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SENHORA
José de Alencar


Capítulo V

Ao saber que estava justo o casamento da sobrinha, considerou-se o Lemos derrotado em seus planos. Como, porém, era homem que não abandonava facilmente uma boa idéia, cogitou no modo de não perder a partida.
A única idéia que lhe ocorreu foi de expediente banal; mas acontece que são estes precisamente os que surtem melhor efeito quando se trata de assuntos que se resolvem pelas conveniências sociais.
Em sua passagem para a casa de Aurélia, via Seixas à janela, na Rua das Mangueiras, uma menina, apontada entre as elegantes da Corte. Para o nosso jornalista fora inqualificável grosse-ria, encontrar-se com uma senhora bela e distinta, sem enviar-lhe no olhar e no sorriso a homenagem de sua admi-ração.
Seixas pertencia a essa classe de homens, criados pela socie-dade moderna, e para a qual o amor deixou de ser um sentimento e tornou-se uma fineza obrigada entre os cavalheiros e as damas de bom-tom.
A moça pertencia à mesma escola. Também ela era noiva, como o Seixas; e não obstante recebia com prazer o cortejo galante. Se por acaso os dous se encontrassem em alguma sala, ausentes daqueles com quem estavam prometidos, teceriam sem o menor escrúpulo um inocente idílio para divertir a noite.
Nessa casa da Rua das Mangueiras morava o Tavares do Amaral, empregado da alfândega. Lemos que freqüentava um velho camarada da vizinhança, talvez já na intenção de manter um ponto de observação, notou aquela mútua correspondência de Fernando com Adelaide.
A primeira vez que encontrou ao Amaral na Rua do Ouvidor, o velho insinuou-se em sua intimidade; a título de felicitação encareceu-lhe ao último ponto as vantagens do casamento da filha com Seixas.
- Com jeito, o melro está seguro! concluiu ao despedir-se.
Amaral não via de boa sombra a intimidade de sua filha Adelaide com o Dr. Torquato Ribeiro, que além de pobre, estava desarranjado. A idéia do Lemos sorriu-lhe. Achou modos de introduzir em casa Seixas, para quem este novo conhecimento veio a ser um tônico poderoso.
Desvanecidas as primeiras efusões do puro e íntimo contentamento, que lhe deixou o generoso impulso de pedir a mão de Aurélia, começara Fernando a considerar praticamente a influên-cia que devia exercer em sua vida esse casamento.
Calculou os encargos materiais que ia sujeitar-se para montar casa, e mantê-la com decência. Lembrou-se quanto avulta a despesa com o vestuário duma senhora que freqüenta a sociedade; e reconheceu que suas posses não lhe permitiam por enquanto o casamento com uma moça bonita e elegante, naturalmente inclinada ao luxo, que é a flor dessas borboletas de asas de seda e tule.
Encerrar-se no obscuro, mas doce conchego doméstico; viver das afeições plácidas e íntimas; dedicar-se a formar uma família, onde se revivam e multipliquem as almas que uniu o amor conjugal; essa felicidade suprema não a compreendia Seixas. O casamento, visto por este prisma, aparecia-lhe como um degredo, que inspirava-lhe indefinível terror.
Jamais poderia viver longe da sociedade, retirado desse mundo elegante que era sua pátria, e o berço de sua alma. As naturezas superiores obedecem a uma força recôndita. É a predestinação. Uns a têm para a glória, outros para o dinheiro; a dele era essa, a galanteria.
Algumas vezes, Seixas, receando pela saúde exposta sem repouso à ação de hábitos pouco higiênicos, sob a influência de um clima enervador, ia à fazenda de um amigo em Campos com tenção de passar por lá dous meses, em completa vegetação, acordando-se com o sol e recolhendo-se com ele.
Se era na estação da festa e haviam lá pela roça bailes e partidas, que arremedavam a vida da Corte, demorava-se uns quinze- dias: o tempo de compor com alguma espirituosa fazen-deirinha um gentil romance pastoril que terminava com umas estâncias, gênero Lamartine.
Quando, porém, a fazenda estava sossegada e na doce monotonia dos labores rurais, Fernando entregava-se ao que ele chamava a vida campestre, com um ardor infatigável. Erguia-se ao romper da alva, ia ao banho, corria as plantações, e voltava para o almoço com um feixe de parasitas, orquídeas e bromélias. Na força da soalheira andava pelas fábricas a ver despolpar o café, ou fazer o fubá.
Durava este entusiasmo campesino três dias. No quarto Fernando achava um pretexto qualquer para a volta precipitada, e antes de uma semana estava restituído à Corte. A primeira noite de baile ou partida, era uma ressurreição.
De um homem assim organizado com a molécula do luxo e do galanteio, não se podia esperar o sacrifício enorme de renunciar à vida elegante. Excedia isso a suas forças; era uma aberração de sua natureza. Mais fácil fora renunciar à vida na flor da mocidade, quando tudo lhe sorria, do que sujeitar-se a esse suicídio moral, a esse aniquilamento do eu.
Quando Seixas convenceu-se que não podia casar com Aurélia, revoltou-se contra si próprio. Não se perdoava a imprudência de apaixonar-se por uma moça pobre e quase órfã, imprudência a que pusera remate o pedido do casamento. O rom-pi-mento deste enlace irrefletido era para ele uma cousa ir-re-mediável, fatal; mas o seu procedimento o indignava.
Havia nessa contradição da consciência de Seixas com a sua vontade uma anomalia psicológica, da qual não são raros os exemplos na sociedade atual. O falseamento de certos princí-pios da moral, dissimulado pela educação e conveniências so-ciais, vai criando esses aleijões de homens de bem.
Quem não conhece o livro em que Otávio Feuillet glorificou sob o título de honra, as últimas hesitações de uma alma profundamente corrompida.
Seixas estava muito longe de ser um Camors; mas já nele começava o embotamento do senso moral, que o influxo de uma civilização adiantada, e no seio de uma sociedade corroída como a de Paris, acaba por abortar aqueles monstros.
Para o leão fluminense, mentir a uma senhora, insinuar-lhe uma esperança de casamento, trair um amigo, seduzir-lhe a mulher, eram passes de um jogo social, permitidos pelo código da vida elegante. A moral inventada para uso dos colégios nada tinha que ver com as distrações da gente do tom.
Faltar porém à palavra dada; retirar sem motivo uma promessa formal de casamento, era no conceito de Seixas ato que desairava um cavalheiro. No caso especial em que se achava, essa quebra de palavra tornava-se mais grave.
Aurélia não tinha outro arrimo senão a mãe, consumida pela enfermidade que pouco tempo de vida lhe deixava. Faltanto D. Emí-lia, ficaria a filha órfã, sem abrigo, ao desamparo. Abandonar nessas tristes condições uma pobre moça, tida por sua noiva, seria dar escândalo.
Independente da reprovação que o fato receberia de seu círculo, a própria consciência lhe advertia da irregularidade desse proceder, que ele não julgava qualificar severamente tachando-o de desleal.
Estas apreensões abateram o ânimo igual e prazenteiro de Seixas. Não perdeu o semblante a expressão afável, que era como a flor da nobre e inteligente fisionomia; nem apagou-se nos lábios o sorriso que parecia o molde da palavra persuasiva; mas sob essa jovialidade de aparato flutuava a sombra de uma tristeza, que devia ser profunda, pois se fixara nessa natureza volúvel e descuidosa.
Aurélia percebeu imediatamente a mudança que se havia operado em seu noivo, e inquiriu do motivo. Fernando disfarçou; a moça não insistiu; e até pareceu esquecer a sua obser-vação.
Uma noite porém, que Seixas se mostrara mais preocupado, na despedida ela disse-lhe:
- A sua promessa de casamento o está afligindo, Fernando; eu lha restituo. A mim basta-me o seu amor, já lho disse uma vez, desde que mo deu, não lhe pedi nada mais.
Fernando opôs às palavras de Aurélia frouxa negativa, e formulou uma pergunta cuja intenção a moça não alcançou:
- Julga você, Aurélia, que uma moça pode amar a um homem, a quem não espera unir-se?
- A prova é que o amo, respondeu a moça com candura.
- E o mundo? proferiu Seixas com reticências no olhar.
