Sermão da Quinta Dominga da Quaresma3
Padre António Vieira
Na Igreja Maior da
Cidade de São Luís no Maranhão. Ano de 1654.
Si dixero quia non scio eum, ero similis vobis, mendax (1).
§ I
A verdade e a mentira:
a verdade do pregador e a mentira dos ouvintes. As três espécies
de mentiras
com que os escribas e fariseus hoje contradisseram, caluniaram e quiseram
afrontar e desonrar o
Filho de Deus.
Temos juntamente hoje
no Evangelho duas coisas que nunca podem andar juntas: a verdade e a mentira.
E por que não podem andar juntas, por isso as temos divididas;
a verdade no pregador, a mentira nos
ouvintes; o pregador muito verdadeiro, o auditório muito mentiroso.
Uma e outra coisa disse Cristo aos
escribas e fariseus, com quem falava. O pregador muito verdadeiro: Si
veritatem dico vobis (2); o
auditório muito mentiroso: Ero similis vobis, mendax (3).
De três modos
- que há muitos modos de mentir - mentiram hoje estes maus ouvintes.
Mentiram, porque
não creram a verdade; mentiram, porque impugnaram a verdade; mentiram,
porque afirmaram a mentira.
Não crer a verdade é mentir com o pensamento; impugnar a
verdade é mentir com a obra; afirmar a
mentira é mentir com a palavra. Tudo isto lhe tinha profetizado
a Cristo seu pai Davi, quando disse: In
multitudine virtutis tuae mentientur tibi inimici tui (4). De muitos modos
mostrareis eficazmente a
verdade de vosso ser, mas vossos inimigos vos mentirão também
por muitos modos; mentir-vos-ão não
crendo; mentir-vos-ão impugnando; mentir-vos-ão mentindo,
como hoje fizeram. Disse-lhes Cristo que
era Filho de Deus verdadeiro, a quem eles chamavam Pai sem o conhecerem:
disse-lhes que os que
recebessem e observassem sua doutrina viveriam eternamente, e aqui mentiram
não crendo a verdade: Si
veritatem dico vobis, quare non creditis mihi ( 5)? Disse-lhes mais, que
Abraão desejara ver o seu dia,
isto é, o dia em que havia de descer do céu à terra,
e nascer homem entre os homens, e que, finalmente,
o vira com grande júbilo e alegria da sua alma, e aqui mentiram
impugnando a verdade: Quinquaginta
annos nondum habes, et Abraham vidisti (Jo 8, 57)? Tu não tens
ainda cinqüenta anos, e viste Abraão? -
E o bezerro que vós dissestes que vos livrara do Egito, quantos
anos tinha? Não era nascido e gerado
naquele mesmo dia? O ditame com que o tivestes por Deus era falso, mas
a suposição com que
entendestes que em Deus podia haver duas gerações, uma antes
e outra depois, era verdadeira.
Respondeu Cristo: Antequam Abraham fieret, ego sum (Jo 8, 58): Antes que
Abraão fosse, eu já era.
- Mas este era, declarou-o pela palavra Ego sum: eu sou para que entendessem
que era aquele mesmo
Deus, que quando se definiu a Moisés disse: Ego sum qui sum (Êx
3, 14): Eu sou o que sou porque no
eterno não há passado, nem futuro: tudo é presente.
Enfim, mentiram afirmando a mentira, porque
disseram que Cristo era samaritano e endemoninhado: Samaritanus es, et
daemonium habes (6). E para
mentirem duas vezes em uma mentira, repetiram a mesma blasfêmia
ratificando o que tinham dito e
alegando-se a si mesmos: Nonne bene dicimus nos ( 7)? Mal é dizer
mal, mas depois de o haverdes dito,
dizerdes ainda que dizeis bem, é um mal maior sobre outro mal,
porque é estar obstinado nele.
Estas são as
mentiras com que os escribas e fariseus hoje contradisseram, caluniaram
e quiseram afrontar
e desonrar ao Filho de Deus, como o Senhor lhes disse: Ego honorifico
Patrem meum, et vos
inhonorastis me (8). Mas, posto que a Sabedoria eterna fosse caluniada
e injuriada por semelhante gente,
nem por isto ficou afrontado nem desonrado Cristo, porque tudo o que disseram
dele e lhe fizeram foi
por inveja, por ódio, por raiva, por vingança, e quando
as causas são estas, as injúrias não injuriam, as
afrontas desafrontam, as desonras honram. Não está muito
honrado Cristo? Dizei-o vós. Ora eu, que
pregarei neste dia, em que tanto se espera o assunto dos pregadores? Hei
também de dizer-vos uma
grande injúria, uma grande afronta e uma grande desonra da vossa
terra. Contudo, ainda que as verdades
causam ódio, espero que não haveis de ficar mal comigo,
porque hei de afrontar todos para desafrontar a
cada um. O discurso dirá como. Ave Maria.
§II
O Domingo das verdades.
No Maranhão a corte da mentira. O galante apólogo do diabo.
O M de
Maranhão. No Maranhão até o sol e os céus
mentem.
Si dixero quia non
scio eum, ero similis vobis, mendax (9).
A este Evangelho do
Domingo Quinto da Quaresma chamais comumente o domingo das verdades. Para
mim todos os domingos têm este sobrenome, porque em todos prego
verdades, e muito claras, como
tendes visto. Por me não sair, contudo, do que hoje todos esperam,
estive considerando comigo que
verdades vos diria, e, segundo as notícias que vou tendo desta
nossa terra, resolvi-me a vos dizer uma só
verdade. Mas que verdade será esta? Não gastemos tempo.
A verdade que vos digo é que no Maranhão
não há verdade.
Cuidavam e diziam
os sábios antigos, que em diferentes ilhas do mundo reinavam diferentes
deidades:
que em Creta reinava Júpiter, que em Delos reinava Apolo, que em
Samos reinava Juno, que em Chipre
reinava Vênus, e assim de outras. Se o império da mentira
não fora tão universal no mundo, pudera-se
suspeitar que nesta nossa ilha tinha a sua corte a mentira. Todas as terras,
assim como tem particulares
estrelas, que naturalmente predominam sobre elas, assim padecem também
diferentes vícios, a que
geralmente são sujeitas. Fingiram a este propósito os alemães
uma galante fábula. Dizem que quando o
diabo caiu do céu, que no ar se fez em pedaços, e que estes
pedaços se espalharam em diversas
províncias da Europa, onde ficaram os vícios que nelas reinam.
Dizem que a cabeça do diabo caiu em
Espanha, e que por isso somos furiosos, altivos, e com arrogância
graves. Dizem que o peito caiu em
Itália, e que daqui lhes veio serem fabricadores de máquinas,
não se darem a entender, e trazerem o
coração sempre coberto. Dizem que o ventre caiu em Alemanha,
e que esta é a causa de serem inclinados
à gula, e gastarem mais que os outros com a mesa e com a taça.
Dizem que os pés caíram em França, e
que daqui nasce serem pouco sossegados, apressados no andar, e amigos
de bailes. Dizem que os braços
com as mãos e unhas crescidas, um caiu na Holanda, outro em Argel,
e que daí lhes veio - ou nos veio -
o serem corsários. Esta é a substância do apólogo,
nem mal formado, nem mal repartido, porque, ainda
que a aplicação dos vícios totalmente não
seja verdadeira, tem contudo a semelhança de verdade, que
basta para dar sal à sátira. E, suposto que à Espanha
lhe coube a cabeça, cuido eu que a parte dela que
nos toca ao nosso Portugal é a língua, ao menos assim o
entendem as nações estrangeiras que de mais
perto nos tratam. Os vícios da língua são tantos,
que fez Drexélio um abecedário inteiro e muito copioso
deles. E se as letras deste abecedário se repartissem pelos estados
de Portugal, que letra tocaria ao nosso
Maranhão? Não há dúvida, que o M. M - Maranhão,
M - murmurar, M - motejar, M - maldizer, M -
malsinar, M - mexericar, e, sobretudo, M - mentir: mentir com as palavras,
mentir com as obras, mentir
com os pensamentos, que de todos e por todos os modos aqui se mente. Novelas
e novelos, são as duas
moedas correntes desta terra (10), mas têm uma diferença,
que as novelas armam-se sobre nada, e os
novelos armam-se sobre muito, para tudo ser moeda falsa.
Na Bahia, que é
a cabeça desta nossa província do Brasil; acontece algumas
vezes o que no Maranhão
quase todos os dias. Amanhece o sol muito claro, prometendo um formoso
dia, e dentro em uma hora
tolda o céu de nuvens, e começa a chover como no mais entranhado
inverno. Sucedeu-lhe um caso como
este a D. Fradique de Toledo, quando veio a restaurar a Bahia no ano de
mil seiscentos e vinte e cinco. E
tendo toda a gente da armada em campo para lhe passar mostra, admirado
da inconstância do clima,
disse: En el Brasil hasta los cielos mientem. Não sei se é
isto descrédito, se desculpa. Que mais pode
fazer um homem, que ser tão bom como o céu da terra em que
vive? Outra terra há em Europa ( * ), na
qual eu estive há poucos anos, em que se experimentaram cada dia
as mesmas mudanças, pelas quais
Galeno não quis curar nela; porém, ali há outra razão,
porque como a terra tem jurisdição sobre o céu,
segue o céu as influências da terra. Mas o que se disse do
Brasil por galanteria, se pode afirmar do
Maranhão com toda a verdade. É experiência inaudita
a que agora direi, e não sei que fé lhe darão os
matemáticos que estão mais longe da linha. Quer pesar o
sol um piloto nesta cidade onde estamos, e não
no porto, onde está surto o seu navio, senão com os pés
em terra: toma o astrolábio na mão com toda a
quietação e segurança. E que lhe acontece? Coisa
prodigiosa! Um dia acha que está o Maranhão em um
grau, outro dia em meio, outro dia em dois, outro dia em nenhum. E esta
é a causa por que os pilotos que
não são práticos nesta costa, areiam, e se têm
perdido tantos nelas. De maneira que o sol, que em toda a
parte é a regra certa e infalível por onde se medem os tempos,
os lugares, as alturas, em chegando à terra
do Maranhão, até ele mente. E terra onde até o sol
mente, vede que verdade falarão aqueles sobre cujas
cabeças e corações ele influi. Acontece-lhes aqui
aos moradores o mesmo que aos pilotos, que nenhum
sabe em que altura está. Cuida o homem nobre hoje que está
em altura de honrado, e amanhã acha-se
infamado e envilecido. Cuida a donzela recolhida que está em altura
de virtuosa, e amanhã acha-se
murmurada pelas praças. Cuida o eclesiástico que está
em altura de bom sacerdote, e amanhã acha-se
com reputação de mau homem. Enfim, um dia estais aqui em
uma altura, e ao outro dia noutra, porque
os lábios são como o astrolábio. É isto assim?
A vós mesmos o ouço, que eu não o adivinhei. vede
se é
certa a minha verdade: que não há verdade no Maranhão.
§ III
A influência
do clima no nascimento de vícios e virtudes. Os dois vícios
dos cretenses: mentira e
preguiça. As mais desfechadas mentiras que nunca se ouviram nem
imaginaram. A mentira, filha
primogênita do ócio. A proposição de Davi.
O juízo temerário. A língua, a fera mais dificultosa
de
enfrear.
Ora, eu me pus a especular
a causa por que o clima e o céu desta terra influi tanta mentira,
e parece-me
que achei a causa verdadeira e natural. Assim como o céu com uma
virtude influi outra virtude, assim o
clima, que também se chama céu, com um vício influi
outro vício. Ponhamos o exemplo na verdade, que
é a virtude contrária da mentira: Veritas de terra orta
est (Sl 8, 12), diz Davi: A verdade nasceu da terra.
- E logo advertiu que a terra de que falava não era toda a terra,
senão a sua: Et terra nostra dabit fructum
suum (11). Mas donde lhe veio aquela terra - que era a de Promissão
- donde veio uma virtude tão
singular no mundo, que nascesse dela a verdade? O mesmo profeta o disse:
Veritas de terra orta est, et
justitia de coelo prospexit ( 12). Toda esta virtude da terra veio-lhe
do céu. Influiu o céu na terra a
justiça, e nasceu nela a verdade. A verdade é filha legítima
da justiça, porque a justiça dá a cada um o
que é seu. E isto é o que faz e o que diz a verdade, ao
contrário da mentira. A mentira, ou vos tira o que
tendes, ou vos dá o que não tendes; ou vos rouba, ou vos
condena. A verdade não: a cada um dá o seu,
como a justiça. E porque o céu influiu naquela terra a justiça,
por isso influiu e nasceu nela a verdade.
Influiu uma virtude, e nasceu outra.
O mesmo passa nos
vícios. Se o clima influi soberba, nasce a inveja; se influi gula,
nasce a luxúria; se
influi cobiça, nasce a avareza; se influi ira, nasce a vingança.
E para nascer a mentira, que é o que influi?
Ociosidade. Onde o clima influi ócio, dá-se a mentira a
perder. Nasce, cresce, espiga, e de um
não-sei-quê, tamanho como um grão de trigo, podeis
colher mentiras aos alqueires. Estes são os dois
vícios do Maranhão, e estas as duas influências deste
clima - ócio e mentira. - O ócio é a primeira
influência, a mentira a segunda; o ócio a causa, a mentira
o efeito. Não há terra no mundo que mais
incline ao ócio ou à preguiça, como vós dizeis,
e esta é a semente de que nasce tão má erva. Ouvi
a S.
Paulo. Fala o apóstolo da Ilha de Creta, que é a Cândia,
que hoje vai conquistando o turco, e diz assim :
Cretenses semper mendaces, ventres pigri (13): os cretenses têm
dois vícios, que sempre se acham neles:
mentirosos e preguiçosos. Pudera dizer mais, se falara da nossa
ilha, e de toda esta terra? Digam-no os
naturais. Nem a sua diligência nem a sua verdade o pode negar. Não
há gente mais mentirosa nem mais
preguiçosa no mundo. Deitados na sua rede: Ventres pigri; ouvidos
nas suas palavras: semper mendaces.
Mas como estas virtudes vêem do céu, como são influências
do clima, pegaram-se também aos
portugueses. Falta a verdade, porque sobeja a ociosidade. Dai-me vós
homens ociosos, que eu vo-los
darei mentirosos. E se não, vamos ao Evangelho.
As mais desfechadas
mentiras, que nunca se ouviram nem imaginaram, foram as que hoje lhe disseram
a
Cristo na cara os escribas e fariseus, pelas quais o mesmo Senhor lhes
chamou mentirosos: Ero similis
vobis, mendax (Jo 8, 55). Disseram que era samaritano e endemoninhado.
E não só o disseram esta vez,
como advertiu Orígenes, mas assim o diziam publicamente; Nonne
bene dicimus nos, quia samaritanus
es tu, et daemonium habes ( 14 ) ? E notai o que disseram mais abaixo:
Nunc cognovimus, quia
samaritanus est tu, et daemonium habes (Jo 8, 52): (15). Agora conhecemos
que és samaritano e
endemonhinhado. - Pois, se agora o conhecestes, como o dizíeis
dantes? Porque os mentirosos dizem as
coisas antes de as saberem. Mas, tornemos à substância da
mentira. Cristo lançava os demônios de todos
os corpos, e eles chamam-lhe endemoninhado; Cristo era galileu natural
de Nazaré, e chamam-lhe
samaritano. E se o diziam pela religião e pelos costumes, os samaritanos
eram idólatras e apóstatas da lei,
e Cristo era o legislador e reformador dela. Estas eram as mentiras que
diziam os escribas e fariseus. E o
povo, que dizia? Dizia a verdade: que Cristo era um grande profeta, que
era o Rei prometido de Israel,
que era o Messias. Pois, se o povo simples e sem letras conhecia e dizia
a verdade, os escribas e fariseus,
que se prezavam de sábios, como cuidavam e diziam tão desatinadas
mentiras? Porque os escribas e
fariseus era gente abastada e ociosa, e o povo não. Ide-lhe ver
as mãos, achar-lhas-eis cheias de calos.
Quem trabalha, trata da sua vida; quem está ocioso, trata das alheias.
Quem trabalha, como cuida no que
faz, fala verdade, porque diz as coisas como são. O ocioso, como
não tem que fazer, mente, porque diz o
que imagina.
Esta é a razão
por que a mentira é filha primogênita do ócio. Vede
como se forma dentro em vós mesmos
este monstruoso parto. Quem está ocioso não tem mais que
fazer que pôr-se a imaginar; da ociosidade
nasce a imaginação, da imaginação a suspeita,
da suspeita a mentira. É a imaginação no ocioso como
a
serpente de Eva. Estava ociosa Eva no paraíso, entrou a serpente
coleando-se mansamente sem pés, mas
com cabeça; começou pela especulação, e acabou
pela mentira. Começou pela especulação: Cur
praecepit vobis Deus ( 16); e acabou pela mentira, e duas mentiras: Nequaquam
moriemini: eritis sicut
dii (17). Consentiu Eva na mentira peçonhenta: de Eva passou a
Adão, de Adão ao gênero humano. Não
sucede assim às mentiras imaginadas, que vós, como bicho
da seda, gerastes dentro em vós mesmos,
fabricando de vossas entranhas a mortalha para vós e o vestido
para os outros? Meterá a língua a tesoura;
e sem tomar as medidas à verdade, vós lhes cortareis de
vestir. Por que cuidais que se dizem tantas
coisas mal feitas? Por que se fizeram? Não, que a mim me consta
do contrário. É porque se imaginaram;
e tanto que vieram à imaginação, já estão
na prancha da língua.
Que bem o disse Davi:
Tota die iniquitatem cogitavit lingua tua (Sl 51, 4): Todo o dia a vossa
língua
estava cuidando e imaginando maldades (18). Tota die: todo o dia. Vede
se era ocioso aquele de quem
falava Davi: todo o dia não tinha outra coisa que fazer. E que
fazia? Estava a sua língua cuidando e
imaginando maldades. Não sei se reparais na impropriedade das palavras.
