SENHORA
José de Alencar
Capítulo II
Aconteceu uma
noite cair a conversa em assunto de literatura nacional.
Fato raro. Entre nós há moda para tudo nos salões;
menos para as letras pátrias, que ficam à porta, ou
quando muito vão para o fumatório servir de tema a
dous ou três incorrigíveis.
Nesse dia fez-se uma exceção. Alguém, que tinha
a prurir-lhe nos lábios a condenação dogmática
de um livro que lera recentemente, apesar de publicado desde muito,
aproveitou o momento para essa execução literária.
- Já leram a Diva?
Respondeu um silêncio cheio de surpresa. Ninguém tinha
notícia do livro, nem supunham que valesse a pena de gastar
o tempo com essas cousas.
- É um tipo fantástico, impossível! sentenciou
o crítico.
Acrescentou ele ainda algumas cousas acerca do romance, cujo estilo
censurou de incorreto, cheio de galicismos, e crivado de erros de
gramática. O desenlace especialmente provocou acres censuras.
A crítica, por maior que seja a sua malignidade, produz sempre
um efeito útil que é de aguçar a curiosidade.
O mais rigoroso censor mau grado seu presta homenagem ao autor,
e o recomenda.
Pela manhã Aurélia mandou comprar o romance; e o leu
em uma sesta, ao balanço da cadeira de palha, no vão
de uma janela ensombrada pelas jaqueiras cujas flores exalavam perfumes
de magnólias.
À noite apareceu o crítico.
- Já li a Diva, disse depois de corresponder ao cumpri-mento.
- Então? Não é uma mulher impossível?
- Não conheço nenhuma assim. Mas também só
podia conhecê-la Augusto Sá, o homem que ela amava,
e o único ente a quem abriu sua alma.
- Em todo o caso é um caráter inverossímil.
- E o que há de mais inverossímil que a própria
verdade?- retorquiu Aurélia repetindo uma frase célebre.
Sei de uma moça... Se alguém escrevesse a sua história,
diriam como o se-nhor: "É impossível! Esta mulher
nunca existiu." Entretanto eu a co-nheci.
Mal pensava Aurélia que o autor de Diva teria mais tarde
a honra de receber indiretamente suas confidências e escrever
também o romance de sua vida, a que ela fazia alusão.
Nessa noite, entre as novidades do dia que deram tema à palestra,
houve uma que bastante afligiu Aurélia. Corria que Eduardo
Abreu estava dominado pela idéia do suicídio. Um de
seus camaradas que vinha com ele de Niterói, o impedira de
precipitar-se ao mar da borda da barca; outro o surpreendera com
um revólver no bolso.
No dia seguinte houve espetáculo no teatro lírico.
Aurélia escreveu a Adelaide Ribeiro um bilhete oferecendo-lhe
o seu camarote e prometendo-lhe sua companhia. As duas senhoras
não tinham relações íntimas; apenas
haviam trocado entre si as visitas de rigor depois do casamento.
Aurélia aproveitou o pretexto da ópera nova não
para estreitar essas relações cerimoniosas, mas ter
ocasião de falar com o Dr. Torquato Ribeiro.
Às oito horas, quando Aurélia entrou no camarote pelo
braço de Seixas, já encontrou Adelaide com o marido.
As duas moças lembrando-se que iam passar a noite face a
face, instintivamente sem propósito, por uma irresistível
emulação, haviam-se esmerado. Ambas estavam no esplendor-
de sua beleza. Mas curiosa antítese: Adelaide, a pobre, vinha
no maior apuro do luxo, com toda a garridice e requintes da moda.
Aurélia, a milionária, afetava extrema simplicidade.
Vestiu-se de pérolas e rendas; só tinha uma flor,
que era a sua graça.
Ao levantar-se o pano, a dona do camarote como de costume ocupou
o lado da cena, reservando o lugar de honra para sua convidada.
Os maridos revezaram-se, ficando Ribeiro perto de Aurélia,
e Seixas da parte de Adelaide.
Passada a primeira curiosidade que desperta sempre as decorações
e trajos de uma cena ainda não vista, Aurélia voltando-se
para atender à amiga que lhe falava, notou a posição
e atitude de Seixas.
Este recostara-se à divisão do camarote, e observava
a cena por cima do ombro de Adelaide; mas à moça pareceu
que a vista do marido não chegava à rampa, e refrangia-se
como uma réstia de sol diante do obstáculo que se
lhe antepunha à menor oscilação do talhe esbelto
da mulher de Ribeiro.
Se Adelaide inclinava-se à frente para trocar alguma observação,
bombeava graciosamente diante de Fernando as espáduas que
a luz do gás esbatendo-se em cheio jaspeava. Se a moça
apoiava-se indolentemente à coluna, era o seu lindo colo
vazado por decote de ninfa, que se oferecia aos olhos de Fernando.
Aurélia agitava o leque de madrepérola com um movimento
rápido e nervoso, que fazia crepitarem as aspas violentamente
batidas umas contra as outras. Duas ou três espedaçaram-se
entre os dedos crispados.
Às vezes dardejava um olhar imperioso ao marido para adverti-lo
de sua inconveniência. Outras examinava a fisio-no-mia de
Ribeiro, com o sentido de observar o efeito que nele produzia aquela
faceirice da mulher. Mas Seixas estava -com-pletamente absorvido
na cena, ou no que lhe ficava ao rumo da cena, e Ribeiro passava
revista de binóculo aos cama-rotes.
Quanto a Adelaide, toda a satisfação de brilhar, nem
reparava na impaciência da amiga, nem se apercebia que o excessivo
esvazamento de seu corpinho, com o requebro que imprimia ao talhe,
desnudava-lhe quase todo o busto aos olhos do homem a quem voltava
as costas. Sente a estátua o olhar que insinua-se entre os
véus transparentes? A mulher da moda tem a cútis da
estátua quando se veste para o baile.
Aurélia não pôde conter-se afinal.
- Troquemos de lugar, Fernando? A luz do gás está
incomodando-me a vista.
- Venha para aqui! disse Adelaide querendo ceder-lhe a cadeira.
- Não: ali estou melhor; fico na sombra.
No intervalo saíram a passear no salão. A lembrança
foi de Aurélia que desejava uma ocasião de dizer algumas
palavras em particular ao Torquato. Antes de sair, porém,
insistiu com Adelaide para que pusesse a capa.
- Pode-se resfriar. Está úmido.
- Ao contrário; faz um calor!
- Não facilite.
E cobriu-lhe os ombros com sua própria capa que agasalhava
mais.
Seixas ofereceu o braço a Adelaide, como era de rigor; Aurélia
seguindo ao braço de Ribeiro, e sem perdê-los de vista,
começou a conversar com seu cavalheiro.
- Ontem tive uma notícia que me afligiu; o Eduardo Abreu
tentou suicidar-se.
- Já me disseram.
- E parece que não abandonou a idéia. Quero salvá-lo
dessa loucura: é um dever para mim, e um tributo que pago
à memória de minha mãe. Posso contar com o
senhor?
- Permita que não responda a esta pergunta. Diga-me o que
devo fazer.
- Obrigada. Basta que o traga à minha casa, e faça
que a freqüente. Ele foi rico; perdeu a riqueza, e com ela
os amigos, a consideração, tudo que lhe tornava doce
a existência. Nada mais natural do que olhar para o mundo
como um inimigo a quem deve fugir. Se porém no meio desse
deserto moral em que se acha surgisse uma idéia, uma vontade,
um sentimento conso-lador, esse elo o prenderia de novo à
existência.
- Mas não tem receio? observou Ribeiro hesitando.
- Pensa que ainda não esteja de todo extinta a sua paixão?
É justamente com o que eu conto.
- E seu marido?
- É meu marido, respondeu a moça erguendo a cabeça
com serena altivez.
Ribeiro compreendeu a palavra e o gesto. Em verdade, o homem que
tinha a suprema ventura de ser o esposo querido dessa mulher, podia
suspeitá-la?
- Suponha-se em seu lugar, o senhor que sabe uma parte de minha
história. Depois do que lhe dei, a ele, julgar-se-ia com
direito a esse triste sacrifício da vida de um infeliz?
- Não, certamente.
Nesse instante, Aurélia que distraíra-se com a conversa,
viu Adelaide já sem a capa, e suspensa ou antes enlaçada
ao braço de seu marido com um abandono que ela, sua mulher,
não se animaria a mostrar em público.
Aurélia por um impulso que não pôde conter,
apesar do império que se habituara a conservar sobre si,
deixou o braço de Ribeiro para lançar-se ao encontro
do outro par e separou os dois, insinuando-se entre eles. Aí
recobrou-se, ao perceber a surpresa que se pintava no semblante
dos outros, buscou disfarçar, afetando uma risada e trançando
no seu o braço da mulher de Ribeiro.
- Escute, quero dizer-lhe um segredo, D. Adelaide!
Afastou-se levando a amiga. O segredo foi um remoque a propósito
de certa loureira que passava; e depois uma indireta ao desgarro
de certas senhoras, que timbram em imitar aquelas a quem mais desprezam.
- Dê-me a minha capa! disse Aurélia com rispidez a
Seixas.
Antes que este pudesse satisfazê-la, tirou-lhe da mão
a caxemira que Adelaide tinha dado a guardar, embrulhou-se nela,
e tomou o braço do marido.
- Vamos?
Seixas admirado deixou-se conduzir, supondo que tornavam ao camarote.
Ao chegarem defronte da escada, Aurélia esperou para despedir-se
de Adelaide.
- Já se retira? perguntou a amiga cada vez mais surpresa.
- Prometi a minha madrinha, D. Margarida Ferreira, ir vê-la
esta noite. Passei por aqui somente para gozar da sua com-panhia.
Aurélia tivera esta lembrança, no caminho do salão
para o camarote; era uma excelente explicação de seu
descaso de tomar à amiga o braço do marido, e o melhor
pretexto para cortar de vez o desagradável incidente.
Seixas acompanhou a mulher, sem a mínima observação.
Entraram no carro; o cocheiro que não recebeu ordem algu-ma,
dirigiu-se a Laranjeiras. D. Margarida Ferreira morava em An-daraí.
- Não vai à casa de sua madrinha?
A resposta foi breve e seca:
- Não; já é tarde.
Aurélia revoltava-se contra si mesma, por causa daquele momento
de fragilidade. Como é que ela depois de haver arrebatado
à sua rival o homem a quem amava, e de haver desdenhado esse
triunfo, por indigno de sua alma nobre, dava a essa rival o prazer
de recear-se de suas seduções?
Descontente, contrariada, cogitava uma vindita desse eclipse de
seu orgulho.
- O que é o ciúme? disse de repente sem olhar o marido,
e com um tom incisivo.
Seixas compreendeu que aí vinha a refrega e preparou-se,
chamando a si toda a calculada resignação de que se
costumava revestir.
- Exige uma definição fisiológica, ou a pergunta
é apenas mote para conversa?
- Acredita na fisiologia do coração? Não lhe
parece um disparate, esta ciência pretensiosa que se mete
a explicar e definir o incompreensível, aquilo que não
entende o próprio que o sente, e que sente-se, sem ter muitas
vezes a consciência desse fenômeno moral? Só
há um fisiologista, mas esse não define, julga. É
Deus, que formando sua criatura do limo da terra, como ensina a
Escritura, deixou-lhe ao lado esquerdo, por amassar, uma porção
de caos de que a tirou. Quanto ao ciúme, todos nós
sabemos mais ou menos a significação da palavra. O
que eu desejava era saber sua opinião sobre este ponto: se
o ciúme é produzido pelo amor?
- Assim pensam geralmente.
- E o senhor?
- Como nunca o senti, não posso ter opinião minha.
- Pois tenho-a eu, e por experiência. O ciúme não
nasce do amor, e sim do orgulho. O que dói neste sentimento,
creia-me, não é a privação do prazer
que outrem goza, quando também nós podemos gozá-lo
e mais. É unicamente o desgosto de ver o rival possuir um
bem que nos pertence ou cobiçamos, ao qual nos julgamos com
direito exclusivo, e em que não admitimos partilha. Há
mais ardente ciúme do que o do avaro por seu ouro, do ministro
por sua pasta, do ambicioso por sua glória? Pode-se ter ciúme
de um amigo, como de um traste de estimação, ou de
um animal favorito. Eu quando era criança tinha-o de minhas
bonecas.
Aurélia calou-se à espera da réplica; prolongando-se
a pausa continuou:
- Um exemplo. Há pouco, no teatro, quando vi o modo por que
a Adelaide Ribeiro lhe dava o braço, tive ciúmes do
senhor. Entretanto eu não o amo, bem sabe, e não o
posso amar!
- Esta prova é decisiva. E a senhora não acredita
na fisiologia? Quer melhor definição? O ciúme
é o zelo do senhor pela cousa que lhe pertence.
- Ou pessoa! acrescentou Aurélia com maldade.
- Pela cousa que lhe pertence, insistiu Seixas; seja essa animada
ou inanimada.
- Temos ainda outra prova em favor de minha opinião. O senhor
que amou tanto e tantas vezes, nunca teve ciúmes; há
pouco me confessou.
- E como o ciúme é o sintoma do orgulho, ou em outros
termos, da dignidade, a conseqüência...
- É lógica; mas eu a dispenso. Preferia que o senhor
me recitasse alguma de suas poesias. Por exemplo - O Capricho.
Capítulo
III
As partidas
de Aurélia, ou recepções, como as chamava o
Alfredo Moreira, à parisiense, eram das mais brilhantes que
então se davam na Corte.
Sem galopes infernais e as extravagantes figuras que fazem das quadrilhas
e valsas um perfeito corrupio de idos ou um remoinho de gente tocada
da tarântula, reinava ali sempre uma animação
de bom gosto que excitava o prazer e derramava a alegria sem amarrotar
as moças, nem espremer as damas entre os cavalheiros.
Aurélia descobrira um meio engenhoso de obter este resultado.
Quando os rapazes que deviam dar o tom à reunião,
se retraíam com fingidas esquivanças, e não
se apressavam em tirar pares e trazê-los ao meio da sala,
a dona da casa anunciava a quadrilha dos casados.
Essa quadrilha, como o nome indica, era dançada unicamente
pelos maridos com suas mulheres. Ninguém escapava; não
se admitia insenção alguma, nem de idade, nem de moléstia.
Aurélia era inflexível, e não havia resistir
à sua doce tirania. Se ela tinha desses caprichos despóticos
e impertinentes, possuía em compensação um
tacto superior para cativar a todos com sua fina e graciosa amabilidade.
O disparate das idades e a obrigação do galanteio
entre as duas caras-metades, às vezes tão desencontradas,
servia de diver-timento geral, até aos próprios velhos
reumáticos. As matronas gostavam interiormente desta fantasia
que as remoçava, embora deitassem sua cafanga, como exigia
a decência.
O mais apreciado porém era a pirraça feita aos rapazes,
que além de ficarem de fora e perderem os lindos pares escolhidos
entre as senhoras casadas, sofriam de ricochete os amuos das meninas
solteiras, aborrecidas por não dançarem e obrigadas
a fazer o papel de tias, ocupando o lugar das mães que tinham
tomado os seus.
Disso resultava que os rapazes com receio da tal quadrilha jarreta,
desenvolviam uma atividade exemplar à primeira arcada da
rabeca, e entretinham constante animação na sala,
sem que Aurélia se incomodasse em rogar a esses meus senhores
o especial obséquio de dançar.
A Lísia Soares dizia que essa invenção não
passava de um disfarce de Aurélia para dançar com
o marido, de quem andava cada vez mais namorada; a tal ponto que
dava-se a esses des-frutes.
Aparecera nessas partidas Eduardo Abreu, a quem os camaradas desde
muito não viam na sociedade. Aurélia acolheu-o com
afetuosa distinção, e reservava-lhe sempre uma de
suas quadrilhas tão disputadas pelos inúmeros admiradores.
Acabava de dançar com ele, e passeava pelo salão ao
seu braço. O Alfredo Moreira, com esse espírito de
restilo que fornece a vida leviana aos leões de sala, vendo-os
passar, disse para um companheiro:
- Retrospecto sentimental!
- Não entendo a charada, tornou-lhe o outro.
- Não sabes que o Abreu teve uma paixão estrepitosa
pela Aurélia, e fez as maiores loucuras para casar-se com
ela?
- Já percebo.
- Ela recusou o casamento porque amava o Seixas; mas agora que está
casada com este, é muito capaz de transportar o amor para
o jovem lírio abandonado.
- O jeito é disso!
Este trecho de diálogo travou-se na alameda artificial, que
em noites de reunião, se dispunha ao longo da sala de jantar
com palmeiras, acácias e magnólias plantadas em vasos
de louça e caixas de madeira.
Fernando que se havia refugiado um instante naquele recanto, e fumava
sentado em um sofá rústico à sombra de um plátano,
ouviu a maledicência dos dous leões. Buscando com os
olhos o alvo do remoque, viu sua mulher que falava ao cavalheiro
com uma insistência meiga e sedutora, que lembrou-lhe a época
de seus primeiros amores.
- Ama-o! murmurou.
Depois não viu mais nada, o par desaparecera da sala, e ele
submergira-se em sua alma. Só deu acordo de si, quando a
voz da mulher despertou-o surpreso.
- Há que tempo o procuro! disse Aurélia sentando-se
a seu lado, e olhando-o inquieta. Está incomodado?
- Não, senhora: tive há pouco o prazer de vê-la
dançar com o Abreu.
Aurélia lançou um olhar rápido e penetrante
ao marido.
- É verdade; dancei com ele; é um de meus pares habi-tuais,
tornou com volubilidade. E o senhor, por que não dançou-
-também?
- Porque a senhora não me ordenou.
- É esta a razão? Pois vou dar-lhe um par... Quer
oferecer-me seu braço? replicou Aurélia sorrindo.
- Seria ridículo oferecer-lhe o que lhe pertence. A senhora
manda, e é obedecida.
Aurélia tomou o braço do marido, e afastou-se lentamente
ao longo da alameda.
- Por que me chama senhóra? perguntou ela fazendo soar o
ó com a voz cheia.
- Defeito de pronúncia!
- Mas às outras diz senhôra. Tenho notado; ainda esta
noite.
- Essa é, creio eu, a verdadeira pronúncia da palavra;
mas nós, os brasileiros, para distinguir da fórmula
cortês, a relação de império e domínio,
usamos da variante que soa mais forte, e com certa vibração
metálica. O súdito diz à soberana, como o servo
à sua dona senhóra. Eu talvez não reflita e
confunda.
- Quer isso dizer que o senhor considera-se meu escravo? perguntou
Aurélia fitando Seixas.
- Creio que lho declarei positivamente, desde o primeiro dia, ou
antes desde a noite de que data a nossa comum existência,
e minha presença aqui, a minha permanência em sua casa
sob outra condição, fora acrescentar à primeira
humilhação uma indignidade sem nome.
Aurélia replicou dando à sua voz inflexão triste
e repassada de sentimento.
- Já não é tempo de cessar entre nós
estas represálias, que não passam de truques de palavras?
Temos para separar-nos eternamente motivos tão graves, que
não carecemos de estar a beliscar-nos a todo o momento com
semelhantes puerilidades. Eu dei o meu exemplo; devo ser a primeira
a fazer ato de contrição. O senhor é meu marido,
e somente meu marido.
- O que lhe disse não é uma banalidade, mas uma convicção
profunda, uma cousa séria, a mais séria de minha vida;
breve há de reconhecê-lo. Não empreguei a palavra
escravo no sentido da domesticidade; seria soberbamente ridículo.
Mas a senhora deve saber que o casamento começou por ser
a compra da mulher pelo homem; e ainda neste século se usava
em Inglaterra, como símbolo o divórcio, levar a repudiada
ao mercado e vendê-la ao martelo. Também não
ignora que no Oriente há escravas que vivem em suntuosos
palácios, tratadas como rainhas.
- As sultanas?
- Ora esse poder ou esse luxo que o homem se arrogou, por que não
o terá a mulher deste século e desta sociedade, desde
que lhe cresce nas mãos o ouro que é afinal o grande
legislador, como o sumo pontífice?
A palavra de Seixas era acre, e queimava os lábios.
- Sou seu marido!... É verdade; como Scheherazade era mulher
do sultão.
- Menos o lenço! acudiu Aurélia com um remoque.
Mas a ironia não pôde abafar a sublevação
irresistível do pudor, que cerrou-lhe as pálpebras
e cobriu-lhe as faces e o colo de vivos rubores.
- Poupemos aos nossos mútuos sarcasmos a augusta santidade
do amor conjugal, disse ela comovida. Deus não nos concedeu
essa inefável alegria, a fonte pura de quanto há de
nobre e grande para o coração. Ficamos... Eu pelo
menos... órfãos e deserdados dessa bênção
celeste; mas nem por isso podemos recusar-lhe a nossa veneração.
Mal acabava de proferir estas palavras sentidas e vindas do íntimo,
que a moça arrependida de haver cedido à emoção,
desfolhou dos lábios um riso argentino, e afetou o seu costumado
tom de volubilidade:
- Quer saber minha opinião? Isto que o senhor chama escravidão,
não passa da violência que o forte exerce sobre o fraco;
e nesse ponto todos somos mais ou menos escravos, da lei, da opinião,
das conveniências, dos prejuízos; uns de sua pobreza,
e outros de sua riqueza. Escravos verdadeiros, só conheço
um tirano que os faz, é o amor, e este não foi a mim
que o ca-tivou.
Achavam-se nesse instante na sala, em face da cadeira ocupada por
Adelaide Ribeiro.
- D. Adelaide, faz-me um favor. Guarde-me este fugitivo, e tenha-o
cativo, ao menos durante esta contradança.
- É um depósito? perguntou Adelaide maliciosamente.
Aceito; mas sem responsabilidade.
- Não há risco.
Enquanto a mulher de Ribeiro consertava os fofos e a cauda de seu
elegante vestido para tomar o braço do par que a dona da
casa lhe oferecera com tanta amabilidade, Aurélia estreitando-se
ao flanco do marido disse-lhe ao ouvido e com expressão estas
palavras.
- Restituo-lhe sua liberdade. Já o disse uma vez; agora o
realizei.
- E eu rejeitei então como agora, respondeu-lhe o marido
no mesmo tom.
- Por quê? perguntou a moça com viva interrogação
na voz e no olhar.
- Não é porque desejo tolher a sua. Esteja descansada.
- Decerto! disse Aurélia com desdenhosa inflexão da-
-fronte.
- A razão é outra.
- Quero saber.
- Espero em Deus, que a saberá um dia.
Tinham-se afastado alguns passos para não serem ouvidos.
Aurélia fitara os olhos no marido, excitada pelo tom das
últimas palavras; e preparava-se talvez a exigir a explicação,
quando ouviu o frolo do vestido de Adelaide que se aproximava.
Soltou o braço do marido e afastou-se.
A música dava o sinal da quadrilha. Passou o Alfredo Mo-reira,
que vinha borboleteando pela sala, como um sátiro que adeja
na silva à cata de uma flor. Fernando adivinhou que essa
flor era um par, e encartou-lhe a Adelaide Ribeiro em risco de infringir
o código dos salões, faltando às regras da
polidez.
- Não tem par, Moreira? Aqui está D. Adelaide, que
sem dúvida estimará a troca, pois lhe dá por
cavalheiro, em vez de um aposentado, o príncipe da elegância
fluminense.
Sem esperar resposta, deixou a moça ao leão que expandia-se
como uma tulipa, esticando as guias do bigode encerado. Seixas contava
com a sua posição de dono da casa, empenhado em fazer
dançar seus convidados para desculpar a estratégia,
com que se dispensara da quadrilha.
Frustrou assim o capricho de Aurélia, o qual o incomodara?
Por quê? Não poderia bem apurar a razão no encontro
das impressões do momento. Desejo de convencer a mulher de
sua indiferença para Adelaide; repugnância de prestar-se
a esse ludíbrio; necessidade de manter a gravidade duma situação
que se complicava; tudo isto passou-lhe pelo espírito.
Corria a reunião sempre animada. Tinham chegado mais convidados;
e a partida transformara-se em baile, como muitas vezes acontecia.
A frauta soltou o cintilante prelúdio de uma valsa de Strauss.
Os valsistas afamados deixaram-se ficar de parte, sem dúvida
para se fazerem desejar. Os caloiros e a gente de encher hesitavam
em tomar a dianteira; algum mais afouto achou-se em branco; não
encontrou par.
De repente correu pela sala este rumor, a valsa dos casados, e logo
após ouviu-se a risada cristalina de Aurélia, esse
trilo fresco, límpido, que às vezes escapava-lhe dos
lábios, como se os seus dentes de pérolas se lhe desfiassem
entre os rubins a roçar uns nos outros.
A formosa mulher atravessava a sala pelo braço do velho general
Barão do T. que para não desmentir o seu garbo mar-cial,
fazia naquele momento prova de um heroísmo superior ao que
mostrara na última guerra do Paraguai, onde havia sido um
meio Bayard, sans peur, mas não sans reproche.
O ilustre guerreiro, que nunca voltara o rosto ao canhão,
fosse ele Krupp, admitia contudo a possibilidade de curvar-se alguma
vez para que a bala não lhe cortasse a pluma do chapéu
ou a metralha não lhe queimasse a barba resplandecente como
uma nuvem iluminada pelo sol. Mas curvar o peito arcado e altaneiro,
bambear a perna firme, rija e direita, quando levava ao braço
a mais bela mulher do mundo, era uma cobardia, ainda mais, uma indignidade
que ele não podia cometer.
A Lísia Soares acusou Aurélia da lembrança
da tal valsa dos casados. Esta defendeu-se:
- A idéia é do general, que está morto por
dançar uma valsa com a baronesa. Recordações
da mocidade!
O famoso guerreiro não recuou; porém jamais carga
de cavalaria contra um quadrado ou uma trincheira, debaixo do fogo
cruzado de uma bateria de canhões, custou-lhe como aquela
valsa que ele dançou decidido a morrer como um bravo.
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