A RETIRADA DA LAGUNA
VISCONDE DE TAUNAY
Índice
CAPÍTULO
I - Formação de um corpo de exército destinado
a atuar, pelo norte, sobre o Alto Paraguai. Distâncias e dificuldades
de organização
CAPÍTULO II - Miranda. Partida da coluna. Marcha de Miranda
a Nioac
CAPÍTULO III - Nioac. O coronel Carlos de Morais Camisão.
O guia José Francisco Lopes
CAPÍTULO IV - Marcha sobre a fronteira paraguaia. Conselho
de guerra.
CAPÍTULO V - Reconhecimento. Rebate falso. Regresso de cativos
escapos ao inimigo. O guia Lopes e o filho. Avante!
CAPÍTULO VI - Em marcha. Formatura da coluna. À vista
da fronteira
CAPÍTULO VII - Passagem do Apa. Primeiro embate. Ocupação
da Machorra
CAPÍTULO VIII - Ocupação de Bela Vista. Devastações
dos paraguaios em torno da coluna. Tentativa de negociações.
Seu malogro. Tornam-se os víveres escassos. Marcha sobre
Laguna.
CAPÍTULO IX - Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionário.
O mascate italiano. O major José Tomás Gonçalves.
Surpresa e tomada de acampamento paraguaio da Laguna
CAPÍTULO X - Retrocesso sobre o Apa-Mi. Escaramuças
e combates com a cavalaria inimiga que envolve completamento a coluna
CAPÍTULO XI - Rebate falso. Últimas ilusões.
O tenente Batista. Passagem do Apa. Volta ao território brasileiro.
CAPÍTULO XII - Ataque vigoroso do inimigo. Nós o repelimos,
mas, com o fragor de combate, nosso gado se dispersa. Cenas do campo
de batalha. A preta Ana. O ferido paraguaio. Vão os víveres
faltar
CAPÍTULO XIII - Deliberação sobre o caminho
a seguirmos. Primeiro incêndio no campo
CAPÍTULO XIV - Continua a marcha. Temo o inimigo à
frente. Novo sacrifício de bagagens. Faltam os víveres.
Incêndios e temporais. Escaramuças incessantes
CAPÍTULO XV - Incerteza do rumo. Novo incêndio e novo
ataque dos paraguaios. Penúria da coluna. Acertamos novamente
com o caminho. Passagem do rio das Cruzes. Recomeça a marcha.
Nova travessia do rio. Fome. As mulheres da coluna
CAPÍTULO XVI - Lampejo de esperança que se desvanece
logo. A cólera. Reaparece o inimigo. O incêndio sempre.
Recrudesce a cólera. Um recurso: os palmitos. Terrível
passagem de um pântano. O tenente Santos Sousa. Acampamento.
Conseguimos acender fogo
CAPÍTULO XVII - Chegada às divisas das terras do guia
Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos
frouxamente. Devastações da cólera. Perplexidade
do coronel Camisão. Abandonamos os enfermos. A separação.
Ao tenente-coronel Juvêncio e ao coronel Camisão salteia
a peste. Morte do filho de Lopes. Prossegue a marcha. Chegada à
fazenda de Lopes; morre este ali de cólera. Seu túmulo.
CAPÍTULO XVIII - Chegada às margens do Miranda. Mantém-se
o inimigo afastado para evitar o contágio da cólera.
O Miranda não dá vau. Alguns homens o atravessam,
entretanto, a nado, trazendo a boa notícia da existência
de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caçadores
recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem e conseguem-no.
Morte do tenente-coronel Juvêncio. Morte do coronel Camisão.
Susbtitui-o, no comando, o major José Tomás Gonçalves.
Instala-se um vaivém sobre o rio. Chegam abundantes as laranjas.
Seu efeito benéfico sobre os esfaimados e coléricos.
CAPÍTULO XIX - Renasce a confiança. Restabelece-se
a disciplina. Passagem do Miranda. Os canhões. Ainda o inimigo.
Tomamos-lhe alguns bois que oferecem ótimo recurso. Marcha
forçada. Vencemos sete léguas! Canindé
CAPÍTULO XX - Marcha sobre Nioac, que apenas dista duas léguas.
O inimigo rodeia continuamente a coluna. O mascate italiano Saraco
CAPÍTULO XXI - Nioc. Decepção; encontramos
a vila saqueada, incendiada e quase destruída pelos paraguaios.
Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo, definitivamente.
Regresso pacífico do corpo de exército. Ordem do dia
sobre esta campanha de trinta e cinco dias.
Prefácio
da Décima Terceira Edição
Em seis anos
divulgaram-se cerca de seis mil exemplares da Retirada da Laguna
da última edição impressa.
Mostra tal fato quanto os leitores brasileiros se interessam pela
história pungentíssima deste episódio da Guerra
do Paraguai, que figura entre as mais belas e notáveis coisas
da tradição de nosso pais.
Razão
de sobra lhes assiste: não receia ele confronto com os mais
elevados feitos dos anais militares das nações do
Ocidente.
É
que poucas tropas - com tamanha intrepidez e espírito de
abnegação patriótica - sofreram o que suportaram
os nossos soldados da Constância e do Valor.
A esta edição anexei três documentos honrosíssimos
para o autor da Retirada da Laguna e sua obra (ver pág. 12).
É o primeiro a carta pela qual Caxias lhe agradece a oferta
de um exemplar da Retirada, manifestando-lhe o seu louvor ao livro
e o apreço em que tinha o seu autor.
Assim, mais uma vez e mais largamente se divulga uma das vozes mais
antigas de aplauso que a narrativa xenofôntica mereceu. De
que prestígio se reveste este depoimento! Partiu do grande
e invicto cabo-de-guerra, expressamente ao ofertante do livro quanto
o seu relato vinha robustecer-lhe a convicção, de
que as forças empenhadas na campanha de Mato Grosso e na
Retirada da Laguna, parte do exército de que era generalíssimo,
"cumprira sempre seu dever, sustentando sempre a gloria das
Armas Brasileiras".
Assim de início teve a épica narrativa da campanha
de maio de 1867 a consagração do aplauso do magno
Pacificador, gênio tutelar da nossa unidade nacional, broquel
do Brasil agredido exteriormente e ínclito patrono do Exército
Brasileiro.
O segundo dos documentos veio a ser a mensagem por Taunay merecida
de seus irmãos de armas, quando em 1885 e em virtude de circusntâncias
políticas incômodas, se não desagradáveis
de sua carreira de homem público e parlamentar, deixou o
serviço do Exército.
Mais honrosas palavras de despedida seria impossível redigir
do que as que encerraram esta manifestação subscrita
por centenas de oficiais-generais, oficiais superiores e outros
menos graduados, de toda a hierarquia militar da época, partindo
de um marechal de exército e ajudante-general do exército
aos simples alferes e cadetes.
Constituem estes apelidos um rol do mais alto significado. Nele
surgem muitos dos mais glorioso nomes de servidores do Brasil, já
então, aureolados pela reputação de seus feitos,
e outros ainda no início de suas grandes carreiras.
O último dos três documentos refere-se à manifestação
que várias centenas de oficiais-generais, superiores e outros
pertencentes à guarnição do Rio de Janeiro,
fizeram ao então major Taunay em testemunho de gratidão
da classe à sua atuação de parlamentar, como
membro que fora da Câmara dos Deputados em duas legislaturas.
À sua iniciativa devia haverem-se incorporado à legislação
do país medidas de alta benemerência como fossem: a
imprescritibilidade dos direitos das viúvas dos militares
ao meio soldo, o reajustamento das tabelas de soldos e etapas, a
contagem em dobro do tempo de serviço em campanha, entre
outras medidas de menor alcance.
Ofereceram-lhe os manifestantes, encabeçados por um dos mais
ilustres e prestigiosos oficias daquele tempo, o heróico
Antonio Tibúrcio Ferreira Sousa, magnífico retrato
a óleo, de tamanho natural.
Em todo o Brasil provocou a passagem do primeiro centenário
natalício do autor de Retirada da Laguna, a ocorrência
de consideráveis demonstrações de apreço
à memória do soldado escritor.
Partiram as primeiras do Exercito Nacional. Por intermedio de generosa
ordem do dia, determinou o então Ministro da Guerra, General
Eurico Gaspar Dutra, que todas as guarnições do pais
festivamente celebrassem a efemérides de 22 de fevereiro
de 1943 em altamente significativas cerimonias. Em largos artigos
recordou a Imprensa Brasileira o que fora a vida e era a obra do
militar, do escritor, do parlamentar, do nacionalista apaixonado,
do administrador. E vários dos seus mais prestigiosos órgãos
a tal fim consagraram largas colunas e paginas de suas edições
como sobretudo o fizeram o "Jornal do Comercio" e "O
Estado de São Paulo".
Magníficas cerimonias votivas realizaram-se no Rio de Janeiro,
por parte do Exercito, do Instituto Histórico Brasileiro,
da Irmandade de Santa Cruz dos Militares, de numerosas e prestigiosas
associações militares, de numerosas e prestigiosas
associações militares, literárias e Histórico
de São Paulo e seus congêneres de diversos Estados,
sobretudo no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul,
promoveneo sessões especiais as mais honrosas.
Em todo o Brasil, de extremo a extremo, pode-se afirma-lo, a memória
do autor da Retirada envolveu uma onda de simpatia e apreço
que aos filhos do reverenciado trouxe a mais grata emoção
de despertou-lhes a mais reconhecida saudade.
Assumindo a Presidência da Republica, o Exmo. Sr. General
Eurico Gaspar Dutra entendeu, ele e seu Ministro da Guerra, Exmo.
Sr. General Canrobert Pereira da Costa, coroar as manifestações
de 1943 do modo mais dignificante.
Para patrono do Batalhão-Escola de Engenharia escolheram
o soldado historiador da Retirada da Laguna.
Assim, mais uma vez, quero, de publico, em nome próprio e
no de meus irmãos, e de quantos pelo sangue se prendem a
Alfredo D´Escrognolle Taunay, testemunhar aos dois eminentes
oficiais-generais, autores de tão alta homenagem, quanto
ela nos sensibilizou e desvaneceu.
Mais nobre, mais eloqüente formula não se poderia encontrar
para, em perene rememoração, perante a nação,
recordar os serviços de sangue e de paz prestados a Pátria
Brasileira pelo historiador do inesquecível feito daqueles
guerreiros seus irmãos de armas, de cujos sacrifícios
foi comparte. Desses soldados da Constância e do Valor, que,
acabrunhados por inexcedíveis privações, perseguidos
por inimigo cruel e incomparavelmente mais forte, cercados pelo
incêndio, dizimados pela cólera e os combates, exinanidos
de forcas mas nunca de animo, salvaram as bandeiras e os canhões
que o Brasil lhes confiara...
São Paulo, 25 de maio de 1952
Affonso de
E. Taunay.
A Sua Majestade
o Senhor Dom Pedro II Imperador do Brasil
Senhor,
Ao se render
Uruguaiana, inaugurou Vossa Majestade, na América do Sul,
a guerra humanitária, a que aos prisioneiros poupa e salva,
trata feridos inimigos com os desvelos dispensados aos compatriotas,
a que, considerando a efusão de sangue humano deplorável
contingência, aos povos apenas impõe os sacrifícios
indispensáveis ao solido estabelecimento da paz.
E principalmente sob este pontuo de vista que ouso achar-me autorizado
a colocar sob o augusto patrocínio imperial a desataviada
narrativa da Retirada da Laguna, obra de constância e da disciplina,
em que os oficiais de Vossa Majestade, devendo defender, por entre
obstáculos os mais diversos, as bandeiras e os canhões
a eles confiados, jamais cessaram, quanto lhes foi possível,
de conter o legitimo desforço de bizarros soldados, exasperados
pelo furores do inimigo, e obstar à crueldade tradicional
de auxiliares índios, vingativos como soem ser.
É este reflexo de um grande ato de iniciativa soberana, a
mais bela recordação que jamais poderemos entre camaradas
invocar; cabe-nos a honra de a Vossa Majestade dedicá-la.
De Vossa Majestade
Imperial
Súdito e servidor, muito humilde e obediente,
Alfredo d`Escragnolle
Taunay..
Prólogo
É o assunto
deste volume a serie de provações por que passou a
expedição brasileira, em operações ao
Sul de Mato Grosso, no recuo efetuado desde a Laguna, a três
e meia léguas do rio Apa, fronteira do Paraguai, ate o rio
Aquidauana, em território brasileiro, trinta e nove léguas,
ao todo, percorridas em trinta e cinco dias de dolorosa recordação.
Devo esta narrativa a todos os meus irmãos de sofrimento,
aos mortos ainda mais do que aos vivos.
Em todos as épocas largo interesse se ligou às retiradas,
não só por constituírem operações
de guerra difíceis e perigosas, como nenhuma outra, mas ainda
porque os que as executam, já sem entusiasmo nem esperanças,
freqüentemente entregues ao desanimo, ao arrependimento de
erros ou das conseqüências de erros, precisam arrancar
ao espirito, assim preocupado, os meios de enfrentar a fortuna adversa,
que a cada passo os ameaça, com todos os seus rigores. Em
tais contingências requer-se o verdadeiro cabo de guerra:
ali há de se lhe revelar o caracterisco essencial: a inabalável
constância.
Vive a Retirada dos Dez Mil em todas as memórias. Colocou
Xenofante na plana dos primeiros capitães. Nos tempos modernos
vários ocorreram não menos notáveis: a de Altenheim,
pelo marechal de Lorge, após a morte de Turenne, seu tio,
e que ao grande Condé fez declarar que lha invejava; a de
Praga, enaltecedora da nomeada do conde de Belle Isle: a de Plaffenhofen,
por Moreau, tida como um dos mais belos jeitos d´armas, efetuados
por Turenne; já em nossos dias: a de Talavera, que levou
Lorde Wellington, triunfante, a Lisboa; a que honrou o funesto regresso
de Moscou e em que o Príncipe Eugênio e o Marechal
Ney rivalizaram, em heroísmo; a de Constantina pelo Marechal
Clausel e outras menos célebres; mas que, no entanto, pela
variedade dos perigos e das misérias, chamam a atenção
da história.
Resta-nos solicitar a maior indulgência para esta narrativa
cujo único mérito pretende ser o dos fatos expostos.
Tiramo-los de um diário escrito em campanha.
Assim nela hão de abundar as incorreções, demasias
e repetições; cremos dever deixá-las; são
indícios da presença da verdade.
Alfredo D'Escragnolle
Taunay.
Rio de Janeiro,
outubro de 1868.
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