SENHORA
José de Alencar
Capítulo XI
Desde então
Seixas encontrou-se quase todas as noites com Aurélia, ou
em casa desta, ou na sociedade.
A maneira afável por que a moça o tratava tinha, se
não desvanecido completamente, ao menos embotado, as susce-tibi-lidades
de sua consciência acerca do ajuste que fizera com Lemos.
Não que se absolvesse da culpa; mas esperava remi-la pelo
amor.
Suas conversas com Aurélia versavam ordinariamente sobre
temas de sala. Às vezes, porém, ele aproveitava um
pretexto para falar-lhe nesse estilo terno e mavioso, que é
como o canto do amor, e por isso não carece da idéia,
mas somente do vocábulo sonoro, para embalar o coração
aos suaves harpejos dessa música.
Então Aurélia pendia a fronte, e escutava com recolhimento
o lirismo da palavra inspirada pelo moço; todavia, nunca
em seu rosto ou em sua pessoa transpareceu o menor sinal de retribuição
a esse afeto. Ela abria a alma ao amor; porém o amor que
filtrava nas meigas falas de Seixas evaporava-se como uma fragrância
que a envolvia um instante, sem penetrar-lhe os seios d'alma.
Houve ocasião em que escapou a Seixas outra alusão
ao passado. Como da primeira vez ela o atalhou:
- Esse tempo não existe para mim. Nasci há um ano.
Encontrando-se uma tarde com Lemos, Seixas o interpelou:
- Tenho um favor a pedir-lhe.
- Dois que sejam.
- Diga-me com franqueza, qual o motivo por que o senhor escolheu-me
de preferência para marido de sua pupila, quando nem me conhecia?
O velho debulhou uma risadinha que lhe era peculiar.
- Hã! hã!... Então quer saber? Pois lá
vai; não faço mistério, não me convinha
que a pequena se deixasse iludir pelas lábias de um desses
bigodinhos que lhe andam ao faro do dote. Então soube que
ela outrora gostara do senhor, e como pelas informações
que tinha, me quadrava, fui procurá-lo. Agora o resto é
por sua conta, maganão.
Esta explicação mais serenou o espírito do
moço, e dissipou uns últimos rebates que ainda o assaltavam
às vezes. Pensando bem, o modo por que ajustara seu casamento
não era nenhuma novidade; todos os dias se estavam fazendo
dessas alianças de conveniência, em termos idênticos;
se não mais positivos.
Além disso a sorte, por uma feliz coincidência, fizera
que desse projeto de casamento de razão surtisse um enlace
de amor; de modo que o coração absolvia e santificava
quanto se havia feito para realização de seus votos.
Continuou pois Seixas com os seus doces madrigais e os maviosos
noturnos ao canto da sala.
Depois da noite da apresentação deixara Lemos a seu
protegido, como o chamava, o cuidado de arranjar seus negócios.
Apareceu-lhe porém uma manhã:
- Meu amigo, se não tem que fazer agora, vamos concluir o
negócio. Isto de casamento é como a sopa; não
se deixa es-friar.
Seixas também tinha pressa de sair da situação
em que se achava; temia a cada instante ver dissipada a doce ilusão
com que sua alma disfarçava a transação por
ele aceita. A idéia de aparecer ante a moça sob o
aspecto de um especulador, era-lhe suplício.
Acedeu prontamente ao convite do negociante, e acompanhou-o à
casa de Aurélia, em trajo de cerimônia.
A moça prevenida da visita os esperava no salão, onde
foram logo introduzidos; depois dos cumprimentos e de uma conversa
frouxa e distraída, Lemos, formalizando-se, tomou a palavra:
- D. Aurélia, o Sr. Seixas a quem já conhece por suas
exce-lentes qualidades, pessoa digna de toda a estima, pediu-me
sua mão. Por minha parte eu não podia fazer melhor
escolha, em todos os sentidos; mas tudo isto nada vale, se não
tiver a fortuna de merecer o seu agrado.
Aurélia fitou em seu pretendente um olhar que desmentia o
sorriso em flor de seus lábios.
- Não lhe assustam meus caprichos e excentricidades?
- Se eu os adoro! respondeu Seixas galanteando.
- Não lhe parece difícil fazer a felicidade de um
coração desabusado como este meu, e tão afligido
pela dúvida?
