SENHORA
José de Alencar
Capítulo II
No centro da
sala estava a mesa onde os mais finos cristais irisavam-se aos raios
da luz, cambiando o esmalte da fina porcelana e as cores das frutas
apinhadas em corbelhas de prata.
O almoço era um banquete, não pela quantidade, o que
seria de mau gosto; mas pela variedade e delicadeza das iguarias.
Pelas janelas abertas sobre o jardim entravam, com a brisa da manhã
e a claridade de um formoso dia de verão, a fragrância
das flores e o trinado dos canários de um elegante viveiro.
Achavam-se na sala Aurélia e D. Firmina.
A moça recostara-se em uma cadeira de balanço no claro
de uma janela, de modo que seu gracioso vulto imergia-se na plena
luz. Ao vê-la radiante de beleza e risos, se acreditava que
ela de propósito afrontava o esplendor do dia, para ostentar
a pureza imaculada de seu rosto, e sua graça inalterável.
Trajava um roupão de linho de alvura deslumbrante; eram azuis
as fitas do cabelo e do cinto, bem como o cetim de um sapato raso,
que lhe calçava o pé como o engaste de uma pé-rola.
Fernando parou um instante ao entrar na sala; depois do que, firmando-se
na resolução tomada, dirigiu-se a sua mulher para
saudá-la. Todavia não calculava ele de que modo se
desempenharia desse dever.
Aurélia viu o movimento. A saudação matinal
do marido ia despertar suspeitas em D. Firmina.
Seixas adiantava-se. A moça ergueu-se estendendo-lhe a mão,
e inclinando a cabeça sobre a espádua com uma ligeira
inflexão, apresentou-lhe a face, para receber o casto beijo
da esposa.
Aquela mão porém estava gelada e hirta, como se fora
de jaspe. A face, pouco antes risonha e faceira, contraíra-se
de repente em uma expressão indefinível de indignação
e desprezo.
Fernando só reparou nessa mutação quando seus
lábios roçavam a fria cútis, cuja pubescência
erriçava-se como o pêlo áspero do feltro. Retraiu-se
involuntariamente, embora naquela circunstância a carícia
dessa mulher, de quem era marido, o humilhasse mais do que sua repulsa.
- Vamos almoçar! disse a moça dirigindo-se à
mesa e acenando ao marido e a D. Firmina que se aproximassem.
Já não se via em seu belo semblante o menor traço
do sarcasmo que o demudara; nem se conceberia que essa esplêndida
formosura pudesse transformar-se na satânica imagem que Fernando
vira pouco antes.
Aurélia tomou a cabeceira da mesa. Fernando ficou à
sua direita, em frente a D. Firmina.
A princípio a moça ocupou-se unicamente em servir,
depois trincando nos alvos dentes a polpa vermelha de uma lagosta,
animou a conversação com uma palavra viva e cintilante.
Nunca ela tinha revelado como nessa manhã, a graça
de seu espírito e o brilho de sua imaginação.
Também nunca o sorriso borbulhara de seus lábios tão
florido; nem sua beleza se repassara daquelas efusões de
contentamento.
Seixas se distraíra a ouvi-la. Por tal modo embebeu-se ele
no enlevo da gentil garrulice, que chegou a esquecer por momentos
a triste posição em que o colocara a fatalidade junto
dessa mulher.
Nas folgas que o apetite deixava à reflexão, D. Firmina
admirava-se do desembaraço que mostrava a noiva da véspera,
na qual melhor diria um casto enleio.
Mas já habituada à inversão que têm sofrido
nossos costumes com a invasão das modas estrangeiras, assentou
a viúva que o último chique de Paris devia ser esse
de trocarem os noivos o papel, ficando ao fraque o recato feminino,
enquanto a saia alardeava o desplante do leão.
- Efeitos da emancipação das mulheres! pensava con-sigo.
- Quer que lhe sirva desta salada, ou daquela empada de caça?
perguntou Aurélia notando que Seixas estava parado.
- Nada mais, obrigado.
