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SENHORA
José de Alencar


Capítulo VII

Um dia, por manhã, bateram à porta de D. Emília.
Quando a viúva e a filha vieram à sala, acharam sentado no sofá um velho alto e robusto, cujo traje denotava provinciano ou homem do interior. Tinha o rosto sanguíneo e os traços duros e salientes.
Cravou ele o olhar pesado no semblante de Aurélia, sem erguer-se à chegada das senhoras. Depois de ter assim examinado a menina, com insistência desusada, volveu a vista para a viúva; reparou no vestido preto desbotado que ela trazia por casa, e tornou a descarregar os olhos torvos sobre a moça.
D. Emília, assustada com estes modos, trocou um sinal de inteligência com a filha. Ambas receavam achar-se em presença de algum louco ou ébrio; julgando-se expostas a um desacato, não sabiam que fazer.
Entretanto as lágrimas saltavam aos molhos das pálpebras do velho, que erguendo-se de supetão correu a Aurélia, e suspendeu a moça nos braços antes que ela se pudesse esquivar.
- Que é isto, senhor? Está louco? disse D. Emília levantando-se para defender a filha.
Às palavras da viúva e ao grito que soltara Aurélia, o velho recuou e quis falar; mas o soluço embargava-lhe a voz:
- Não me conhece, minha filha? Sou o pai de seu marido!
- O Sr. Lourenço Camargo?
- Ele mesmo. Não consente que abrace minha neta?
Foi Aurélia quem se lançou nos braços do velho, e este depois que a teve cerrada ao peito por algum tempo, desviou-se bruscamente, e foi sentar-se no sofá, enxugando o rosto com o grande lenço de seda enrolado em uma bola.
- É o retrato de meu Pedro. Pobre rapaz! murmurou o -velho.
Depois de algumas perguntas acerca do nome e idade de Aurélia; explicou o fazendeiro a razão de ali achar-se naquele momento, reconciliado com sua nora, e pesaroso do modo por que se portara com ela.
Na estalagem ou rancho em que falecera, deixou Pedro Camargo sua maleta. Guardou-a o dono da casa com tenção de levá-la à fazenda ou mandá-la pelo primeiro portador. Por lá ficou anos até que pairou aí por acaso um formigueiro, nome que dão ao indivíduo perito em destruir o inseto daninho que devora as roças.
Esse de que se trata ia à fazenda do Camargo oferecer os seus serviços, e incumbiu-se de levar a mala. Ao recebê-la, avivaram-se ao fazendeiro as saudades do filho; enxugou os olhos, e mandou acender uma fogueira no terreiro para queimar os objetos que haviam pertencido ao morto.
Enquanto se cumpria sua ordem, abriu ele próprio a maleta, e tirou uma por uma as peças enxovalhadas, um pequeno estojo de toucador, e outras cousas de uso comum. No fundo havia um volume envolto em papel e atado com uma fita preta.
Continha as fotografias de Pedro Camargo, da mulher e dos dous filhos; a certidão de casamento e as de batismo dos dous meninos, e finalmente uma carta sem sobrescrito dirigida ao fazendeiro.
Essa carta de data muito anterior ao falecimento indicava que Pedro Camargo tinha a princípio pensado em suicidar-se, e se preparara para levar a efeito esse desígnio, escrevendo ao pai a fim de implorar-lhe o perdão de sua falta.
Depois de fazer a confissão do casamento que havia ocultado só pelo receio de afligir ao pai, suplicava-lhe que protegesse sua viúva e aqueles órfãos inocentes, que eram seus netos, e que o haviam de substituir, a ele Pedro, no amor e na veneração.
Lendo essa carta, Lourenço Camargo afigurou-se receber as últimas palavras do filho; e lembrou-se quanto fora injusto duvidando da realidade desse casamento de que ali tinha a prova irrecusável.
Era uma alma rude, mas direita.
