A RETIRADA DA LAGUNA
VISCONDE DE TAUNAY
CAPÍTULO XXI
Nioac. Decepção;
encontramos a vila saqueada, incendiada e quase destruída
pelos paraguaios. Infernal ardil de guerra. Desaparece o inimigo,
definitivamente. Regresso pacífico do corpo de exército.
Ordem do dia sobre esta campanha de trinta e cinco dias.
O oficial encarregado
da defesa de Nioac, durante a nossa incursão em território
paraguaio, ausentara-se da vila, a 1.° de junho, sem que ali
se tivesse notícia da aproximação do inimigo,
procedendo assim contra as ordens terminantes de 22 de maio que
lhe impunham a defesa, a todo o transe, de um ponto que era a nossa
base de operações.
Não é
que os víveres lhe faltassem, longe disto, deixara-lhos abundantes
o chefe da Intendência. Dar-se-ia o caso que os seus comandados,
seduzidos pela vizinhança do rio, e suas matas, houvessem
desertado, um após outro, até o largarem inteiramente
só? Mas aí estavam todos os oficiais do nosso corpo
de exército concordes em atestar o espírito de submissão
de nossos soldados aos chefes. Acaso se houvesse dado um "salve-se
quem puder" geral não teria podido aquele comandante
manter-se em observação pela vizinhança, onde
tantos acidentes de um terreno florestado lhe podiam servir de abrigo,
à espera de nossa chegada? Afastaria, assim, de si, a responsabilidade,
não somente da enorme perda de material como do novo sacrifício
de vítimas humanas fruto de tão funesto abandono.
Faltou-lhe o animo desapareceu deixando ligado ao nome a reminiscência
de uma deserção em frente ao inimigo...
Tanto mais sensível
e mais notada esta infidelidade quanto as demais providências
do coronel Camisão, no mesmo ofício, haviam com exação
sido observadas. As provisões de guerra e de boca, o arquivo,
o dinheiro da pagadoria, esperavam-nos nos Morros, para onde os
transportara o Coronel Lima e Silva; enquanto ele próprio,
de acordo com as instruções, estacado à margem
do Aquidauana, providenciava no sentido de encaminhar em primeiro
lugar tudo o que poderia preceder-nos, enfermos, mulheres, crianças,
soldados desgarrados ou inválidos. Cuidadosamente ordenara,
aliás, aos condutores das carretas, que serviam para estes
diversos transportes, voltassem sem demora, apenas desocupados,
retendo ao mesmo tempo, ao seu lado, a maioria das viaturas carregadas
de víveres, de que fizera um depósito volante, tendo
em vista a nossa próxima chegada.
Assim abandonada
passara Nioac a ser a presa dos paraguaios. Tudo haviam saqueado
e queimado, salvo a igreja, poupada não por espírito
religioso, mas, pelo contrário, com o fito de a utilizarem
num ardil infernal. Retirara-se a sua infantaria ante a nossa aproximação,
entrincheirando-se no cemitério. Seguira, então, pela
mata em direção a um vau do Orumbeva que a cavalaria
reconhecera.
Sem preocupações
quanto ao inimigo, fomos a toda a pressa ver o que haveria ainda
a salvar.
Esta bonita
povoação, abandonada, ocupada e pela segunda vez,
desde o início da guerra, devastada, convertera-se num montão
de destroços fumegantes. O grande galpão que, outrora,
nos servira de armazém de mantimentos e ainda achamos de
pé, sobre os estelos incendiados, mostrava renques de sacos
que nossa gente, sem dúvida, não tivera tempo de carregar
e já serviam de pasto ao incêndio. O arroz e a farinha
carbonizados, exteriormente; o sal, gênero este tão
escasso e precioso no interior do país, negrejara e fundia
sob as nossas vistas. Não pouparam esforços os nossos
soldados em salvar o que puderam.