Seixas tinha comido um bife com uma naca de pão; e bebera
meio cálice do vinho que lhe ficava mais próximo,
sem olhar o rótulo.
- Não almoçou! tornou a moça.
- A felicidade tira o apetite, observou Fernando a sorrir.
- Nesse caso eu devia jejuar, retorquiu Aurélia gracejando.
É que em mim produz o efeito contrário; estava com
uma fome devoradora.
- Nem por isso tem comido muito, acudiu D. Firmina.
- Prove desta lagosta. Está deliciosa, insistiu Aurélia.
- Ordena? perguntou Fernando prazenteiro, mas com uma inflexão
particular na voz.
Aurélia trinou uma risada.
- Não sabia que as mulheres tinham direito de dar ordens
aos maridos. Em todo o caso eu não usaria do meu poder para
cousas tão insignificantes.
- Mostra que é generosa.
- As aparências enganam.
O torneio deste diálogo não desdizia do tom de nascente
familiaridade, próprio de dois noivos felizes; haviam ento-nações
e relances d'olhos, que os estranhos não percebiam, e que
eles sentiam pungir como alfinetes escondidos entre os rofos de
-cetim.
Da sala de jantar Fernando, acabado o almoço, passou à
saleta de conversa, onde com pouca demora o acompanhou Aurélia.
D. Firmina para não perturbar o mavioso a sós dos
noivos, saiu a pretexto de encomendas.
Seixas tinha aberto maquinalmente um dos jornais do dia, que estavam
em uma bandeja de charão com pés de bronze dourado,
junto ao sofá. Quando Aurélia entrou, ele ofereceu-lhe
a folha que tinha em mão e as outras, à escolha.
- Agradeço, disse Aurélia sentando-se no sofá.
O criado apresentava a Seixas com um porta-charutos de araribá-rosa
tauxiado de prata e guarnecido de legítimos havanas, uma
lâmpada também de prata, em cujo bico cintilava a flama
azulada do espírito de vinho.
- Obrigado, tenho os meus, disse Fernando recusando com um gesto
os charutos oferecidos, e tirando a carteira do bolso.
- E estes de quem são? perguntou vivamente Aurélia,
designando os havanas apresentados pelo criado.
Seixas fez um movimento para responder; lembrando-se que não
estavam sós, retraiu-se:
- Referia-me aos que trouxe comigo, disse frisando as últimas
palavras.
- São melhores talvez.
- Ao contrário; mas estou habituado com eles. Não
lhe incomoda a fumaça?
- Faria prova de mau gosto a senhora que atualmente mostrasse repugnâncias
dessa ordem; além de que preciso de conformar-me aos hábitos
de meu marido.
- Por este motivo, não. Como seu marido não tenho
hábitos, e somente deveres.
Aurélia cortou o fio a este diálogo, perguntando com
indiferença:
- Que trazem de novo os jornais?
- Ainda não os li. Que mais lhe interessa? Naturalmente a
parte noticiosa, o folhetim...
Ao mesmo tempo abria Seixas as folhas uma após outra, e percorrendo-as
com os olhos, lia em voz alta para Aurélia, o que encontrava
de mais interessante. A moça fingia ouvi-lo; mas seu espírito
repassava interiormente os últimos acontecimentos de sua
vida, e interrogava as incertezas do futuro, que ela mesma em parte
se havia traçado.
Todavia a presença do criado fez-lhe reparar que Seixas ainda
tinha por acender o charuto.
- Não fuma? perguntou ao marido.
- Permite?
- Já lhe disse que não me incomoda! retorquiu a moça
com um assomo de impaciência.
- Desculpe-me; não tendo recebido um consentimento formal,
receei contrariá-la.
- Há receios que mais parecem desejos! observou a moça
com ironia.
- O tempo a convencerá de minha sinceridade.
- O tempo!... Ah! se realizasse tudo quanto dele se espera! exclamou
Aurélia com acerba irrisão.
Subtraindo-se a esse ímpeto de sarcasmo, que sublevou-lhe
a alma dorida, a moça refugiou-se numa banalidade.
- O melhor é não confiar nele e viver do presente.
O verdadeiro livro é o jornal com a crônica da véspera
e os anúncios do dia.
Seixas continuou a percorrer os jornais, como se acedesse ao gosto
de Aurélia. Nesse rápido exame ia lendo as epígrafes,
a ver se alguma tinha a virtude de excitar a curiosidade da moça.
- Como são interessantes estas folhas! disse Aurélia
que buscava um pretexto para expandir a irritação
íntima. Quando me lembro de abri-las, o que faço raras
vezes porque não tenho braços que cheguem para essa
difícil empresa, sucede-me sempre julgar que estou lendo
um jornal do ano anterior.
- A culpa não é do jornal, mas da cidade em que se
publica, e da qual deve ser, como disse há pouco, o livro
diário, ou a história da véspera.
- Perdão, não me lembrava que também foi jornalista.
Como Aurélia se calasse, e as folhas não fornecessem
mais assunto à conversação, Seixas aproveitou
a censura fre-qüen-temente dirigida à imprensa periódica
em nosso país, para fazer sobre o tema algumas variações,
com que enchesse o tempo.
Está entendido que tratou a questão sob um ponto de
vista ameno, que pudesse conciliar a atenção de uma
senhora; Aurélia escutou-o alguns momentos com atenção;
mas observando que o marido falava com o tom monófono e a
pausa calculada de quem desempenha uma tarefa, e longe de dar franca
expansão ao pensamento, ao contrário solicita o espírito
rebelde, a moça interrompeu essa dissertação
erguendo-se do sofá.
Deu algumas voltas pela saleta; percorreu com os olhos o aposento,
reparando no papel, nos móveis e adereços, como se
nunca os tivesse examinado, ou indagasse se nada faltava. Passou
depois a observar atentamente as figurinhas de porcelana e outras
quinquilharias que havia sobre os consolos, tirando-as de seu lugar
e mudando-lhes a posição.
Daí encaminhou-se ao piano, que é para as senhoras
como o charuto para os homens, um amigo de todas as horas, um companheiro
dócil, e um confidente sempre atento. Ao abrir o instrumento,
lembrou-se que não era próprio a uma noiva de véspera
entregar-se a esse passatempo, quando vizinhos e criados, todos
deviam supô-la àquela hora engolfada na felicidade
de amar e ser amada.
Ah! ela não conhecia essa aurora mística do amor conjugal,
que se lhe transformara em vigília de angústia e desespero.
Mas adivinhava qual devia ser a transfusão mútua de
duas almas, e compreendia que, ávidas uma da outra, não
se podiam alhear em estranho passatempo.
Abandonando o piano, disfarçou em percorrer os livros de
música, arrumados sobre o móvel apropriado, uma espécie
de estante baixa de prateleiras verticais. Aí esteve a folhear
apenas, solfejando à meia voz os trechos favoritos, e quiçá
buscando um que respondesse aos recônditos pensamentos, ou
antes que traduzisse o indefinível sentimento de sua alma
naquele instante.
Parece que achou afinal essa nota simpática, pois sua voz
desprendia-se num alegro de bravura, quando lembrou-se que não
estava só. Volveu um olhar para o sofá, onde havia
deixado o marido, que porventura a estaria observando, surpreso
de sua mímica.
Seixas, ao apartar-se a moça, tomara de cima da mesa um álbum
de fotografias, e entretinha-se em ver as figuras.
- Está vendo celebridades? perguntou a moça, que viera
de novo sentar-se ao sofá.
Fernando compreendeu que a pergunta não era senão
malha para travar a conversa, e dispôs-se a satisfazer o desejo
da -mulher.
- É verdade, celebridades européias, pois ainda não
as temos brasileiras; isto é, em fotografia, que no mais
sobram. Admira que nesta terra tão propensa à especulação
e ao char-la-ta-nismo, ainda ninguém se lembrasse de arranjar
uns álbuns de celebridades nacionais. Pois havia de ganhar
muito dinheiro; não só na venda de álbuns,
mas sobretudo na admissão dos pretendentes à lista
das celebridades.
