A RETIRADA DA LAGUNA
VISCONDE DE TAUNAY
CAPÍTULO VIII
Ocupação
de Bela Vista. Devastações dos paraguaios em torno
da coluna. Tentativa de negociações. Seu malogro.
Tornam-se os viveres escassos. Marcha sobre Laguna.
É dia
seguinte, 21 de abril, ás 8 da manhã, deram os clarins
do quartel-general o toque de marcha: nada menos significava do
que transpormos a fronteira, entrar em território paraguaio
e atacar o forte de Bela Vista, que, deste lado, é a chave
de toda aquela região. Não havia quem não compreendesse
o alcance da operação, redobrando por este motivo
a animação geral. Cada qual envergara o mais luzido
uniforme; e como ás nossas antigas bandeiras não prestigiasse
ainda feito notável algum, foram substituidas por outras,
cujas cores vivas se destacavam no céu formoso das campinas
paraguaias.
Deixando a Machorra,
adotara-se a ordem compacta. Dos dois lados da coluna, e para lhe
facilitar o movimento, os atiradores, que a flanqueavam, cortavam
a macega; pois mudara a natureza do terreno. Não mais tínhamos
a grama curta e fresca dos prados que acabávamos de atravessar.
Estava o solo coberto desta perigosa gramínea que atinge
a altura de um homem, e a que chamam macega, e cujas hastes duras
e arestas cortantes tornam, em muitos lugares do Paraguai, a marcha
tão penosa. Transpusemos o Apa em frente a Bela Vista; o
20.° de infantaria de Goiás formava a vanguarda, sob
o comando do capitão Ferreira de Paiva. Avançando
á frente dos batedores, a quem comandava, jovem e valente
oficial, de nome Miró, fadado á morte próxima,
víamos o velho Lopes, apressurado, montando belo cavalo bafo
um daqueles animais que o filho e os companheiros deste haviam tomado
aos paraguaios.
Estava no auge
da alegria, o olhar como o de um rapineiro, a fitar Bela Vista,
que começávamos a avistar. De repente, no momento
em que acabávamos de chegar ao seu lado, percebemos que a
fisionomia se lhe anuviara: "A perdiz, disse-nos, voa do ninho
e nada nos quer deixar, nem os ovos". Mostrava ao mesmo tempo
tênue fumo que subia aos ares. "São as casas de
Bela Vista que incendiaram".
Foi a noticia
levada ao Coronel que, avisado também por um sinal do alferes
Porfirio, do batalhão da frente, fez acelerar a marcha. Começamos
a correr, precipitando-se a linha dos atiradores do 20.° para
o rio; mas a sua frente já se antecipara pequeno grupo de
que fazia parte o nosso guia. Com grande espanto nosso não
pareciam os inimigos pretender disputar-nos o passo; retiravam-se
do Apa como já se haviam afastado da Machorra, indo estacar
a uma distância bastante grande, imóveis sobre os cavalos.
Cabia-nos, pois,
o feliz ensejo de ser os primeiros a atravessar a fronteira, pisar
á esquerda do Apa e sentir sob os pés o solo paraguaio.
Transposto o
rio, galgamos num ápice uma eminência que nos ficava
fronteira, e nos proporcionou a vista próxima da fortaleza
e da aldeia: ambas ardiam. Pelo interior e vizinhança vagavam
ainda paraguaios a pé, retardados pelo pesar da presa que
nos abandonavam e a ira que os levava a tudo devastar. Outros, em
maior número, e a cavalo, retiravam-se desordenadamente.
Pôs-se
o nosso guia a provoca-los com assobios e apóstrofes de desprezo,
ante as quais difícil nos foi conter o riso. Teriam podido
volver sobre nós estes robustos cavaleiros, e com as possantes
montarias e pesados sabres facilmente destroçar o nosso pequeno
grupo, a meio montado e mal armado, como nos achávamos.
Mas tal idéia
não nos ocorria e a Lopes ainda menos. Este intrépido
velho quase sempre nos precedera na carreira, a galope; e por mais
esforços que fizéssemos, a todo o instante redobrava
de velocidade, pensando na mulher, duas vezes agarrada e arrastada
prisioneira para o Paraguai, em todos os seus, nos amigos e companheiras
de existência, com ela prisioneiros. Mil recordações
de atrocidades antigas e recentes lhe incutiam violenta sede de
vingança.
Uma vez efetuada
a passagem pelo corpo de exército, o forte, que apenas consistia
em sólida estacada de madeira, foi ocupado, assim como a
vila, por grande destacamento. A linha de atiradores do 20.°
batalhão, formada à esquerda, pôs-se em movimento
para ir atacar os paraguaios imóveis. Vimos, então,
que haviam arvorado alguma coisa branca. Não tardamos, porém,
a perceber que se afastavam devagar, tendo em mente, atrair-nos
para algum mato, onde caro pagaríamos excesso de confiança
em sua lealdade. Soubemos tarde que tal lhes fora, com efeito, o
plano. Acreditavam precisar de algumas vitimas para coonestar uma
retirada por demais precipitada e que não podia deixar de
atrair a cólera dos chefes fossem quais fossem, aliás,
as ordens deles recebidas.
Assim se passou
21 de abril; os dias imediatos consagramo-los ao repouso e exame
da situação. Todo o corpo de exército transpusera
a fronteira e acampara ao sul da fortaleza, ali apoiando a ala direita,
ao passo que a esquerda se prolongava pela mata do rio. Reinava,
então, no acampamento abundância de víveres
frescos. Deles tínhamos a maior nccessidade; e a nossa gente
pôde gozar dos últimos bons momentos que a sorte nos
reservara. Parecia nosso chefe mais sereno do que habitualmente,
mostrando-se até confiante. Começou qualificar a coluna
expedicionária: Forças em operações
Norte do Paraguai e todos os seus ofícios, como aliás,
imita-lo, todas as nossas cartas, destinadas a Mato Grosso, Goiás
e ao Rio de Janeiro (confiadas a Loureiro, que então de nós
se despediu) traziam no sobrescrito: Império do Brasil.
No entanto,
do alto do morro da Bela Vista, viam-se de dia numerosos cavaleiros
inimigos, de sentinela ao pé de grandes buritis. À
noite ousavam alguns acercar-se do acampamento ainda mais.
Esta contínua
vigilância tanto mais nos incomodava, quanto também
tinha em vista subtrair do nosso alcance o gado da campina, sempre
que as nossas guardas avançadas pareciam querer captura-lo.
E a nossa inquietação a tal respeito crescia sempre.
Haviam os refugiados exagerado a facilidade do abastecimento nestas
pastagens; nada víamos do que nos fora anunciado; e até
mesmo dois dias depois de nossa chegada a Bela Vista, ordenando
o Coronel um rodeio, protegido pelo 21.° batalhão, e
levado a mais de uma légua, dai se não auferiu resultado
algum. Ficamos todos convencidos de que nada havia a esperar, pelo
menos agora, de tentativas neste gênero. Se é exato
que os paraguaios haviam desaparecido ao avistarem os nossos, desde
o dia imediato estavam de novo no posto, ao pé da palmeira.
Quase insultuosa
chegava a ser tal permanência. Poderíamos livrar-nos
dela atirando algumas granadas, mas pensamento diverso veio contrariar
esta ideia, inclinando-se o espírito do comandante a outra
ordem de sugestões.
Neste pressuposto
fez partir, escoltado pelo 17.° Batalhão, um oficial
parlamentário, portador de proclamação escrita
em espanhol, português e francês, que se fincou, presa
a uma bandeirola branca, a légua e meia do acampamento.
Assim se redigia:
"Aos Paraguaios:
Fala-vos a expedição
brasileira como a amigos. Não é seu intuito levar
a devastação, a miséria e as lágrimas
ao vosso território. A invasão do Norte como a do
Sul de vossa República significa apenas uma reação
contra injusta agressão nacional. Será conveniente
que venha um de vossos oficiais entender-se conosco. Poderá
retirar-se, desde que assim entenda; e bastará que manifeste
simplesmente tal desejo. Jura o comandante da expedição
pela honra, pela santa religião professada por ambos os povos,
que todas as garantias se oferecem ao homem generoso que em nós
confiar. Disparamos tiros de peça como inimigos, queremos
agora nos entender como amigos reconciliáveis. Apresentai-vos
empunhando a bandeirola branca e sereis recebidos com todas as atenções
que os povos civilizados, embora em guerra, mutuamente se devem".
A resposta,
no dia seguinte encontrada, fora traçada sobre um papel preso
a uma varinha e era do teor seguinte:
"Ao Comandante
da expedição brasileira:
Estarão
os oficiais das forças paraguaias sempre atentos a todas
as comunicações que se lhes quiserem fazer; mas no
atual estado de guerra aberta entre o Império e a República,
só de espada desembainhada poderemos tratar convosco. Não
nos atingem os vossos disparos de peça e quando tivermos
ordens de os obrigar a calar, há no Paraguai campo de sobra
para as manobras dos exércitos republicanos".
Era a letra
de mão firme e corrente. Apunha-se-lhe o selo da República:
barrete frígio por sobre um leão rampante.
As fórmulas
empregadas em tal resposta atestavam certo grau de cultura intelectual
e boa educação. Mas veio logo o insulto. Recebeu o
comandante uma folha de couro na qual se estampavam os seguintes
versos, mais grosseiros do que ingênuos:
"Avança,
crãnio pelado!
Mal-aventurado general que espontaneamente
Vem procurar o túmulo".
A isto se ajuntava:
"Crêem
os brasileiros estar em Concepción para as festas; os nossos
ali os esperam com baionetas e chumbo".
Bravatas sem
alcance, nada tendo de sério. Mas o que o era, e no mais
alto grau, viam-no todos, vinha a ser a impossibilidade de nos abastecermos.
O 21.° batalhão mandado novamente, a 27, para ajuntar
e trazer gado, nada conseguira; e embora a ninguém perdesse
numas escaramuças de cavalaria, voltava com a triste certeza
de que a região estava para conosco nas disposições
as mais negativas e hostis.
Assim, pois,
tomou o comandante a resolução de manter, por algum
tempo, na Bela Vista; e numa expedida pelo viajante Joaquim Augusto,
que determinou que a Nioac lhe enviassem munições,
a bagagem dos soldados e o arquivo da coluna. Avisara aos oficiais
que, a seu turno, deviam mandar vir tudo quanto haveriam de precisar
para uma assaz larga estada. Mas a falta de gado tornava insustentável
a própria posição de Bela Vista. Começávamos
a sentir a penúria nas distribuições de viveres.
Era preciso sem mais detença procurar uma solução
ou avançar na esperança de bater o inimigo, que, à
nossa frente, não podia ter grandes contingentes, visto como
a guerra ao Sul da República para ali atraira a maior parte
das suas forças (e então, após algum feito
feliz, teriam as nossas patrulhas mais largo raio de ação
sobre o gado errante nas campinas); a não ser assim convinha
retrogradar para os distritos da fronteira, menos desprovidos de
recursos.
Esta alternativa,
semelhante opção, veio por completo arrancar a calma
ao nosso comandante. Tornou-se-lhe a agitação do espírito
visivelmente violenta. Pôs-se de novo a imaginar a calúnia
a abocanha-lo em toda a província de Mato Grosso, sobretudo
na capital, e assim, pois, como a refletir, em voz alta, deixava
escapar exclamações que debalde tentava sufocar: "Por
toda parte me atassalham, dizia, apregoam que até agora nunca
tivemos encontro sério com o inimigo e apostam que jamais
o teremos".
Nesta perturbação
e à falta de dados exatos para a escolha de um alvitre, os
refugiados, indiretamente consultados, começaram, com maior
insistência do que até então o haviam feito,
a falar de uma fazenda chamada Laguna, cerca de quatro léguas
de Bela Vista, pertencente aos domínios do Presidente da
República e destinada à criação do gado.
Ali acharíamos,
afiançavam, grandes rebanhos, posições firmes
e base para operações. Depois, como esta sugestão
não parecesse desgostar ao Coronel, vários oficiais
que o cercavam, e a quem parecia consultar, deixaram convencer-se.
"Por que, exclamaram, não haveremos de ir até
Concepción como nos desafiam? Viemos parar tão longe
para recuar? Contanto que possamos contar com um quarto de ração,
não há um único soldado que hesite em seguir
os chefes, e com eles não deseje tentar a fortuna do Brasil".
À testa
dos mais ardentes via-se o capitão Pereira do Lago, oficial
tão ousado quanto positivo e obstinado. Dotado desta coragem
que facilmente se exalta, e jamais decai do nível a que se
alçou, coube-lhe, certamente, a maior responsabilidade nas
nossas temeridades. Mas, também, soube sempre, mais tarde,
nos transes mais difíceis de nossa retirada, fazer frente
a todas as necessidades do momento, pela atividade, poderosa iniciativa
e perspicácia do descortino, grandes qualidades que lhe vinham
realçar a doçura, a singeleza e o bom génio.
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