Aqui e acolá
jaziam muitos cadáveres, todos de brasileiros. Constatamos
que muitos dentre estes infelizes mortos haviam servido em nossas
fileiras. Desertando por ocasião do exacerbamento de nossas
misérias, e morrendo de fome pelas matas, haviam se apressado,
embora correndo o perigo de serem reconhecidos, em tomar parte no
saque.
Fora um deles,
de pés e mãos amarrados, sangrando como um porco.
Jazia outro, crivado de feridas, e uma velha, estirada a seu lado,
de goela aberta e seios decepados, nadava no próprio sangue.
Foi quase toda
a coluna acampar por esta noite atras da igreja, sobre o grande
terrapleno que descrevemos e onde, escalonados com os canhões
nos angulos, para maior segurança contra o inimigo, nos apoiávamos
àmata do rio. Ali gozamos, enfim, um pouco de verdadeiro
descanso. Dupla e tripla ração se distribuiu; permitiam-no
as circunstancias; sentia-se o comandante feliz por contentar os
soldados, quanto possível. Pela primeira vez, e desde muito,
podíamos contar com o dia de amanhã. Restavam-nos,
apenas, para nos pôr fora de qualquer perigo eventual, fazer
quinze léguas, a caminhar por excelente estrada, de Nioac
ao Aquidauana onde éramos esperados. E para tal marcha tínhamos
víveres sobejos.
Foi a noite
calma, como tudo prenunciava dever suceder. Apenas amanheceu fizeram
os soldados uma visita às ruínas da aldeia. Acabaram
tomando tudo o que aos paraguaios escapara. Graças a esta
sucessão de roubos desaparecera, em alguns meses, destas
terras novas o pouco que o incipiente comércio ali introduzira,
como mecanismos e ferramenta, tudo, enfim, o que o trabalho conseguira
juntar de frutos e poupança.
Durante a última
estada em Nioac depositáramos na igre)a muitos e diversos
objetos, o instrumental das bandas de música, munições
de guerra etc. Consta que os paraguaios encontraram ainda muita
coisa deste apetrechamento, não lhes havendo chegado o tempo
para tudo carregar. Existia ali grande reserva de cartuchos e foi,
talvez, o que Ihes sugeriu a primeira idéia da horrivel maquinação
que tanto lhes condizIa à feição cruel.
Depois de carregarem
o que mais poderiam aproveitar, deixaram o resto por destruir, para
nos engodar e nos reter o maior lapso de tempo possível em
torno de um amontoado de objetos, sob o qual colocaram um barril
de pólvora com rastilhos. Não podíamos ter
a menor suspeita de semelhante cilada; e, à vista dos cartuchos
que devíamos transportar, tomamos as precauções
costumeiras contra as eventualidades de uma explosão. Enquanto
na igreja trabalhava o nosso pessoal sentinelas vigiavam, a fim
de que nenhum fogo se acendesse pela vizinhança.
Ocorreu, contudo,
que um infeliz soldado encontrasse pelo chão um isqueiro,
dentro do edifício, e lhe viesse a estapafúrdia idéia
de o utilizar. Saltou logo uma faísca sobre alguns grãos
de pólvora dos que coalhavam a nave. Sem a umidade do solo,
então muito grande ou acaso fossem os rastilhos contínuos,
instantanea ocorreria a explosão. Para melhor nos enganarem
haviam os paraguaios espalhado a pólvora sóbria e
desigualmente com o minucioso cuidado, e os cálculos ardilosos
do selvagem que preparara os seus malefícios Só se
viu, a princípio brilharem pequenas chamas e aqui e acolá
se levantarem sucessivamente ligeiras espirais de fumaça.
Já os soldados se precipitavam para conter o fogo, no momento
em que ele tomava corpo, quando os oficiais presentes, compreendendo
melhor o perigo, ordenaram que imediatamente fosse a igreja evacuada.
A esta voz correram todos, em massa, para as portas; como o atropelo
perturbasse a saída, deu-se a explosão antes que toda
a gente se achasse do lado de fora. Pouco faltou para que todo o
edificio voasse aos ares; foram as paredes sacudidas, mas o conjunto
resistiu; assim não sucedera e teriam todos os nossos, que
ali se achavam, infalivelmente perecido esmagados sob os escombros.