- Tenho fé no meu amor; com ele vencerei o impossível.
Apagou-se nos lábios de Aurélia o sorriso; e a expressão
de um ardente anelo, ressumbrando do mais profundo de sua alma,
imergiu-lhe o semblante.
- Aqui tem a minha mão; e tudo quanto posso dar-lhe. A mulher
que ama e que sonhou, essa não a possuo. Mas se o senhor
tiver o poder de a realizar, ela lhe pertencerá absolutamente
como sua criatura. Acredite que esta é a esperança
de minha vida, eu a confio de sua afeição.
A moça com um gesto de sublime abandono oferecera sua mão
acetinada a Seixas, que a beijou murmurando as efusões de
seu júbilo e gratidão.
O Lemos que se apartara discretamente para não acanhar os
noivos, tornou à conversação, que reassumiu
o tom ligeiro das banalidades do costume.
A notícia do próximo casamento de Aurélia produziu
na sociedade fluminense grande assombro.
Ninguém podia capacitar-se de que essa moça, pretendida
pelo creme dos noivos fluminenses, podendo escolher à vontade,
entre os seus inúmeros adoradores, maridos de toda a espécie,
tivesse o mau gosto de enxovalhar-se com um escrevinhador de folhetins.
O Alfredo Moreira, quando a encontrou depois da novidade, não
pôde esconder o despeito:
- Então casa-se?
- É verdade.
- Afinal achou; cotação muito alta sem dúvida?
replicou o elegante com ironia.
- Não, tornou-lhe a moça no mesmo tom. Ficou-me por
uma ninharia.
- Ah! estimo muito. Que preço?
- Quer saber o preço?
- Estou curioso.
- Foi o seu.
O Moreira mordeu os beiços e riu-se. Apesar de tudo não
perdera a derradeira esperança. O projetado casamento podia
desfazer-se por qualquer motivo, e não era difícil
que a moça de um momento para outro se arrependesse da escolha
com a mesma volubilidade com que a tinha feito de repente e por
um capricho.
Assim pensava o malogrado pretendente; enquanto que todos os indícios
pareciam revelar da parte de Aurélia a firme intenção
de persistir na primeira resolução, que ela não
tomara, senão depois de muito refletida.
Desde que anunciou-se o casamento, começou a moça
a aparecer mais raramente na sociedade, até que de todo retirou-se;
limitando-se ao pequeno círculo que freqüentava sua
casa, e no qual ela por assim dizer espanejava sua alma de um certo
entorpecimento que lhe deixavam as ternas confidências e devaneios
namorados do noivo.
Seixas pelas palavras que Aurélia havia proferido tão
d'alma, na ocasião de dar-lhe a mão de esposa, julgara
compreender o segredo das estranhezas e oscilações
do caráter da moça.
Ela duvida que eu a ame; pensou consigo. Suspeita que tenho a mira
em sua riqueza. É preciso que a convença da sinceridade
de minha afeição. Se ela soubesse! Um desgraçado
pode sacrificar sua liberdade; mas a alma não se vende!
Imbuído dessa idéia, não é de estranhar
que Seixas tivesse em suas expansões uma exuberância
que descaía em exageração. Muitas vezes fatigada,
se não opressa, dessas demonstrações apaixonadas,
Aurélia que debalde tentara adormecer com elas as desconfianças
de sua alma, exclamava entre fagueira e irônica:
- Ah! deixe-me respirar! Nunca fui amada, nem pensei que o seria
com tamanha paixão. Careço de habituar-me aos -poucos.
A residência de Laranjeiras fora recentemente preparada com
luxo correspondente às avultadas posses da herdeira, e já
na previsão do próximo consórcio. Poucos eram
os preparativos a fazer, para a celebração do casamento,
e esses, apressou-os o dinheiro, que é o primeiro e mais
eloqüente dos improvisadores.
Tratou-se pois de marcar o dia. O Lemos pôs em discussão
a questão dos padrinhos. Já ele tinha cogitado sobre
o assunto, e segundo a moda de nossa sociedade julgava indispensável
pelo menos uma baronesa para madrinha e dois figurões, cousa
entre senador e ministro, para padrinhos.
Não tinha ele amizade com gente dessa plaina, mas entendia
que um simples conhecimento de chapéu, e até mesmo
a carta de recomendação eram títulos suficientes
para solicitar semelhantes favores, com que a vaidade dos grandes
se lisonjeia e a presunção dos pequenos se exalta.
Grande foi portanto o embaraço de Lemos quando Aurélia
declarou que um dos seus padrinhos havia de ser o Dr. Torquato Ribeiro.
- Que lembrança! disse Fernando involuntariamente.
- Desagrada-lhe?
Na fisionomia da moça perpassou um súbito lampejo.
Podia-se tomar esse brilho pela chispa do solitário de seu
anel que a luz feria, quando a mão corrigia um crespo do
cabelo desprendido do toucado.
- Podia escolher outra pessoa, Aurélia.
- Não é seu amigo? Ah! cuidava!...
- Não tem posição.
- Decerto! acudiu Lemos. A posição é essencial.
Um simples bacharel não correspondia por modo algum à
noção aristocrática que o velho tinha do paraninfo
de uma herdeira milionária. Além de que transtornava-lhe
o plano, pois os altos personagens convidados declinariam infalivelmente
de ombrear com um rapazola que nem comendador era.
Aurélia porém não cedeu.
No dia seguinte assinou-se a escritura nupcial de separação
de bens que assegurava a Seixas um dote de cem contos de réis.
A moça que sempre esquivara-se à mínima interferência
em assuntos pecuniários, deixando esse cuidado ao tutor e
conservando-se de todo estranha a semelhantes arranjos, ainda desta
vez soube evitar qualquer inteligência com seu noivo acerca
de interesses materiais.
Lemos levou Seixas ao cartório do Fialho, dizendo-lhe que
era isso uma exigência do juiz de órfãos, no
que não faltou à verdade, embora fosse antes a vontade
da herdeira quem determinara essa condição, que facilmente
se ilude no foro.
Só mais tarde assinou Aurélia, para o que levou-lhe
o tabelião o livro à casa. Nenhuma palavra porém
trocou-se entre ela e o noivo a tal respeito.
Capítulo
XII
Reunira-se na
casa das Laranjeiras, a convite de Aurélia, uma sociedade
escolhida e não muito numerosa para assistir ao casamento.
A moça não aceitou a idéia de dar um baile
por esse motivo; mas entendeu que devia cercar o ato da solenidade
precisa, para tornar bem notória a espontaneidade de sua
escolha e o prazer que sentia com esse enlace.
Não faltaram amigos e conhecidos, que sugerissem a Aurélia
a lembrança de fazer o casamento à moda européia,
com o romantismo da viagem logo depois da cerimônia, a lua-de-mel
campestre, e o baile de estrondo na volta à Corte.
Ela, porém, recusou todos esses alvitres; resolveu casar-se
ao costume da terra, à noite, em oratório particular,
na presença de algumas senhoras e cavalheiros, que lhe fariam,
a ela órfã e só no mundo, as vezes da família
que não tinha.
Celebrara-se a cerimônia às oito horas. Lemos conseguira
um barão para servir de contrapeso ao Ribeiro e um monsenhor
para oficiar.
Quanto à madrinha, Aurélia escolhera D. Margarida
Ferreira, respeitável senhora, que lhe mostrara desinteressada
amizade, desde a primeira vez que a encontrou na sociedade.
No momento de ajoelhar aos pés do celebrante, e de pronunciar
o voto perpétuo que a ligava ao destino do homem por ela
escolhido, Aurélia com o decoro que revestia seus menores
gestos e movimentos, curvara a fronte, envolvendo-se pudicamente
nas sombras diáfanas dos cândidos véus de noiva.
Mau grado seu, porém, o contentamento que lhe enchia o coração
e estava a borbotar nos olhos cintilantes e nos lábios aljofrados
de sorriso, erigia-lhe aquela fronte gentil, cingida nesse instante
por uma auréola de júbilo.
No altivo realce da cabeça e no enlevo das feições
cuja formosura se toucava de lumes esplêndidos, estava-se
debuxando a soberba expressão do triunfo, que exalta a mulher
quando consegue a realidade de um desejo férvido e longamente
ansiado.
Os convidados, que antes lhe admiravam a graça peregrina,
essa noite a achavam deslumbrante, e compreendiam que o amor tinha
colorido com as tintas de sua palheta inimitável, a já
tão feiticeira beleza, envolvendo-a de irresistível
fascinação.
- Como ela é feliz! diziam os homens.
- E tem razão! acrescentaram as senhoras volvendo os olhos
ao noivo.
Também a fisionomia de Seixas se iluminava com o sorriso
da felicidade. O orgulho de ser o escolhido daquela encantadora
mulher ainda mais lhe ornava o aspecto já de si nobre e gentil.
Efetivamente, no marido de Aurélia podia-se apreciar essa
fina flor da suprema distinção, que não se
anda assoalhando nos gestos pretensiosos e nos ademanes artísticos;
mas reverte do íntimo com uma fragrância que a modéstia
busca recatar, e não obstante exala-se dos seios d'alma.
Depois da cerimônia começaram os parabéns que
é de estilo dirigir aos noivos e a seus parentes.
Só então reparou-se na presença de uma senhora
de idade, que ali estava desde o princípio da noite. Era
D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade
para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada
no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois
de concluído o ato.
Para animar a reunião as moças improvisaram quadrilhas,
no intervalo das quais um insigne pianista, que fora mestre de Aurélia,
executava os melhores trechos de óperas então em voga.
Por volta das dez horas despediram-se as famílias convi-dadas.
Encaminhou-se então Lemos com Seixas para aquela parte da
casa onde ficavam os aposentos, que Aurélia destinara a seu
marido, os quais estavam preparados com muito luxo, e sobretudo
com uma novidade de muito gosto.
- Meu amigo, o senhor está casado, pelo que já lhe
dei os meus parabéns; falta-me porém cumprir um dever,
que me cabe como tutor que fui de sua mulher, e a quem nesta noite
ainda faço as vezes de pai.
- Também eu esperava este momento para agradecer-lhe os cuidados
e desvelos que dispensou a Aurélia, e assegurar-lhe minha
sincera amizade.
- Não fiz mais do que pagar uma dívida à minha
boa irmã. Estimo esta pequena como se fosse minha filha;
vi-a nascer.
Tirando do bolso uma argola de chaves, o velho passou a abrir os
diversos móveis de érable, que ia deixando às
escancaras. Enquanto expedia-se nessa tarefa, ia falando:
- Vou ter a satisfação de o instalar em seus novos
aposentos. Aqui está o seu gabinete de trabalho; ali é
o toucador; deste lado do jardim fica um quarto de banho, e uma
saleta de fumar com entrada independente para receber seus amigos.
Tudo isto é um brinco.
- Bem reconheço a mão de Aurélia; estou sentindo
em todos estes objetos o aroma que exala de sua beleza, disse Seixas
inebriado de felicidade.
- Foi ela, sim senhor, que se incumbiu disso; mas ainda não
viu tudo. Olhe o enxoval.
Lemos mostrou então as gavetas e prateleiras dos guarda-roupas
e cômodas atopetados das várias peças de vestuário,
feito de superior fazenda e com maior apuro. Nada faltava do que
pode desejar um homem habituado a todas as comodidades da moda.
No toucador, se o tabuleiro de mármore ostentava toda a casta
de perfumarias, as gavetas continham cópias de jóias
próprias de um cavalheiro elegante. Algumas havia de grande
preço, como o anel de rubim, e uma abotoadura completa de
brilhantes.
- Tudo isto lhe pertence, disse o velho terminando o inventário.
É cousa lá da pequena; não entrou em nosso
ajuste.
Seixas experimentou sensação igual à do homem
que no meio de um sonho aprazível fosse arremessado a um
pântano e acordasse chafurdado na torpe realidade. A palavra
ajuste, ali naquele instante, quando acabava de santificar pelo
juramento o eterno amor que votava a sua esposa; quando estava-se
revendo em sua lembrança, de que a moça deixara impregnada
a cada passo o luxo e elegância daqueles aposentos; essa palavra
proferida sem intenção pelo velho, infligiu-lhe a
mais acerba das humilhações.
Entretanto Lemos fechava as portas e gavetas que tinha aberto; e
terminou apresentando a Seixas a argola de chaves.
- Aqui tem, meu caro. Só uma chave não lhe posso eu
dar; é dali.
O velho indicou na extrema de um breve corredor uma porta oculta
por um reposteiro de seda azul com flecha dourada.
- Quando aquela porta abrir-se, não haverá em todo
este Rio um maganão mais feliz!
E o velho repicando a sua fustigante risadinha de falsete, tornou
ao salão, onde encontrou cinco negociantes, velhos camaradas,
que a seu pedido se haviam demorado, e achavam-se um tanto embrulhados
com a história.
- Ó Lemos, não dirás que fazemos nós
ainda a esta hora aqui? Olhe, que para trapalhão temos conversado.
- Querem ver que o brejeiro pretende fazer o negócio com
toda a solenidade! Vocês não viram o aquele... o tabelião?
- É verdade; chamaram-no agora mesmo. E nós seremos
as testemunhas.
Aqui desafogaram-se os sujeitos em boas risadas.
- Quase que adivinharam vocês; disse o Lemos; venham cá
e verão o que é.
Na saleta, onde Lemos introduziu seus amigos, estava sentado à
mesa do centro um tabelião, que assistira à cerimônia
como convidado e parecia agora em atitude de exercer algum ato do
ofício.
Pela porta fronteira acabava de entrar Aurélia, em companhia
de D. Firmina. A moça trazia nos ombros uma peliça
de caxemira cinzenta, que disfarçava seu traje de noiva,
cingindo-lhe a cabeça com o frouxo capuz.
A auréola de júbilo, que resplandecia-lhe a beleza
quando ajoelhada aos pés do altar e ao lado do noivo, não
se ofuscara; mas ia empalidecendo. Às vezes, súbito
erriçamento estremecia-lhe o talhe delicado; percebia-se
nesses momentos um eclipse da luz íntima, como o vágado
de uma lâmpada a apagar-se.
Ela sentou-se defronte do tabelião; aos lados da mesa tomaram
lugar Lemos e os outros negociantes.
- Peço aos senhores que me desculpem este incômodo;
e aceitem meu reconhecimento por sua bondade em acompanhar-me neste
capricho.
Houve uns protestos murmurados.
- É minha última excentricidade! tornou Aurélia
com adorável sorriso. Ainda estou me despedindo da vida de
moça; por isso mereço alguma indulgência. Demais,
pensando bem, não é tão extravagante o que
faço agora, pois o testamento também faz parte da
confissão. Quero aproveitar este momento em que ainda sou
senhora de mim e das minhas vontades, para declarar a última,
que foi também a primeira de minha vida.
Apesar da garridice com que proferiu a moça estas palavras,
e da graça jovial que o seu mago sorriso espargia sempre
em torno de si, um sentimento de vaga e indefinível tristeza
pungiu as pessoas presentes; especialmente quando Aurélia
entregou ao tabelião o testamento por ela escrito em uma
folha perfumada de papel cetim, a gume dourado, com o monograma
A.C. em relevo escarlate.
A associação de dois atos tão opostos, a aurora
da existência e sua despedida; a idéia da morte a entrelaçar-se
naquela mocidade tão rica de todas as prendas; a grinalda
de noiva cingindo uma fronte a desfalecer; esse contraste era para
deixar funda impressão no ânimo.
Aviou o tabelião o termo de aprovação com as
fórmulas consagradas; e no meio do mais profundo silêncio
restituiu à moça o testamento já cerrado com
um torçal de seda e pingos de lacre dourado, cujo perfume
derramou-se pela sala.
Nunca a abstrusa e rançosa algaravia de cartório se
vira tão catita. O papel, com ser testamento, não
desdizia da linda mão que traçara o contexto, e d'alma
gentil que talvez nele havia encerrado, com sua última vontade,
o perfume de lágrimas ignotas.
Ao despedir-se da pupila, Lemos apertou-lhe a mão:
- Desejo-lhe que seja muito e muito feliz.
- Se o não for, será minha e minha só a culpa,
respondeu a moça agradecendo-lhe.
D. Firmina quis acompanhar a moça ao toucador, para prestar-lhe
os serviços de camareira de honra, que são de costume
e privilégio da mãe, e na falta desta, da mais próxima
parenta.
Recusou Aurélia; abraçando a velha senhora, disse-lhe
comovida:
- Reze por mim!
Ficando só, a moça fechou à chave a porta da
saleta e murmurou:
- Enfim!
Em todo aquele lado da casa não havia senão ela e
seu marido.
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