Nessa mesma noite partiu para a Corte. Por intermédio do correspondente mandou colher informações na vizinhança e soube que a viúva ainda morava na mesma casa.
Depois destas explicações, que arrancaram lágrimas às duas senhoras, sobretudo quando leram a carta de Pedro Camargo, o velho deu um giro pela sala e tomando o chapéu disse:
- Chorem a seu gosto; eu voltarei depois.
De feito voltou todos os dias enquanto se demorou na Corte. Por seu gosto teria enchido de presentes a Aurélia e à mãe; porém as duas senhoras acanharam-se com a excessiva liberalidade, pelo que amuou-se o velho fazendeiro:
- Pois bem, não lhes darei mais nada. Quando precisarem peçam.
Dous dias depois deste incidente apresentou-se o velho com um maço de papel lacrado. Ao tirá-lo do bolso do jaleco, refranziu jocosamente a cara para Aurélia:
- Não vá pensando que é presente, não, senhora dona! Fique descansada. Quero que me guarde aqui este papel, até à volta.
- Se tem dinheiro, acho melhor... ia dizendo Aurélia.
- Qual dinheiro! Você parece que tem nojo dos meus -cobres!
- Não é por isso, meu avô. Bem vê que duas mulheres numa casa como esta oferecem pouca segurança.
- Pois saiba que isto é um papel... uma escritura que passei, e para não a perder na viagem, deixo em sua mão.
Na capa do maço estavam escritas em bastardinho estas palavras. "Para minha neta Aurélia guardar, até eu, seu avô, lhe pedir. L. S. Camargo."
Partiu o velho para a fazenda, tendo mandado adiante de si pedreiros, carapinas e pintores a fim de quanto antes transformar o velho e sujo casebre em uma habitação digna de receber a família de Pedro Camargo, com certo aparato que o fazendeiro considerava indispensável, como reparação de sua anterior indiferença.
Além do material do edifício, havia também no regime da casa certos hábitos inveterados, que se estabelecem em algumas fazendas, sobretudo quando são os donos solteirões. Camargo carecia pelo menos de um mês para coibir umas familiaridades antes toleradas, e abolir certa moda de saia ou tanga que dava às crioulas uns ares de dançarinas, menos a calça de meia e os frocos de gaze.
Compreendia o Camargo, que estas minudências, inocentes para um velho barbaçudo como ele, deviam arrepiar os escrúpulos da Corte. Mas quando essa idéia não lhe acudisse, bastava-lhe ter visto Aurélia, e respirado a atmosfera de altiva castidade que envolvia a formosa menina, para não ousar profaná-la com o contágio daquelas indecências.
Logo após a partida de Camargo, D. Emília teve um dos costumados acessos da moléstia crônica; porém tão forte, que inspirou sérios receios ao médico. O paroxismo cedeu à aplicação de remédios enérgicos; mas a viúva não se levantou mais do leito, onde agonizou cerca de dous meses.
Foi este o período mais difícil da vida de Aurélia; porque às mágoas acerbas de seu amor ludibriado, acresceu a dor dos sofrimentos de sua mãe. E como se não bastasse esse golpe para acabrunhá-la, veio agravar esta situação a miséria com seu cortejo.
Quando apareceu o Camargo enviado pela Providência para reconhecer a nora e a neta, a existência das duas senhoras já era bastante penosa. Consumido o dinheiro que lhes entregara o tropeiro, viviam das costuras de Aurélia, e do preço de algumas jóias, ainda presentes de Pedro.
Não chegavam porém estes escassos recursos; e teriam passado inclemências se não fosse o crédito obtido na loja e venda em que se supriam.
Com algum dinheiro que o fazendeiro deixara à viúva, pagara ela essas dívidas, e o resto entregara à filha para as des-pesas.
Enquanto durou essa quantia, pôde Aurélia fazer face às despesas; mas estas avultaram com a moléstia da mãe; e breve não houve com que mandar ao mercado comprar um frango para o caldo da enferma.
Foi só nessa ocasião que Aurélia cedeu às instâncias do Dr. Torquato Ribeiro, e recebeu dele emprestados cinqüenta mil-réis. Até então rejeitara sempre o seu oferecimento, e esforçava-se por ocultar-lhe a penúria em que se achava.
É verdade que Aurélia esperava receber a cada instante os socorros que pedira ao avô. Escrevera-lhe logo que a moléstia da mãe agravou-se; e admirava-se de não receber resposta, nem ter notícias da fazenda.
A razão só depois a soube. De volta à fazenda achou Lourenço Camargo uma caterva de peraltas, que se diziam seus sobri-nhos, e com eles as respectivas mulheres, e a récua dos mar-manjos e sirigaitas, que formavam a ninhada dessa parentela.
O Camargo não os podia suportar; para ver-se livre deles deixava-se fintar uma vez no ano, mas não consentia se demorassem em sua casa mais do que uma noite, se fazia mau tempo.
Imagine-se pois como ficou o velho, quando aí achou-os todos de uma vez, com os seus apêndices, e muito a gosto.
Mas o furor de Camargo não teve limites, quando os intrusos tiveram o desfaçamento de confessar o motivo que ali os reunia.
Constara-lhes de fonte certa que o velho tinha feito testamento na Corte, e segundo as suas conjeturas deixava todos os bens a uma rapariga, filha de certa mulher perdida, antiga amásia de Pedro Camargo.
À vista disto haviam-se reunido e ali estavam para declarar ao tio que não consentiriam jamais em semelhante espoliação. Se, como esperavam, ele não reparasse o seu erro, para o que já traziam o escrivão de paz, o preveniam desde logo que anula-riam esse testamento pela instituição de pessoa indigna. Neste ponto apoiavam-se no voto de um rábula, de que por cautela se tinham acompanhado.
O velho Camargo conteve-se durante esta exposição; mas como se contém a torrente que sobe para romper o dique, e a tempestade que se condensa até desabar.
Quando o rábula, aberta a caixa de rapé, fechou a chave dos dous dedos tabaquistas para agarrar a pitada que devia destilar-lhe no nariz o monco e a eloqüência, não achou presa. A boceta de tartaruga voara pelos ares a um murro do Camargo, que apanhando uns arreios de mula cargueira, suspensos à varanda, caiu na parentela, e dispersou-a a lambadas de couro e ferro.
Homens, mulheres e meninos, tudo foi escovado. Ao mesmo tempo o fazendeiro gritava pela negraria, e armando-a de peias e manguais, enxotava de casa a praga que a tinha invadido. Só depois que a deixou na estrada com as trouxas e malas de bagagem, voltou o velho.
Mas o corpo robusto, que apesar dos setenta anos desenvolveu aquele prodigioso esforço físico, não pôde resistir à explosão da cólera estupenda que subverteu-lhe a alma. Quando não teve mais em quem descarregar a indignação, esta subiu-lhe ao cérebro e fulminou-o.
O ataque paralisou-o completamente; a vitalidade de sua organização lutou cerca de dous meses, nesse corpo morto, até que afinal extinguiu-se. Em todo esse tempo não deu acordo de si. As cartas de Aurélia ficaram na gaveta, onde as guardara o administrador.
Com diferença de dias veio a falecer também D. Emília, deixando Aurélia em completa orfandade. Nesse transe cruel, o Dr. Torquato Ribeiro não abandonou a moça, e foi a rogos dele que D. Firmina Mascarenhas levou a órfã para sua casa.
À exceção dessa parenta afastada, nenhuma outra pessoa da família apareceu ou mandou à casa de Aurélia, durante a enfermidade da mãe, e depois do passamento. O Lemos e sua gente não deram sinal de si.

Capítulo VIII

Aceitando a companhia de D. Firmina, não era intenção de Aurélia tornar-se pesada à sua parenta.
