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SENHORA
José de Alencar


SEGUNDA PARTE
Quitação

Capítulo I

Dois anos antes deste singular casamento, residia à Rua de Santa Teresa uma senhora pobre e enferma.
Era conhecida por D. Emília Camargo; tinha em sua companhia uma filha já moça, a que se reduzia toda a sua família.
Passava por viúva, embora não faltassem malévolos para quem essa viuvez não era mais do que manto decente a vendar o abandono de algum amante.
Havia uns laivos de verdade nessa injusta suspeita.
Quando moça, D. Emília Lemos teve inclinação por um estudante de medicina, que dela se apaixonara. Certo de que seu afeto era retribuído, Pedro de Sousa Camargo, o estudante, animou-se a pedi-la em casamento.
Vivia Emília na companhia do Sr. Manuel José Correia Lemos, seu irmão mais velho e chefe da família. Tratou este de colher informações acerca do moço. Veio ao conhecimento de que era filho natural de um fazendeiro abastado, que o mandara estudar e tratava-o à grande. Não o tinha porém reconhecido, o que era de suma importância, pois além de existir a mãe do fazendeiro lá para as bandas de Minas, o sujeito ainda estava robusto e podia bem casar-se e ter filhos legítimos.
À vista destas informações entendeu Lemos que não se podia prescindir de certas formalidades, dispensáveis no caso de ser o rapaz herdeiro necessário. O irmão de Emília era apenas remediado, e já custava-lhe bem agüentar com o peso de doze pessoas que tinha às costas, para arriscar-se ainda ao contrapeso de mais esta nova família em projeto.
- Por nossa parte, não há dúvida, meu camaradinha. Arranje a licença do papai, ou o reconhecimento por escritura pública; o resto fica por minha conta.
Era uma recusa formal, porquanto Pedro Camargo jamais se animaria a confessar o seu amor ao pai, que lhe inspirava desde a infância, pela rudeza e severidade da índole, um supersticioso terror.
- Sua família me repele, Emília, porque sou pobre e não posso contar com a herança de meu pai, disse o estudante a primeira vez que encontrou-se com a namorada.
A irmã de Lemos sabia pelas explicações dos parentes, que efetivamente era aquele o motivo da recusa.
- Ela o repele porque é pobre, Senhor Camargo; mas eu o aceito por essa mesma razão.
- Quer ser minha mulher ainda, Emília? Apesar da oposição de seus parentes? Apesar de não ser eu mais do que um estudante sem fortuna?
- Desde que o motivo da oposição de meus parentes, não é outro senão sua pobreza, sinto-me com forças de resistir. Que maior- felicidade posso eu desejar do que partilhar sua sorte, boa ou má?
- Eu não me animava a pedir-lhe esta prova de seu amor, Emília. Você é um anjo!
Quinze dias depois, Pedro Camargo parava à porta de Lemos em um carro. Era a hora do chá; estavam todos na sala de jantar. Emília que se recolhera a pretexto de incômodo, desceu a escada sem que a percebessem.
No dia seguinte pela manhã, Lemos, de jornal aberto, tomava nota dos anúncios, tarefa habitual com que estreava o dia, quando lhe entregaram uma carta. A capa era de relevos, e o conteúdo um quarto de papel cetim com estas palavras:
"Pedro de Sousa Camargo
e D. Emília Lemos Camargo
têm a honra de participar a V. S.a o seu casamento.

Rio de Janeiro, etc."

