Sermão
de Santo Antonio
Pe. Antonio Vieira
Pregado em S. Luís do Maranhão, três dias antes
de se embarcar ocultamente para o Reino
Vos estis
sal terrae. S. Mateus, V, l3.
§
I
Vós,
diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal
da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam
na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção;
mas quando a terra se vê tão corrupta como está
a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal,
qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?
Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se
não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga,
e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque
a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira
a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou
é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma
cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar,
e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o
que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores
se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não
deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a
seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!
Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não
deixe salgar; que se há-de fazer a este sal e que se há-de
fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não
salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur?
Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab
hominibus. "Se o sal perder a substância e a virtude,
e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe
há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil
para que seja pisado de todos." Quem se atrevera a dizer tal
cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não
há quem seja mais digno de reverência e de ser posto
sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve,
assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo
dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.
Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E
à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de
fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho;
mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português
Santo António, que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa
resolução que nenhum santo tomou.
Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino,
contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento
são dificultosos de arrancar, não só não
fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele
e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria
neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria
o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas
António com os pés descalços não podia
fazer esta protestação; e uns pés a que se
não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que
faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo
ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia
humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito,
não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou
somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu
da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa
a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já
que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes.
Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar
e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer
os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por
sua ordem com as cabeças de fora da água, António
pregava e eles ouviam.
Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho,
dê-nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto
para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe
muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra;
Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é
o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias
que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é
melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são
da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma
fortuna tão parecida à de Santo António em
Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes
vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de
tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito
sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária
e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios
que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se
a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis
e eu por vós o sinto.
Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo
António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens
se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão
perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão,
pois não é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris:
"Senhora do mar"; e posto que o assunto seja tão
desusado, espero que me não falte com a costumada graça.
Ave Maria.
§
II
Enfim, que havemos
de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos
têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não
falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é
serem gente os peixes que se não há-de converter.
Mas esta dor é tão ordinária, que já
pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão
falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos
triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos
encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.
Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que
o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais
em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo
para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham
as pregações do vosso pregador Santo António,
como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é
louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar
e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence
só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar.
Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere
solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae
prosequenda sunt imitatione: "Não só há
que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão
também que imitar e louvar." Quando Cristo comparou
a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz
que os pescadores "recolheram os peixes bons e lançaram
fora os maus": Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt.
E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender.
Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes,
o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei
as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios.
E desta maneira satisfaremos às obrigações
do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las
depois de mortos.
Começando pois, pelos vossos louvores, irmãos peixes,
bem vos pudera eu dizer que entre todas as criaturas viventes e
sensitivas, vós fostes as primeiras que Deus criou. A vós
criou primeiro que as aves do ar, a vós primeiro que aos
animais da terra e a vós primeiro que ao mesmo homem. Ao
homem deu Deus a monarquia e o domínio de todos os animais
dos três elementos, e nas provisões em que o honrou
com estes poderes, os primeiros nomeados foram os peixes: Ut praesit
piscibus maris et volatilibus caeli, et bestiis, universaeque terrae.
Entre todos os animais do Mundo, os peixes são os mais e
os peixes os maiores. Que comparação têm em
número as espécies das aves e as dos animais terrestres
com as dos peixes? Que comparação na grandeza o elefante
com a baleia? Por isso Moisés, cronista da criação,
calando os nomes de todos os animais, só a ela nomeou pelo
seu: Creavit Deus cete grandia. E os três músicos da
fornalha da Babilónia o cantaram também como singular
entre todos: Benedicite, cete et omnia quae moventur in aquis, Domino.
Estes e outros louvores, estas e outras excelências de vossa
geração e grandeza vos pudera dizer, ó peixes;
mas isto é lá para os homens, que se deixam levar
destas vaidades, e é também para os lugares em que
tem lugar a adulação, e não para o púlpito.
Vindo pois, irmãos, às vossas virtudes, que são
as que só podem dar o verdadeiro louvor, a primeira que se
me oferece aos olhos hoje, é aquela obediência com
que, chamados, acudistes todos pela honra de vosso Criador e Senhor,
e aquela ordem, quietação e atenção
com que ouvistes a palavra de Deus da boca de seu servo António.
Oh grande louvor verdadeiramente para os peixes e grande afronta
e confusão para os homens! Os homens perseguindo a António,
querendo-o lançar da terra e ainda do Mundo, se pudessem,
porque lhes repreendia seus vícios, porque lhes não
queria falar à vontade e condescender com seus erros, e no
mesmo tempo os peixes em inumerável concurso acudindo à
sua voz, atentos e suspensos às suas palavras, escutando
com silêncio e com sinais de admiração e assenso
(como se tiveram entendimento) o que não entendiam. Quem
olhasse neste passo para o mar e para a terra, e visse na terra
os homens tão furiosos e obstinados e no mar os peixes tão
quietos e tão devotos, que havia de dizer? Poderia cuidar
que os peixes irracionais se tinham convertido em homens, e os homens
não em peixes, mas em feras. Aos homens deu Deus uso de razão,
e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão
sem o uso, e os peixes o uso sem a razão.
Muito louvor mereceis, peixes, por este respeito e devoção
que tivestes aos pregadores da palavra de Deus, e tanto mais quanto
não foi só esta a vez em que assim o fizestes. Ia
Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio, quando se
levantou aquela grande tempestade; e como o trataram os homens,
como o trataram os peixes? Os homens lançaram-no ao mar a
ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu, levou-o às
praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse
aqueles homens. É possível que os peixes ajudam à
salvação dos homens, e os homens lançam ao
mar os ministros da salvação?! Vede, peixes, e não
vos venha vanglória, quanto melhores sois que os homens.
Os homens tiveram entranhas para deitar Jonas ao mar, e o peixe
recolheu nas entranhas a Jonas, para o levar vivo à terra.
Mas porque nestas duas acções teve maior parte a omnipotência
que a natureza (como também em todas as milagrosas que obram
os homens) passo às virtudes naturais e próprias vossas.
Falando dos peixes, Aristóteles diz que só eles, entre
todos os animais, se não domam nem domesticam. Dos animais
terrestres o cão é tão doméstico, o
cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal, o bugio
tão amigo ou tão lisonjeiro, e até os leões
e os tigres com arte e benefícios se amansam. Dos animais
do ar, afora aquelas aves que se criam e vivem connosco, o papagaio
nos fala, o rouxinol nos canta, o açor nos ajuda e nos recreia;
e até as grandes aves de rapina, encolhendo as unhas, reconhecem
a mão de quem recebem o sustento. Os peixes, pelo contrário,
lá se vivem nos seus mares e rios, lá se mergulham
nos seus pegos, lá se escondem nas suas grutas, e não
há nenhum tão grande que se fie do homem, nem tão
pequeno que não fuja dele. Os autores comummente condenam
esta condição dos peixes, e a deitam à pouca
docilidade ou demasiada bruteza; mas eu sou de mui diferente opinião.
Não condeno, antes louvo muito aos peixes este seu retiro,
e me parece que, se não fora natureza, era grande prudência.
Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor; trato e familiaridade
com eles, Deus vos livre! Se os animais da terra e do ar querem
ser seus familiares, façam-no muito embora, que com suas
pensões o fazem. Cante-lhes aos homens o rouxinol, mas na
sua gaiola; diga-lhes ditos o papagaio, mas na sua cadeia; vá
com eles à caça o açor, mas nas suas piozes;
faça-lhes bufonarias o bugio, mas no seu cepo; contente-se
o cão de lhes roer um osso, mas levado onde não quer
pela trela; preze-se o boi de lhe chamarem formoso ou fidalgo, mas
com o jugo sobre a cerviz, puxando pelo arado e pelo carro; glorie-se
o cavalo de mastigar freios dourados, mas debaixo da vara e da espora;
e se os tigres e os leões lhe comem a ração
da carne que não caçaram no bosque, sejam presos e
encerrados com grades de ferro. E entretanto vós, peixes,
longe dos homens e fora dessas cortesanias, vivereis só convosco,
sim, mas como peixe na água. De casa e das portas a dentro
tendes o exemplo de toda esta verdade, o qual vos quero lembrar,
porque há filósofos que dizem que não tendes
memória.
No tempo de Noé sucedeu o dilúvio que cobriu e alagou
o Mundo, e de todos os animais quais livraram melhor? Dos leões
escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da
terra; das águias escaparam duas, fêmea e macho, e
assim das outras aves. E dos peixes? Todos escaparam, antes não
só escaparam todos, mas ficaram muito mais largos que dantes,
porque a terra e o mar tudo era mar. Pois se morreram naquele universal
castigo todos os animais da terra e todas as aves, porque mão
morreram também os peixes? Sabeis porquê? Diz Santo
Ambrósio: porque os outros animais, como mais domésticos
ou mais vizinhos, tinham mais comunicação com os homens,
os peixes viviam longe e retirados deles. Facilmente pudera Deus
fazer que as águas fossem venenosas e matassem todos os peixes,
assim como afogaram todos os outros animais. Bem o experimentais
na força daquelas ervas com que, infeccionados os poços
e lagos, a mesma água vos mata; mas como o dilúvio
era um castigo universal que Deus dava aos homens por seus pecados,
e ao Mundo pelos pecados dos homens, foi altíssima providência
da divina Justiça que nele houvesse esta diversidade ou distinção,
para que o mesmo Mundo visse que da companhia dos homens lhe viera
todo o mal; e que por isso os animais que viviam mais perto deles,
foram também castigados e os que andavam longe ficaram livres.
Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens.
Perguntando um grande filósofo qual era a melhor terra do
Mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais
longe. Se isto vos pregou também Santo António - e
foi este um dos benefícios de que vos exortou a dar graças
ao Criador - bem vos pudera alegar consigo, que quanto mais buscava
a Deus, tanto mais fugia dos homens. Para fugir dos homens deixou
a casa de seus pais e se recolheu a uma religião, onde professasse
perpétua clausura. E porque nem aqui o deixavam os que ele
tinha deixado, primeiro deixou Lisboa, depois Coimbra, e finalmente
Portugal. Para fugir e se esconder dos homens mudou o hábito,
mudou o nome, e até a si mesmo se mudou, ocultando sua grande
sabedoria debaixo da opinião de idiota, com que não
fosse conhecido nem buscado, antes deixado de todos, como lhe sucedeu
com seus próprios irmãos no capítulo geral
de Assis. De ali se retirou a fazer vida solitária em um
ermo, do qual nunca saíra, se Deus como por força
o não manifestara e por fim acabou a vida em outro deserto,
tanto mais unido com Deus, quanto mais apartado dos homens.
§
III
Este é,
peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a felicidade
de que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo
ao particular, infinita matéria fora se houvera de discorrer
pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez admirável
em cada um de vós. De alguns somente farei menção.
E o que tem o primeiro lugar entre todos, como tão celebrado
na Escritura, é aquele santo peixe de Tobias a quem o texto
sagrado não dá outro nome que de grande, como verdadeiramente
o foi nas virtudes interiores, em que só consiste a verdadeira
grandeza. Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acompanhava,
e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens
de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em
acção de que o queria tragar. Gritou Tobias assombrado,
mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse
para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse,
porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando
que virtude tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar,
respondeu o anjo que o fel era bom para sarar da cegueira e o coração
para lançar fora os demónios: Cordis eius particulam,
si super carbones ponas, fumus eius extricat omne genus daemoniorum:
et fel valet ad ungendos oculos, in quibus fuerit albugo, et sanabuntur.
Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência,
porque, sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos
um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demónio,
chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo
Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu
dali o Demónio e nunca mais tornou. De sorte que o fel daquele
peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demónios
de casa a Tobias, o moço. Um peixe de tão bom coração
e de tão proveitoso fel, quem o não louvará
mais? Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com
uma corda, parecia um retrato marítimo de Santo António.
