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A Relíquia
Eça de Queirós
Parece-me que para destapar a relíquia é melhor esperar
até que se vão logo embora o Justino e o Margaride!
Ai, eu
sou muito amiga deles, são pessoas de muita virtude... Mas
acho que para uma cerimônia destas é melhor que estejam
só
pessoas de igreja...
Ela, pela sua devoção, considerava-se pessoa de
igreja. Eu, pela minha jornada, era quase pessoa do céu.
- Não, Titi... O Patriarca de Jerusalém recomendou-me
que fosse diante de todos os amigos da casa, na capela,
com velas... E mais eficaz... E olhe, diga à Vicência
que
me venha buscar as botas para limpar.
- Ai eu lhas dou!... São estas? Estão sujinhas,
estão! Já cá te vêm, filho, já cá
te vêm!
E a senhora Dona Patrocínio das Neves agarrou as
botas! E a senhora Dona Patrocínio das Neves levou as
botas!
Ah, estava mudada, estava bem mudada!... E ao espelho
cravando no cetim da gravata uma cruz de coral de Malta,
eu pensava que desde esse dia ia reinar ali, no Campo de
Santana, de cima da minha santidade, e que para apressar a
obra lenta da morte - talvez viesse a espancar aquela
velha.
Foi-me doce, ao penetrar na sala, encontrar os
diletos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando
para
mim os braços extremosos. A Titi pousava no sofá, tesa,
desvanecida, com cetins de festa e com jóias. E ao lado,
um padre muito magro vergava a espinha com os dedos
enclavinhados no peito - mostrando numa face chupada
dentes afiados e famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dous
dedos, secamente:
- Estimo vê-lo por cá...
- Grandíssima honra para este seu servo! - ciciou
ele, puxando os meus dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o
abajur do candeeiro - para que a luz me banhasse, e se
pudesse ver, na madureza do meu semblante, a eficácia da
minha peregrinação.
Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:
- Mais magro!
Justino hesitou, fez estalar os dedos:
- Mais queimado!
E o Margaride, carinhosamente:
- Mais homem!
O onduloso Padre Negrão revirou-se, arqueado para a
Titi como para um sacramento entre os seus molhos de
luzes:
- E com um todo de inspirar respeito! Inteiramente
digno de ser o sobrinho da virtuosíssima Dona
Patrocínio!...
No entanto em torno tumultuavam as curiosidades
amigas: "E a saudinha?" "Então, Jerusalém?"
"Que tal as
comidas?
Mas a Titi bateu com o leque no joelho, num receio
que tão familiar alvoroço importunasse São Teodorico.
E o
Negrão acudiu, com um zelo melífluo:
- Método, meus senhores, método!... Assim todos à
uma
não se goza... É melhor deixarmos falar o nosso
interessante Teodorico!...
Detestei aquele nosso; odiei aquele padre. Por que
corria tanto mel no seu falar? Por que se privilegiava ele
no sofá, roçando a sórdida joelheira da calça
pelos castos
cetins da Titi?
Mas o Doutor Margaride, abrindo a caixa de rapé,
concordou que o método seria mais profícuo...
- Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso
Teodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!
O esgalgado Negrão, com uma escandalosa privança,
correu dentro a colher um copo de água e açúcar
para me
lubrificar as vias. Estendi o lenço sobre o joelho. Tossi
- e comecei a esboçar a soberba jornada. Disse o luxo do
Málaga; Gibraltar e o seu morro encarapuçado de nuvens;
a
abundância das "mesas redondas", com pudins e águas
gasosas...
- Tudo à grande, à francesa! - suspirou Padre
Pinheiro, com um brilho de gula no olho amortecido. - Mas
naturalmente, tudo muito indigesto...
- Eu lhe digo, Padre Pinheiro... Sim, tudo à grande,
tudo à francesa; mas cousas saudáveis, que não
esquentavam
os intestinos... Belo rosbife, belo carneiro...
- Que não valiam decerto o seu franguinho de
cabidela, excelentíssima senhora! - atalhou untuosamente o
Negrão, junto do ombro agudo da Titi.
Execrei aquele padre! E, remexendo a água com açúcar,
decidi em meu espírito que, mal eu começasse a governar
ferreamente o Campo de Santana - não mais a cabidela da
minha família escorregaria na goela aduladora daquele
servo de Deus.
No entanto o bom Justino, repuxando o colarinho,
sorria para mim, embevecido. E como passava eu as noites
em Alexandria? Havia uma assembléia, onde espairecesse?
Conhecia eu alguma família considerada, com quem tomasse
uma chávena de chá?...
- Eu lhe digo, Justino... Conhecia. Mas, a falar
verdade, tinha repugnância em freqüentar casas de
turcos... Sempre é gente que não acredita senão
em
Mafona!... Olhe, sabe o que fazia à noite? Depois de
jantar ia a uma igrejinha cá da nossa bela religião,
sem
estrangeirices, onde havia sempre um santíssimo de
apetite... Fazia as minhas devoções; depois ia-me
encontrar com o alemão, o meu amigo, o lente, numa grande
praça que dizem lá os de Alexandria que é muito
melhor que
o Rossio... Maior e mais abrutada talvez seja. Mas não é
esta lindeza do nosso Rossio, o ladrilhinho, as árvores, a
estátua, o teatro... Enfim, para meu gosto, e para um
regalinho de verão prefiro o Rossio... E lá o disse
aos
turcos!
E fica-lhe bem ter levantado assim as cousas
portuguesas! observou o Doutor Margaride, contente e
rufando na tabaqueira. Direi mais... É ato de patriota...
Nem de outra maneira procediam os Gamas e os Albuquerques!
- Pois é verdade... Ia-me encontrar com o alemão; e
então para espairecer um bocado, porque enfim uma
distração sempre e necessária quando se anda
a viajar,
íamos tomar um café... Que lá isso, sim! Lá
café fazem-no
os turcos que é uma perfeição!
- Bom cafezinho, hem? - acudiu Padre Pinheiro,
chegando a cadeira para mim com interesse sôfrego. - É
forte, forte? Bom aroma?
Sim, Padre Pinheiro, de consolar! ... Pois tomávamos
o nosso cafezinho; depois vínhamos para o hotel, e aí
no
quarto, com os santos evangelhos, punhamo-nos a estudar
todos aqueles divinos lugares na Judéia onde tínhamos
de
ir rezar... E como o alemão era lente e sabia tudo, eu era
instruir-me, instruir-me!... Até ele às vezes dizia:
"Você, Raposo, com estas noitadas, vai daqui um chavão..."
E lá isso, o que é de cousas santas e de Cristo, sei
tudo... Pois senhores, assim passávamos à luz do candeeiro
até às dez onze horas... Depois, chazinho, terço
e cama.
- Sim senhor, noites muito bem gozadas, noites muito
frutuosas! - declarou, sorrindo para a Titi, o estimável
Doutor Margaride.
- Ai, isso fez-lhe muita virtude! - suspirava a
horrenda senhora. - Foi como se subisse um bocadinho ao
céu... Até o que ele diz cheira bem... Cheira a santo.
Modestissimamente, baixei a pálpebra lenta.
Mas Negrão, com sinuosa perfídia, notou que mais
proveitoso seria, e de maior unção repassar as almas
-
escutar cousas de festas, de milagres, de penitências...
- Estou seguindo o meu itinerário, senhor Padre
Negrão repliquei asperamente.
- Como fez Chateaubriand; como fazem todos os famosos
autores! - confirmou Margaride, aprovando.
E foi com os olhos nele, como no mais douto, que eu
disse a partida de Alexandria numa tarde de tormenta; o
tocante momento em que uma santa irmã de caridade (que
estivera já em Lisboa e que ouvira falar da virtude da
Titi), me salvara das águas salgadas um embrulho em que eu
trazia terra do Egito, da que pisara a Santa Família; a
nossa chegada a Jafa, que, por um prodígio apenas eu
subira ao tombadilho, de chapéu alto e pensando na Titi,
se coroara de raios de sol...
- Magnífico! - exclamou o Doutor Margaride. - E diga,
meu Teodorico... Não tinham consigo um sábio guia, que
lhes fosse apontando as ruínas, lhes fosse comentando...
- Ora essa, Doutor Margaride! Tínhamos um grande
latinista, o Padre Pote!
Remolhei o lábio. E disse as emoções da gloriosa
noite em que acampáramos junto a Ramlê, com a lua no
céu
alumiando cousas da religião, beduínos velando de lança
ao
ombro, e em redor leões a rugir...
Que cena! - bradou o Doutor Margaride, erguendo-se
arrebatadamente. - Que enorme cena! Não estar eu lá!
Parece uma destas cousas grandiosas da Bíblia, do Eurico!
É de inspirar! Eu por mim, se tal visse, não me
continha!... Não me continha, fazia uma ode sublime!