- O mundo tem o direito de exigir de mim a dignidade da mulher; e esta ninguém melhor do que o senhor sabe como a respeito. Quanto a meu amor não devo contas senão a Deus que me deu uma alma, e ao senhor a quem a entreguei.
Fernando retirou-se ainda mais descontente e aborrecido. Essa afeição ardente, profunda, sublime de abnegação, ao passo que lisonjeava-lhe o amor-próprio, ainda mais o prendia a essa formosa menina, de quem o arredavam fatalmente seus instintos aristocráticos e o terror pânico da mediania laboriosa.
Quando propusera a Aurélia a questão de sua posição equívoca, esperava acordar escrúpulos, que lhe dariam pretextos para de todo cortar essas tão doces, quanto perigosas relações. A resposta da menina o desconcertou.
Foi nestas circunstâncias que Seixas recebeu o oferecimento do Amaral, e cedendo às suas instâncias amáveis, começou a freqüentar-lhe a casa.
Sem este incidente, ficaria a debater-se na terrível colisão, a que o haviam trazido os acontecimentos, esperando do tempo uma solução, que seu ânimo indolente não se animaria a precipitar.
Aquele pequeno desvio porém o lançara fora do torvelinho, submetendo-o a uma nova corrente que ia apoderar-se dele e conduzi-lo para longe.
O Torquato Ribeiro amava sinceramente a Adelaide. A volubilidade da moça ofendeu-o, e ele retirou-se da casa deixando o campo livre a seu adversário, que não carecia dessa vantagem. Amaral, dócil aos conselhos do Lemos, tratou como dizia o velho de bater o ferro quente.
Seixas convidado a jantar um domingo em casa do empregado, fumava um delicioso havana ao levantar-se da mesa coberta de finas iguarias, e debuxava com um olhar lânguido os graciosos contornos do talhe de Adelaide, que lhe sorria do piano, embalando-o em um noturno suavíssimo.
Amaral sentou-se ao lado; sem preâmbulos, nem rodeios, à queima-roupa, ofereceu-lhe a filha com um dote de trinta contos de réis.
Seixas aceitou. Esse projeto de casamento naquele instante era a prelibação das delícias com que sonhava sua fantasia, excitada menos pelo champanhe, do que pela sedução de Adelaide.
A principal razão que moveu Seixas foi outra porém. Fez como os devedores, que se liberam dos compromissos, que-brando.
Receoso de sua coragem para recuperar a isenção, penhorou-se a outros, que o reclamassem e o defendessem como cousa sua.

Capítulo VI

Aurélia passava agora as noites solitária.
Raras vezes aparecia Fernando, que arranjava uma desculpa qualquer para justificar sua ausência. A menina que não pensava em interrogá-lo, também não contestava esses fúteis inventos. Ao contrário buscava afastar da conversa o tema desagradável.
Conhecia a moça que Seixas retirava-lhe seu amor; mas a altivez de coração não lhe consentia queixar-se. Além de que, ela tinha sobre o amor idéias singulares, talvez inspiradas pela posição especial em que se achara ao fazer-se moça.
Pensava ela que não tinha nenhum direito a ser amada por Seixas; e pois toda a afeição que lhe tivesse, muita ou pouca, era graça que dele recebia. Quando se lembrava que esse amor a poupara à degradação de um casamento de conveniência, nome com que se decora o mercado matrimonial, tinha impulsos de adorar a Seixas, como seu Deus e redentor.
Parecerá estranha essa paixão veemente, rica de heróica dedicação, que entretanto assiste calma, quase impassível, ao declínio do afeto com que lhe retribuía o homem amado, e se deixa abandonar, sem proferir um queixume, nem fazer um esforço para reter a ventura que foge.
Esse fenômeno devia ter uma razão psicológica, de cuja investigação nos abstemos; porque o coração, e ainda mais o da mulher que é toda ela, representa o caos do mundo moral. Ninguém sabe que maravilhas ou que monstros vão surgir desses limbos.
Suspeito eu, porém, que a explicação dessa singularidade já ficou assinalada. Aurélia amava mais seu amor do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o ideal ao homem.
Quem não compreender a força desta razão, pergunte a si mesmo por que uns admiram as estrelas com os pés no chão, e outros alevantados às grimpas curvam-se para apanhar as moedas no tapete.