Abria Santo António a boca contra os hereges, e enviava-se
a eles, levado do fervor e zelo da fé e glória divina.
E eles que faziam? Gritavam como Tobias e assombravam-se com aquele
homem e cuidavam que os queria comer. Ah homens, se houvesse um
anjo que vos revelasse qual é o coração desse
homem e esse fel que tanto vos amarga, quão proveitoso e
quão necessário vos é! Se vós lhe abrísseis
esse peito e lhe vísseis as entranhas, como é certo
que havíeis de achar e conhecer claramente nelas que só
duas cousas pretende de vós, e convosco: uma é alumiar
e curar vossas cegueiras, e outra lançar-vos os demónios
fora de casa.
Pois a quem vos quer tirar as cegueiras, a quem vos quer livrar
dos demónios perseguis vós?! Só uma diferença
havia entre Santo António e aquele peixe: que o peixe abriu
a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua
contra os que se não queriam lavar.
Ah moradores do Maranhão, quanto eu vos pudera agora dizer
neste caso! Abri, abri estas entranhas; vede, vede este coração.
Mas ah sim, que me não lembrava! Eu não vos prego
a vós, prego aos peixes.
Passando dos da Escritura aos da história natural, quem haverá
que não louve e admire muito a virtude tão celebrada
da rémora? No dia de um santo menor, os peixes menores devem
preferir aos outros. Quem haverá, digo, que não admire
a virtude daquele peixezinho tão pequeno no corpo e tão
grande na força e no poder, que não sendo maior de
um palmo, se se pega ao leme de uma nau da Índia, apesar
das velas e dos ventos, e de seu próprio peso e grandeza,
a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder
mover, nem ir por diante? Oh se houvera uma rémora na terra,
que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos
haveria na vida e que menos naufrágios no Mundo!
Se alguma rémora houve na terra, foi a língua de Santo
António, na qual, como na rémora, se verifica o verso
de São Gregório Nazianzeno: Lingua quidem parva est,
sed viribus omnia vincit. O Apóstolo Santiago, naquela sua
eloquentíssima Epístola, compara a língua ao
leme da nau e ao freio do cavalo. Uma e outra comparação
juntas declaram maravilhosamente a virtude da rémora, a qual,
pegada ao leme da nau, é freio da nau e leme do leme. E tal
foi a virtude e força da língua de Santo António.
O leme da natureza humana é o alvedrio, o piloto é
a razão: mas quão poucas vezes obedecem à razão
os ímpetos precipitados do alvedrio? Neste leme, porém,
tão desobediente e rebelde, mostrou a língua de António
quanta força tinha, como rémora, para domar a fúria
das paixões humanas. Quantos, correndo fortuna na nau Soberba,
com as velas inchadas do vento e da mesma soberba (que também
é vento), se iam desfazer nos baixos, que já rebentavam
por proa, se a língua de António, como rémora,
não tivesse mão no leme, até que as velas se
amainassem, como mandava a razão, e cessasse a tempestade
de fora e a de dentro? Quantos, embarcados na nau Vingança,
com a artilharia abocada e os botafogos acesos, corriam infunados
a dar-se batalha, onde se queimariam ou deitariam a pique se a rémora
da língua de António lhes dão detivesse a fúria,
até que, composta a ira e ódio, com bandeiras de paz
se salvassem amigavelmente? Quantos, navegando na nau Cobiça,
sobrecarregada até às gáveas e aberta com o
peso por todas as costuras, incapaz de fugir, nem se defender, dariam
nas mãos dos corsários com perda do que levavam e
do que iam buscar, se a língua de António os não
fizesse parar, como rémora, até que, aliviados da
carga injusta, escapassem do perigo e tomassem porto? Quantos, na
nau Sensualidade, que sempre navega com cerração,
sem sol de dia, nem estrelas de noite, enganados do canto das sereias
e deixando-se levar da corrente, se iriam perder cegamente, ou em
Sila, ou em Caribdes, onde não aparecesse navio nem navegante,
se a rémora da língua de António os não
contivesse, até que esclarecesse a luz e se pusessem em vista.
Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador,
que também foi rémora vossa, enquanto o ouvistes;
e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira)
se vêem e choram na terra tantos naufrágios.
Mas para que da admiração de uma tão grande
virtude vossa, passemos ao louvor ou inveja de outra não
menor, admirável é igualmente a qualidade daquele
outro peixezinho, a que os latinos chamaram torpedo. Ambos estes
peixes conhecemos cá mais de fama que de vista; mas isto
têm as virtudes grandes, que quanto são maiores, mais
se escondem. Está o pescador com a cana na mão, o
anzol no fundo e a bóia sobre a água, e em lhe picando
na isca o torpedo começa a lhe tremer o braço. Pode
haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De maneira
que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol,
do anzol à linha, da linha à cana e da cana ao braço
do pescador.
Com muita razão disse que este vosso louvor o havia de referir
com inveja. Quem dera aos pescadores do nosso elemento, ou quem
lhes pusera esta qualidade tremente, em tudo o que pescam na terra!
Muito pescam, mas não me espanto do muito; o que me espanta
é que pesquem tanto e que tremam tão pouco. Tanto
pescar e tão pouco tremer!
Pudera-se fazer problema; onde há mais pescadores e mais
modos e traças de pescar, se no mar ou na terra? E é
certo que na terra. Não quero discorrer por eles, ainda que
fora grande consolação para os peixes; baste fazer
a comparação com a cana, pois é o instrumento
do nosso caso. No mar, pescam as canas, na terra, as varas, (e tanta
sorte de varas); pescam as ginetas, pescam as bengalas, pescam os
bastões e até os ceptros pescam, e pescam mais que
todos, porque pescam cidades e reinos inteiros. Pois é possível
que, pescando os homens cousas de tanto peso, lhes não trema
a mão e o braço?! Se eu pregara aos homens e tivera
a língua de Santo António, eu os fizera tremer.
Vinte e dois pescadores destes se acharam acaso a um sermão
de Santo António, e às palavras do Santo os fizeram
tremer a todos de sorte que todos, tremendo, se lançaram
a seus pés; todos, tremendo, confessaram seus furtos; todos,
tremendo, restituíram o que podiam (que isto é o que
faz tremer mais neste pecado que nos outros); todos enfim mudaram
de vida e de ofício e se emendaram.
Quero acabar este discurso dos louvores e virtudes dos peixes com
um, que não sei se foi ouvinte de Santo António e
aprendeu dele a pregar. A verdade é que me pregou a mim,
e se eu fora outro, também me convertera. Navegando de aqui
para o Pará (que é bem não fiquem de fora os
peixes da nossa costa), vi correr pela tona da água de quando
em quando, a saltos, um cardume de peixinhos que não conhecia;
e como me dissessem que os Portugueses lhe chamavam quatro-olhos,
quis averiguar ocularmente a razão deste nome, e achei que
verdadeiramente têm quatro olhos, em tudo cabais e perfeitos.
Dá graças a Deus, lhe disse, e louva a liberalidade
de sua divina providência para contigo; pois às águias,
que são os linces do ar, deu somente dois olhos, e aos linces,
que são as águias da terra, também dois; e
a ti, peixezinho, quatro.
Mais me admirei ainda, considerando nesta maravilha a circunstância
do lugar. Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar, nas
praias daquelas mesmas terras vastíssimas, onde permite Deus
que estejam vivendo em cegueira tantos milhares de gentes há
tantos séculos! Oh quão altas e incompreensíveis
são as razões de Deus, e quão profundo o abismo
de seus juízos!
Filosofando, pois, sobre a causa natural desta providência,
notei que aqueles quatro olhos estão lançados um pouco
fora do lugar ordinário, e cada par deles, unidos como os
dois vidros de um relógio de areia, em tal forma que os da
parte superior olham direitamente para cima, e os da parte inferior
direitamente para baixo. E a razão desta nova arquitectura,
é porque estes peixinhos, que sempre andam na superfície
da água, não só são perseguidos dos
outros peixes maiores do mar, senão também de grande
quantidade de aves marítimas, que vivem naquelas praias;
e como têm inimigos no mar e inimigos no ar, dobrou-lhes a
natureza as sentinelas e deu-lhes dois alhos, que direitamente olhassem
para cima, para se vigiarem das aves, e outros dois que direitamente
olhassem para baixo, para se vigiarem dos peixes.