O Negrão puxou a aba do casaco ao facundo magistrado:
- E melhor deixar falar o nosso Teodorico, para
podermos todos saborear...
Margaride, abespinhado, franziu as sobrancelhas
temerosas e mais negras que o ébano:
- Ninguém nesta sala, melhor que eu, senhor Padre
Negrão, saboreia o grandioso!
E a Titi, insaciável, batendo com o leque:
- Está bem, está bem... Conta, filho, não te
fartes!
Olha, conta assim uma cousa que te acontecesse com Nosso
Senhor, que nos faça ternura...
Todos emudeceram, reverentes. Eu então disse a marcha
para Jerusalém com duas estrelas na frente a guiar-nos,
como acontece sempre aos peregrinos mais finos e de boa
família; as lágrimas que derramara, ao avistar, numa
manhã
de chuva, as muralhas de Jerusalém; e na minha visita ao
Santo Sepulcro, de casaca, com Padre Pote, as palavras que
balbuciara diante do túmulo, por entre soluços e no
meio
de acólitos - "Oh meu Jesus, oh meu Senhor, aqui estou,
aqui venho da parte da Titi!..."
E a medonha senhora, sufocada:
- Que ternura que faz!... Diante do tumulozinho!
Então passei o lenço pela face excitada, e disse:
- Nessa noite recolhi ao hotel para rezar... E agora,
meus senhores, há aqui um pontozinho desagradável...
E contritamente confessei que, forçado pela religião,
pelo nome honrado de Raposo, e pela dignidade de Portugal
tivera um conflito no hotel com um grande inglês de
barbas.
- Uma bulha! - acudiu com perversidade o vil Negrão,
ansioso por empanar o brilho de santidade com que eu
deslumbrava a Titi. Uma bulha, na cidade de Jesus Cristo!
Ora essa! Que desacato!
Com os dentes cerrados encarei o torpíssimo padre:
- Sim, senhor! Um chinfrim!... Mas fique Vossa
Senhoria sabendo que o senhor Patriarca de Jerusalém me
deu toda a razão; até me bateu no ombro e me disse:
"Pois
Teodorico, parabéns; você portou-se como um pimpão!"
Que
tem agora Vossa Senhoria a piar?
Negrão curvou a cabeça, onde a coroa punha uma
lividez azulada de lua em tempo de peste:
- Se Sua Eminência aprovou...
- Sim, senhor! E aqui tem a Titi porque foi a
bulha!... No quarto ao lado do meu havia uma inglesa, uma
herege, que mal eu me punha a rezar, aí começava ela
a
tocar piano, e a cantar fados e tolices e cousas imorais
do Barba-Azul dos teatros... Ora, imagine a Titi, estar
uma pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos: "Oh
Santa Maria do Patrocínio, faze que a minha boa Titi tenha
muitos anos de vida" - e vir lá detrás do tabique
uma voz
de excomungada a ganir: "Sou o Barba-Azul, olé.! Ser viúvo
é o meu filé!..." E de encavacar!... De modo que
uma
noite, desesperado, não me tenho em mim, saio ao corredor,
atiro-lhe um murro à porta, e grito-lhe para dentro: "Faz
favor de estar calada, que está aqui um cristão que
quer
rezar!..."
- E com todo o direito - afirmou o Doutor Margaride.
- Você tinha por si a lei!
- Assim me disse o patriarca! Pois senhores, como ia
contando, grito isto para dentro à mulher, e ia recolher
muito sério ao meu quarto, quando me sai de lá o pai,
um
grande barbaças, de bengalório na mão... Eu fui
muito
prudente; cruzei os braços e, com bons modos, disse-lhe
que não queria ali escândalos ao pé do túmulo
de Nosso
Senhor, e o que desejava era rezar em sossego... E vai,
que me há de ele responder? Que se estava a... Enfim, nem
eu posso repetir! Uma cousa indecente contra o túmulo de
Nosso Senhor... E eu, Titi, passa-me uma oura pela cabeça,
agarro-o pelo cachaço...
- E magoaste-o, filho?
- Escavaquei-o, Titi!
Todos aclamaram a minha ferocidade. Padre Pinheiro
citou leis canônicas autorizando a fé a desancar a
impiedade. Justino, aos pulos, celebrou esse John Bull
desmantelado a sólida murraça lusitana. E eu, excitado
pelos louvores como por clarins de ataque, bradava de pé,
medonho:
- Lá impiedades diante de mim, não! Arrombo tudo,
esborracho tudo! Em cousas de religião sou uma fera!
E aproveitei esta santa cólera para brandir, como um
aviso, diante do queixo sumido do Negrão, o meu punho
cabeludo e pavoroso. O macilento e esgrouviado servo de
Deus encolheu. Mas nesse instante a Vicência entrava com o
chá, nas pratas ricas de G. Godinho.
Então os diletos amigos, com a torrada na mão,
romperam em ardentes encômios:
- Que instrutiva viagem! É como ter um curso!
- E que belo bocadinho de noite aqui se tem passado!
Qual São Carlos! Isto é que é gozar!
- E como ele conta! Que fervor, que memória!...
Lentamente, o bom Justino, com a sua chávena
fornecida de bolos, acercara-se da janela, como a
espreitar o céu estrelado e dentre as franjas das cortinas
os seus olhinhos luzidios e gulosos chamavam-me
confidencialmente. Fui, trauteando o Bendito; ambos
mergulhamos na sombra dos damascos; e o virtuoso tabelião,
roçando o lábio pelas minhas barbas:
- Oh amiginho, e de mulheres?
Eu confiava no Justino. Segredei para dentro do seu
colarinho: - De deixarem lá os miolos, Justininho!
As suas pupilas faiscaram como as de um gato em
janeiro; a xícara ficou-lhe tremelicando na mão.
E eu, pensativo, repenetrando na luz:
- Sim, bonita noite... Mas não são aquelas
estrelinhas santinhas que nós vimos lá no Jordão!...
Então Padre Pinheiro, tomando aos goles cautelosos a
sua chalada, veio timidamente bater-me no ombro ...
Lembrara-me eu, nessas santas terras, com tantas
distrações, do seu frasquinho de água do Jordão?
...
- Oh Padre Pinheiro, pois está claro!... Trago tudo!
E o raminho do Monte Olivete para o nosso Justino... E a
fotografia para o nosso Margaride ... Tudo!
Corri ao quarto, a buscar essas doces "lembrancinhas"
da Palestina. E ao regressar, sustentado pelas pontas um
lenço repleto de devotas preciosidades, estaquei por trás
do reposteiro ao sentir dentro o meu nome ... Suave gozo!
Era o inestimável Doutor Margaride que afiançava à
Titi,
com sua tremenda autoridade:
- Dona Patrocínio, eu não lho quis dizer diante dele
... Mas isto agora é mais do que ter um sobrinho e um
cavalheiro! Isto é Ter, de casa e pucarinho, um amigo
íntimo de Nosso Senhor Jesus Cristo!...
Tossi, entrei. Mas a senhora D. Patrocínio ruminava
um escrúpulo ciumento. Não lhe parecia delicado para
Nosso
Senhor (nem para ela), que se repartissem estas relíquias
mínimas antes de lhe ser entregue a ela, como senhora e
como tia, na capela, a grande relíquia...
- Porque saibam os meus amigos - anunciou ela com seu
chatíssimo peito impando de satisfação - que
o meu
Teodorico trouxe-me uma santa relíquia, com que eu me vou
apegar nas minhas aflições, e que me vai curar dos meus
males!
- Bravíssimo! - gritou o impetuoso Doutor Margaride.
- Com quê, Teodorico, seguiu-se o meu conselho?
Esgaravataram-se esses sepulcros?... Bravíssimo! É de
generoso romeiro!
- É de sobrinho, como já o não há no nosso
Portugal!
- acudiu o Padre Pinheiro junto ao espelho, onde estudava
a língua saburrenta...
- É de filho, é de filho! - proclamava o Justino,
alçado na ponta dos botins.
Então o Negrão, mostrando os dentes famintos, babujou
esta cousa vilíssima:
- Resta saber, cavalheiros, de que relíquia se trata.
Tive sede, ardente sede do sangue daquele padre!
Trespassei-o com dous olhares mais agudos e faiscantes do
que espetos em brasa:
- Talvez Vossa Senhoria, se é um verdadeiro
sacerdote, se atire de focinho para baixo a rezar, quando
aparecer aquela maravilha!...
E voltei-me para a senhora Dona Patrocínio, com a
impaciência de uma nobre alma ofendida que carece
reparação:
- É já, Titi! Vamos ao oratório! Quero que fique
tudo
aqui assombrado! Foi o que disse o meu amigo alemão: "Essa
relíquia, ao destapar-se, é de ficar uma família
inteira
azabumbada!..."
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