Desde que se comprometeu com Amaral, pensou Fernando em cortar de uma vez o fio que ainda o prendia a Aurélia; nessa disposição repetiu suas visitas.
Em princípio a menina cuidou que Seixas lhe voltava, e encheu-se de júbilo; mas não durou a ilusão. Logo percebeu que não era o desejo de vê-la e estar com ela, o que levava o moço à sua casa, pois os poucos instantes de demora passava-os inteiramente distraído e como perplexo.
- O senhor quer dizer-me alguma cousa, mas receia afligir-me, observou a menina uma noite com angélica resignação.
Fernando aproveitou a ocasião para resolver a crise.
- Meu voto mais ardente, Aurélia, sonho dourado de minha vida, era conquistar uma posição brilhante para depô-la aos pés da única mulher que amei neste mundo. Mas a fatalidade que pesa sobre mim aniquilou todas as minhas esperanças; e eu seria um egoísta, se prevalecendo-me de sua afeição, a associas-se a uma existência obscura e atribulada. A santidade de meu amor deu-me a força para resistir a seus próprios impulsos. Disse uma vez à sua mãe, pressentindo com sua situação: Sou menos infeliz renunciando à sua mão, do que seria aceitando-a para fazê-la desgraçada, e condená-la às humilhações da pobreza.
- Essas já as conheço, respondeu Aurélia com tênue ironia, e não me aterram; nasci com elas, e têm sido as companheiras de minha vida.
- Não me compreendeu, Aurélia; referia-me a um partido vantajoso que decerto aparecerá, logo que esteja livre.
- Pensa então que basta uma palavra sua para restituir-me a liberdade? perguntou a moça com um sorriso.
- Sei que a fatalidade que nos separa não pode romper o elo que prende nossas almas, e que há de reuni-las em mundo melhor. Mas Deus nos deu uma missão neste mundo, e temos de cumpri-la.
- A minha é amá-lo. A promessa que o aflige, o senhor pode retirá-la tão espontaneamente como a fez. Nunca lhe pedi, nem mesmo simples indulgência, para esta afeição; não lhe pedirei neste momento em que ela o importuna.
- Atenda, Aurélia! Lembre-se de sua reputação. Que não diriam se recebesse a corte de um homem, sem esperança de ligar-se a ele pelo casamento?
- Diriam talvez que eu sacrificava a um amor desdenhado, um partido brilhante, o que é uma...
A moça cortou a ironia, retraindo-se:
- Mas não; faltariam à verdade. Não sacrifiquei nenhum partido; o sacrifício é a renúncia de um bem; o que eu fiz foi defender a minha afeição. Sejamos francos: o senhor já não me ama; não o culpo, e nem me queixo.
Seixas balbuciou umas desculpas e despediu-se.
Aurélia demorou-se um instante na rótula, como costumava, para acompanhar ao amante com a vista até o fim da rua. Se Fernando não estivesse tão entregue à satisfação de haver readquirido sua liberdade, teria ouvido no dobrar da esquina o eco de um soluço.
No dia seguinte D. Emília recebeu de Seixas uma dessas cartas que nada explicam, mas que em sua calculada ambigüidade exprimem tudo. Compreendeu a viúva ao terminar a leitura do logogrifo epistolar, que estava roto o projetado casamento, e estimou o resultado. A boa mãe nutria ainda a esperança de persuadir a filha a aceitar a mão de Abreu.
Por esse tempo entrou Torquato Ribeiro a freqüentar a casa de D. Emília. Soubera ele do procedimento que Seixas tivera com a viúva; e a conformidade de infortúnio o atraiu. Referiu a Aurélia a inconstância de Adelaide, que atribuiu à sua pobreza.
A moça o ouvia com meiguice, e o consolava; mas apesar da intimidade que se estabeleceu entre ambos, nunca lhe falou de seus próprios sentimentos. Tinha o pudor de sua tristeza, que não lhe consentia confidências. Seria altivez, mas ela a vestia de um recato modesto e lhano.
As exprobrações de Ribeiro contra a infidelidade de que fora vítima haviam lançado no espírito de Aurélia uma suspeita acerba. Seria a abastança do Amaral que atraíra Fernando, e não o amor de Adelaide?
A moça repeliu constantemente essa idéia, que lhe imbuíram os ressentimentos de Ribeiro; mas chegou o momento em que lhe arrancaram a dúvida consoladora.
Recebeu uma carta anônima. Comunicavam-lhe que Seixas a tinha abandonado por um dote de trinta contos de réis. Acabando de ler estas palavras levou a mão ao seio, para suster o coração que se lhe esvaía.
Nunca sentira dor como esta. Sofrera com resignação e indiferença o desdém e o abandono; mas o rebaixamento do homem, a quem amava, era um suplício infindo, de que só podem fazer idéia os que já sentiram apagarem-se os lumes d'alma, ficando-lhes a inanidade.
Debalde, Aurélia refugiou-se nos primeiros sonhos de seu amor. A degradação de Seixas repercutia no ideal que a menina criara em sua imaginação, e imprimia-lhe o estigma. Tudo ela perdoou a seu volúvel amante; menos o tornar-se indigno do seu amor.
Que pungente colisão! Ou expelir do coração esse amor que tinha decaído, e deixar a vida para sempre erma de um afeto; ou humilhar-se adorando um ente que se aviltara, e associando-se à sua vergonha.
A notícia do procedimento atribuído a Seixas não passava de uma denúncia anônima, que podia ser inspirada pela malignidade. Não obstante, Aurélia não hesitou em acreditá-la; uma voz interior dizia-lhe que era aquela a verdade.
Poucas horas depois aproximando-se da rótula para abri-la à criada, viu por entre as grades passar o Lemos, que olhava para a casa com ares garotos.
Atravessou-lhe pelo espírito a idéia de que era o autor da carta; e confirmou-se nela quando notou os manejos com que o velho nos dias subseqüentes tentou inutilmente apanhá-la à janela.
Como esperava D. Emília, Eduardo Abreu voltou apenas soube da retirada de Seixas. Aurélia recebeu-o cheia de reconhecimento pela afeição que havia inspirado a esse moço e de admiração por seu nobre caráter.
- Não me pertenço, Senhor Abreu; se algum dia pudesse arrancar-me a este amor fatal, e recuperar a posse de mim mesma, creia que teria orgulho em partilhar a sua sorte.
Três dias depois partia um vapor para Europa. Abreu tomou passagem, e foi aturdir-se em Paris, onde lhe ficaram as ilusões da mocidade, e algumas dezenas de contos de réis, mas não a lembrança de Aurélia.
Entretanto Seixas começava a sentir o peso do novo jugo a que se havia submetido.
O casamento, desde que não lhe trouxesse posição brilhante e riqueza, era para ele nada menos que um desastre.
As despesas de ostentação com sua pessoa unicamente absorviam-lhe todo o rendimento anual, além dos créditos suplementares. Que seria dele quando além do seu, tivesse de prover também ao luxo de uma mulher elegante, que ela só come em sedas mais do necessário ao alimento de uma numerosíssima família? Isto sem falar da casa, que se em solteiro ele conseguira reduzir ao estado de mito, adquiria para o marido de uma senhora à moda uma evidência cara.
A promessa feita ao pai de Adelaide era explícita e formal. Em caso algum Seixas se animaria a negá-la e faltar desgarradamente à sua palavra; mas como não se obrigara a realizar o casamento em prazo fixo, esperava do tempo, que é grande resolvente, uma emergência feliz que o libertasse.
Por essa época predispuseram-se as cousas para a candidatura que o nosso escritor sonhava desde muito tempo; e coincidindo elas com a partida da tal estrela nortista, lembrou-se Fernando de fazer uma excursão ero-política por Pernambuco, a expensas do Estado.
Nunca porém se resolveria a esse desterro de ano, se não esperasse com esse adiamento esgotar a paciência de Adelaide.
Tanto a moça, como o pai instaram para efetuar o casamento antes da partida, mas Fernando, que do seu tirocínio de ofi-cial de gabinete aprendera todas as manhas de ministro, e se preparava para copiá-las em um futuro não muito remoto, apôs à pretensão da noiva a razão de Estado.
Recebera ordem do governo para partir imediatamente; se não obedecesse, arriscava-se a uma demissão.


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX e Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII à Capítulo X


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX