SENHORA
José de Alencar
Capítulo III
Era a hora do
almoço. As duas senhoras puseram-se à mesa. Aurélia
distinguia-se pela sobriedade, que era nela a conseqüên-cia
de temperamento e educação. Não quer isto dizer
que fosse dessa espécie de moças papilionáceas
que se alimentam do pólen das flores, e para quem o comer
é um ato desgracioso e prosaico.
Bem ao contrário, ela sabia que a nutrição
dá a seiva de beleza, sem a qual as cores desmaiam nas faces
e os sorrisos nos lábios, como as efêmeras e pálidas
florações de uma roseira -ética.
Assim não tinha vergonha de comer; e sem vaidade acreditava
que o esmalte de seus dentes não era menos gracioso quando
eles se triscavam como a crepitação de um colar de
pérolas; nem o matiz de seus lábios menos saboroso
quando chupavam uma fruta, ou se entreabriam para receber o alimento.
Nessa ocasião, a moça fez exceção a
seus hábitos de sobrie-dade; ela que não gostava de
especiarias, e só de longe em longe bebia algumas gotas de
licor, quis experimentar quanto molho e condimento picante havia
em casa; e para remate bebeu um cálice de Xerez.
D. Firmina sem esquecer o almoço, continuava a observar de
parte a menina, cada vez mais convencida da existência de
um acontecimento importante que havia alterado a calma habi-tual
da moça.
Esse acontecimento, na opinião da viúva, não
podia ser outro senão aquele que tamanha influência
exerce nas meninas de dezoito anos, sobretudo se não dependem
de ninguém para dispor de si.
D. Firmina tinha pois como certo que Aurélia, a desdenhosa,
sentira afinal uma inclinação; e estava ansiosa a
viúva, para conhecer o feliz que tivera o poder de cativar
a altiva rainha dos salões, tão adorada, quanto fria
e indiferente.
Revolvia na mente as recordações da noite anterior
para certificar-se que não aparecera no baile nenhum moço
desconhecido de quem Aurélia se pudesse apaixonar de súbito.
Devia ser pois qualquer dos antigos adoradores, dos que ela escarnecia,
que por alguma circunstância inexplicável alcançara
render-lhe enfim o coração.
Não se pôde conter a viúva; em risco de desagradar
a menina, dirigiu-lhe uma indireta com que se propunha a entabular
a conversa, e conforme a resposta dirigi-la para o ponto.
- Não sei que lhe acho hoje, Aurélia! Parece-me tão
contente, e até mais bonita, se é possível,
do que de costume!
- Deveras!
- Não é exageração, não. Olhe?
As moças quando se vestem para um baile onde esperam encontrar
alguém, ficam mais bonitas do que são. Mas você
está hoje ainda mais bonita do que nos bailes. Nunca lhe
vi assim. Aqui anda volta de algum segredinho!
- Quer saber qual é? perguntou Aurélia com um sorriso.
- Não sou curiosa, replicou a viúva sentindo o pungir
daquele sorriso.
- Resolvi ser freira!
- Está bom!
- Mas o meu convento há de ser este mesmo mundo em que vivemos,
que nenhum outro teria mais penitências e mortificações
para mim.
Desmentindo logo após a gravidade destas palavras com uma
risada galhofeira, Aurélia deixou na sala de jantar D. Firmina,
espantada de que uma menina imensamente rica e formosa, desejada
por todos, pudesse ter semelhantes pensamentos, ainda mesmo por
gracejo.
Aurélia que se dirigira ao seu toucador, sentou-se a uma
escrivaninha de araribá guarnecido de relevos de bronze dourado
e escreveu uma carta de poucas linhas.
A todos os pormenores dessa comezinha operação, no
dobrar a folha de papel, encerrá-la na capa, derreter o lacre
e imprimir o sinete, a moça deliberadamente aplicava a maior
atenção e esmero.
Ou essa carta era destinada a quem tudo lhe merecia, ou nesse apuro
e cuidado buscava Aurélia disfarçar a hesitação
que a surpreendera no momento de realizar uma idéia anteriormente
assentada.
Depois de sobrescrita a carta, a moça tirou do segredo da
secretária um cofre de sândalo embutido de marfim.
Havia ali entre cartas e flores murchas um cartão de visita,
já amarelo, que ela escondeu no bolso do roupão, depois
de guardado na sua carteirinha de veludo.
Ao som do tímpano apareceu um criado. Aurélia entregou-lhe
a carta com um gesto vivo e a voz breve, como receosa de súbito
arrependimento.
- Para o Sr. Lemos! Depressa!
Sentiu então Aurélia essa quietude que sucede às
lutas do coração. Ela tinha afinal resolvido o problema
inextricável de sua vida; e em vez de abandonar-se ao acaso
e deixar-se levar pelo turbilhão do mundo, achara em sua
alma a força precisa para dirigir os acontecimentos e dominar
o futuro.
Daí provinha a calma de que revestia-se ao deixar o toucador
e que outra vez imprimia à sua beleza uma doce expressão
de melancolia e resignação.
D. Firmina como de costume, esperava que Aurélia dispusesse
a maneira por que passariam a manhã, pois a viúva
não tinha outra ocupação que não fosse
agradar à menina, fazer-lhe companhia e prestar-se a todas
as suas vontades e caprichos.
Para isto recebia além do tratamento uma boa mesada que ia
acumulando para os tempos difíceis, como já os havia
passado logo depois da perda do marido.
- Você não sai hoje, Aurélia?
- Pode ser. Mas não se constranja por meu respeito.
- Há de ficar sozinha?
- Tenho em que empregar o tempo. Um negócio grave! tornou
a menina sorrindo.
- É já alguma penitenciazinha?
- Ainda não; é a profissão de noviça.
Nessa ocasião e no meio das risadas da menina, anunciaram
o Sr. Lemos, que foi imediatamente introduzido na sala.
- Recebi a sua carta em caminho; ia ao Botafogo: o José encontrou-me
no Largo do Machado. Estou às suas ordens, Aurélia.
Era o Sr. Lemos um velho de pequena estatura, não muito gordo,
mas rolho e bojudo como um vaso chinês. Apesar de seu corpo
rechonchudo tinha certa vivacidade buliçosa e saltitante
que lhe dava petulância de rapaz, e casava perfeitamente com
os olhinhos de azougue.
Logo à primeira apresentação reconhecia-se
o tipo desses folgazões que trazem sempre um provimento de
boas risadas com que se festejam a si mesmos.
Quando o Lemos na qualidade de tio fora pelo juiz de órfãos
encarregado da tutela de Aurélia, deu-se um incidente que
desde logo determinou a natureza das relações entre
o tutor e sua pupila.
Pretendia o velho levar a menina para a companhia de sua família.
Opôs-se formalmente Aurélia, e declarou que era sua
intenção viver em casa própria, na companhia
de D. Firmina Mascarenhas.
- Mas atenda, minha menina, que ainda é menor.
- Tenho dezoito anos.
- Só aos vinte e um é que poderá viver sobre
si e governar-se.
- É a sua opinião? Vou pedir ao juiz que me dê
outro tutor mais condescendente.
- Como diz?
- E tais argumentos lhe apresentarei, que ele há de atender-me.
À vista desse tom positivo, o Lemos refletiu, e julgou mais
prudente não contrariar a vontade da menina. Aquela idéia
do pedido ao juiz para remoção da tutela não
lhe agradara. Pensava ele que às mulheres ricas e bonitas
não faltam protetores de influência.
Logo depois dos cumprimentos, D. Firmina retirou-se para deixar
a moça em liberdade. Bem desejos tinha a viúva de
assistir a essas conferências que o Lemos costumava ter de
vez em quando com a pupila acerca de contas da tutela; mas neste
ponto Aurélia era de extrema reserva e não gostava
que ninguém entendesse com o que ela chamava seus negócios.
- Faça favor, meu tio! disse a moça abrindo uma porta
lateral.
Essa porta dava para um gabinete elegantemente mobiliado; o centro
era ocupado por uma banca oval, como o resto dos trastes de érable
e coberta com um pano azul de franjas escarlates. Sobre a mesa,
em salva de prata, havia o tinteiro e mais preparos de escrever.
No momento em que Aurélia, depois de passar o Lemos, ia por
sua vez entrar no gabinete, apareceu à porta da saleta a
Bernardina, velha a quem a menina protegia com esmolas. A sujeita
parara com um modo tímido, esperando permissão para
adiantar-se.
Aurélia aproximou-se dela com um gesto de interrogação.
- Quis vir ontem, segredou a Bernardina; mas não pude, que
atacou-me o reumatismo. Era para dizer que ele chegou.
- Já sabia!
- Ah! quem lhe contou? Pois foi ontem, havia de ser mais de meio-dia.
- Entre!
Aurélia cortou o diálogo, indicando à velha
o corredor que levava para o interior; e passando ao gabinete cerrou
a porta sobre si.
Não escapou este pormenor ao Lemos, que pela solenidade da
conferência avaliava de sua importância.
- Com que história virá ela hoje? dizia entre si o
alegre velhinho.
Aurélia sentou-se à mesa de érable, convidando
o tutor a ocupar a poltrona que lhe ficava defronte.
Capítulo
IV
Quem observasse
Aurélia naquele momento, não deixaria de notar a nova
fisionomia que tomara o seu belo semblante e que influía
em toda a sua pessoa.
Era uma expressão fria, pausada, inflexível, que jaspeava
sua beleza, dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no
lampejo de seus grandes olhos pardos brilhavam as irradiações
da inteligência. Operava-se nela uma revolução.
O princípio vital da mulher abandonava seu foco natural,
o coração, para concentrar-se no cérebro, onde
residem as faculdades especulativas do homem.
Nessas ocasiões seu espírito adquiria tal lucidez
que fazia correr um calafrio pela medula do Lemos, apesar do lombo
maciço de que a natureza havia forrado no roliço velhinho
o tronco do sistema nervoso.
Era realmente para causar pasmo aos estranhos e susto a um tutor,
a perspicácia com que essa moça de dezoito anos aprecia-va
as questões mais complicadas; o perfeito conhecimento que
mostrava dos negócios, e a facilidade com que fazia, muitas
vezes de memória, qualquer operação aritmética
por muito difícil e intrincada que fosse.
Não havia porém em Aurélia nem sombra do ridículo
pedantismo de certas moças que, tendo colhido em leituras
superficiais algumas noções vagas, se metem a tagarelar
de tudo.
Bem ao contrário, ela recatava sua experiência, de
que só fazia uso, quando o exigiam seus próprios interesses.
Fora daí ninguém lhe ouvia falar de negócios
e emitir opinião acerca de cousas que não pertencessem
à sua especialidade de moça solteira.
O Lemos não estava a gosto; tinha perdido aquela jovialidade
saltitante, que lhe dava um gracioso ar de pipoca. Na gravidade
desusada dessa conferência, ele, homem experiente e sagaz,
entrevia sérias complicações.
Assim era todo ouvidos, atento às palavras da moça.
- Tomei a liberdade de incomodá-lo, meu tio, para falar-lhe
de objeto muito importante para mim.
- Ah! muito importante?... repetiu o velho batendo a cabeça.
- De meu casamento! disse Aurélia com a maior frieza e serenidade.
O velhinho saltou na cadeira como um balão elástico.
Para disfarçar sua comoção esfregou as mãos
rapidamente uma na outra, gesto que indicava nele grande agitação.
- Não acha que já estou em idade de pensar nisso?
perguntou a moça.
- Certamente! Dezoito anos...
- Dezenove.
- Dezenove? Cuidei que ainda não os tinha feito!... Muitas
casam-se desta idade, e até mais moças; porém
é quando têm o paizinho ou a mãezinha para escolher
um bom noivo e arredar certos espertalhões. Uma menina órfã,
inexperiente, eu não lhe aconselharia que se casasse senão
depois da maioridade, quando conhecesse bem o mundo.
- Já o conheço demais, tornou a moça com o
mesmo tom sério.
- Então está decidida?
- Tão decidida que lhe pedi esta conferência.
- Já sei! Deseja que eu aponte alguém... Que eu lhe
procure um noivo nas condições precisas... Hã!...
É difícil... um sujeito no caso de pretender uma moça
como você, Aurélia? Enfim há de se fazer a diligência!
- Não precisa, meu tio. Já o achei!
Teve o Lemos outro sobressalto que o fez de novo pular na cadeira.
- Como?... Tem alguém de olho?
- Perdão, meu tio, não entendo sua linguagem figurada.
Digo-lhe que escolhi o homem com quem me hei de casar.
- Já compreendo. Mas bem vê!... Como tutor, tenho de
dar a minha aprovação.
- De certo, meu tutor; mas essa aprovação o senhor
não há de ser tão cruel que a negue. Se o fizer,
o que eu não espero, o juiz de órfãos a suprirá.
- O juiz?... Que histórias são essas que lhe andam
metendo na cabeça, Aurélia?
- Sr. Lemos, disse a moça pausadamente e traspassando com
um olhar frio a vista perplexa do velho, completei dezenove anos;
posso requerer um suplemento de idade mostrando que tenho capacidade
para reger minha pessoa e bens; com maioria de razão obterei
do juiz de órfãos, apesar de sua oposição,
um alvará de licença para casar-me com quem eu quiser.
Se estes argumentos jurídicos não lhe satisfazem,
apresentar-lhe-ei um que me é pessoal.
- Vamos a ver! acudiu o velho para quebrar o silêncio.
- É a minha vontade. O senhor não sabe o que ela vale,
mas juro-lhe que para a levar a efeito não se me dará
de sacrificar a herança de meu avô.
- É próprio da idade! São idéias que
somente se têm aos dezenove anos; e isso mesmo já vai
sendo raro.
- Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza
e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. Tenho
as duas grandes lições do mundo: a da miséria
e a da opulência. Conheci outrora o dinheiro como um tirano;
hoje o conheço como um cativo submisso. Por conseguinte devo
ser mais velha do que o senhor que nunca foi nem tão pobre,
como eu fui, nem tão rico, como eu sou.
O Lemos olhava com pasmo essa moça que lhe falava com tão
profunda lição do mundo e uma filosofia para ele desconhecida.-
- Não valia a pena ter tanto dinheiro, continuou Aurélia,
se ele não servisse para casar-me a meu gosto; ainda que
para isto seja necessário gastar alguns miseráveis
contos de réis.
- Aí é que está a dificuldade, acudiu o Lemos,
que desde muito espreitava uma objeção. Bem sabe Aurélia,
que eu como tutor não posso despender um vintém sem
autorização do juiz.
- O senhor não me quer entender, meu tutor, replicou a moça
com um tênue assomo de impaciência. Sei disso, e sei
também muitas cousas que ninguém imagina. Por exemplo:
sei o dividendo das apólices, a taxa do juro, as cotações
da praça, sei que faço uma conta de prêmios
compostos com a justeza e exatidão de uma tábua de
câmbio.
O Lemos estava tonto.
- E por último sei que tenho uma relação de
tudo quanto possuía meu avô, escrita por seu próprio
punho e que me foi dada por ele mesmo.
Desta vez o purpurino velhinho empalideceu, sintoma assustador de
tão completa e maciça carnadura, como a que lhe acolchoava
as calcinhas emigradas e o fraque preto.
- Isto quer dizer que se eu tivesse um tutor que me contrariasse
e caísse em meu desagrado, ao chegar à minha maioridade
não lhe daria quitação, sem primeiro passar
um exame nas contas de sua administração para o que
felizmente não careço de advogado nem de guarda-livros.
- Sim, senhora; está em seu direito, tornou o velho contrito.
- Cabendo-me porém a fortuna de ter um tutor meu amigo, que
me faz todas as vontades, como o senhor, meu tio...
- Lá isso é verdade!
- Neste caso, em vez de matar a paciência e aborrecer-me com
autos e contas, dou tudo por bem-feito. Ainda mais, sei que a tutela
é gratuita, mas assim não deve ser quando os órfãos
têm de sobra com que recompensar o trabalho que dão.
- Lá isso não, Aurélia. Este encargo é
uma dívida sagrada, que pago à memória de sua
mãe, a minha boa e sempre chorada irmã!...
O Lemos enxugou no canto do olho uma lágrima que ele conseguira
espremer, se é que não a tinha inventado como parece
mais provável. E a moça em tributo à memória
de sua mãe evocada pelo velho, ergueu-se um instante a pretexto
de olhar pela janela.
Quando voltou a seu lugar, o Lemos estava de todo restabelecido
dos choques por que havia passado; e mostrava-se ao natural, fresco,
titilante e risonho.
- Estamos entendidos? perguntou a menina com a sisudez que não
deixara em todo este diálogo.
- Você é uma feiticeirazinha, Aurélia; faz de
mim o que quer.
- Reflita bem, meu tio. Vou confiar-lhe meu segredo, um segredo
que a ninguém neste mundo foi revelado, e que só Deus
sabe. Se depois de conhecê-lo, o senhor não me quiser
servir, ou não souber, eu jamais lhe perdoarei.
- Pode confiar em mim sem susto o seu segredo, Aurélia, que
mostrar-me-ei digno dessa confiança.
- Creio, Sr. Lemos, e para tirar-lhe qualquer escrúpulo que
por acaso o assalte, lhe juro pela memória de minha mãe,
que se há para mim felicidade neste mundo, é somente
esta que o senhor me pode dar.
- Disponha de mim.
Aurélia parou um instante.
- Conhece o Amaral?
- Qual deles? perguntou o velho um tanto acanhado.
- Manuel Tavares do Amaral, empregado da alfândega; disse
a moça consultando sua carteirinha. Tenha a bondade de tomar
nota. Não é rico, mas possui alguma cousa; ajustou
o casamento da filha Adelaide com um moço que esteve ausente
do Rio de Janeiro, e a quem ele ofereceu de dote trinta contos de
réis.
Ao proferir estas palavras sentiu-se um fugaz tremor na voz sempre
tão límpida da moça, que logo após tomou
um timbre ríspido.
O Lemos ficara roxo de vermelho que já era; e para disfarçar
o seu vexame remexia a cabeça mui desinquieto, com o dedo
a repuxar e alargar o colarinho, como se este o sufocasse.
Aurélia demorou um instante o seu frio olhar no semblante
do velho; depois desviando com placidez a vista para fitá-la
na página aberta de sua carteirinha, deu tempo ao tio de
reportar-se, o que foi breve. O Lemos tinha o traquejo do mundo.
- Trinta contos?... observou ele. Já não é
mau começo!
Aurélia continuou:
- É preciso quanto antes desmanchar este casamento. A Adelaide
deve casar com o Dr. Torquato Ribeiro de quem ela gosta. Ele é
pobre; e por isso o pai o tem rejeitado, mas se o senhor assegurasse
ao Amaral que esse moço tem de seu uns cinqüenta contos
de réis, acha que ele recusaria?
- Suponha que eu assegurasse isso. Donde sairia esse dinheiro?
- Eu o darei com o maior prazer.
- Mas, minha menina, para que nos vamos nós intrometer nos
negócios alheios?
- O senhor é bastante perspicaz para perceber aquilo que
debalde lhe procuraria ocultar. Prefiro confiar-me sem reservas
à sua lealdade.
A moça fez um esforço.
- Esse moço, que está justo com a Adelaide Amaral,
é o homem a quem eu escolhi para meu marido. Já se
vê que, não podendo pertencer a duas, é necessário
que eu o dispute.
- Conte comigo! acudiu o velho esfregando as mãos, como quem
entrevia os benefícios que essa paixão prometia a
um tutor hábil.
- Esse moço...
- O nome? perguntou o velho molhando a pena.
Aurélia fez um aceno de espera.
- Este moço chegou ontem; é natural que trate agora
dos preparativos para o casamento que está justo há
perto de um ano. O senhor deve procurá-lo quanto antes.
- Hoje mesmo.
- E fazer-lhe sua proposta. Estes arranjos são muito comuns
no Rio de Janeiro.
- Estão-se fazendo todos os dias.
- O senhor sabe melhor do que eu como se aviam estas encomendas
de noivos.
- Ora, ora!
- Previno-o de que meu nome não deve figurar em tudo isto.
- Ah! quer conservar o incógnito?
- Até o momento da apresentação. Entretanto
pode dizer quanto baste para que não suponham que se trata
de alguma velha ou aleijada.
- Percebo! exclamou o velho rindo. Um casamento romântico.
- Não, senhor; nada de exagerações. Só
tem licença para afirmar que a noiva não é
velha nem feia.
- Quer preparar a surpresa?
- Talvez. Os termos da proposta...
- Com licença! Desde que deseja conservar o incógnito,
não devo aparecer?
Aurélia refletiu um instante:
- Não quero que isto passe do senhor. Caso ele o reconheça
como meu tio e tutor, não poderia o senhor convencê-lo
que eu não tenho nisso a mínima parte? que é
um negócio da família ou dos parentes?
- Bem lembrado! Eu cá me arranjo; não tenha cuidado.
- Os termos da proposta devem ser estes; atenda bem. A família
da tal moça misteriosa deseja casá-la com separação
de bens, dando ao noivo a quantia de cem contos de réis de
dote. Se não bastarem cem e ele exigir mais, será
o dote de du--zentos...
- Hão de bastar. Não tenha dúvida.
- Em todo o caso quero que o senhor compreenda bem o meu pensamento.
Desejo, como é natural, obter o que pretendo, o mais barato
possível; mas o essencial é obter; e portanto até
metade do que possuo, não faço questão de preço.
É a minha felicidade que vou comprar.
Estas últimas palavras, a moça proferiu-as com uma
inde-finível expressão.
- Não será caro?
- Oh! exclamou Aurélia, eu daria por ela toda a minha riqueza.
Outras a têm de graça, que lhes vem diretamente do
céu. Mas não me posso queixar, pois negando-me esse
bem, Deus compadeceu-se de mim, e enviou-me quando menos esperava
tamanha herança para que eu possa realizar a aspiração
de minha vida. Não dizem que o dinheiro traz todas as venturas?
- A maior ventura que dá o dinheiro é possuí-lo;
as outras são secundárias, disse o Lemos como entendido
na matéria.
Aurélia, que um instante se deixara arrebatar pelo sentimento,
voltava ao tom frio e refletido com que havia discutido até
ali a questão de seu futuro.
- Falta-me ainda, meu tio, recomendar-lhe um ponto. A palavra, além
de esquecer, está sujeita a equívocos. Não
seria possível tratar este negócio por escrito?
- Passar o sujeito um papel?... Certamente, mas se ele roer a corda,
não há meio de obrigá-lo a casar.
- Não importa. Eu prefiro confiar-me à honra dessa
pessoa, antes do que aos tribunais. Com uma obrigação
em que ele empenhe sua palavra ficarei tranqüila.
- Há de se arranjar.
- Eis o que espero de sua amizade, meu tio.
O Lemos deixou passar a ironia que acentuara a palavra amizade,
e esticou a prumo diante dos olhos e contra a luz, a folha de papel
em que tomara suas notas.
- Vejamos!... Tavares do Amaral, empregado da alfândega...
a filha D. Adelaide, trinta contos de réis... O Dr. Torquato
Ribeiro... garantir cinqüenta... O outro... de cem até
duzentos. Só me falta o nome.
Aurélia tirou da carteirinha o bilhete de visita e apresentou-o
ao tutor. Como este se preparasse para repetir em alta voz o nome,
ela o atalhou com a palavra breve e imperativa que às vezes
lhe crispava os lábios.
- Escreva!
O velhinho copiou as indicações que havia no cartão
e o restituiu.
- Nada mais?
- Nada, senão repetir-lhe ainda uma vez que entreguei em
suas mãos a única felicidade que Deus me reserva neste
mundo.
A moça proferiu estas palavras com um tom de profunda convicção
que penetrou o bonacho ceticismo do velho.
- Há de ser muito feliz, eu lhe garanto.
- Dê-me esta felicidade, que eu tanto invejo; eu lhe darei
da que me sobra.
- Conte comigo, Aurélia.
O velhinho apertou a mão da moça, que lhe tocara o
coração com a última promessa e retirou-se.
Quando chegou a casa, ainda o Lemos não estava de todo restabelecido
do atordoamento que sofrera.
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