A RETIRADA DA LAGUNA
VISCONDE DE TAUNAY
CAPÍTULO XI
Rebate falso.
Últimas ilusões. O tenente Vitor Batista. Passagem
do Apa. Volta ao território brasileiro.
Algumas horas
mais tarde, cerca de meia-noite, ouvimos horrível fragor
a que dominava um grito único: Cavalaria paraguaia! Abriram
fogo as sentinelas avançadas.
Tornara-se o
acampamento teatro de geral balbúrdia: tiros rasgavam a treva,
deixando entrever formas fantásticas, ora de homens a empunhar
o revólver ou o sabre, ora de animais, estes ainda mais perigosos,
procurando por toda a parte como escapar, e numa excitação
furiosasa, ao passo que os seus guardas, não sabendo como
os conter, pejavarn os ares de imprecações.
Alucinante terror
se apoderara do gado no sitio em que estava preso. Averiguada a
causa de tal pânico pusemo-nos todos a rir, tornando-se universal
esta hilaridade. Está a vida da guerra cheia dos mais inesperados
contrastes.
O extremo frescor
das noites de inverno, na América do Sul, mesmo entre os
trópicos, obrigou-nos logo a voltar aos nossos improvisados
abrigos onde as exigências do sono reconquistaram todos os
direitos durante as horas decorridas até o amanhecer.
Aos primeiros
albores pusemo-nos novamente a marchar, expostos ao fogo da artÍlharia
inimiga, mas sem que nos detivéssemos em lhe responder. Levavam
os nossos atiradores de vencida tudo o que diante deles achavam
e não perdiam tiro. Haviam alguns cavaleiros inimigos caído,
desde o começo da fuzilaria e seus cadáveres ficaram
estirados, abandonados na estrada, não tendo seus camaradas
tido tempo de os levantar e arrastar na carreira. Reconhecendo os
nossos que um destes corpos era o de certo trânsfuga brasileiro,
evadido de Nioac, muito antes da guerra, não foi possível,
apesar de todos os esforços dos oficiais, subtrair os despojos
deste miserável ao furor dos soldados. A medida que pasmavam
o golpeavam com a espada ou a baioneta.
Encaminhávamo-nos
para as ruínas da Bela Vista. Abria-se diante de nós
largo vale, quase plano, tendo à direita um renque de colinas
de suave declive. Teria o inimigo podido aproveitar-se, contra nós,
desta disposição do terreno; mas chegamos a tempo
de a utilizar, ocupando a primeira destas eminências. Dali
o nosso fogo manteve os paraguaios a distância, enquanto marchávamos,
e nossas peças iam sucessivamente ocupar os pontos que melhor
podiam cobrir-nos. Esta manobra, pela precisão com que foi
diversas vezes repetida, levou-nos sãos e salvos até
um último cabeço que domina o Apa e Bela Vista. Ali
nos estabelecemos, naquela manhã de 9.
Lá ainda
ocupávamos a fronteira do Paraguai, embora batidos pelo pungente
pesar de a deixar. Tão recentemente a haviamos atravessado,
certos de realizar importante diversão, talvez até
indispensável à causa da Pátria!
Nós nos
sentíamos como corridos de vergonha, vendo nossas esperanças
de glória tão cedo desvanecidas. Escapara-nos a presa
e não queríamos ainda aceitar a absoluta necessidade
de a abandonar.
Assim, pois,
iria confinar-se à região dos sonhos a visão
daquele território magnífico, aberto diante de nós,
sob tão belo firmamento? Dali nos era, pois, indispensável
sair, exatamente quando prováramos superioridade em armas?
Faltavam-nos, não havia dúvida, as munições;
mas de um momento para outro não poderíamos recebê-las?
Já não tinham, desde muito, sido pedidas a Nioac?
- Acaso cheguem, explicava um oficial aos seus camaradas, o Coronel,
que ainda se não conformou com o pronunciar a palavra retirada,
ordenará logo nova ofensiva. E assim devaneávamos
sem ligar maior importância a todos estes pensamentos.
Um homem, no
entanto, avidamente acompanhara tais conversas: era o nosso infeliz
guia. Absorto, sombrio, sem uma só palavra para quem quer
que fosse, desde que retrogradávamos reconcentrava-se na
contemplação dos sofrimentos da família, reduzida
ao cativeiro, exposta aos tormentos, já os havendo sofrido
talvez: mulher, filhos, parentes, amigos. Assumira, a seu ver, a
marcha para a frente, o aspecto de um compromisso que, uma vez tomado
sob a invocação do patriotismo e da humanidade, era
definitivo, embora a todos nós custasse a vida! Agora, que
se falava de penetrar novamente no Paraguai, tornara-se outra vez
entusiástico e expansivo. Do comandante, abroquelado no corria
aos oficiais e destes aos soldados, garantindo se encarregava de
abastecer o corpo de exército.