- Diga antes ao rol.
- É com efeito mais expressivo.
- O que isso prova, observou Aurélia, é que a literatura
tem feito maiores progressos em nosso país do que a arte;
pois se não me engano já há por aí,
dentro e fora do país, empresas montadas para exploração
da biografia.
- Tem razão.
- Escapou de casar-se com uma contemporânea ilustre, acrescentou
Aurélia grifando as últimas palavras com o mais fino
sorriso.
- Ah! não sabia! Lamento profundamente não ter de
acumular essas tantas honras que recebi.
- Pois estivesse ameaçada de andar por aí em não
sei que revista ou gazeta, na qualidade de brasileira notável.
Creio eu que o meu título à celebridade era a herança
de meu avô. Foi-me preciso tomar umas dez assinaturas para
defender-me da conspiração armada contra a minha obscuridade,
e livrar-me da glória que esses senhores pretendiam infligir-me.
Nesta conversa e na revista dos retratos consumiram os dous muito
tempo.
A pêndula acabava de soar uma hora. O criado abriu com estrépito
a porta da sala da jantar, como para advertir de sua entrada; e
disse aportuguesando o termo inglês luncheon segundo o costume
geral:
- O lanche está pronto.
- Vamos? perguntou a moça erguendo-se.
Seixas fechou o álbum e acompanhou a mulher.
O criado, que vira os dous noivos inclinados sobre o álbum,
sorriu com ar brejeiro.
Fernando percebeu o sorriso e corou.
Capítulo
III
Frutas da estação:
abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs,
peras e uvas de importação, ornavam principalmente
a refeição meridiana que os costumes estrangeiros
substituíram à nossa brasileira merenda da tarde,
usada pelos bons avós.
Havia também profusão de massas ligeiras, como empa-dinhas,
camarões e ostras recheadas; além de queijos de vários
países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos
de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal,
desde o Champanhe até o Constança, estavam ali tentando
o paladar, uns com seu rótulo eloqüente, outros com
o topázio que brilhava através das facetas do cristal
lapidado.
- Não tenho a menor disposição! disse Fernando
obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa.
- Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas
e doces não é preciso ter fome; faça como os
passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pêra, ou o abacaxi?
- É preciso que eu tome alguma cousa? perguntou Fernando
com seriedade.
- É indipensável.
- Nesse caso tomarei um figo.
- Aqui tem; um figo e uma pêra; é apenas um casal.
Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si, e
comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce
uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava
a sensação agradável do paladar.
Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos
de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos
de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia
o motivo que atuava sobre seu marido.
Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada
da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer
aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada
com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios.
Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava
ao marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante
e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se
porém essa idéia do seu espírito, quando espiando
pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos
na parede fronteira, e completamente absorto.
Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma
volta pelo jardim; mas havia senhoras nas janelas da vizinhança,
e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela
não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham,
e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas
dos estranhos.
Voltaram pois à saleta.
Aí andaram a borboletear de um a outro assunto, mas apesar
do desejo que tinham, de prolongar a conversação,
ou talvez por essa mesma preocupação que os distraía,
não encontraram tema para divagar.
Afinal recaíram nas fotografias. Desta vez foi o álbum
dos conhecidos que forneceu matéria. Em um dos primeiros
cartões figurava o Lemos, cuja aparição coincidiu
com esta observação de Aurélia:
- O álbum das pessoas de minha amizade, eu o guardo comigo.
Estes são álbuns de sala, tabuletas semelhantes às
que têm os fotógrafos na porta.
- Mas não apresentam de certo as antíteses curiosas
das tabuletas. Os tais senhores parece que o fazem de propósito;
não há mais perfeita democracia.
Seixas, emérito conhecedor da Rua do Ouvidor, começou
a especificar alguns dos contrastes de que se recordava; abstemo-nos
porém de reproduzir suas observações, que ressentiam-se
de singular mordacidade.
Esse tom cáustico não era natural ao mancebo, cuja
índole benévola e afável nunca passava de uns
toques de fria ironia. Ele próprio já notara em si
essa alteração de seu caráter, e achava um
sainete especial em saturar-se do fel que tinha no co-ração.
Ao cabo de algum tempo notou Fernando que Aurélia erguia
freqüentemente os olhos para a pêndula, e disfarçou,
porque ele também interrogava a miúdo e furtivamente
o mostrador, ansioso de ver escoar-se o dia.
Uma vez os olhos de ambos encontraram-se, quando buscavam a pêndula.
Aurélia corou de leve:
- Cuidei que fosse mais cedo! disse ela.
- Como passa rapidamente o tempo! exclamou Fernando. Quase três
horas.
- Ainda falta muito. São apenas duas e um quarto.
- Ah! É verdade.
- Talvez esteja atrasado! observou Aurélia. Consulte seu
relógio.
Havia uma diferença de minuto e meio entre o relógio
de Seixas e a pêndula da sala. Foi o pretexto para consumir
o resto do tempo. Aurélia quis acertar a pêndula; aproveitou
a ocasião para dar-lhe corda; depois do que veio uma discussão
cerca da conveniência de mudá-la para outro consolo.
- Já três horas! exclamou afinal a moça. É
tempo de vestir-nos para o jantar. Até logo!
Aurélia fez um gracioso aceno de fronte ao marido e desapareceu
pela porta, que dava para o seu toucador.
Quando ela entrou nesse aposento e fechou a porta sobre si, não
teve tempo de desatacar o corpinho do vestido; meteu as mãos
pelos ilhoses e magoando os dedos mimosos nos colchetes, despedaçou
a ourela para não sufocar. O coração que ela
recalcara por tanto tempo sublevava-se afinal, e estalava nos soluços
que lhe dilaceravam o seio.
De seu lado Fernando, ao ficar só, respirava, como um homem
que repousa de uma tarefa laboriosa e fatigante. Ele desejaria sair
daquele teto, perder de vista a casa, ir bem longe daí para
gozar desses momentos de solidão e recuperar durante uma
hora sua liberdade. Mas um passeio, e ainda mais solitário,
não era conveniente no dia seguinte ao de um casamento de
amor.
O criado pediu licença para entrar.
- O senhor não precisa de mim?
- Não, obrigado. A que horas janta-se?
- Às cinco, se o senhor não der outra ordem.
- Bem.
- O senhor sai a passeio depois de jantar? De carro ou a cavalo?
- Não.
- Sei que não é próprio logo nos primeiros
dias do casamento, mas foram as ordens que recebi; que nada faltasse
ao senhor.
- Quem as deu?
- A senhora.
Este cuidado que em outra circunstância lhe causaria íntimo
prazer, em sua posição humilhava-o. Sentia a influência
da tutela que pesava sobre ele, e o reduzia à condição
de um pupilo nupcial, se não cousa pior. Mas estava resignado
às duras provações da situação,
a que seu erro o submetera.
Ainda nessa ocasião, Seixas revelou uma nova alteração
em sua índole, ou pelo menos em seus hábitos.
Ele tinha essa flor da ingênua elegância, que não
se alimenta da vaidade de ser admirada, mas da satisfação
íntima. Vestir-se era para ele outrora um prazer; o contato
de um novo trajo causava-lhe uma sensação deliciosa,
como a de um banho frio em hora de calma.
Nesse dia, porém, quando os guarda-roupas e cômodas
regurgitavam, limitou-se ele apenas a reparar algum leve desarranjo;
e dar ao trajo da manhã uma feição de novidade
pela mudança de uma gravata. Quando entrou na saleta de conversa,
já ali estava D. Firmina, e Aurélia não se
demorou.
A moça trajava de verde. Ela tinha dessas audácias
só permitidas às mulheres realmente belas, de afrontar
a monotonia de uma cor. Seu lindo rosto, o colo harmonioso e os
braços torneados, desabrochavam dessa folhagem de seda, como
lírios d'água levemente rosados pelos rubores da manhã.
Quando a porta abriu-se para dar-lhe passagem, Seixas cuidou que
assistia à metamorfose da ninfa transformada em loto. Mas
logo depois admirando a graça que se desprendia dessa peregrina
gen-tileza como a irradiação de um astro, pareceu-lhe
antes que a flor tomava as formas da mulher e animava-se ao sopro
divino.
D. Firmina trouxera da rua muitas novidades.
Recomendações de umas amigas de Aurélia; mil
inquirições de outras acerca do casamento; elogios
dos noivos; e toda a outra bagagem de agradáveis banalidades,
que na máxima parte compõem a vida nas grandes cidades.
Com esta provisão encarregou-se ela de preencher a meia hora
que faltava para o jantar.
- É voz geral, que não se podia escolher um par mais
perfeito, disse a viúva a modo de resumo.
- Já vê que nos casamos por unânime aclamação
dos povos, observou Aurélia sorrindo-se para o marido. Nada
nos falta para sermos felizes.
- Mais do que eu sou, não é possível, tornou
Seixas.
- Esta primazia me pertence, e não lhe cederei!
D. Firmina aplaudiu essa contestação que revelava
os extremos de amor dos noivos um pelo outro.
O jantar correu como o almoço. Aurélia, isenta do
enleio, ou antes opressão, que a tolhia quando se achava
só com o marido, recobrava na presença de D. Firmina
e dos criados a sua feiticeira volubilidade, na qual um observador
calmo notaria certa irritabilidade nervosa, habilmente encoberta
com a galanteria do gesto e a graça do sorriso.
Seixas não se demoveu da sobriedade que havia guardado pela
manhã, senão para aceder aos desejos da mulher, a
qual por mais de uma vez exerceu essa tirania feminina, que à
semelhança de certas realezas, compraz-se com as minúcias.
Ao levantarem-se da mesa, Fernando dirigiu-se à porta do
jardim, e esperava divagando os olhos pelo arvoredo, que dessem
destino ao resto da tarde. Aurélia aproximou-se enquanto
D. Firmina estava ocupada em arranjar a cauda de seu vestido nesgado,
moda a que ainda se não pudera habituar.
- Que bela tarde! exclamou a moça ao lado do marido.
Logo sombreando a voz disse-lhe quase ao ouvido, com tom rápido
e incisivo:
- Ofereça-me o braço!
Depois prolongando a exclamação, continuou mostrando
no horizonte uns arrebóis encantadores, em que os mais finos
matizes se cambiavam sobre a nívea polpa de um grande cirro
que de repente incendiou-se como um rosicler de fogo.
- Veja; até o céu está festejando a nossa ventura.
Quem já teve desses fogos de artifícios, que o sol
preparou para obse-quiar-nos?
- É pena que não possamos... que eu não possa
gozar da festa mais de perto, para melhor apreciá-la.
Aurélia voltou-se rapidamente para fitar no semblante do
marido um frio olhar de interrogação; mas Fernando
contemplava as gradações da luz no ocaso, e só
voltou-se para oferecer o braço à mulher, conforme
a recomendação que recebera.
Fê-lo porém, mais com o gesto, pois as palavras apenas
murmuradas, mal se ouviram.
- Acenda seu charuto, disse a moça vendo que ele esquecia-se
desse pormenor, apesar de lhe ter o criado oferecido fogo.
Aurélia conduziu o marido a um caramanchão que havia
no meio da chácara, e cuja espessa ramada os escondia às
vistas de D. Fimina, e do jardineiro e hortelão que andavam
na lida costumada.
Seixas tinha umas tinturas de orquídeas e parasitas que havia
colhido um verão em Petrópolis, no tempo em que a
cultura e o estudo desses dois gêneros de plantas esteve na
moda, e para alguns degenerou em mania. Como um dos leões
fluminenses, estava ele na obrigação de sujeitar-se
a esse novo capricho da soberana; e cumpria-lhe habilitar-se para
em uma reunião nomear por sua designação científica
a flor da moda que ornava uma gruta de jardim ou um vaso de sala.
Justamente embaixo do caramanchão havia uma bela coleção
de orquídeas, que o jardineiro ali guardava do sol. Fernando
aproveitou-se do tema, para fazer mostra dos seus conhecimentos
botânicos.
Aurélia ouviu-o com atenção; só quando
o marido parecia ter esgotado o assunto, foi que ela encartou uma
reflexão.
- Como todo o mundo, eu sempre fui muito apaixonada de flores; mas
houve um tempo em que não as pude suportar. Foi quando se
lembraram de ensinar-me botânica.
- Quer isto dizer que tive a infelicidade de aborrecê-la com
a minha conversa?
- Eis o que é a prevenção! Conseguiu reconciliar-me
com a botânica. Não há melhor calmante.
Já estava escuro quando Aurélia se recolheu do jardim
pelo braço do marido. D. Firmina os esperava da saleta já
esclarecida com um doce crepúsculo artificial coado pelo
cristal fosco dos globos.
A viúva sentara-se à mesa do centro para devorar os
folhetins dos jornais; e teve a discrição de voltar
as costas para o sofá onde se tinham acomodado os noivos.
Aurélia, fatigada da comédia que representara durante
o dia, recostara-se à almofada, e cerrando as pálpebras
engolfou-se em seus pensamentos. Fernando respeitou essa meditação:
tanto mais quanto seu espírito cedia também a uma
irresistível preocupação.
A noite causara-lhe um indefinível desassossego, que mais
crescia agora com a aproximação da hora de recolher.
Não sabia de que se receava; era uma cousa vaga, informe,
ignota, que o enchia de pavor.
Assim, cada um em seu canto de sofá, separados ainda mais
pela completa alheação do que pelo espaço que
entre ambos medeava, ela absorta, ele agitado, passaram esse primeiro
serão de sua vida conjugal.
D. Firmina, às vezes, nalgum ponto menos interessante do
folhetim, aplicava o ouvido; e aquele silêncio suspeito a
fazia sorrir pensando nos abraços e beijos furtivos que surpreenderia,
se de repente se voltasse para o sofá.
Com discreta malícia, a pretexto de procurar o lenço
fazia menção de voltar-se para gozar do prazer de
assustar os dois pombinhos. Então percebia um leve rumor;
cuidando que eles se afastavam, quando ao contrário fingiam
ocupar-se um do outro, para não traírem sua mútua
indiferença.
Pelo meio da noite Aurélia saiu da sala. Depois de uma pequena
ausência durante a qual ouviu-se dentro algum rumor, ela voltou
a ocupar seu lugar no canto do sofá.
Afinal a pêndula marcou dez horas. D. Firmina dobrou seus
jornais e despediu-se.
Aurélia acompanhou-a lentamente como para certificar-se de
que se afastava; depois do que cerrou a porta, deu duas voltas pela
sala, e caminhou para o marido.
Seixas viu-a aproximar-se assombrado pela estranha expressão
que animava o rosto da moça.
Era um sarcasmo cruel e lascivo o que transluzia com fulgor satânico
da fisionomia e gesto dessa mulher.
Só faltava-lhe a coroa de pâmpanos sobre as tranças
esparsas, e o tirso na destra.
Em face do marido porém essa febre aplacou-se como por encanto;
e surgiu outra vez do corpo da bacante em delírio a virgem
casta e melindrosa.
Aurélia tinha na mão dois objetos semelhantes, envoltos
um em papel branco, outro em papel de cor. Ofereceu o primeiro a
Seixas; mas retraiu-se substituindo aquele pelo outro.
- Esta é minha, disse guardando o invólucro de papel
-branco.
Enquanto Seixas olhava o objeto que recebera, sem compreender o
que isto significava, Aurélia fez-lhe com a cabeça
uma saudação:
- Boa noite.
E retirou-se.
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