Na casa de Lemos ninguém acreditou em semelhante casamento. Para a família, a moça não era senão a amante de Pedro Camargo; e por conseguinte uma mulher perdida.
Entretanto o casamento fora celebrado na Matriz do Engenho Velho, em segredo, mas com todas as formalidades; pois os noivos eram maiores, e haviam requerido as dispensas neces-sárias.
Por esse tempo o fazendeiro Lourenço de Sousa Camargo recebeu o aviso de que o filho vivia com uma rapariga que tirara de casa da família. Acrescentava o oficioso amigo que o estudante já se inculcava de casado; portanto não seria de espantar se coroasse a primeira extravagância com a loucura de semelhante união.
Despachou imediatamente o velho um de seus camaradas, o mais decidido, com intimação ao filho para recolher-se à fazenda no prazo de uma semana. O emissário trazia ordem terminante de conduzi-lo à força, caso não obedecesse.
Pedro Camargo arrancou-se aos braços de sua Emília, prometendo-lhe voltar breve para não mais separarem-se. Passados os primeiros assomos da irritação do velho, aproveitaria qualquer ocasião para confessar-lhe tudo. O pai, que o amava, não lhe negaria o perdão de uma falta irremediável e santificada pela religião.
Faltou, porém, ao moço a coragem para afrontar novamente as iras do fazendeiro com a revelação do seu casamento. Preparava-se, fazia firme tenção; mas no momento propício fugia-lhe a resolução.
Assim correram os dias, e prolongou-se a ausência de Pedro Camargo. Escrevia ele à sua Emília longas cartas cheias de ternuras e protestos, nas quais prometia-lhe partir dentro em poucos dias para levá-la à fazenda.
Ao mesmo tempo e por intermédio de um amigo remetia à mulher os meios de prover à sua subsistência, enquanto não podia chamá-la para sua companhia; o que se realizaria logo que revelasse ao pai o segredo do casamento.
Emília muito sofreu com essa ausência; não tanto pela posição falsa em que ficara, mas sobretudo pelo amor que tinha ao marido. Era porém feita para as abnegações; em suas cartas a Pedro, nunca lhe escapou a menor queixa. Longe de exprobrar-lhe os receios, que a mantinham na incerteza de sua sorte; ao contrário o consolava do remordimento que sentia de sua própria timidez.
Ao cabo de um ano, desvanecidas se não dissipadas as suspeitas do velho fazendeiro, consentiu ele que o filho viesse à Corte de passagem.
Reviram-se os dois esposos depois de tão longa ausência, e amaram-se nesses poucos dias por todo o tempo da separação.
Encontrou Pedro Camargo já com dois meses o seu primeiro filho, a que deu o nome de Emílio, apesar das instâncias da mãe, que instava por Pedro.
Não, Pedro não; é o nome de um infeliz, respondia o marido com os olhos cheios de lágrimas.
Continuou este singular teor da vida dos dois esposos que passavam juntos em sua casinha da Rua de Santa Teresa algumas semanas intercaladas por muitos meses de separação.
Essas ausências acrisolavam o amor, e lhe davam uma exuberância que mais tarde expandia-se com ignoto fervor. Os dias que Pedro Camargo demorava-se na Corte era uma bem-aven-turança para dois corações que se reproduziam um no outro.
Emília se resignou à sorte que lhe reservara a Providência; ainda assim julgava-se bem feliz com a afeição e ternura do homem a quem escolhera.
Refletira que sabendo de seu casamento talvez se irritasse o velho fazendeiro, e destruísse de repente essa ventura que lhe coubera em partilha, a ela e seu marido.
Além de que Pedro Camargo era filho natural ainda não reconhecido; seu futuro dependia exclusivamente da vontade do pai, que podia abandoná-lo como a um estranho, deixando-o reduzido à indigência. Esta circunstância influiu muito no espírito de Emília; não por si, que não tinha ambição: mas era esposa e mãe.
A esse tempo já lhe havia nascido também uma filha que chamou-se Aurélia, por ter sido este o nome da mãe de Pedro Camargo, infeliz rapariga, que morrera da vergonha de seu erro.
Convencida do perigo de revelar o segredo de seu casamento, Emília condenou-se a uma existência não somente obscura, mas suspeita. Bem custava à sua virtude o desprezo injusto que a envolvia, e o escárnio a pungia; mas era por seu marido e por seus filhos que sofria. Refugiava-se no isolamento; confortava-se com a esperança da reparação.
Cresceram os dois filhos de Camargo; ambos eles receberam excelente educação. As liberalidades do velho fazendeiro permitiam que Pedro tratasse a família com decência e abastança; tanto mais quanto não tinha ele cousa com que distraísse dinheiro daquele honesto emprego, a não ser o seu modesto vestuário.
Haviam decorrido doze anos depois do casamento de Pedro Camargo e estava ele com trinta e seis, quando seu caráter fraco e irresoluto foi submetido a uma prova cruel.
Por diversas vezes mostrara o fazendeiro ao filho desejos de vê-lo casado; mas essas veleidades sem alvo determinado passavam, e as labutações da vida rural distraíam o velho das preocupações domésticas. Pedro Camargo quitava-se deste perigo com um pequeno susto.
Afinal, porém, o pai exigiu formalmente dele que se casasse, e indigitou-lhe a pessoa já escolhida. Era a filha de um rico fazendeiro da vizinhança. Tinha ela completado os quinze anos; antes que a notícia deste dote sedutor chegasse à Corte, tratou o velho Camargo de arranjá-lo para o filho.
Pedro opôs à vontade do pai a resistência passiva. Nunca se animou a dizer não; mas também não se moveu para cumprir as recomendações ou antes ordens que lhe dava o fazendeiro. Este esbravejava; ele abaixava a cabeça, e passada a tormenta, caía outra vez na inércia.
Quando o fazendeiro viu que apesar dos seus ralhos e gritos o filho não se decidia a visitar a moça, irou-se por modo que ameaçou expulsá-lo de casa, se não montasse a cavalo naquele mesmo instante para ir à fazenda vizinha ver a noiva e reiterar ao pai o pedido feito em seu nome.
Pedro Camargo não disse palavra. Desceu à estrebaria; selou o animal; pôs a garupa sua maleta; e partiu, mas não para a fazenda vizinha. Foi ter a um rancho, onde contava demorar-se o tempo preciso para dar alguma direção à sua vida.
Durante esta provança tinha continuado a escrever à mulher; mas ocultou-lhe o transe por que estava passando, para não afligi-la.
A resistência à vontade do pai, a quem acatava profundamente, e as sublevações de sua consciência contra o receio de confessar a verdade, abalaram violentamente o robusto organismo desse homem forte para os trabalhos físicos, mas não feito para essas convulsões morais.
Pedro Camargo foi acometido de uma febre cerebral, e sucumbiu no rancho aonde procurara um abrigo, longe dos socorros e quase ao desamparo. Apenas teve para acompanhá-lo em seus últimos instantes um tropeiro que vinha para a Corte.
Trazia o infeliz consigo cerca de três contos de réis, que desde certo tempo começara a juntar com intenção de estabelecer-se nalguma modesta rocinha, onde pudesse viver tranqüilo com a família.
A sorte não o consentiu. Confiou ele o dinheiro ao tropeiro pedindo-lhe que o entregasse de sua parte à sua mulher. Recomendou-lhe porém que não contasse o desamparo em que o vira, para não acabrunhá-la ainda mais.
Cumpriu o tropeiro o encargo com uma probidade, de que ainda se encontram exemplos freqüentes nas classes rudes, especialmente do interior.
Emília cobriu-se do luto que não despiu senão para trocá-lo pela mortalha. Mais negro porém e mais triste do que o vestido era o dó de sua alma, onde jamais brotou um sorriso.

Capítulo II

A viuvez tornou ainda mais isolada e recolhida a existência de Emília, acrescentando-lhe a indiferença e desapego do -mundo.
O único elo que a prendia à terra eram seus filhos; mas tinha o pressentimento de que não permaneceria muito tempo com eles. O marido a chamava; abandonou-se àquela atração que a aproximava do ente a quem mais amara, e a desprendia aos poucos do espólio que ainda a retinha neste vale de lágrimas.
Só uma inquietação a afligia, ao pensar no próximo termo de seu infortúnio; era a lembrança do desamparo em que ia ficar sua filha Aurélia, já nesse tempo moça, na flor dos dezesseis anos.
De sua família, não podia Emília esperar arrimo para a órfã. As relações, cortadas por ocasião de seu casamento, nunca mais se haviam reatado. Os parentes continuavam a considerá-la mulher perdida; e evitavam o contágio de sua reputação.
Do sogro, também já recebera a pobre viúva o desengano. Depois do falecimento do marido e logo que a dor lhe permitiu outros cuidados, escrevera ao Lourenço de Sousa Camargo, revelando-lhe o segredo do casamento, e implorando sua proteção para os filhos de seu filho.
O fazendeiro, da mesma forma que os parentes de Emília, não acreditou na realidade de um casamento oculto até àquela época, e do qual não aparecia documento ou outra prova.
A carta da viúva só lhe revelou a continuação de relações que ele supunha deste muito extintas.
Atinando que fora a influência dessa mulher a causa da desobediência do filho, lançava-lhe a culpa da desgraça que sobreveio, esquecido de que ninguém sofrera tanto como ela pois além da viuvez, a morte do marido deixava-lhe a pobreza e a desonra.
Ainda assim, nessa disposição de ânimo, foi generoso o Camargo. Mandou entregar a Emília um conto de réis; dinheiro cru e seco sem uma palavra de consolo ou de esperança. A pessoa que o levou à viúva, fez-lhe sentir que tão avultada esmola devia livrar o fazendeiro de futuras importunações.
O Emílio, que podia ser o amparo natural da irmã, quando viesse a faltar-lhe a mãe, não estava infelizmente nas condições de receber o difícil encargo. Ao caráter irresoluto do pai, juntava ele um espírito curto e tardio. Apesar de haver freqüentado os melhores colégios, achava-se aos dezoito anos tão atrasado como um menino de regular inteligência e aplicação aos doze anos.
Reconhecendo sua inaptidão para alguma das carreiras literárias, Emília lembrara-se de encaminhá-lo à vida mercantil. Por intermédio do correspondente do marido e pouco tempo depois da morte deste, fora o rapaz admitido como caixeiro de um corretor de fundos.
Por mais esforços que fizesse o pobre Emílio, não lograva destrinçar as efemérides financeiras do movimento dos fundos públicos e oscilações do mercado monetário. Isto que aí qualquer filhote de zangão, a quem não desponta ainda o bigode, avia em duas palhetadas, era para Emílio ciência mais abstrusa do que a astronomia.
Chegava a casa com a sua tábua de câmbios, o preço corrente,- a cotação da praça e as notas que lhe havia dado o corretor. Sentava-se à mesa; preparava o tinteiro e o papel, mas não havia meio de começar. Seu espírito embrulhava-se por modo na tal meiada, que não atava nem desatava. Ao cabo chorava de -raiva.
Corria então Aurélia a consolá-lo. Sabia ela já a causa daquele pranto, cuja explicação uma vez lhe arrancara à força de carinho e meiguice. Tirava-o do desespero, animava-o a tentar a operação, e para suster-lhe os esforços ia auxiliando-lhe a memória e dirigindo o cálculo.
A natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da mulher de talento, que se não atinge ao vigoroso raciocínio do homem, tem a preciosa ductilidade de prestar-se a todos os assuntos, por mais diversos que sejam. O que o irmão não conseguira em meses de prática, foi para ela estudo de uma semana.
Desde então, o caixeiro que ia à praça receber as ordens do patrão e levar-lhe os recados, era o Emílio, mas o corretor que fazia todos os cálculos e operações, ou arranjava o preço corrente, era Aurélia. Assim poupava a menina um desgosto ao irmão, e o mantinha no emprego a tanto custo arranjado.
Bem se vê, pois, que Emílio longe de prometer um amparo à irmã, ao contrário tinha de ser, se já não era, um oneroso sacrifício para a menina, obrigada a consumir com ele o tempo e os poucos recursos, fruto de seu trabalho.
Nestas circunstâncias, a mãe só via para a filha o natural e eficaz apoio de um marido. Por isso não cessava de tocar a Aurélia neste ponto, e a propósito de qualquer assunto.
Se vinha a falar-se de sua moléstia que fazia rápidos progressos, dizia Emília à filha:
- O que me aflige é não ver-te casada. Mais nada.
Quando lembravam-se que o dinheiro deixado por Pedro Camargo e a esmola do fazendeiro haviam de acabar-se um dia, ficando elas na indigência, acudia a viúva:
- Ah! se eu te visse casada!
Aurélia é quem suportava todo o peso da casa. Sua mãe, abatida pela desgraça e tolhida pela moléstia, muito fazia, evitando por todos os modos tornar-se pesada e incômoda à filha. Envolvera-se ainda em vida em uma mortalha de resignação, que lhe dispensava o médico, a enfermeira e a botica.
Os arranjos domésticos, mais escassos na casa do pobre, porém de outro lado mais difíceis, o cuidado da roupa, a conta das compras diárias, as contas do Emílio e outros misteres, tomavam-lhe uma parte do dia; a outra parte ia-se em trabalhos de costura.
Não lhe sobrava tempo para chegar à janela; à exceção de algum domingo em que a mãe podia arrastar-se até à igreja à hora da missa e de alguma volta à noite acompanhada pelo irmão, não saía de casa.
Esta reclusão afligia a viúva, que muitas vezes lhe dizia:
- Vai para a janela, Aurélia.
- Não gosto! respondia a menina.
Outras vezes, ante a insistência da mãe, buscava uma desculpa:
- Estou acabando este vestido.
Emília calava-se, contrariada. Uma tarde porém manifestou todo o seu pensamento.
- Tu és tão bonita, Aurélia que muitos moços se te conhecessem haviam de apaixonar-se. Poderias então escolher algum que te agradasse.
- Casamento e mortalha no céu se talham, minha mãe, respondia a menina rindo-se para encobrir o rubor.
O coração de Aurélia não desabrochara ainda; mas virgem para o amor, ela tinha não obstante a vaga intuição do pujante afeto, que funde em uma só existência o destino de duas criaturas, e completando-as uma pela outra, forma a família.
Como todas as mulheres de imaginação e sentimento, ela achava dentro em si, nas cismas do pensamento, essa aurora d'alma que se chama o ideal, e que doura ao longe com sua doce luz os horizontes da vida.
O casamento, quando acontecia pensar nele alguma vez, apresentava-se a seu espírito como uma cousa confusa e obscura;- uma espécie de enigma, do seio do qual se desdobrava de repente um céu esplêndido que a envolvia, inundando-a de feli-cidade.
Em sua ingenuidade não compreendia Aurélia a idéia do casamento refletido e preparado. Mas a insistência de sua mãe, inquieta pelo futuro, fez que ela se ocupasse com esta face da vida real.
Reconheceu que não tinha direito de sacrificar a um sonho de imaginação, que talvez nunca se realizasse, o sossego de sua mãe primeiro, e depois seu próprio destino, pois que sorte a esperava, se tivesse a desgraça de ficar só no mundo?
O golpe que sofreu por esse tempo, ainda mais a dispôs ao sacrifício de suas aspirações.
Emílio, recolhendo-se muito fatigado, uma tarde de excessivo calor, cometeu a imprudência de tomar um banho frio. A conseqüência foi uma febre de mau caráter que o levou em poucos dias.
Aurélia não deixou a cabeceira do leito desse irmão, a quem ela amava com desvelo maternal. Os cuidados incessantes e os extremos de que o cercou, bem como a necessidade de acudir a tudo, foi talvez o que a salvou de ser fulminada por essa des-graça.
A viúva que mal resistira ao golpe da perda do filho, ainda mais se aterrava agora com o isolamento em que ia deixar Aurélia. Se Emílio não prometia à irmã um arrimo, em todo o caso era uma companhia, e podia dar-lhe ao menos a proteção material, quando não fosse senão de sua presença.
Redobraram pois as insistências da pobre viúva, e Aurélia ainda coberta do luto pesado que trazia pelo irmão, condescendeu com a vontade da mãe, pondo-se à janela todas as tardes.
Foi para a menina um suplício cruel essa exposição de sua beleza com a mira no casamento. Venceu a repugnância que lhe inspirava semelhante amostra do balcão, e submeteu-se à humilhação por amor daquela que lhe dera o ser e cujo único pensamento era sua felicidade.


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX e Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII à Capítulo X


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX