SENHORA
José de Alencar
QUARTA PARTE
Resgate
Capítulo
I
Havia baile
em São Clemente.
Aurélia ali estava como sempre, deslumbrante de formosura,
de espírito e de luxo. Seu trajo era um primor de elegância;
suas jóias valiam um tesouro, mas ninguém apercebia-se
disso. O que se via e admirava era ela, sua beleza, que enchia a
sala, como um esplendor.
O baile em vez de fatigá-la, ao contrário a expandia.
Semelhante às flores tropicais, filhas do sol, que ostentam
o brilhante matiz nas horas mais ardentes do dia, era justamente
nesse pélago de luz e paixões, que Aurélia
revelava toda a opulência de sua beleza.
Seixas a contemplava de parte.
As outras moças, de meia-noite em diante, começavam
a fanar-se; o cansaço desbotava-lhes a cor, ou afogueava-lhes
o rosto. O talhe denunciava o excesso da fadiga na languidez das
inflexões ou na rispidez do gesto.
Aurélia ao contário, à medida que adiantava-se
a noite, desferia de si mais seduções, e parecia entrar
na plenitude de sua graça. A correção artística
de seu trajo ia desaparecendo no bulício do baile. Como o
primeiro esboço que surge afinal do cinzel impetuoso do artista,
ao fogo da inspiração, sua estátua recebia
da admiração da turba os últimos toques.
Quando em torno se revolvia o turbilhão, ela conservava sua
inalterável serenidade. O colo arfava-lhe mansamente, ao
in-fluxo das brandas emoções; o sorriso coalhava-se
em enle-vos- nos lábios entreabertos, por onde escapava-se
a respiração calma. Desprendia-se de seus olhos, de
toda sua pessoa, uma efusão celeste que era como a sua irradiação.
Quando completou-se esta assunção de sua beleza, o
baile estava a terminar.
Aurélia fez um gesto ao marido, e envolvendo-se na manta
de caxemira que ele apresentara-lhe, trançou o braço
no seu. No meio das adorações que a perseguiam, retirou-se
orgulhosamente reclinada ao peito desse homem tão invejado,
que ela arrastava após si como um troféu.
O carro estava à porta. Ela sentou-se rebatendo os amplos
folhos da saia para dar lugar ao marido.
- Que linda noite! exclamou recostando a cabeça nas almofadas
para engolfar os olhos no azul do céu marchetado de estrelas.
Com esse movimento sua espádua tocou no ombro de Seixas e
os cachos de cabelos castanhos, agitados pelo movimento do carro,
afagaram a face do mancebo desprendendo perfumes de inebriar. De
momento a momento, a claridade do gás entrava pela portinhola
do carro, em frente ao lampião, e debuxava o mavioso semblante
de Aurélia e seu colo, que a manta escorregando, tinha descoberto.
Na posição em que estava, olhando por cima da espádua
da moça, ele via na sombra transparente, quando o decote
do vestido sublevava-se com o movimento da respiração,
as linhas harmoniosas desse colo soberbo que apojavam-se em contornos
voluptuosos.
- Como brilha aquela estrela! disse a moça.
- Qual? perguntou Seixas inclinando-se para olhar.
- Ali por cima do muro, não vê?
Seixas só via a ela. Acenou com a cabeça que não.
Aurélia distraidamente travou da mão do marido, e
apontou-lhe a direção da estrela.
- É verdade! respondeu Fernando que vira uma estrela qualquer.
Retirando a mão Aurélia descansou-a no joelho, não
advertindo sem dúvida que ainda tinha presa a do marido.
- Não sei que tem o luzir das estrelas!... murmurou a moça.
É uma cousa que notei desde menina. Sempre que fico assim
a olhar para elas e a beber os seus raios sinto uma vertigem, que
me dá sono. Quem sabe se a luz que elas cintilam, não
embriaga? Parece-me que bebi um cálice de champanha, mas
feito do sumo daqueles cachos dourados que lá estão
no céu.
Estas palavras, o olhar de Aurélia dirigiu-as ao marido envoltas
em um sorriso feiticeiro.
- Então foi de ambrosia, que é a bebida dos deuses,
tornou Fernando correspondendo ao gracejo.
- Mas, fora de graça? Que sono me fez! Será cansaço?
- Talvez! Dançou tanto!
- Pois reparou?
- Que queria que eu fizesse?
Aurélia esperou um momento para não interromper o
marido; vendo que este calava-se, conchegou-se com o gracioso movimento
dos passarinhos quando se arrufam para dormir.
- Não posso mais! Estou tonta!
Derreou-se então pelas almofadas; a pouco e pouco, descaindo-lhe
ao balanço do carro o corpo lânguido de sono, sua cabeça
foi repousar no braço do marido; e seu hálito perfumado
banhava as faces de Seixas, que sentia a doce impressão daquele
talhe sedutor. Era como se respirasse e haurisse a sua beleza.
Fernando não sabia que fizesse. Às vezes queria esquecer
tudo, para só lembrar-se que era marido dessa mulher e que
a tinha nos braços.
Mas quando queria ousar, um frio mortal trespassava-lhe o coração,
e ele ficava inerte, e tinha medo de si.
Todavia, ninguém sabe o que aconteceria se o carro não
parasse tão depressa à porta da casa; Aurélia
sobressaltou-se; caindo em si, retraiu-se para deixar que Seixas
saltasse e lhe oferecesse a mão.
- Nunca me senti tão fatigada! Creio que estou doente, disse
ela descendo do carro.
- Não devia ter ficado até tão tarde! observou
Fernando com solicitude.
- Dê-me seu braço! murmurou a moça com um gesto
abatido.
Seixas começou a inquietar-se, ainda mais quando a viu suspensa
a seu braço, arrastar-se para a escada.
- Está realmente incomodada?
- Estou doente, muito doente! respondeu com a voz alquebrada.
Nos olhos porém e nas covinhas da boca, cintilou um raio
de malícia que desmentia aquelas palavras.
Seixas retribuiu o gracejo.
- É uma enfermidade muito grave, não é? Que
ataca-lhe todas as noites e a deixa sem sentidos por muitas horas?
Chama-se sono.
- Não sei, nunca a tive, volveu a moça abaixando as
pálpebras e velando os lindos olhos.
Chegados à saleta, onde costumavam despedir-se, Aurélia
dirigiu-se para o toucador. Na porta, Fernando parou.
- Leve-me que eu não posso comigo, disse Aurélia atraindo-o
a si brandamente.
O marido levou-a ao divã onde ela deixou-se cair prostrada
de fadiga ou de sono. Não tendo soltado logo o braço
de Seixas, este reclinou-se para acompanhar-lhe o movimento, e achou-se
debruçado para ela.
Aurélia conchegou as roupas fazendo lugar à beira
do divã, e acenando com a mão ao marido que se sentasse.
Entretanto com a cabeça atirada sobre o recosto de veludo,
o colo nu de-buxava sobre o fundo azul um primor de estatuária
cinzelado no mais fino mármore de Paros.
Seixas desviou os olhos como se visse diante de si um abismo. Sentia
a fascinação, e reconhecia que faltavam-lhe as forças
para escapar à vertigem.
- Até amanhã? disse ele hesitando.
- Veja se não tenho febre!
Aurélia procurou a mão do marido e encostou-a na testa.
Debruçando-se para ela com esse movimento, Seixas roçara
com o braço o contorno de um seio palpitante. A moça
estremeceu como se a percutisse uma vibração íntima,
e apertou com uma crispação nervosa a mão do
marido que ela conservara na sua.
- Aurélia, balbuciou Fernando que a pouco e pouco resvalara
do divã, e estava de joelhos, buscando os olhos da -mulher.
Ela ergueu de leve a cabeça, para vazar no semblante do marido
a luz dos olhos, e sorriu. Que sorriso! Uma voragem, onde submergiam-se
a razão, a dignidade, a virtude, todas essas arrogâncias
do homem.
Seixas ia precipitar-se; mas os olhos de Aurélia o queimavam;
escapava daquelas pupilas cintilantes um fogo intenso que penetrava-lhe
n'alma como lava em ebulição. Ele voltou o rosto para
o lado da porta, como receoso de que estivesse aberta.
Aurélia cerrara as pálpebras e atirara de novo a cabeça
sobre a almofada, com esse delicioso abandono, em que o corpo remite-se
depois de um excessivo exercício. Fernando na mesma posição
contemplava a formosa mulher, que ele tinha ali, palpitante sob
o seu olhar e ao contato do peito onde fervilhavam os frocos de
renda do talhe do vestido, aflando ao vivo ofego da respiração.
E todavia não ousava. Nunca, nos tempos em que ele fazia
o contrabando do amor, mulher alguma, por mais defesa que fosse
a seu desejo, inspirou-lhe o respeito, ou antes o susto, que o tolhia
naquele momento junto de sua esposa.
A moça levantou o braço com um gesto de enfado e deixou-o
sobre o recosto do divã, donde foi deslizando fracamente
para o ombro de Seixas. À doce pressão dessa cadeia
que o cingia, ele vergou a cabeça e chegou a embeber a flor
dos lábios nas tranças de cabelos que borbulhavam
em anéis pelas espáduas e refluíam pela face
de Aurélia.
Mas a moça voltara a cabeça escondendo o rosto no
acolchoado de veludo, com um gesto rápido, ao passo que retraía
a mão para velar a face. Bastou este movimento que não
passava talvez de frágil resistência da castidade,
para reprimir o impulso de Seixas.
Depois de um instante de perplexidade ia levantar-se, quando Aurélia
surgiu arrebatadamente do torpor e languidez que a prostravam, e
sentando-se no divã, obrigou o marido a ajoelhar-se de novo
a seus pés. Apoiando-lhe então a mão na fronte,
vergou-lhe a cabeça, e cravou-lhe no semblante um olhar longo,
penetrante, que parecia submergir-se na consciência daquele
homem, e sondar-lhe os arcanos.
- Não me engana? Ama-me enfim? perguntou ela com meiguice.
- Ainda não acredita?
- Venceu então o impossível?
- Fui vencido por ele.
- Essa felicidade não a tenho eu!... exclamou a moça
erguendo-se do divã, e caminhando pela sala com o passo frouxo
e a cabeça baixa.
Fernando que a seguia com o olhar surpreso, viu-a aproximar-se de
um quadro colocado sobre um estrado e contra a parede fronteira.
A cortina azul do dossel correu; à luz do gás que
batia em cheio desse lado, destacou-se do fundo do painel o retrato
em vulto inteiro de um elegante cavalheiro.
Era o seu retrato; mas do mancebo que fora dous anos antes, com
o toque de surpema elegância que ele ainda conservava, e com
o sorriso inefável que se apagara sob a expressão
grave e melancólica do marido de Aurélia.
- O homem que eu amei, e que amo, é este, disse Aurélia
apontando para o retrato. O senhor tem suas feições;
a mesma elegância, a mesma nobreza de porte. Mas o que não
tem é sua alma, que eu guardo aqui em meu seio e que sinto
palpitar dentro de mim, e possuir-me, quando ele me olha.
Aurélia fitou o retrato com delícia. Arrebatada pela
veemência do afeto que intumescia-lhe o seio, pousou nos lábios
frios e mortos da imagem um beijo férvido, pujante, impetuoso;
um desses beijos exuberantes que são verdadeiras explosões
da alma irrupta pelo fogo de uma paixão subterrânea,
longamente recalcada.
Seixas estava atônito. Sentindo-se ludíbrio dessa mulher,
que o subjugava a seu pesar, escutava-lhe as palavras, observava-lhe
os movimentos e não a compreendia. Chamava a si a razão,
e esta fugia-lhe, deixando-o extático.
Aurélia acabava de voltar-se para ele, soberba de volúpia,
fremente de amor, com os olhos em chamas, os lábios túrgidos,
e o seio pulando aos ímpetos da paixão:
- Por que meu coração que vibra assim diante desta
imagem, fica frio junto a si? Por que seu olhar não penetra
nele, como o raio desta pupila imóvel? Por que o toque de
sua mão não comunica à minha esta chama que
me embriaga como um -néctar?
Aurélia parou de repente. Uma onda de rubor banhou-lhe o
rosto mimoso. Atalhada no ímpeto da paixão por um
assomo de pudor, ela confrangeu-se como a flor da noite ao raiar
da luz. Suspendeu a capa de caxemira que lhe tinha resvalado dos
ombros para a cintura, e envolvendo-lhe com o estremecimento de
um calafrio, encolheu-se no canto do divã.
Seixas aproximou-se, fazendo-lhe a cortesia do costume; com a voz
já tranqüila, e o modo natural disse:
- Boa noite.
A moça entreabriu a caxemira quanto bastava para tirar os
dedos afilados da mão direita, que estendeu ao marido.
- Já? perguntou ela erguendo os olhos entre súplices
e despóticos.
O marido estremeceu ao toque sutil dos dedos, que calcavam-lhe docemente
a palma da mão:
- Ordena que fique? disse com a voz trêmula.
- Não. Para quê?
O que exprimia essa frase, repassada do sorriso que lhe servia por
assim dizer de matiz, ninguém o imagina.
Seixas retirou-se levando n'alma a mais cruel humilhação
que podia infligir-lhe o desprezo dessa mulher.
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