Passados os oito dias de nojo, enviou pelo Dr. Torquato Ribeiro um anúncio ao jornal, oferecendo mediante condições razoáveis seus serviços como professora de colégio, ou mestra em casa de família. Estava porém disposta a descer até o mister mais modesto de costureira, ou mesmo de aia de alguma senhora idosa. Decorreu mais de mês, sem que aparecesse cousa séria. Apenas- se apresentaram alguns desses farejadores de aventuras baratas, a cem réis por linha. D. Firmina porém percebeu-lhes a manha, e despediu-os da escada, sem consentir que vissem a moça.
Pensava Aurélia em mandar outro anúncio, quando a procurou um negociante, que andara à cata de sua nova morada. Era o correspondente do falecido Camargo, que vinha comunicar à moça o falecimento do fazendeiro.
- A senhora tem em seu poder um papel, que o meu amigo lhe deu a guardar, recomendando-me que no caso de acontecer-lhe alguma cousa, lhe avisasse para abri-lo. Parece que tinha um pressentimento.
O papel continha o testamento em que Lourenço de Sousa Camargo reconhecia e legitimava como seu filho a Pedro Camargo, que fora casado com D. Emília Lemos, declarando que à sua neta D. Aurélia Camargo, nascida de um legítimo matrimônio, instituía sua única e universal herdeira.
Ao testamento juntara o velho uma relação detalhada de todo o seu possuído, escrita do próprio punho, com várias explicações relativas a alguns pequenos negócios pendentes, e conselhos acerca da futura direção das fazendas.
Calculava-se o cabedal de Camargo em mil contos ou cerca. Apenas divulgou-se a notícia de ter Aurélia herdado tamanha riqueza, acudiram-lhe à casa todos os parentes, e à frente deles o Lemos com seu rancho.
Enquanto a mulher e as filhas sufocavam de interesseiros agrados e bajulações a órfã, a quem tinham faltado quando po-bre com a mais trivial caridade, o Lemos, expedito em ne-gó-cios, arranjava do juiz de órfãos a nomeação de tutor da sobrinha.
De primeiro impulso, Aurélia pensou em revoltar-se contra essa nomeação, mostrando ao juiz a infame carta que lhe escrevera o tio; mas além de repugnar-lhe o escândalo, sorriu-lhe a idéia de ter um tutor a quem dominasse.
Aceitou pois o tio, mas com a condição que já sabemos, de morar em casa sua, e não ter relações com uma família cuja presença lhe recordava a injúria feita à sua mãe. Isso mesmo disse-o à tia e primas, quando estas se esforçavam por cobri-la de carícias.
A riqueza, que lhe sobreveio inesperada, erguendo-a subitamente da indigência ao fastígio, operou em Aurélia rápida transformação; não foi, porém no caráter, nem nos sentimentos que se deu a revolução; estes eram inalteráveis, tinham a fina têmpera de seu coração. A mudança consumou-se apenas na atitude, se assim nos podemos exprimir, dessa alma perante a sociedade.
Com uma existência calma e um amor feliz, Aurélia teria sido meiga esposa e mãe extremosa. Atravessaria o mundo como tantas outras mulheres envolta nesse cândido enlevo das ilusões, que são a alva pura do anjo, peregrino na terra.
Mas a flor de sua juventude, ela a viu desabrochar na atmosfera impura das torpes seduções que a perseguiam. Sem o nativo orgulho que protegia sua castidade, talvez que o torpe hálito do vício lhe maculasse o seio. Mas teve força para cerrar-se, como o cacto à calma abrasadora, e viveu de seus próprios -sonhos.
Cotejando o seu formoso ideal com o aspecto sórdido que lhe apresentava a sociedade, era natural entrasse a desprezá-la, e a olhar o mundo como um desses charcos pútridos, mas cobertos por folhagem estrelada de flores brilhantes, que não se podem colher sem atravessar o lodo.