O cuidar, o imaginar, é obra do
entendimento, não é da língua: a língua fala,
o entendimento imagina. Pois, se a imaginação está
no
entendimento, como diz Davi que estes fabricadores de maldades imaginavam
com a língua: Tota die
iniquitatem cogitavit lingua tua? Falou Davi com esta que parece impropriedade,
para declarar com
toda a propriedade o que queria dizer. Não diz que imagina com
a língua, porque a língua imagine, que
isso não pode ser; mas diz que imaginam com a língua, por
duas razões: primeira, porque a sua língua
não diz o que é senão o que imagina; segunda, porque
quanto lhes vem à imaginação, logo o põe na
língua. O mesmo Davi: Cogitaverunt et locuti sunt iniquitatem (19):
Em imaginando a maldade, logo a
dizem, sem outra causa para a dizerem mais que a sua maldade, sem outro
fundamento mais que a sua
imaginação. Por isso lhes chama o profeta verba praecipitationis
(20), tão precipitados em afirmar
quanto imaginam sem consideração, sem advertência,
sem reparo, sem escrúpulo, sem temor de Deus,
sem meter espaço nem fazer diferença entre o imaginar e
o dizer, como se tiveram a imaginação na
língua, ou a língua na imaginação, como se
a língua fôra a que imagina, ou a imaginação
a que fala:
Cogitavit injustitiam lingua tua. Quantas vezes se diz do honrado e da
honrada, do inocente e da
inocente o que nunca lhes passou pela imaginação? Mas basta
que o maldizente o imagine ou o queira
imaginar, para o pôr na conversação e na praça,
e o afirmar com tanta certeza, como se o lêra em um
Evangelho. Deus nos livre de tais línguas, e muito mais de tais
imaginações, porque se a vossa honra lhes
entrou na imaginação, nenhum remédio tendes: não
há de parar aí, há de passar à língua:
Cogitaverunt, et
locuti sunt (21).
Daqui entendereis
a razão de um notável preceito de Deus, que por uma parte
parece rigoroso, e, por
outra, menos necessário. Proíbe Deus, sob pena de pecado
mortal e de inferno, que ninguém tenha juízo
temerário do seu próximo. Juízo temerário
é cuidar eu e julgar mal de meu próximo dentro do meu
pensamento. Pois, se o meu juízo fica dentro do meu pensamento,
e não sai fora, nem pode fazer bem
nem mal ao próximo, por que o proíbe Deus com tanta severidade?
Primeiramente notai e adverti quão
estimada é, e quão delicada para com Deus a honra e a reputação
de cada um de nós. Nem cá dentro no
meu entendimento, nem cá dentro na minha imaginação
quer Deus que estejais mal reputado. Zela Deus
e cia a vossa honra e a vossa reputação, até de mim
para comigo. Vede quanto ciará e sentirá que passe
aos ouvidos, e ande pelas bocas de uns e outros. Daqui nasce a razão
por que Deus proíbe tão
rigorosamente os juízos temerários. Não quer que
haja juízos temerários, para que não haja falsos
testemunhos. Os falsos testemunhos formam-se na língua: os juízos
temerários formam-se na imaginação;
e como da imaginação à língua há tão
pouca distância, para que não haja falsos testemunhos na
língua,
proíbe que não haja juízos temerários na imaginação.
Não se contentou Deus com meter o inferno entre a
imaginação e a língua, com um preceito de pecado
mortal, mas meteu outra vez o inferno entre o
entendimento e a imaginação, para que com estes dois muros
de fogo tivesse defendida a nossa honra das
nossas línguas. E, contudo, isto não basta. Por que? Porque
em se passando a primeira muralha, está
vencida a segunda; em chegando à imaginação, já
está na língua: Cogitaverunt, et locuti sunt.
Senhores meus, vivemos
em uma terra muito ociosa, e por isso muito sujeita a imaginações.
Aqui se há
de pôr o remédio. Diz o apóstolo S. Tiago que não
há fera mais dificultosa de enfrear que a língua. Para
se pôr o freio na língua, hão-se de meter as cabeçadas
na imaginação. Nos vossos engenhos, para que
não corra a levada, pondes o resisto no açude. O primeiro
a quem mentis é a vós. Não mentiram as
línguas a todos se as imaginações não mentiram
a cada um. Aqui é que se há de pôr o resisto. Jó,
que
conhecia muito bem a simpatia das potências com os sentidos, dizia:
Pepigi faedus cum oculis meis, ut
ne cogitarem de virgine (22): Fiz concerto com os meus olhos, para estar
seguro dos meus pensamentos.
- Concertai-vos com os vossos pensamentos, se quereis estar seguro das
vossas línguas. Mas porque dais
entrada a quanto quereis no pensamento, por isso dizeis tantas coisas
que nunca passaram pelo
pensamento.
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