Se nos entregássemos
á sua experiência, haveria conduzir-nos por caminhos
que só ele conhecia, a seguro onde o esperaríamos.Enganavam-se
os que ditavam na exaustão de recursos de sua fazenda. Ainda
possuia reservas e tudo sacrificaria, como já tudo ficara.
Nós lhe
admirávamos a alma generosa: mas eram-lhe evidentes as ilusões
e exagerações. Destruindo-se por si mesmas contribuíam
para nos abrir os olhos à verdade. Se ainda algumas dúvidas
nos restavam, veríamos demonstrada a nossa absoluta impotência
pelas noticias trazidas por um dos nossos oficiais, o tenente Vitor
Batista, que, da colónia de Miranda, escoltado por doze soldados,
viera ao nosso encontro. Não se avistara com os paraguaios;
mas quanto ao objeto de nossa principal preocupação,
ou por assim dizer, o único, contou-nos que nenhuma remessa
de munições partira de Nioac. Um bom número
de carretas do comércio, carregadas de mercadorias, havia
realmente atingido a Machorra. Ainda estavam algumas paradas á
nossa espera; mas as outras, a maioria, ao saber de nossas refregas
com o inimigo, tinham tornado atrás, certas de que não
nos encontrariam mais.
A Machorra,
como já dissemos, está situada a dez quilómetros
de Bela Vista, em território brasileiro; e podíamos
supor que os inimigos, preocupados conosco, e com o que poderíamos
fazer, ainda se não haviam dirigido para ali. Interromper
a nossa marcha, para atrasar a deles, ficar além do Apa e
fazer, entretanto, com que os mercadores tomassem o mais depressa
possível a estrada de Nioac, tais foram, pelo que pudemos
julgar, as ideias do Coronel. Por elas se apaixonou. Considerava
desonra ver apreender tão rica presa pelo inimigo, que indo
sempre á nossa frente, haveria de atingi-la antes de nós
e não deixaria de arvora-la em troféu. Assim, pois,
ordenou aos diferentes corpos que só a 11, dois dias mais
tarde, levantassem acampamento.
Debalde apressaram-se
vários oficiais em lhe fazer ver que, para a execução
de uma retirada, já comprometida pela escassez de víveres
que nos ameaçava, havia a maior urgência em atravessar
o Apa, antes que os inimigos tivessem conseguido torná-lo
para nós intransponível; a não ser mediante
sacrifícios de todo o gênero, e sobretudo o de uma
delonga que infalivelmente nos perderia.
Mostrou-se irredutível,
abroquelando-se numa única alegação: exigia
a dignidade do corpo de exército a demonstração
de que a retirada se efetuava tanto sem precipitação
como sem temor.
Restava-lhe
mandar levar à Machorra a ordem para que os nossos mascates
regressassem a Nioac; e foi então que se lhe transmutou a
funesta obstinação em verdadeira idéia fixa.
Chamando o tenente Vítor Batista, o portador das noticias
recentes, dele indagou qual seria o melhor meio de entrar em comunicação
com o comboio e quem poderia executar a comissão. Depois,
como este valente oficial não hesitasse em oferecer-se, aceitou-lhe
a proposta, sem nada querer ouvir das observações
que me foram feitas acerca dos inconvenientes de se arriscar assim
a perder um oficial, de patente já distinta, tão dedicado,
e cuja perda podia trazer o desânimo à coluna. Continuou
inabalável, a tudo respondendo com o dizer que o filho de
Lcpes lhe serviria de guia, tomando atalhos que conhecia e impraticáveis
à cavalaria.
Tal ordem se
executou. Dois dos nossos refugiados do Paraguai, os irmãos
Hipólito e Manuel Ferreira, arrastados pela confiança
no filho de Lopes juntaram-se ao tenente Vitor. Partiram os quatro,
deixando-nos cheios de apreensões as mais intensas.
Mal decorrera
meia hora, ouvimos distintamente, ao longe, tiros de fuzil. Estremecemos,
fitavam os nossos olhos o ponto onde os ausentes haviam desaparecido.
Vimos, afinal, o filho de Lopes sair só, da mata do rio,
correndo para nós, seminu e todo ensangüentado.
Apenas cobrou
alento, contou o que se passara. Os paraguaios os haviam cercado,
matando o tenente e os irmãos Ferreira. Ele próprio
conseguira escapar graças a um espinhal denso onde se lançara
e donde, por milagre, pudera atingir o rio.
A todos consternou
este fatal acontecimento. Quanto não deve ter sofrido o infeliz
coronel Camisão com o seu gênio tão acessível
às angústias do arrependimento e do remorso! Dominou,
contudo, a comoção: não disse palavra, e não
tardou em ordenar aos engenheiros que, sobre o Apa, construíssem
uma ponte para a passagem das tropas.
Tudo o que se
pôde fazer, por falta de material e ferramenta, foi uma pinguela
e ainda assim vacilante e pouco segura. Felizmente, porém,
baixara sensivelmente o nível das águas e o rio mostrava-se
vadeável. Começou a passagem da coluna às seis
da manhã seguinte. Foi morosa e difícil. Os soldados
atravessavam a água, levantando acima das cabeças
armas e bagagens, a lutar com a rapidez da corrente.
Os doentes,
os oficiais, os músicos e as mulheres utilizaram-se da pinguela.
Houvesse o destino determinado que os inimigos cuidassem em assestar
a artilharia numa esplanada que nos ficava a cavaleiro, ou simplesmente
espalhassem atiradores em torno de nós, caro nos teriam feito
pagar a invasão do seu território, no momento em que
o deixávamos. Felizmente adotaram outro plano; separados
em dois grupos, um esperou-nos à frente, ao passo que o outro
se dispunha a cair-nos á retaguarda, desde que entre ela
e o resto da coluna visse o rio. Não surtiu efeito a combinação,
mantidos que foram a distância respeitosa pelo fogo rápido,
e hábilmente dirigido, de uma das nossas peças, a
que, do alto da chapada, onde se estabelecera o nosso acampamento,
podia varrer todos os arredores.
Depois dos batalhões
do centro e seus canhões passou o gado costeado por dez ou
doze homens, a quem comandava o capitão da guarda nacional
Silva Albuquerque. Nossa vanguarda com as peças que tinham
protegido a passagem, transpôs o rio a seu turno, coberta
pelo fogo de uma bateria que acabava de tomar posições
defronte da margem paraguaia.
Às nove
e meia, quando nos achávamos todos em território brasileiro,
foi a nossa ponte improvisada cortada por alguns soldados que para
este serviço reservara o tenente Catão Roxo. Recomeçou
o corpo de exército a marchar, acompanhando a margem que
o fogo do forte de Bela Vista, agora arruinado, podia outrora dominar.
Tomou a dianteira
o batalhão de voluntários do tenente-coronel Enéias
Galvão, indo o 21.° de infantaria, comandado pelo major
José Tomás Gonçalves, formar a retaguarda.
Entre eles ficaram os corpos do centro: à direita o 20.°,
comandado pelo capitão Ferreira de Paiva; e, à esquerda,
o corpo de caçadores sob as ordens do capitão Pedro
José Rufino. Cobria toda esta força duas linhas de
carretas, no meio das quais iam as mulas carregando o resto de nossos
viveres, munições e alguma bagagem de oficiais. Vinha
depois o grupo das mulheres, dos enfermos e convalescentes. Nossas
últimas juntas de bois arrastavam as peças; a de Marques
da Cruz, no ângulo da direita; a de Nobre de Gusmão,
no da esquerda; a de Cantuária à extrema direita da
retaguarda; e a de Napoleão Freire à extrema direita.
À retaguarda
do 20.° batalhão, e fora das linhas, tudo superintendendo
iam o comandante e parte do seu estado-maior. A cada momento enviava,
para todas as direções, os seus oficiais e ajudantes-de-campo,
a fim de se regularizar o movimento. Por duas vezes ao chefe dos
voluntários, à vanguarda, avisou que os seus atiradores,
por demasiado ardor, se isolavam da coluna, com grande risco para
todos, como não tardaram os fatos a demonstra-lo.
Avançávamos;
e nossos olhos se despediam de Bela Vista, dizendo-lhe adeus e para
sempre. Muitos daqueles que conosco estavam, então, não
mais existem. O que podem desejar os seus sobreviventes é
nunca mais regressarem àquele teatro de tanta miséria.
Já se não percebia um pedaço de muralha branca,
único destroço ainda de pé do que fora a fortaleza
daquela fronteira; nada mais se via além das franças
da mataria do Apa.
Aberta de todos
os lados, estendia-se a campina acessível aos olhos, exceto
num ponto a alguma distância, à nossa frente, e ponto
que os nossos atiradores não haviam reconhecido. Uma espécie
de escarpa ali mascarava o que verificamos ser profunda depressão
do solo, embaixo de suave declive que tornava a subir para a Machorra,
cujo caminho seguíamos. Ascendia o Sol, eram doze horas.
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