Terríveis
de se ouvir e sentir, até no ponto distante em que nos achávamos
com o comandante, foram o estampido e o abalo. Grande grito acompanhou
a explosão seguida de silêncio, depois novo e horrivel
clamor e ainda pausa. Soaram os clarins; julgando todos que era
o inimigo, os corpos entraram em formatura. Já nos precipitáramos
para a igreja; dela saíam, dentre turbilhões de fumo,
irreconhecíveis formas, fantasmas enegrecidos e avermelhados
pelo fogo. Ardiam uns com as roupas em chamas, outros completamente
nus e cuja pele pendia em frangalhos, soltavam urros; alguns ainda
rodopiando como alucinados já se debatiam nas angústias
da agonia. Perdera um soldado negro toda a epiderme do rosto, arrancada
como uma máscara. Era-lhe o corpo sangrenta chaga. Um sargento,
cujas carnes se achavam inteiramente desnudadas, implorava, por
misericórdia, que o acabassem com uma bala ou um pontaço.
Morreram ali mesmo, no local, uns quinze desventurados.
Todos aqueles
a quem podia a arte valer, ou para lhes diminuir o sofrimento ou
para os salvar, passaram a ser o objeto do desvelo dos médicos
e das nossas preocupações. A nossa compaixão
para com eles acrescia a indignação contra os autores
deste cruel atentado; não houve depots dentre as vítimas
arrebatadas à morte nenhuma cuja cure não saudássemos
como verdadeira felicidade geral.
Foi o adeus
dos paraguaios, a última demonstração de seu
ódio contra nós. Sem nos abandonar de todo, porfiavam,
contudo, em só se deixar entrever fora de alcance.
A 5, entretanto,
ao radar do dia, saímos da infeliz e bela Nioac, afinal,
aniquilada com a sue igreja. Seguíamos a estrada do Aquidauna
e marchávamos penalizados sob a impressão do funesto
sucesso da véspera.
A sodas as vicissitudes
atravessadas viera ajuntar-se a angústia da véspera.
Já era muito porém, era legítimo triunfo estarmos
de pé e ter dominado um inimigo tão perfidamente encarniçado
em nos arruinar.
Foi o Orumbeva
facilmente transposto. À margem direita paraguaios acabavam
de queimar, muitos víveres e objetos de apretrechamento espalhados
e todos sujos de terra como já na barranca do Canindé
encontráramos; cadernos dilacerados, folhas soltas ao vento,
notas, entre as quais o autor desta narrativa reconheceu a própria
letra, e agora truncadas e inúteis.
A alguma distancia
deste caudal aguardava-nos, tal a primeira impressão, nova
cilada, cujos efeitos foram, contudo, muito diversos de um desfecho
trágico. Duas pipas, daquelas em que se conserva a aguardente
de cana, ocupavam o meio da estrada. Lembrando-se da explosão
da igreja e temendo algum novo estratagema, da parte de um inimigo
que nenhum escrúpulo Darecia poder conter, apressou-se o
capitão Pedro José ~ufino e precipitando-se sobre
os tonéis arrombou-os com os copos da espada.
A vista do liquido,
que a jorros corria, alguns soldados não podendo conter-se,
ajoelharam-se ou deitaram-se de brucos, para alcançar o seu
quinhão, espetáculo acolhido pelas gargalhadas, que
se generalizaram em toda a linha.
Não teve
o incidente outras conseqüências: pacificamente continuamos
a marcha até o ribeirão da Formiga, perto do qual
acampamos, ainda contemplados nesta nova fase de abundancia pelo
encontro de bom número de bois, em ótimas condições.
A 6 rumamos
para nordeste, seguindo grande caminho a que numerosas moitas de
taquaruçus dão o nome e aberto através da mata
cerrada, que tanto se presta a surpresas. Nada, porém, ali,
nos sobressaltou a marcha.