Oh que bem informara estes quatro olhos uma alma racional, e que
bem empregada fora neles, melhor que em muitos homens! Esta é
a pregação que me fez aquele peixezinho, ensinando-me
que, se tenho fé e uso da razão, só devo olhar
direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para
cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me
que há Inferno. Não me alegou para isso passo da Escritura;
mas então me ensinou o que quis dizer David em um, que eu
não entendia: Averte oculos meos, ne videant vanitatem. "Voltai-me,
Senhor, os olhos, para que não vejam a vaidade."
Pois David não podia voltar os seus olhos para onde quisesse?!
Do modo que ele queria, não. Ele queria voltados os seus
olhos, de modo que não vissem a vaidade, e isto não
o podia fazer neste Mundo, para qualquer parte que voltasse os olhos,
porque neste Mundo "tudo é vaidade": Vanitas vanitatum
et omnia vanitas. Logo, para não verem os olhos de David
a vaidade, havia-lhos de voltar Deus de modo que só vissem
e olhassem para o outro Mundo em ambos seus hemisférios;
ou para o de cima, olhando direitamente só para o Céu,
ou para o de baixo, olhando direitamente só para o Inferno.
E esta é a mercê que pedia a Deus aquele grande profeta,
e esta a doutrina que me pregou aquele peixezinho tão pequeno.
Mas ainda que o Céu e o Inferno se não fez para vós,
irmãos peixes, acabo, e dou fim a vossos louvores, com vos
dar as graças do muito que ajudais a ir ao Céu, e
não ao Inferno, os que se sustentam de vós. Vós
sois os que sustentais as Cartuxas e os Buçacos, e todas
as santas famílias, que professam mais rigorosa austeridade;
vós os que a todos os verdadeiros cristãos ajudais
a levar a penitência das quaresmas; vós aqueles com
que o mesmo Cristo festejou a Páscoa as duas vezes que comeu
com seus discípulos depois de ressuscitado. Prezem-se as
aves e os animais terrestres de fazer esplêndidos e custosos
os banquetes dos ricos, e vós gloriai-vos de ser companheiros
do jejum e da abstinência dos justos! Tendes todos quantos
sois tanto parentesco e simpatia com a virtude, que, proibindo Deus
no jejum a pior e mais grosseira carne, concede o melhor e mais
delicado peixe. E posto que na semana só dois se chamam vossos,
nenhum dia vos é vedado. Um só lugar vos deram os
astrólogos entre os signos celestes, mas os que só
de vós se mantêm na terra, são os que têm
mais seguros os lugares do Céu. Enfim, sois criaturas daquele
elemento, cuja fecundidade entre todos é própria do
Espírito Santo: Spiritus Domini foecundabat aquas.
Deitou-vos Deus a bênção, que crescêsseis
e multiplicásseis; e para que o Senhor vos confirme essa
bênção, lembrai-vos de não faltar aos
pobres com o seu remédio. Entendei que no sustento dos pobres
tendes seguros os vossos aumentos. Tomai o exemplo nas irmãs
sardinhas. Porque cuidais que as multiplica o Criador em número
tão inumerável? Porque são sustento de pobres.
Os solhos e os salmões são muito contados, porque
servem à mesa dos reis e dos poderosos; mas o peixe que sustenta
a fome dos pobres de Cristo, o mesmo Cristo os multiplica e aumenta.
Aqueles dois peixes companheiros dos cinco pães do deserto,
multiplicaram tanto, que deram de comer a cinco mil homens. Pois
se peixes mortos, que sustentam os pobres, multiplicam tanto, quanto
mais e melhor o farão os vivos! Crescei, peixes, crescei
e multiplicai, e Deus vos confirme a sua bênção.
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