Error processing SSI file
 

 

Sermão da Quinta Dominga da Quaresma3
Padre António Vieira

 


§ IV

Quantas voltas dão as palavras desde a boca até os ouvidos. O exemplo dos apóstolos. Os que ouvem
pelos ouvidos e os que ouvem pelos corações. O que ouviram Moisés e Josué ao descer do Sinai. As
mentiras e as formas do fundidor. O notável artifício com que a natureza formou os nossos ouvidos.
Como saíram torcidas da boca dos fariseus as palavras de Cristo. A quimera e a mentira. A primeira
mentira que no mundo se disse foi feita de duas verdades. As falsas testemunhas diante de Pilatos.

Vejo que estão agora alguns no auditório mui contentes, dizendo consigo que isto não fala com eles,
porque é verdade que não são mudos, e que quando se acham em conversação também falam nas vidas
alheias; mas que não são homens que digam o que imaginam: dizem o que ouvem, e quem diz o que ouve
não mente. Ora, estai comigo. Se vós soubéreis quantas voltas dão as palavras desde a boca até os
ouvidos, não houvéreis de dizer isso, ainda que foreis mui verdadeiros. Quero-vos pôr o exemplo na
melhor boca e nos melhores ouvidos do mundo. Perguntou S. Pedro a Cristo que havia de ser de S. João.
Respondeu o Senhor: Sic eum volo manere (Jo 21, 22): Quero que fique assim. - Isto é o que Cristo
disse. E os apóstolos que disseram? Exiit sermo inter fratres, quod discipulus ille non moritur:
Começaram a dizer uns com os outros que S. João não havia de morrer. - E acrescenta o Evangelista: Et
non dixit Jesus non moritur, sed sic eum volo manere (Jo 21, 23): E Cristo não disse que ele não havia
de morrer, senão que queria que ficasse assim. - Pois, se Cristo o não disse, como o disseram os
apóstolos? Eles é certo que não quiseram dizer uma coisa por outra, mas desde a boca aos ouvidos são
tantas as voltas que dão as palavras, ou no que soam, ou no que significam, que o que na boca de Cristo
é ficar, nos ouvidos dos apóstolos é não morrer. Não podia haver nem melhor boca que a de Cristo, nem
melhores ouvidos que os dos apóstolos; e se entre o dizer de tal boca e o perceber de tais ouvidos
sucedem estas contradições, que será quando a boca não é de Cristo, e quando os ouvidos não são de S.
Pedro nem de S. João? Quantas vezes vos disseram uma coisa e percebestes outra? Quantas vezes ouvis
o que não ouvis? Quantas vezes entre a boca do outro e os nossos ouvidos ficou a honra alheia
pendurada por um fio? E queira Deus que não ficasse enforcada. Isto acontece quando os homens ouvem
com os ouvidos; mas quando ouvem com os corações, ainda é muito pior. E os corações também
ouvem? Nunca vistes corações? Os corações também têm orelhas, e estai certos que cada um ouve, não
conforme tem os ouvidos, senão conforme tem o coração e a inclinação.

Enquanto Moisés estava no Monte Sinai recebendo a lei de Deus, pediram os judeus a Arão que lhes
fundisse um bezerro de ouro. E como era o primeiro dia da dedicação daquela imagem, celebraram-no
eles com grandes festas. Desce do monte Moisés com Josué, ouviram as vozes ao longe: disse Moisés: -
Eu ouço cantar a coros; - disse Josué: - Não é senão tumulto de guerra (Êx 32, 18). Aqui temos choros
castrorum (23). Se as vozes eram as mesmas, como a um parecem música e a outro parecem trombetas?
A razão é clara. Moisés era religioso, Josué era soldado: ao religioso, parecem-lhe as vozes do côro; ao
soldado, de guerra. Cada um ouve conforme o seu coração e a sua inclinação. Deus nos livre de um
coração mal inclinado. Se ouvir um Te Deum laudamus há de dizer que ouviu uma carta de excomunhão.
Os que ouvem são os ouvidos, mas os que ouvem bem ou mal são os corações. Tudo o que entra pelo
ouvido faz eco no coração, e conforme está disposto o coração, assim se formam os ecos. Ainda vos hei
de declarar isto com outra comparação mais própria. Na fundição de Arão a temos.

Quer um fundidor formar uma imagem. Suponhamos que é de S. Bartolomeu com o seu diabo aos pés.
Que faz para isto? Faz duas formas de barro, uma do santo e outra do diabo, e deixa aberto um ouvido
em cada uma. Depois disto derrete o seu metal em um forno, e, tanto que está derretido e preparado,
abre a boca ao forno, corre o metal, entra por seus canais no ouvido de cada forma, e em uma sai uma
imagem de S. Bartolomeu muito formosa, noutra uma figura do diabo, tão feia como ele. Pois, valha-me
Deus, que diferença é esta? O metal era o mesmo, a boca por onde saiu a mesma, e, entrando por um
ouvido faz um santo, entrando por outro ouvido faz um diabo? Sim, que não está a coisa nos ouvidos,
senão nas formas que estão lá dentro. Onde estava a forma do diabo, saiu um diabo; onde estava a forma
do santo, saiu um santo. Senhores meus, todos os nossos ouvidos vão a dar lá dentro em uma forma, que
é o coração. Se o coração é forma do santo, tudo o que entra pelo ouvido é santo; se é forma do diabo,
tudo o que entra pelo ouvido é diabólico.

Querei-lo ver? Olhai para o nosso Evangelho. Disse Cristo aos escribas e fariseus: Ego honorifico Patrem
meum (Jo 8, 49): Eu honro a meu Pai: Ego non quaero gloriam meam (ibid. 50): Eu não busco a minha
glória: Si quis sermonem meum servaverit, mortem non videbit in aeternum (ibid. 51 ): Se alguém
guardar os meus preceitos, viverá eternamente. - Ouvidas estas palavras, quem não diria, quando menos,
que era um santo quem as dizia, principalmente tendo provado a sua doutrina com tantos milagres? E os
escribas e fariseus que disseram? Nunc cognovimus quia daemonium habes (ibid. 52): Agora
conhecemos que trazes dentro em ti o demônio. - Pois, também de umas palavras tão santas e tão divinas
formam estes homens um conceito tão diabólico? Sim, também, porque tais eram as formas em que
receberam o que lhes entrou pelos ouvidos. Aqueles malditos homens eram filhos do diabo, como Cristo
lhes disse nesta mesma ocasião: Vos ex patre diabolo estis (24) - e de uns corações diabólicos, de umas
formas endemoninhadas, ainda que o metal fosse tão divino, que havia de sair senão um demônio:
daemonium habes? Isto sucedeu às palavras de Cristo, para que vejamos o que pode suceder às demais.
É verdade que as formas não são todas umas. Assim como sai um diabo e outro diabo, pode sair também
um S. Bartolomeu; mas, ainda assim, o melhor é não entrar por ouvidos de homens, posto que as formas
não sejam do diabo, senão do santo, porque se a forma é do diabo, ficais diabo, e se é de S. Bartolomeu,
ficais esfolado. Ninguém passou pelos dois estreitos da boca e ouvidos humanos que não deixasse neles,
quando menos, a pele.

Notável é o artifício, com que a natureza formou os nossos ouvidos. Cada ouvido é um caracol, e de
matéria que tem sua dureza. E como as palavras entram passadas pelo oco deste parafuso, não é muito
que quando saem pela boca, saiam torcidas. Tornemos às de Cristo hoje. Disse o Senhor aos seus
ouvintes: Abraham exsultavit ut videret diem meum vidit, et gavisus est (Jo 8, 56): Abraão desejou ver
minha vinda ao mundo, viu-a, e alegrou-se. - Isto é o que entrou pelos ouvidos dos escribas e fariseus. E
que é o que saiu pelas bocas? Quinquaginta annos nondum habes, et Abraham vidisti (Jo 8, 57 )? Ainda
não tens cinqüenta anos, e viste Abraão? - Vede como saíram torcidas as palavras dos ouvidos à boca.
Cristo disse que Abraão vira a ele, e os fariseus dizem que dissera que ele vira a Abraão: Et Abraham
vidisti. Assim torceram o nome, e mais o verbo. Ao nome mudaram-lhe o caso, e ao verbo a pessoa.
Cristo disse o nome em nominativo, e eles puseram-no em acusativo; Cristo disse o verbo na terceira
pessoa, e eles puseram-no na segunda. De Abraham vidit, formaram Abraham vidisti. Eis aqui como
saem as palavras dos ouvidos à boca, torcidas e retorcidas: torcidos os nomes, torcidos os verbos,
torcidas as pessoas; torcidos os casos. Então dizeis que dissestes o que ouvistes.

Mais sucede nesta passagem dos ouvidos à boca. Como os ouvidos são dois, e a boca uma, sucede que,
entrando pelos ouvidos duas verdades, sai pela boca uma mentira. Parece coisa de trejeito, mas é tão
certa, que a primeira mentira que se disse no mundo foi desta casta: uma mentira feita de duas verdades.
Antes que vo-la diga, quero-vos mostrar como isto pode ser. Quando quereis dizer que fulano é grande
mentiroso, dizeis que é uma quimera. Mas que coisa é quimera? Mui poucos de vós deveis de o saber.
Quimera é um animal fingido, composto de dois animais verdadeiros: um monstro, meio homem, meio
cavalo, é quimera; um monstro, meio águia, meio serpente, é quimera; um monstro, meio leão, meio
peixe, é quimera; mas não há tais monstros nem tais quimeras no mundo. De maneira que as ametades
são verdadeiras; os todos, ou monstros que delas se compõem, são fingidos. As ametades são
verdadeiras, porque há homem e cavalo, há águia e serpente, há leão e peixe; os monstros que se
compõem destas ametades são fingidos, porque não há tal coisa no mundo. Isto mesmo fazem os
mentirosos: partem duas verdades pelo meio, e, sem mudar nem acrescentar nada ao que dissestes, de
duas verdades partidas fazem uma mentira inteira. Tal foi a mentira que disse o diabo a nossos primeiros
pais, e foi a primeira mentira que no mundo se disse: Cur praecepit vobis Deus, ut non comederetis de
omni ligno paradisi (Gên 3, 1 ) ? Por que vos mandou Deus - diz o diabo a Eva - que de todas as
árvores, quantas há no paraíso, não comêsseis? - Há tal mentira como esta? E foi feita de duas verdades.
Deus deu a nossos primeiros pais uma permissão e um preceito: a permissão foi: comei de todas as
árvores; o preceito foi: não comais desta árvore. E que fez o diabo? Do comei de todas as árvores, tomou
o de todas as árvores, e do não comais desta árvore, tomou o não comais, e, ajuntando o não comais
com o de todas as árvores, disse que mandara Deus que de todas as árvores não comessem. Pode haver
maior mentira? Pois foi grudada de duas verdades. Defendei-vos lá agora das vossas mentiras, com dizer
que dissestes as mesmas palavras que ouvistes e que não acrescentastes nada. Que importa que não
acrescenteis, se diminuístes? Pior é uma verdade diminuída, que uma mentira mui declarada, porque a
verdade diminuída na essência é mentira, e tem aparências de verdade; e mentiras que parecem verdades
são as piores mentiras de todas.

Mas por que acabemos de uma vez com as mentiras de ouvidas, para que seja mentira o que dizeis, não é
necessário que oiçais mal nem que diminuais ou acrescenteis o que ouvistes: pode um homem dizer
pontualmente o que ouviu, e ouvir pontualmente o que disseram, e com tudo isso mentir. Quando os
judeus acusaram a Cristo diante de Pilatos, buscavam diversos falsos testemunhos, e nenhum concluía.
Ultimamente, diz o Evangelista que vieram duas testemunhas falsas, as quais disseram que ouviram dizer
a Cristo que, se o Templo de Jerusalém se desfizesse, ele o reedificaria em três dias. Para inteligência
deste testemunho havemos de saber que, entrando Cristo no Templo de Jerusalém, e achando que nele
estavam comprando e vendendo, fez um azorrague das cordas que ali estavam, e a açoites lançou fora os
que compravam e vendiam. Espantados eles da resolução de Cristo, disseram que lhes desse algum sinal
do poder com que fazia aquilo. Respondeu o Senhor: Solvite templum hoc, et in tribus diebus excitabo
illud (25). Pois, se Cristo disse, derribai o Templo, e em três dias o levantarei, e eles testemunharam o
que lhe ouviram, como eram testemunhas falsas: Venerunt duo falsi testes (26)? O Evangelista o
declarou: Ille autem dicebat de templo corporis sui (Jo 2, 21 ): Falava do templo do seu corpo - o qual
templo o Senhor excitou três dias depois de derrubado, que foi no dia da ressurreição. E como Cristo
disse aquelas palavras em um sentido, e eles as referiram em outro, ainda que as palavras eram as
mesmas que tinham ouvido, sem mudar, nem acrescentar, nem diminuir, as testemunhas eram falsas.
Cuidais que para mentir e para dizer testemunhos falsos é necessário mudar, diminuir ou acrescentar as
palavras que ouvistes? Não é necessário nada disso: basta mudar-lhes o sentido, ou a intenção, ainda que
as não entendais, porque haveis supor que as podem ter, e mais quando as pessoas são tais - como era a
de Cristo - que podem falar com mistério. Quantas vezes se dizem as palavras sinceramente com uma
tenção muito sã, e vós as interpretais e corrompeis de maneira que de um louvor fazeis um agravo, de
uma confiança uma injúria, de uma galantaria uma blasfêmia, e de uma graça levantais uma tal labareda,
que se originaram dela muitas desgraças. E se isto sucede quando os homens dizem o que ouviram, e só o
que ouviram, que será quando dizem o que imaginaram, e o que sonharam, ou que ninguém imaginou
nem sonhou?

§ V

A mentira dos olhos. Quais toram as coisas de que se formou o engano dos moabitas na campanha
contra os reis de Israel. O cego do Evangelho. O que aconteceu aos cegos vigiadores, que vão estudar
de noite o que hão de rezar de dia. O negrume das nuvens e da água.

Também contra este segundo discurso há quem cuide que está adargado. Dizem alguns, ou diz algum:
não sou eu daqueles, porque a mim nunca me saiu pela boca coisa que me entrasse pelos ouvidos: para
afirmar, hei de ver com os olhos primeiro; e se para isso for necessário que os olhos não durmam
quarenta noites, estando vigiando a uma esquina, hei-o de fazer sem descansar, até ver averiguada a
minha suspeita. Ah! ronda do inferno! Ah! sentinela de Satanás! Este mesmo, se lhe mandar o confessor
que faça exame de consciência meio quarto de hora antes de se deitar, não o há de poder fazer com o
sono. Mas, para destruir honras, para abrasar casas, estará feito um Argos quarenta noites inteiras. Não
cuidem, porém, estes malignos vigiadores, que por aí se livrarão de mentirosos. Fostes, vigiastes,
observastes, vistes, dissestes, e tendes para vós que falastes verdade? Pois mentistes muito grande
mentira. Os olhos mentem de dia, quanto mais de noite. Grande caso! No Livro quarto dos Reis, capítulo
terceiro ( 4 Rs 3, 22) : Saíram em campanha contra os moabitas el-rei de Israel, el-rei de Judá e el-rei de
Edon. Estavam ainda os exércitos para dar batalha na manhã seguinte: eis que, ao romper do sol, olharam
os moabitas para os arraiais dos inimigos, e viram que pelo meio deles corria um rio de sangue.
Começaram a aclamar com grande alegria: - Sangue, sangue, sem dúvida que os três reis pelejaram esta
noite entre si, e mataram-se uns aos outros: vamos a recolher os despojos. - Saíram os moabitas correndo
tumultuariamente; mas eles foram os despojados e os vencidos, porque o sangue que viram, ou se lhes
afigurou que viram, não era sangue. Foi o caso que passava um rio por meio dos arraiais dos três reis, e
como ao sair do sol feriram os raios na água que ia correndo, fez tais reflexos a luz, que parecia sangue. E
esta aparência de sangue, tão enganosamente visto, e tão falsa, e tão facilmente crido, foi o que precipitou
aos moabitas, e os levou a meterem-se nas mãos de seus inimigos. Se reparais no caso, as duas coisas
mais claras que há no mundo é o sol e a água. Os nossos provérbios o dizem: Claro como a água, claro
como a luz do sol. E quais foram as coisas de que se formou aquele engano nos olhos dos moabitas, com
que cuidaram que o rio era sangue? Uma coisa foi o sol, e outra coisa foi a água: o sol, porque feriu com
seus raios as águas, e as águas porque, feridas, deram com os reflexos aparências de sangue. De sorte que
se enganaram os olhos nas duas coisas mais claras que há no mundo. Pois, se os olhos se enganam nas
coisas mais claras, como se não enganarão nas mais escuras, e às escuras? De dia, engana-vos o sol, e, de
noite, quereis-vos desenganar com as trevas?

Dir-me-eis que havia lua e estrelas quando vistes. Essa pequena luz é a que cega mais, porque faz que
umas coisas pareçam outras. Trouxeram um cego a Cristo, pos-lhe o Senhor as mãos nos olhos, e
perguntou-lhe se via? Respondeu o cego: Video homines velut arbores ambulantes (Mar 8, 24): Senhor,
vejo os homens como árvores que andam. - Mais cego estava agora este cego que dantes, porque dantes
não via nada, agora via umas coisas por outras. Os homens que são de tão diferente figura e estatura,
via-os como árvores, e as árvores que estão presas com raízes na terra, via que andavam como homens.
Eis aqui o que tem ver com pouca luz. O mesmo acontece a estes cegos vigiadores, que vão estudar de
noite o que hão de rezar de dia: Video homines velut arbores ambulantes. O cego de Cristo,
figurava-se-lhe que os homens eram árvores, e estes cegos do diabo, figura-se-lhes que as árvores são
homens. Põem-se a espreitar, veem uma árvore em um quintal: eis lá vai um homem. A árvore está tão
pregada pelas raízes que dois cavadores a não arrancarão em um dia, e ele há de jurar aos Santos
Evangelhos, que viu entrar e sair aquele vulto; arbores ambulantes. Oh! maldito ofício! oh! infernal
curiosidade! Já se os olhos levarem alguma nuvenzinha, como sempre levam, ou de desconfiança, ou de
ódio, ou de inveja, ou de suspeita, ou de vingança, ou de outra qualquer paixão, aí vos gabo eu:
Tenebrosa aqua in nubibus aeris (27). Notou Davi admiravelmente que a água nas nuvens é negra.
Vedes lá vir um aguaceiro escuro mais que a mesma noite: que negrume é aquele? Não é mais que água e
nuvem: a nuvem é um volante, a água é um cristal; e destes dois ingredientes tão puros e tão diáfanos se
faz uma escuridade tão negra e tão espessa. Se quem vai vigiar e espreitar a vossa vida e a vossa honra
levar alguma nuvem diante dos olhos, ainda que seja tão delgada como um volante, por mais que a vossa
vida e a vossa honra seja tão clara e tão pura como um cristal, há-lhe de parecer escura e tenebrosa:
Tenebrosa aqua in nubibus aeris. Finalmente, reduzindo todo o discurso, ou discursos: mentem as
línguas, porque mentem as imaginações; mentem as línguas, porque mentem os ouvidos; mentem as
línguas, porque mentem os olhos; e mentem as línguas, porque tudo mente, e todos mentem.

Parágrafo I à Parágrafo III
Parágrafo IV e Parágrafo V
Parágrafo VI e Parágrafo VII