e como a todas
as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável,
quando já não teve mais que dizer, concluiu assim:
Ecce nunc in pulvere dormiam, et si mane me quaesieris, non subsistam.
Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o
tormento, já que não quereis senão continuar
o rigor e chegar com ele ao cabo, seja muito embora; matai-me, consumi-me,
enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo
e vos lembro uma coisa: que "se me buscardes amanhã,
que me não haveis de achar": Et si mane me quaesieris,
non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam
o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis
a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que
a venere, não achareis a um Jó, que ainda com suas
chagas a não desautorize. O mesmo digo eu, senhor, que não
é muito rompa nos mesmos afetos, quem se vê no mesmo
estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser
que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os
não acheis. Holanda vos dará os apostólicos
conquistadores, que levem pelo Mundo os estandartes da cruz; Holanda
vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas
terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem
com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade
de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará
templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará
sacerdotes e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo
Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão
religiosamente, como em Amsterdão, Meldeburgo e Flisinga
e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno
se está fazendo todos os dias.
§ IV
Bem vejo que
me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa
Fé e as obras de vossa glória não dependem
de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando
faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas
também a vossa sabedoria e a experiência de todos os
séculos nos têm ensinado, que depois de Adão
não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes
neste Mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em
falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete.
Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque
eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes
os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos
introduc huc. E se esta é, Deus meu, a regular disposição
de vossa providência divina, como a vemos agora tão
trocada em nós e tão diferente conosco? Quais foram
estes convidados e quais são estes cegos e mancos? Os convidados
fomos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e
nelas nos pusestes a mesa, tão franca e abundante, como de
vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os
luteranos e calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras,
na reprovação das quais consiste o principal erro
da sua heresia. Pois se nós, que fomos os convidados, não
nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes
em que pudéramos duvidar; se viemos e nos assentamos à
mesa, como nos excluís agora e lançais fora dela e
introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares
ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como
nós, ou nós tão maus como eles, por que nos
não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa
da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de
vossa providência e mudais as leis de vossa justiça
conosco.
Aquelas dez virgens do vosso Evangelho todas se renderam ao sono,
todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt
omnes et dormierunt. E contudo, a cinco delas passou-lhes o esposo
por este defeito, e só porque conservaram as alâmpadas
acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram
excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes
então (que vós sois aquele Esposo Divino), por que
não nos vale a nós também conservar as alâmpadas
da Fé acesas, que no herege estão tão apagadas
e tão mortas? É possível que haveis de abrir
as portas a quem traz as alâmpadas apagadas, e as haveis de
fechar a quem as tem acesas? Reparai, senhor, que não é
autoridade do vosso divino tribunal que saíam dele no mesmo
caso duas sentenças tão encontradas. Se às
que deixaram apagar as alâmpadas se disse: Nescio vos; se
para elas se fecharam as portas: Clausa est janua; quem merece ouvir
de vossa boca um Nescio vos tremendo, senão o herege, que
vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos,
senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo
que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores
de vosso rigor, lhe retarda o progresso de suas fortunas, antes
a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas,
e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade...
Desta vossa cidade disse; mas não sei se o nome do Salvador,
com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já
outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações,
posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso
a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está
bradando ao Céu a nossa justa dor, sem a vossa clemência
dar ouvidos a nossos clamores.
Se acaso for assim (o que vós não permitais), e está
determinado em vosso secreto juízo que entrem os hereges
na Bahia, o que só vos represento humildemente e muito deveras,
é que antes da execução da sentença
repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis
com vosso coração enquanto é tempo; porque
melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não
tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão
com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo,
que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis
vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais
que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio
para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se, enfim, as cataratas
do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se
o Mundo todo: já estaria satisfeita a vossa justiça.
Senão quando, ao terceiro dia, começaram a boiar os
corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita
aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre
as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram
os anjos, que homens que a vissem não os havia. Vistes vós
também (como se o vísseis de novo) aquele lastimosíssimo
espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda
não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se,
porém, as entranhas de vossa Divindade, "com tão
intrínseca dor": Tactus dolore cordis intrinsecus que,
do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes
do que tínheis feito ao Mundo; e foi tão inteira a
vossa contrição, que não só tivestes
pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais
o fazer: Nequanquam ultra maledicam terrae propter homines.
Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este não vos tomeis
com vosso coração. Para que é fazer agora valentias
contra ele, se o seu sentimento, e o vosso as há de pagar
depois? Já que as execuções de vossa justiça
custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis
antes que o façais, não vos aconteça outra.
E para que o vejais com cores humanas, que já vos não
são estranhas, dai-me licença que eu vos represente
primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro
dilúvio, e se esta representação vos não
enternecer e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o
embora.
Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz horror);
finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses;
que é o que há de suceder em tal caso? - Entrarão
por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não
perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos
alfanjes medirão a todos; chorarão as mulheres, vendo
que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão
os velhos, vendo que se não guarda respeito a suas cãs;
chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia
à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis
sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não
defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente
os inocentes, porque nem a esses perdoará (como em outras
ocasiões não perdoou), a desumanidade herética.
Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós
alguma hora, que não era bem castigar a Nínive. Mas
não sei que tempos, nem que desgraça é esta
nossa, que até a mesma inocência vos não abranda.
Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar
parte do castigo (que é o que mais sente a piedade cristã),
também a vós há de chegar.
Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão
essa custódia, em que agora estais adorado dos anjos; tomarão
os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão
a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos
e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas,
e metê-las-ão no fogo; e não perdoarão
as mãos furiosas e sacrílegas nem às imagens
tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria.
Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes
agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes
em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas
de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto
pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário
esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles
algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu
a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia
de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo
Profeta: Flagellum non appropinquabit tabernaculo tuo. Pois, Filho
da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito
e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam
tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa,
cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do
Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a
vida. Pois se então havia tanto rigor para quem ofendia a
imagem de Maria, por que o não há também agora?
Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas
sagradas, para uma severíssima demonstração
vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, por que levantou a
mão para um Profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente,
como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos,
lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar,
por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava
vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges,
que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não
há três dedos que escrevam sentença de morte
contra sacrílegos?!
Enfim, Senhor, despojados assim os templos e derrubados os altares,
acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á
o culto divino; nascerá erva nas igrejas, como nos campos;
não haverá quem entre nelas. Passará um dia
de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento;
passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão
os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras
das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém
destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant
ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que
as não pisa a devoção dos fiéis, como
costumava em semelhantes dias. Não haverá missas,
nem altares, nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos
sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias
nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerônimo
e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles
os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina
os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses; e chegaremos
a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão:
- Menino, de que seita sois? Um responderá: - Eu sou calvinista;
outro: - Eu sou luterano.
Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar
vossas ovelhas a São Pedro, examinaste-lo três vezes
se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais
desta maneira, não a pastores, senão aos lobos?! Sois
o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges
as almas? Como tenho dito, e nomeei almas, não vos quero
dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer
e arrepender, e que não haveis de ter coração
para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é
(que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas),
se é que há de haver dor, se é que há
de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções
agora, que não é justo vos contente antes o de que
vos há de pesar em algum tempo.
Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do Mundo,
formando-o com vossas próprias mãos, informando-o
e animando-o com vosso próprio alento e imprimindo nele o
caráter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que
logo desde aquele mesmo dia vos não contentastes dele, porque
de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos
pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum; e só do homem
o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência
andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano,
não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos
com tão pública demonstração todas as
vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas,
não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais
de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele
mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido
de ter criado o homem: Paenituit eum quod hominem fecisset in terra,
e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Paenitet me fecisse
eos; e então ficou patente e manifesto a todos o segredo
que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor,
dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem;
pois essa é a causa por que logo desde o princípio
de sua criação vos não agradastes dele, nem
quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era
razão, por coisa muito alheia de vossa sabedoria e providência,
que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que
depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito:
Paenitet me fecisse.
Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina
e a altíssima razão de estado de vossa providência
- não haver jamais agrado do que há de haver arrependimento;
e sendo também certo nas piedosíssimas entranhas de
vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas,
as misérias, os estragos que tenho representado, é
força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender,
arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo,
ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão
à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas
de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão
irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes
prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão
fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste Estado.
E não vos fazem esta humilde deprecação pelas
perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras
vias; mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias
de vossos templos e altares, pela exterminação do
sacrossanto sacrifício de vosso corpo e sangue, e pela ausência
insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo
Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.
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