Daí o terror que sentia ao ver-se próxima desse abismo de abjeções, e o afastamento a que se desejava condenar. Bem vezes revoltavam-lhe a alma as indignidades de que era vítima, e até mesmo as vilanias cujo eco chegava a seu obscuro retiro. Mas que podia ela, frágil menina, em véspera de orfandade e abandono, contra a formidável besta de mil cabeças?
Quando a riqueza veio surpreendê-la, a ela que não tinha mais com quem a partilhar, seu primeiro pensamento foi que era uma arma. Deus lhe enviava para dar combate a essa sociedade corrompida, e vingar os sentimentos nobres escarnecidos pela turba dos agiotas.
Preparou-se pois para a luta, à qual talvez a impelisse principalmente a idéia do casamento que veio a realizar mais tarde. Quem sabe, se não era o aviltamento de Fernando Seixas que ela punia com o escárnio e a humilhação de todos os seus adoradores?
Logo nos primeiros dias que seguiram-se à abertura do testamento, Aurélia tratou de pagar as dívidas de sua mãe e recompensar os serviços que lhe haviam prestado durante a enfermidade de D. Emília, várias pessoas pobres da vizinhança. Nessa ocupação a ajudava o Dr. Torquato Ribeiro, com quem ela se aconselhava, sobretudo acerca dos negócios da tutela. O bacharel não advogava, mas consultava aos colegas para satisfazer a menina e dirigi-la com acerto.
- Também temos uma dívida a saldar entre nós dous, disse Aurélia; mas essa fica para depois. Não lhe pago agora.
- Uma bagatela! tornou-lhe Ribeiro.
- Oh! não sabia que era tão rico.
- Sou pobre, bem sabe, D.Aurélia.
- Sei; se fosse rico, nunca seria sua devedora. A despesa que fez com o enterro de minha mãe deve fazer-lhe falta.
- Perdão, não fui eu.
- Quem foi então? perguntou Aurélia no auge da sur-presa.
Ribeiro tirou a carteira.
- Nunca lhe falei nisso com receio de afligi-la. No dia do falecimento de D. Emília, saí, como sabe, para tratar do enterro; já tinha dado muitas voltas inúteis quando recebi esta carta sem assinatura. Aceitei, porque não havia outro recurso; eu não tinha de meu vinte mil-réis.
A carta continha estas palavras apenas: "Previne-se ao Sr. Dr. Torquato da Costa Ribeiro que o enterro da Sra. D. Emília Camargo já foi encomendado e pago por uma parenta da mesma senhora."
Aurélia leu a carta cuja letra lhe era desconhecida e guardou-a.
- Então devo-lhe somente cinqüenta mil-réis, que pagarei quando for maior. Agora peço-lhe que receba esta lembrança.
A lembrança era o retrato da moça em um quadro de ouro maciço, cravejado de brilhantes, cujo valor bruto, desprezado o feitio, valia um conto de réis.
O bacharel compreendeu a intenção da moça, que era dar-lhe por aquela forma delicadíssima um auxílio pecuniário de que ele bem carecia.
Refletiu um instante, e resolveu aceitar com franqueza e sem falsa modéstia.
- Agradeço-lhe seu mimo, D. Aurélia. Acima de tudo, mais ainda do que o próprio retrato, aprecio nele o que a senhora ocultou. Suas feições são apenas a cópia da beleza; a intenção é o reflexo da alma que Deus lhe deu.
Foi depois de passados os seis meses de luto, que Aurélia apareceu na sociedade.
Tinha-se ela ensaiado para seu papel. Desde o primeiro momento em que apresentou-se nos salões, firmou neles seu império, e tomou posse dessa turba avassalada, cujo destino é bajular as reputações que se impõem.
Encontramo-la deslumbrando a multidão com sua beleza, e açulando a fome do ouro nos cavalheiros do lansquenete matrimonial. Regozijava-se em arrastar após si, rojando-os pelo pó, e fustigando-os com o sarcasmo, a esses sócios e êmulos de Fernando Seixas, ansiosos de venderem-se como ele, ainda que por maior preço.
Por isso os tinha reduzido à mercadoria ou traste, fazendo-lhes a cotação, como se usava outrora com os lotes de escravos.
Aquele marido de maior preço a que ela se referia não era outro senão seu antigo amante, que a desprezara por ser pobre.
No meio desta acrimônia que lhe inspirava a sociedade, não perdera porém Aurélia de todo a crença na nobreza d'alma, sabia respeitá-la onde quer que a descobria.
Assim, quando algum homem honesto, sinceramente seduzido pelos dotes de sua pessoa, e não pelo brilho da riqueza, lhe fazia a corte, ela portava-se com ele de modo inteiramente diverso. Acolhia-o com afabilidade e distinção; mas aproveitava o primeiro momento para desvanecer-lhe toda a esperança.
Só com os caçadores de dotes era loureira, se tal nome pode-se aplicar ao constante ludíbrio e humilhação a que submetia seus apaixonados.
Encontrou Aurélia uma vez na sociedade Eduardo Abreu, já de volta da Europa. Soube que tinha dissipado a legítima, e ficara reduzido à pobreza. Como se esquivasse de falar-lhe, a moça dirigiu-se a ele e insistiu para que freqüentasse sua casa.
Abreu fez-lhe uma visita de cerimônia. A moça inventou um pretexto qualquer para uma carta urgente e mandou buscar o tinteiro. De repente voltou-se para o moço e pediu-lhe que escrevesse um recado a certa loja.
Aurélia examinou a letra e murmurou consigo:
- Eu tinha adivinhado!
Não disse uma palavra a Abreu sobre isto. Por aqueles dias houve quem pagasse as contas que o moço tinha em várias casas da Rua do Ouvidor, que já não lhe queriam fiar.
A primeira vez que a moça encontrou-se com Abreu depois do incidente perguntou-lhe:
- Ainda me ama?
Ele corou.
- Já não tenho esse direito.
- Lembre-se do que lhe disse uma vez. Se eu remir-me de meu cativeiro, minha mão lhe pertence. Não a querendo o senhor, ninguém mais a terá neste mundo.
O Dr. Torquato Ribeiro não pôde resistir à paixão que nutria pela Adelaide Amaral. Com o tempo e ausência do rival foi-se desvanecendo o primeiro ressentimento; e como o procedimento de Seixas já causava estranheza, não se demorou a reconci-liação.
Aurélia percebeu que o bacharel estava cada vez mais apaixonado. Era uma verdadeira recaída. A princípio admirou-se dessa indulgência:
- E eu? Não amo um homem que não somente me esqueceu por outra, mas que se rebaixou?
Pensou então em favorecer esse amor do Ribeiro, o que obteve, concorrendo para a realização do projeto que afagava, e a cuja realização assistimos.
Estes foram os acontecimentos que ocorreram antes de encontrarmos pela primeira vez nos salões a Aurélia Camargo.

Capítulo IX

Tornemos à câmara nupcial, onde se representa a primeira cena do drama original, de que apenas conhecemos o prólogo.
Os dois atores ainda conservam a mesma posição em que os deixamos. Fernando Seixas obedecendo automaticamente a Aurélia, sentara-se, e fitava na moça um olhar estupefato. A moça arrastou uma cadeira e colocou-se em face do marido, cujas faces crestava o seu hálito abrasado.
- Não careço dizer-lhe que amor foi o meu, e que adoração lhe votou minha alma desde o primeiro momento em que o encontrei. Sabe o senhor, e se o ignora, sua presença aqui nesta ocasião já lhe revelou. Para que uma mulher sacrifique assim todo seu futuro, como eu fiz, é preciso que a existência se tornasse para ela um deserto, onde não resta senão o cadáver do homem que a assolou para sempre.
Aurélia calcou a mão sobre o seio para comprimir a emoção que a ia dominando.
