SENHORA
José de Alencar
Capítulo IV
Fernando dirigiu-se
a seu aposento com tanta precipitação, que esqueceu-lhe
o objeto fechado em sua mão; só deu por ele no toucador,
ao cair-lhe no chão.
Abriu então o papel. Havia dentro uma chave; e presa à
argola uma tira de papel com as seguintes palavras escritas por
Aurélia: chave de seu quarto de dormir.
Ao ler estas palavras Seixas tornou-se lívido; e lançou
um olhar esvairado para o reposteiro da câmara, e em que ele
que entrara na véspera palpitante de amor e que não
poderia nunca mais penetrar, senão ébrio de vergonha
e marcado com o ferrete da infâmia.
Com o movimento que fez descobriu uma modificação
que sofrera o aposento. Fora arredado o guarda-roupa, que ocultava
uma porta agora patente, e apenas coberta por uma cortina também
de seda azul.
A chave servia nessa porta que dava para uma alcova elegante, mobiliada
com uma cama estreita de érable e outros acessórios.
Era o mais casquilho dormitório de rapaz solteiro que se
podia imaginar.
Seixas adivinhou pela onda de fragrância derramada no aposento,
que Aurélia ali estivera pouco antes. Talvez saíra
ao ouvir o rumor da chave na fechadura.
- Meu Deus! exclamou o mancebo comprimindo o crânio entre
as palmas das mãos. Que me quer esta mulher? Não me
acha ainda bastante humilhado e abatido? Está se saciando
de vingança! Oh! ela tem o instinto da perversidade. Sabe
que a ofensa grosseira ou caleja a alma, se é infame, ou
a indigna se ainda resta algum brio. Mas esse insulto cortês
cheio de atenção e delicadezas, que são outros
tantos escárnios; essa ostentação de generosidade
com que a todo o momento se está cevando o mais soberano
desprezo; flagelação cruel infligida no meio dos sorrisos
e com distinção que o mundo inveja; como este, é
que não há outro suplício para a alma que se
não perdeu de todo. Por que não sou eu o que ela pensa,
um mísero abandonado da honra, e dos nobres estímulos
do homem de bem? Acharia então com quem lutar!
Seixas vergou a cabeça ao peso dessa reflexão.
- A força da resignação, essa porém
hei de tê-la. Não me abandonará, por mais cruel
que seja a provação.
Os dias seguintes, essa fase nascente da lua-de-mel, passaram como
o primeiro. Entraram então os noivos na outra fase, em que
o enlevo de se possuírem já permite, sobretudo ao
homem, tornar às ocupações habituais.
No quinto dia Seixas apresentou-se na repartição,
onde foi muito festejado por suas prosperidades. Tomaram os companheiros
aquele pronto comparecimento por mera visita. Se quando pobre, sua
freqüência somente se fazia sentir no livro do ponto,
agora que estava rico ou quase milionário, com certeza deixaria
o emprego ou quando muito o conservaria honorariamente, como certos
enxertos das secretarias.
Grande foi pois a surpresa que produziu a assiduidade de Seixas
na repartição. Entrava pontualmente às 9 horas
da manhã e saía às 3 da tarde; todo esse tempo
dedicava-o ao trabalho: apesar das contínuas tentações
dos companheiros, não consumia como costumava outrora a maior
parte dele na palestra e no fumatório.
- Olha, Seixas, que isto é meio de vida e não de morte!
dizia-lhe um camarada repetindo pela vigésima vez esta banalidade.
- Vivi muitos anos à custa do Estado, meu amigo; é
justo que também ele viva um tanto à minha custa.
Outra mudança notava-se em Seixas. Era a gravidade que sem
desvanecer a afabilidade de suas maneiras sempre distintas, imprimia-lhes
mais nobreza e elevação. Ainda seus lábios
se ornavam de um sorriso freqüente; mas esse trazia o reflexo
da meditação e não era como dantes um sestro
de galanteria.
O casamento é geralmente considerado como a iniciação
do mancebo na realidade da vida. Ele prepara a família, a
maior e mais séria de todas as responsabilidades. Atualmente
esse ato solene tem perdido muito de sua importância; indivíduo
há que se casa com a mesma consciência e serenidade,
com que o viajante aposenta-se em uma hospedaria.
Por isso estranhavam os colegas de Seixas aqueles modos tão
diversos dos que tinha antes, em solteiro; e não concebendo
que o casamento mudasse repentinamente a natureza do homem, atri-buíam
a transformação à riqueza; e à modéstia
chamaram impos-tura.
Para chegar em tempo à repartição, tinha Seixas
de almoçar mais cedo e só, o que poupava-lhe, e também
a Aurélia, cerca de meia hora de suplício, que ambos
se infligiam um ao outro com sua presença.
- Está muito assíduo agora à repartição!
disse um dia a moça ao marido. Pretende algum acesso?
Seixas deixou cair o remoque e respondeu francamente:
- É verdade, há uma vaga, e desejo obter a preferência.
- Que ordenado tem esse emprego?
- Quatro contos e oitocentos.
- E precisa disso?
- Preciso.
Aurélia soltou uma risada argentina, quanto má e venenosa.
- Pois então seja antes meu empregado; asseguro-lhe o acesso.
- Já sou seu marido, respondeu Seixas com uma calma heróica.
A moça continuou a gorjear o seu riso sarcástico;
mas voltou as costas ao marido e afastou-se.
Seixas ia a pé tomar em caminho a gôndola, cujo ponto
ficava distante da repartição. Uma vez a mulher o
interpelou acerca disso:
- Por que não serve-se do carro, quando sai?
- Prefiro o exercício a pé. É mais higiênico;
faz-me bem ao corpo e ao espírito.
- É pena que não tivesse feito seus estudos de higiene
quando solteiro.
- Não imagina quanto o lamento. Mas sempre é tempo
de aprender, e nestes poucos dias tenho aproveitado muito.
- A mim me parece que desaprendeu. Naquele tempo sabia que eu era
rica, muito rica; hoje tem-me na conta de uma mulher, cujo marido
anda de gôndola.
Fernando mordeu os beiços.
- A riqueza também tem sua decência. Casou-se com uma
milionária, é preciso sujeitar-se aos ônus da
posição. Os pobres pensam que só temos gozos
e delícias; e mal sabem a servidão que nos impõe
esta gleba dourada. Incomoda-lhe andar de carro? E a mim não
me tortura este luxo que me cerca? Há cilício de crina
que se compare a estes cíclicos de tule e seda que eu sou
obrigada a trazer sobre as carnes, e que me estão rebaixando-
a todo o instante, porque me lembra que aos olhos deste mundo, eu,
a minha pessoa, a minha alma, vale menos do que esses -trapos?
As últimas palavras pareciam escapar-se dos lábios
da moça rorejadas de lágrimas. Seixas esquecendo a
pungente alusão que sofrera pouco antes, fitou-a com olhos
compassivos; mas ela recobrara já o tom de agressiva ironia:
- Assim o mundo achará em mim a sua criatura; a mulher, que
festeja e enche de adorações. Eu serei para ele o
que ele me fez.
Esse mundo, Fernando compreendeu que era o pronome de sua infelicidade
e ambição. Restituído à realidade de
sua posição de que o ia arrancando súbita comoção,
disse:
- Pensa então que a decência de sua casa exige que
seu marido ande de carro?
- Penso que me casei com um cavalheiro distinto, que sabe usar de
sua fortuna, e não com um homem vulgar.
- Tem razão. Reclama o que lhe pertence, e eu seria um velhaco
se lhe recusasse o que adquiriu com tão bom direito.
A chegada de D. Firmina interrompeu este diálogo.
De volta da repartição, encontrava Seixas a mulher
na saleta; se ela estava só, cortejavam-se apenas, trocavam
algumas palavras a esmo, depois do que recolhiam-se cada um a seu
aposento e preparavam-se para o jantar. Se havia alguém com
Aurélia, Seixas passava-lhe a mão pela cintura e roçava
um beijo hirto por aquela face aveludada que se crispava ao seu
hálito frio. Depois do jantar vinha o passeio ao jardim.
Era nessa ocasião, quando escondidos pela folhagem, os supunham
na troca de ternuras, que Aurélia crivava o marido de epigramas
e motejos. De ordinário Seixas opunha a esse fogo rolante
uma paciente indiferença que acabava por fatigar a moça.
Alguma vez, porém, acontecia retribuir Seixas o sarcasmo,
o que irritava o ânimo já acerbo de Aurélia,
cuja palavra tornava-se então de uma causticidade implacável.
À noite havendo visitas passavam no salão; quando
estavam sós, ficavam na saleta; Seixas abria um livro; Aurélia
fingia escutar os trechos que o marido lia em voz alta. Outras noites
improvisava-se um jogo, em que tomava parte D. Firmina, e cuja fútil
monotonia matava as horas.
Tinham perto de um mês de casados; durante esse tempo, vendo-se
e falando-se todos os dias, não acontecera uma só
vez pronunciarem o nome um do outro. Usavam do verbo na terceira
pessoa; respeitavam entre si esse anônimo tácito, sublinhando
a palavra com o gesto.
Uma ocasião, estava a sala cheia de gente. Aurélia
dirigiu-se ao marido quando este de pé, a pequena distância,
conversava com várias pessoas. Não respondeu Seixas;
ela quis aproximar-se para chamar-lhe a atenção, mas
cercavam-no os amigos.
- Fernando! disse então, fazendo um supremo esforço.
Seixas voltou-se atônito; encontrou nos lábios da mulher
um sorriso que saturava de fel a doçura daquela voz.
- Chamou-me?
- Para acompanhar D. Margarida que se retira.
A mudança que se havia operado na pessoa de Seixas depois
de seu casamento, fez-se igualmente sentir em sua elegância.
Não mareou-se a fina distinção de suas maneiras
e o apuro do trajo; mas a faceirice que outrora cintilava nele,
essa desvanecera-se.
Sua roupa tinha o mesmo corte irrepreensível, mas já
não afetava os requintes da moda; a fazenda era superior,
porém de cores modestas. Já não se viam em
seu vestuário os vivos matizes e a artística combinação
de cores.
Aurélia notou não só essa alteração
que dava um tom varonil à elegância de Seixas, como
outra particularidade, que ainda mais excitou-lhe a observação.
Dos objetos que faziam parte do enxoval por ela oferecido, não
se lembrava de ter visto um só usado pelo marido.
Ao mesmo tempo a chocalhice dos escravos a advertiu de uma circunstância
ignorada por ela e que se prendia à outra.
Ordenava ela à mucama que distribuísse pelas outras
uns enfeites e vestidos já usados.
- Sinhá é muito esperdiçada! observou a mucama
com a liberdade que as escravas prediletas costumam tomar. Não
sabe poupar como senhor que traz tudo fechado, até o sabonete!
- Não tens que ver, nem tu nem as outras, com o que faz teu
senhor! atalhou Aurélia com severidade.
Bem ímpetos sentiu a moça de interrogar a mucama;
mas resistiu a esse desejo veemente para conservar o decoro de sua
posição e não abaixar-se até à
familiaridade com a cria-dagem.
Despediu a rapariga; mas resolveu verificar por si o que teria valido
a Seixas essa reputação de avaro, que lhe conferia
a opinião pública da cozinha e da cocheira.
Capítulo
V
No dia seguinte,
depois do almoço, lembrou-se Aurélia de sua resolução
da véspera.
Àquela hora o marido estava na repartição,
e já o criado devia ter acabado de fazer o serviço
dos quartos; por conseguinte podia sem despertar a atenção
realizar seu intento.
Deu volta à chave da porta que um mês antes fechara-se
entre ela e seu marido; abriu de leve o reposteiro de seda azul
para certificar-se de que ninguém havia no aposento; e trêmula,
agitada por uma comoção que lhe parecia infantil,
entrou naquela parte da casa, onde não tornara depois de
seu casamento.
Que horas encantadoras passara ela ali nos dias que precederam a
cerimônia, quando ocupava-se com o preparo e adereço
desses aposentos, destinados ao homem a quem ia unir-se para sempre,
embora para dele separar-se por um divórcio moral, que talvez
fosse eterno!
O sentimento que possuía Aurélia e a dominava naquele
tempo, ela própria não o poderia definir tão
singulares eram os afetos que se produziam em sua alma.
Ao passo que ela acariciava com um acerbo requinte a desafronta
de seu amor ludibriado, e prelibava o cáustico prazer da
humilhação desse homem, que a traficava, vinham momentos
em que alheava-se completamente dessa preocupação
da vingança, para entregar-se às fagueiras ilusões.
Tinha sede de amor; e como não o encontrava na realidade,
ia bebê-lo a longos haustos na taça de ouro, que lhe
apresentava a fantasia. Essas horas via-as com seu ideal; e eram
horas inebriantes e deliciosas.
Nelas foi que a jovem mulher se esmerou em ornar estas salas e gabinetes.
Sonhava que iam ser habitados pelo único homem a quem amara,
e que lhe retribuía com igual paixão. Queria que esse
ente querido achasse como que entranhada na elegância dos
aposentos, sua alma palpitante, que o envolvesse e encerrasse dentro
em si.
Ao rever o lugar e objetos, que tinham sido companheiros daquelas
cismas e ardentes emoções, Aurélia cedeu um
instante à mágica influência de recordos, os
quais se desdobravam como as névoas aljofradas, que empanam
a luz do sol e mitigam-lhe a calma.
Arrancando-se afinal a esse enlevo de um passado, que nem ao menos
era real, e só existira como uma doce quimera, a moça
percorreu então o aposento, e volveu um olhar perscrutador.
Notou o que aliás era bem visível. O toucador estava
completamente despido de todas as galanterias, de que ela o havia
adornado com sua própria mão. Parecia um móvel
chegado naquele instante da loja. Os guarda-roupas, cômodas,
secretárias, tudo fechado, e na mesma nudez, que denunciava
falta de uso.
- É por isso!... murmurou a moça consigo. O criado
não suspeita o motivo, e atribui à mesquinheza.
Uma das mais tocantes puerilidades de Aurélia, quando sonhava
o casamento com o homem amado, fora a igualdade das fechaduras de
todas as partes e móveis do uso especial de cada um. Duas
almas que se unem, pensava ela em sua terna abnegação,
não têm segredos e devem possuir-se uma à outra
completamente.
Quando reuniu em argolas de ouro, as duas séries de chaves
ao todo iguais, sorriu-se e imaginou que na noite do casamento,
quando seu marido se lhe ajoelhasse aos pés, ela o ergueria
em seus braços para dizer-lhe:
- Aqui estão as chaves de minha alma e de minha vida. Eu
te pertenço; fiz-te meu senhor; e só te peço
a felicidade de ser tua sempre!
Em que abismo de dor e vergonha se tinham submergido essas visões
maviosas, já o sabemos. Ninguém suspeitou jamais nem
ela revelou nunca, a voragem de desespero oculta sob aquele formoso
colo, que parecia arfar unicamente com as brandas emoções
do amor e do prazer.
Aurélia abriu com suas chaves os móveis; e confirmou-se
em uma conjetura. Tudo, jóias, perfumarias, utensílios
de toucador, roupa, tudo ali estava guardado em folha, como viera
da loja.
- Que significação tem isto? murmurou a moça
interrogando atentamente seu espírito. Parece desinteresse...
Mas não! Não pode ser. Em todo caso há um plano,
uma idéia fixa. Outro dia o carro; agora isto!...
Refletiu algum tempo mais, e concluiu:
- Não compreendo.
Aurélia tinha razão. Se com essa obstinação,
Seixas queria mostrar desapego à riqueza adquirida pelo casamento,
fazia um ridículo papel; pois o enxoval não era senão
um insignificante acessório do dote em troca do qual tinha
negociado sua liber-dade.
A porta do quarto de dormir estava fechada. Aurélia abriu-a
com a chave parelha que havia em sua argola.
Ali achou a escrivaninha, que servia de toucador provisório
a Seixas, e uns pentes e escovas de ínfimo preço.
- Agora entendo. Quer mortificar-me.
Depois do jantar, passeavam no jardim; Aurélia tendo colhido
uma rosa, afagava com as pétalas macias o cetim de suas faces,
mais puro que o matiz da flor.
- Hoje estive em seu toucador, disse ela com simulada indiferença.
- Ah! fez-me esta honra?
- Uma dona-de-casa, bem sabe, tem obrigação de ver
tudo.
- A obrigação e o direito.
- O direito aqui seria da mulher, e não só este como
outros mais.
- Eu os reconheço, disse Fernando.
- Ainda bem. Vejo que nos havemos de entender.
Este diálogo, quem o ouvisse de parte, não lhe descobriria
a menor expressão hostil ou agressiva. Os dois atores deste
drama singular já se tinham por tal forma habituado a vestir
sua ironia de afabilidade e galanteria, que vendavam completamente
a intenção.
Muitas vezes D. Firmina aproximava-se no meio de uma dessas escaramuças
de espírito e supunha ao ouvi-los que estavam arrulando finezas
e ternuras, quando eles se crivavam de alusões pungentes.
A moça hesitou um instante; mas fitando de chofre o olhar
no semblante do marido, perguntou-lhe:
- Que fez dos objetos que estavam no toucador?
Seixas conteve um assomo de nobre ressentimento e sorriu-se com
desdém:
- Não tenha susto; estão fechados nas gavetas, intactos
como os deixou. Pensava talvez que parassem em alguma casa de penhor?
- Estes objetos lhe pertencem, pode dispor deles como lhe aprouver,
sem dar contas disso a ninguém. Era a resposta que supunha
receber e eu não teria que replicar-lhe, pois reconheço
o seu direito e o respeito.
- Penhora-me com tamanha generosidade, disse Seixas sentindo o dardo
da alusão.
- Não se apresse em agradecer. Se respeito o seu direito
de dispor livremente do que é seu, também por minha
parte reclamo a garantia do que adquiri com o sacrifício
de minha felicidade. Casei-me com o Sr. Fernando Rodrigues de Seixas,
cavalheiro distinto, franco e liberal; e não com um avarento,
pois é este o conceito em que o têm os criados, e brevemente
toda a vizinhança, se não for a cidade inteira.
Seixas escutara com uma calma forçada estas palavras da mulher,
e replicou-lhe vivamente:
- Há dias, a propósito do carro, agitou-se entre nós
esta questão; volta agora o caso do toucador; e pode renovar-se
a cada momento. O melhor pois é liquidá-la de uma
vez.
- Liquidemos.
- Dê-me o braço, que ali vem D. Firmina.
Aurélia passou a mão pelo braço de Seixas.
Passeando ao longo de uns painéis de fúcsias de várias
espécies e admirando as flores, tiveram eles esta conferência,
que de certo nunca houve entre marido e mulher.
- A senhora comprou um marido; tem pois o direito de exigir dele
o respeito, a fidelidade, a convivência, todas as atenções
e homenagens, que um homem deve à sua esposa. Até
hoje...
- Faltou-lhe mencionar uma, talvez por insignificante, o amor, atalhou
Aurélia brincando com um cacho de fúcsias.
- Estava subentendido. Há apenas uma reserva a fazer acerca
da espécie desse produto. Suponha que a senhora não
possuísse esta bela e opulenta madeixa, suntuoso diadema
como não o tem nenhuma rainha, e que fizesse como as outras
moças, que compram os coques, as tranças e os cachos.
Não teria de certo a pretensão de que esses cabelos
comprados lhe nascessem na cabeça, nem exigiria razoavelmente
senão uns postiços. O amor que se vende é da
mesma natureza desses postiços: frocos de lã, ou despojo
alheio.
- Oh! ninguém o sabe melhor do que eu, que espécie
de amor é esse, que se usa na sociedade e que se compra e
vende por uma transação mercantil, chamada casamento!..
O outro, aquele que eu sonhei outrora, esse bem sei que não
o dá todo o ouro do mundo! Por ele, por um dia, por uma hora
dessa bem-aventurança, sacrificaria não só
a riqueza, que nada vale, porém minha vida, e creio que minha
alma!
Aurélia, no afogo destas palavras que lhe brotavam do seio
agitado, retirara a mão do braço de Seixas; ao terminar
voltara-se rapidamente para esconder a veemência do afeto
que lhe incendiara o olhar e as faces.
Seixas acompanhou este movimento com um gesto de profunda mágoa,
que um instante confrangeu-lhe o semblante, mas logo passou; já
ele estava ocupado em entrançar nos losangos do gradil verde
alguns pâmpanos mais longos de madressilva, quando Aurélia
aproximou-se.
- Não faça caso destas puerilidades. São os
últimos arrancos do passado. Cuidei que já estava
morto de todo; ainda respira; mas em poucos dias nós o teremos
enterrado. Talvez que então eu consiga ser a mulher que lhe
convinha, uma de tantas que o mundo festeja e admira.
- A senhora será o que lhe aprouver; de qualquer modo deve
convir-me desde que não empobreça.
Este sarcasmo chamou Aurélia à realidade de sua posição.
- É verdade, esqueci-me que entre nós só há
um vínculo.
- Posso continuar?
- Estou ouvindo-o.
- As obrigações e respeitos que lhe devo como seu
marido, ainda não me eximi de cumpri-los; e não me
eximirei, qualquer que seja a humilhação, que eles
me imponham.
Aurélia sentiu uma estranha repulsão ao ouvir estas
palavras; o rubor queimou-lhe as faces.
- A senhora pretende também que não comprou um marido
qualquer, e sim um marido elegante, de boa sociedade e maneiras
distintas. Fazendo violência à minha modéstia,
concordo. Tudo quanto for preciso para pavonear essa vaidade de
mulher rica, eu o farei e o tenho feito. Salvas algumas modificações
ligeiras, que a idade vai trazendo, sou o mesmo que era quando recebi
sua proposta por intermédio de Lemos. Estarei enganado?
Aurélia respondeu com um gesto de suprema indiferença.
- Já vê que sou exato e escrupuloso na execução
do contrato. Conceda-me ao menos este mérito. Vendi-lhe um
marido; tem-no à sua disposição, como dona
e senhora que é. O que porém não lhe vendi
foi minha alma, meu caráter, a minha individualidade; porque
essa não é dado ao homem alheá-la de si, e
a senhora sabia perfeitamente que não podia jamais adquiri-la
a preço d'ouro.
- A preço de que então?
- A nenhum preço, está visto, desde que o dinheiro
não bastava. Se me der o capricho para fingir-me sóbrio,
econômico, trabalhador, estou em meu pleno direito; ninguém
pode proibir-me esta hipocrisia, nem impor-me certas prendas sociais,
e obrigar-me a ser à força um glutão, um dissipador
e um indolente.
- Prendas que possuía quando solteiro.
- Justamente, e que me granjearam a honra de ser distinguido pela
senhora.
- É por isso que desejo revivê-las.
- Neste ponto sou livre, e a senhora não tem sobre mim o
menor poder. O fausto de sua casa exige que tenha um palácio,
mesa lauta, carros e cavalos de preço, que viva no meio do
luxo e da grandeza. Não a contrario no mínimo detalhe;
moro nessa casa, sento-me a essa mesa, entrarei nesses carros para
acom-panhá-la; não serei nos esplêndidos salões
um traste indigno de emparelhar com os outros móveis. Quanto
ao mais, ter por exemplo, apetite para suas iguarias e prazer para
suas festas, eis ao que não me obriguei. E porventura será
defeito que rebaixe o homem de sua posição social,
de seus méritos, o fastio ou o hábito de andar a pé?
- Porventura, pergunto-lhe eu, será agradável a alguma
senhora ter um marido que serve de tema à risota dos criados,
e passa por trancar o sabonete? E veja quanto se desmandam, que
já chegaram a meus ouvidos os chascos dessa gente.
- Compreendo que se ofenda com isso o seu orgulho. Mas há
um remédio; deixar que roubem esses objetos, ou dá-los
sob qualquer pretexto, contanto que eu não me sirva deles.
Aurélia fez um gesto de impaciência.
- Não contesto-lhe o direito que pretende haver sobre o que
chama sua alma e seu caráter. Ideou este meio engenhoso de
contrariar-me; não lhe roubarei o prazer; mas se deseja saber
o que penso...
- Tenho até o maior empenho. Sua opinião é
para mim como um farol; indica-me o parcel.
- O que não impediu seu naufrágio. Mas não
gastemos o tempo em epigramas. Que necessidades temos nós
destes trocadilhos de palavras, quando somos a sátira viva
um do outro? Há neste mundo certos pecadores que depois de
obtidos os meios de gozar da vida, arranjam umas duas virtudes de
aparato, com que negociam a absolvição e se dispensam
assim de restituir a alma de Deus.
O aspecto de Seixas denunciava a cólera que sublevava-se
em sua alma e não tardava a prorromper. Mas desta vez ainda
conseguiu domar a revolta de seus brios.
- Acabe.
- Já tinha acabado. Mas, para satisfazê-lo, aí
vai o ponto do i; sua economia e sobriedade são do número
daquelas virtudes oficiais dos pecadores timoratos.
- A senhora tem uma sagacidade prodigiosa! Bem mostra que é
sobrinha do Sr. Lemos.
Aurélia que seguira adiante voltou-se como se uma víbora
a tivesse picado no calcanhar. Tão eloqüente foi o assomo
de dignidade ofendida que vibrou a fronte da formosa moça,
e tal o império de seu olhar de rainha, que Seixas arrependeu-se.
- Desculpe!... disse ele com brandura. Sua ironia às vezes
é implacável!
Aurélia não respondeu. Adiantando-se, entrou em casa
e recolheu-se ao toucador.
Era a primeira noite depois de casados, que ela não voltava
do jardim na companhia e pelo braço do marido.
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