A medida que
percorríamos estes terrenos a nós familiares e aos
paraguaios menos conhecidos, cada vez mais frouxa e inofensiva se
tornava a perseguição, embora não houvesse
inteiramente cessado. Fizemos neste dia ponto, junto a um lindo
ribeirão chamado das Areias. No dia seguinte, 7, quase vencemos
as quatro léguas que medeiam deste ponto ao rio Taquaruçu.
Atingimo-lo a 8 e, como a altura das águas não nos
permitisse vadeá-lo, acampamos à sua margem.
Noite para nós
memorável, esta! Foi ai que os paraguaios, avistados a alguma
distancia, se decidiram, enfim, a desaparecer. Deles próprios
partiu o aviso da retirada, com uma fanfarra prolongada de clarins
que tal sinal deu, mais lisonjeiro a nós outros de que a
eles. Não se fizeram nossas cornetas rogadas, aliás,
em associar-se àqueles toques com um estrépito a cujos
ecos estremeceram longamente aquelas solidões. Soubemos,
alguns dias mais tarde, que se haviam dirigido para Nioac, e, depois
de recolhidas todas as suas patrulhas, pelo Apa regressado ao território
de sua república.
Quanto a nós,
cada vez mais bem providos de víveres, graças a um
rebanho enviado das margens do Aquidauana, depois de um ofício
do nosso chefe, ao coronel Lima e Silva, transpusemos, a 9, o Taquaruçu
e, a 10, duas léguas adiante, um rio chamado Dois Córregos.
A 11 (1) chegamos ao porto do Canuto à margem esquerda do
Aquidauana. Tal o último trecho de nossa penosa retirada.
Ali findou o doloroso itinerário que, como expiação
de nossas temeridades, nos fizera curtir tantas misérias
quantas pode o homem suportar sem sucumbir. No Canuto nos despojamos
dos miseráveis andrajos que nos cobriam, libertando-nos,
afinal, da mãís horrível~sevandiia e dos parasitos
do campo, que, perfurando a pele, nela produzem dolorosas úlceras.
Oferecia-nos o r~o magnífico ensejo para as nossas~Todas
estas paragens podem ser chamadas: a terra das águas belas.
A 12 de junho
baixou uma ordem do dia do nosso valente chefe José Tomás
Gonçalves, em poucas palavras resumindo os acontecimentos
desta terrível campanha de cinco dias: "A retirada,
soldados, que acabais de efetuar, fez-se em boa ordem, ainda que
no meio das circunstâncias as mais dificeis. Sem cavalaria
contra o inimigo audaz que a possuia formidável, em campos
onde o incêndio da macega, continuamente aceso, ameaçava
devorar-vos e vos disputava o ar respirável, extenuados pela
fome, dizimados pela cólera que vos roubou em dois dias o
vosso comandante, o seu substituto e ambos os vossos guias, todos
estes males, todos estes desastre vós os suportastes numa
inversão de estações sem exemplo, debaixo de
chuvas torrenciais, no meio de tormentas de imensas inundações,
em tal desorganizaçao da natureza que parecia contra vós
conspirar. Soldados! honra à vossa constancia, que conservou
ao Império os nossos canhões e as nossas bandeiras!"
(2),
(1') No dla
da invasao do terrltório paragualo, Isto 6, em abril de 1867,
era efetivo da coluna de 1680 soldados. A 11 de junho reduzira-se
a 700 combatentes . Perdêramos pois 908 soldados pela cólera
e o fogo. Morrera além disto grande número de índios,
mulheres e homens negociantes ou camaradas que haviam acompanhado
a marcha agressiva do nosso corpo.
A Retirada da
Laguna, Visconde de Taunay
Fonte:
TAUNAY, Alfredo D'Escragnolle Taunay, Visconde de. A retirada da
Laguna - episódio da Guerra do Paraguai. São Paulo:
Ediouro. (Prestígio)
Texto proveniente
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A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
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