- O senhor não retribuiu meu amor e nem o compreendeu. Supôs que eu lhe dava apenas a preferência entre outros namorados, e o escolhia para herói dos meus romances, até aparecer algum casamento, que o senhor, moço honesto, estimaria para colher à sombra o fruto de suas flores poéticas. Bem vê que eu o distingo dos outros, que ofereciam brutalmente, mas com franqueza e sem rebuço, a perdição e a vergonha.
Seixas abaixou a cabeça.
- Conheci que não amava-me, como eu desejava e merecia ser amada. Mas não era sua a culpa e só minha que não -soube inspirar-lhe a paixão, que eu sentia. Mais tarde, o senhor reti-rou-me essa mesma afeição com que me consolava e trans--portou-a para outra, em quem não podia encontrar o que eu lhe dera, um coração virgem e cheio de paixão com que o adorava. Entretanto, ainda tive forças para perdoar-lhe e amá-lo.
A moça agitou então a fronte com uma vibração altiva:
- Mas o senhor não me abandonou pelo amor de Adelaide e sim por seu dote, um mesquinho dote de trinta contos! Eis o que não tinha o direito de fazer, e que jamais lhe podia perdoar! Desprezasse-me embora, mas não descesse da altura em que o havia colocado dentro de minha alma. Eu tinha um ídolo; o senhor abateu-o de seu pedestal, e atirou-o no pó. Essa degradação do homem a quem eu adorava, eis o seu crime; a sociedade não tem leis para puni-lo, mas há um remorso para ele. Não se assassina assim um coração que Deus criou para amar, incutindo-lhe a descrença e o ódio.
Seixas, que tinha curvado a fronte, ergueu-a de novo, e fitou os olhos na moça. Conservava ainda as feições contraí-das, e gotas de suor borbulhavam na raiz de seus belos cabelos negros.
- A riqueza que Deus me concedeu chegou tarde; nem ao menos permitiu-me o prazer da ilusão, que têm as mulheres enganadas. Quando a recebi, já conhecia o mundo e suas misérias; já sabia que a moça rica é um arranjo e não uma esposa; pois bem, disse eu, essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter neste mundo. Mostrar a esse homem que não me soube compreender, que mulher o amava, e que alma perdeu. Entretanto ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe-ei que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; consinta-me que eu o ame. Essa última consolação, o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração, era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. Mas não desespere, o suplício não pode ser longo: este constante martírio a que estamos condenados acabará por extinguir-me o último alento; o senhor ficará livre e rico.
Proferidas as últimas palavras com um acento de indefinível irrisão, a moça tirou o papel que trazia passado à cinta, e abriu-o diante dos olhos de Seixas. Era um cheque de oitenta contos sobre o Banco do Brasil.
- É tempo de concluir o mercado. Dos cem contos de réis, em que o senhor avaliou-se já recebeu vinte; aqui tem os oitenta que faltavam. Estamos quites, e posso chamá-lo meu; meu marido, pois é este o nome de convenção.
A moça estendeu o papel que sua mão crispada amarrotava convulsamente. Seixas permaneceu imóvel como uma estátua; apenas duas plicas profundas sulcaram-lhe as faces desde o canto dos olhos até à comissura dos lábios.
Afinal o papel escapou-se dos dedos trêmulos da moça e caiu sobre o tapete aos pés de Fernando.
Seguiu-se um momento de silêncio ou antes de estupor. Aurélia irritava-se contra a invencível mudez de Seixas, e talvez a atribuía a uma cínica insensibilidade moral. Pensava exacerbar os nobres estímulos de um homem ainda capaz de reabilitar-se da fragilidade a que fora arrastado, e achava um indivíduo tão embotado já em seu pudor que não se revoltava contra a maior das humilhações.
Aurélia soltou dos lábios um estrídulo, antes do que um sorriso.
- Agora podemos continuar a nossa comédia, para divertir-nos. É melhor do que estarmos aqui mudos em face um do outro. Tome a sua posição, meu marido; ajoelhe-se aqui a meus pés, e venha dar-me seu primeiro beijo de amor... Porque o senhor ama-me, não é verdade, e nunca amou outra mulher senão a mim?...
Seixas ergueu-se; sua voz afinal desprendeu-se dos lábios calma, porém fremente:
- Não; não a amo.
- Ah!
- É verdade que a amei; mas a senhora acaba de esmagar a seus pés esse amor; aí fica ele para sempre sepultado na abjeção a que o arremessou. Eu só a amaria agora, se a quisesse insultar; pois que maior afronta pode fazer a uma senhora um miserável, do que marcando-a com o estigma de sua paixão. Mas fique tranqüila; ainda quando me dominasse a cólera, que não sinto, há uma vingança que não teria forças para exercer; é essa de amá-la.
Aurélia ergueu-se impetuosamente.
- Então enganei-me? exclamou a moça com estranho arrebatamento. O senhor ama-me sinceramente e não se casou comigo por interesse?
Seixas demorou um instante o olhar no semblante da moça, que estava suspensa de seus lábios, para beber-lhe as palavras:
- Não, senhora, não enganou-se, disse afinal com o mesmo tom frio e inflexível. Vendi-me; pertenço-lhe. A senhora teve o mau gosto de comprar um marido aviltado; aqui o tem como o desejou. Podia ter feito de um caráter, talvez gasto pela educação, um homem de bem, que se enobrecesse com sua afeição; preferiu um escravo branco; estava em seu direito, pagava com seu dinheiro, e pagava generosamente. Esse escravo aqui o tem; é seu marido, porém nada mais do que seu marido!
O rubor afogueou as faces de Aurélia, ouvindo essa palavra acentuada pelo sarcasmo de Seixas.
- Ajustei-me por cem contos de réis; continuou Fernando; foi pouco, mas o mercado está concluído. Recebi como sinal da compra vinte contos de réis; falta-me arrecadar o resto do preço, que a senhora acaba de pagar-me.
O moço curvou-se para apanhar o cheque. Leu com atenção o algarismo, e dobrando lentamente o papel, guardou-o no bolso do rico chambre de gorgorão azul.
- Quer que lhe passe um recibo?... Não; confia na minha palavra. Não é seguro. Enfim estou pago. O escravo entra em serviço.
Soltando estas palavras com pasmosa volubilidade, que parecia indicar o requinte da impudência, Fernando sentou-se outra vez defronte da mulher.
- Espero suas ordens.
Aurélia, que até esse momento escutara com ansiedade, perscrutando sôfrega no semblante do marido e através de suas palavras um sintoma de indignação, disfarçada por aquele desgarro, cobriu com as mãos o rosto abrasado de vergonha.
- Meu Deus!
A moça tragou o soluço que lhe sublevava o seio, e refu-giando-se no outro canto do sofá, como se receasse o contágio do homem a quem se unira pela eternidade, abismou-se na voragem de sua consciência revolta.
Após longo trato, Aurélia, como se despertasse de um pesadelo, ergueu os olhos e encontrando de novo o semblante de Seixas que a observava com um sossego escarninho, teve um enérgico assomo de repulsão, ou antes de asco.
- Minha presença a está incomodando? Porque assim o quer. Não é, senhora? Não tem direito de mandar? Ordene, que eu me retiro.
- Oh! sim, deixe-me! exclamou Aurélia. O senhor me causa horror.
- Devia examinar o objeto que comprava, para não arrepender-se!
Seixas atravessou a câmara nupcial, e desapareceu por essa porta que uma hora antes ele entrara cheio de vida e de felicidade, palpitante de júbilo e emoção, e que repassava levando a morte na alma.
Quando Aurélia ouviu o som dos seus passos que afastavam-se pelo corredor, precipitou-se com um arremesso de terror e deu volta à chave. Depois quis fugir, mas arrastou uns passos trôpegos, e caiu sem sentidos sobre o tapete.


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX e Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII à Capítulo X


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX