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A Relíquia
Eça de Queirós
- Fui ver Jesus - atalhei severamente. - Fui ver
Jesus, crucificado esta tarde por mandado do Sanedrim...
Eliézer, com oriental cortesia, bateu no peito
demonstrando mágoa. E quis saber se pertencia ao meu
sangue, ou partilhara comigo o pão de aliança, esse Jesus
que eu fora assistir na sua morte de escravo.
Eu considerei-o, assombrado:
- É o Messias!
E ele considerou-me mais assombrado ainda, com um fio
de mel a escorrer-lhe na barba.
Oh raridade! Eliézer, doutor do templo, físico do
Sanedrim, não conhecia Jesus de Galiléia! Atarefado com os
enfermos que, pela Páscoa, atulham Jerusalém (confessou
ele) não fora ao Xisto, nem à loja do perfumista Cleos,
nem aos eirados de Hanão, onde as novas voam mais
numerosas que as pombas; por isso nada ouvira da aparição
de um Messias...
De resto, acrescentou, não podia ser o Messias! Esse
deveria chamar-se Manahem "o consolador", porque traria a
consolação a Israel. E haveria dous Messias: o primeiro,
da tribo de José, seria vencido por Gogue; o segundo,
filho de Davi e cheio de força, venceria Magogue. Antes
dele nascer começariam sete anos de maravilhas; haveria
mares evaporados, estrelas despregadas do céu, fomes e
tais farturas que até as rochas dariam fruto; no último
ano correria sangue entre as nações; enfim ressoaria uma
voz portentosa; e, sobre o Hébron, com uma espada de fogo,
surgiria o Messias!
Dizia estas cousas peregrinas, fendendo a casca de um
figo. Depois com um suspiro:
- Ora, ainda nenhuma dessas maravilhas, meu filho,
anunciou a consolação!...
E atolou os dentes no figo.
Então fui eu, Teodorico, ibero, de um remoto
município romano, que contei a um físico de Jerusalém,
criado entre os mármores do templo, a vida do Senhor!
Disse as cousas doces e as cousas fortes; as três claras
estrelas sobre o seu berço; a sua palavra amansando as
águas de Galiléia; o coração dos simples palpitando
por
ele; o reino do céu que prometia e a sua face augusta
brilhando diante do Pretor de Roma...
- Depois os padres, os patrícios e os ricos
crucificaram-no!
Doutor Eliézer, volvendo a remexer o açafate de figos
murmurou pensativamente:
Triste, triste!... Todavia. meu filho, o Sanedrim é
misericordioso. Em sete anos, desde que o sirvo, apenas
tem lançado três sentenças de morte... Sim, decerto
o
mundo necessita bem escutar uma palavra de amor e de
justiça; mas Israel tem sofrido tanto com inovadores, com
profetas!... Enfim, nunca se deveria derramar o sangue do
homem... E a verdade é que estes figos, de Beftagé, não
valem os meus de Silo!
Calado, enrolei um cigarro. E nesse instante o douto
Topsius, debatendo ainda com Gamaliel o helenismo e as
escolas socráticas, empinado, de óculos na ponta do bico,
soltava este resumo forte:
- Sócrates é a semente; Platão a flor; Aristóteles
o
fruto... E desta árvore, assim completa, se tem nutrido o
espírito humano!
Mas Gamaliel subitamente ergueu-se; doutor Eliézer
também, arrotando com efusão. Ambos tomaram os cajados,
ambos gritaram:
- Aleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do
Egito!
Findara a ceia pascal. O esclarecido historiador, que
limpava o suor da controvérsia, olhou logo vivamente o
relógio e rogou a Gamaliel permissão de subir ao terraço,
a refrescar a sua emoção no ar macio de Ofel... O doutor
da lei conduziu-nos à varanda, alumiada palidamente por
lâmpadas de mica, mostrou-nos a íngreme escada de ébano
que levava aos eirados; e chamando sobre nós a graça do
Senhor, penetrou com Eliézer num aposento cerrado por
cortinas de Mesopotâmia - de onde saiu um aroma, um fino
rumor de risos e sons lentos de lira.
Que doce ar no terraço! E que alegre essa noite de
Páscoa em Jerusalém! No céu mudo e fechado como um
palácio
onde há luto, nenhum astro brilhava; mas o burgo de Davi e
a colina de Acra, com as suas iluminações rituais,
pareciam salpicadas de ouro. Em cada eirado, vasos com
estopa ardendo em óleo lançavam uma chama ondeante e
vermelha. Aqui e além, nalguma casa mais alta os fios de
luzes, na parede escura, reluziam como um colar de jóias
no pescoço de uma negra. O ar estava docemente cortado dos
gemidos de flauta, da dolente vibração das cordas do
konnor, e em ruas alumiadas por grandes fogueiras de
lenha, víamos esvoaçar, claras e curtas, as túnicas
de
gregos dançando a calabida. Só as torres, mais vastas na
noite, a Hípica, a Mariana, a Farsala, se conservavam
escuras; e o mugido das suas buzinas passava por vezes,
rouco e rude, como uma ameaça, sobre a santa cidade em
festa.
Mas para além das muralhas recomeçava a alegria da
noite pascal. Havia luzes em Siloé. Nos acampamentos,
sobre o Monte .das Oliveiras, ardiam fogos claros; e como
as portas ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos
caminhos, por entre um rumor de cantares.
Só uma colina, além do Garebe, permanecera em treva.
Nessa hora, por baixo dela, numa ravina entre rochas,
alvejavam dous corpos despedaçados, onde os bicos dos
abutres, com um ruído seco de ferros entrechocados, faziam
a sua ceia pascal. Ao menos outro corpo, precioso
invólucro de um espírito perfeito, jazia resguardado num
túmulo novo, envolto em linho fino, ungido, perfumado de
canela e de nardo. Assim o tinham deixado nessa noite, a
mais santa de Israel, aqueles que o amavam - e que desde
então, para todo o sempre, mais entranhadamente o
amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por
cima; e agora entre as casas de Jerusalém, cheias de luzes
e cheias de cantos - alguma havia, escura e fechada, onde
corriam lágrimas sem consolação. Aí o lar esfriara,
apagado; a lâmpada triste esmorecia sobre o alqueire; na
bilha não havia água, porque ninguém fora à
fonte; e
sentadas na esteira, com os cabelos caídos, aquelas que o
tinham seguido de Galiléia falavam dele, das primeiras
esperanças, das parábolas contadas por entre os trigais,
dos templos suaves à beira do lago...
Assim eu pensava, debruçado sobre o muro, olhando
Jerusalém quando no terraço surgiu, sem rumor, uma forma
envolta em linhos brancos, espalhando um aroma de canela e
de nardo. Pareceu-me que dela irradiava um clarão, que os
seus pés não pisavam as lajes - e o meu coração
tremeu.
Mas dentre os pálidos panos uma bênção saiu,
grave e
familiar:
- Que a paz seja convosco.
- Ah! que alívio! Era Gade.
- Que a paz seja contigo!
O essênio parou diante de nós, calado; e eu sentia os
seus olhos procurarem o fundo da minha alma, para lhe
sondar bem a grandeza e a força. Por fim murmurou, imóvel
como uma imagem tumular nas suas grandes vestes brancas:
- A lua vai nascer... Todas as cousas esperadas se
estão cumprindo... Agora, dizei! Sentis o coração forte
para acompanhar Jesus, e guardá-lo até ao oásis de
Engada?
Ergui-me, atirando os braços ao ar, num terror!...
Acompanhar o Rabi! Ele não jazia pois morto, ligado e
perfumado, sob uma pedra, numa horta do Garebe?... Vivia!
Ao nascer da lua, entre os seus amigos, ia partir para
Engada. Agarrei ansiosamente o ombro de Topsius,
amparando-me ao seu saber forte e à sua autoridade...
O meu douto amigo parecia enleado numa pesada
incerteza:
- Sim, talvez... O nosso coração é forte, mas... Além
disso não temos armas!
- Vinde comigo! - acudiu Gade, ardentemente. -
Passaremos por casa de alguém que nos dirá as cousas que
convém saber, e que vos dará armas!...
Ainda trêmulo, sem me desamparar do sapiente
historiador, ousei balbuciar:
- E Jesus?... Onde está?
- Em casa de José de Ramata - segredou o essênio,
espreitando em roda como o avaro que fala de um tesouro. -
Para que nada suspeitasse a gente do templo, mesmo na
presença deles depositamos o Rabi no túmulo novo, que está
no horto de José. Três vezes as mulheres choraram sobre a
pedra que, segundo os ritos, como sabeis, não fechava
inteiramente o túmulo, deixando uma larga fenda por onde
se via o rosto do Rabi. Alguns serventes do templo
olharam, e disseram: "Está bem". Cada um recolheu à
sua
morada... Eu entrei pela porta de Gená, nada mais vi. Mas,
apenas anoitecesse, José e outro, fiel inteiramente, deviam
ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vêm
no livro de Salomão, fazê-lo reviver do desmaio em que o
deixou o vinho narcotizado e o sofrimento... Vinde pois,
vós que o amais também e credes nele!...
Impressionado, decidido, Topsius traçou a sua farta
capa; e descemos, num cauto silêncio, pela escada que, do
terraço, levava a um caminho de pedra miúda colado à
muralha nova de Herodes.
Longo tempo marchamos na escuridão, guiados pelas
roupagens brancas do essênio. Dentre casebres em ruínas,
por vezes um cão saltava uivando. Sobre as altas ameias
passavam mortiças lanternas de ronda. Depois uma sombra
que tossia ergueu-se de sob uma árvore, triste e mole como
se saísse da sua sepultura; e roçando o meu braço,
puxando
a capa de Topsius, rogava-nos através de gemidos e
baforadas de alho que fôssemos dormir ao seu leito que ela
perfumara de nardo.
Paramos finalmente diante de um muro, a que uma
esteira grossa de esparto cerrava a entrada. Um corredor
que ressumbrava água levou-nos a um pátio rodeado por uma
varanda, assente sobre rudes vigas de madeira; o chão mole
como lodo abafava o rumor das nossas solas.
Gade, três vezes espaçadas, soltou o grito dos
chacais. Nós esperávamos no meio do pátio, à
borda de um
poço, coberto com tábuas; o céu, por cima, guardava
a
escuridão dura e impenetrável de um bronze. A um canto,
enfim, sob a varanda, um clarão vivo de lâmpada surgiu -
alumiando a barba negra do homem que a trazia e que
lançara, sobre a cabeça, a ponta de um albornoz pardo de
galileu. Mas a luz morreu sob um sopro forte. E o homem,
lentamente, na treva, caminhou para nós.
Gade cortou a desolada mudez:
- Que a paz seja contigo, irmão! Estamos prontos.
O homem pousou devagar a lâmpada sobre a tampa do
poço, e disse:
- Tudo está consumado.
Gade, estremecendo, gritou:
- O Rabi?
O homem atirou a mão para abafar o grito do essênio.
Depois, tendo sondado a sombra em redor com olhos
inquietos, que reluziam como os de um animal do deserto:
- São cousas mais altas do que podemos entender. Tudo
parecia certo. O vinho narcotizado fora bem preparado pela
mulher de Rosmofim, que é hábil e conhece os simples... Eu
tinha falado ao centurião, um camarada a quem salvei a
vida na Germânia, na campanha de Públio. E, quando rolamos
a pedra sobre o túmulo de José de Ramata, o corpo do Rabi
estava quente!
Mas calou-se; e, como se o pátio fechado sob o céu
negro não fosse bastante secreto e seguro, tocou no ombro
de Gade, e sem um rumor dos pés nus recolheu à escuridão
mais densa sob a varanda, até às pedras do muro. Nós,
rente a ele e mudos, tremíamos de ansiedade; e eu senti
que uma revelação ia passar, suprema e prodigiosa,
alumiando os mistérios.
- Ao anoitecer - segredou o homem por fim, como um
murmúrio triste de água correndo na sombra - voltamos ao
túmulo. Olhamos pela fenda; a face do Rabi estava serena e
cheia de majestade. Levantamos a pedra, tiramos o corpo.
Parecia adormecido, tão belo, como divino, nos panos que o
envolviam... José tinha uma lanterna; e levamo-lo pelo
Garebe, correndo através do arvoredo. Ao pé da fonte
encontramos uma ronda da coorte auxiliar. Dissemos: "é um
homem de Jopé que adoeceu, e que nós levamos à sua
sinagoga". A ronda disse: "passai". Em casa de José
estava
Simeão, o Essênio, que viveu em Alexandria e sabe a
natureza das plantas; e tudo fora preparado, até à raiz do
baraz... Estendemos Jesus na esteira. Demos-lhe a beber os
cordiais, chamamo-lo, esperamos, oramos... Mas ai!
Sentíamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!...
Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra saiu-
lhe dos lábios. Era vaga, não a compreendemos... Parecia
que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono...
Depois estremeceu; um pouco de sangue apareceu-lhe ao
canto da boca... E, com a cabeça sobre o peito de
Nicodemo, o Rabi ficou morto!
Gade caiu pesadamente de joelhos, soluçando; e o
homem, como se todas as cousas tivessem sido ditas, deu um
passo para buscar a sua lâmpada ao poço. Topsius deteve-o,
com avidez:
- Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes
depois?
O homem parou junto a um dos pilares de madeira.
Depois, alargando os braços na escuridão e tão perto
das
nossas faces, que eu sentia o seu bafo quente:
- Era necessário, para bem da terra, que se
cumprissem as profecias! Durante duas horas José de Ramata
orou, prostrado. Não sei se o Senhor lhe falou em segredo;
mas, quando se ergueu, resplandecia todo e gritou: "Elias
veio! Elias veio! Os tempos chegaram!" Depois, por sua
ordem, enterramos o Rabi numa caverna que ele tem, talhada
na rocha, por trás do moinho...
Atravessou o pátio, tomou a sua lâmpada. E recolhia
lentamente, sem um rumor, quando Gade, erguendo a face, o
chamou através dos seus soluços:
- Escuta ainda! Grande é o Senhor, na verdade!... E o
outro túmulo, onde as mulheres de Galiléia o deixaram,
ligado e envolvidos em panos, com aloés e com nardo?
O homem, sem parar, murmurou, já sumido na treva:
- Lá ficou aberto, lá ficou vazio!...
Então Topsius arrastou-me pelo braço, tão
arrebatadamente, que tropeçávamos no escuro contra os
pilares da varanda. Uma porta ao fundo abriu-se, com um
brusco estrondo de ferros caídos... E vi uma praça,
rodeada de pálidos arcos, triste e fria, com erva entre as
fendas das lajes dessoldadas, como numa cidade abandonada.
Topsius estacou; os seus óculos faiscavam:
- Teodorico, a noite termina; vamos partir de
Jerusalém!... A nossa jornada ao passado acabou... A lenda
inicial do cristianismo está feita, vai findar o mundo
antigo!
Eu considerei, assombrado e arrepiado, o douto
historiador. Os seus cabelos ondeavam agitados por um
vento de inspiração. E o que levemente saía dos seus
finos
lábios retumbava, terrível e enorme, caindo sobre o meu
coração:
- Depois de amanhã, quando acabar o Sabá, as mulheres
de Galiléia voltarão ao sepulcro de José de Ramata,
onde
deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto,
encontram-no vazio!... "Desapareceu, não está aqui!..."
Então Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar
por Jerusalém - "ressuscitou, ressuscitou!" E assim o amor
de uma mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais
à humanidade!
E, atirando os braços ao ar, correu através da praça
- onde os pilares de mármore começavam a tombar, sem ruído
e molemente. Arquejando, paramos no portão de Gamaliel. Um
escravo, tendo ainda nos pulsos pedaços de cadeias
partidas, segurava os nossos cavalos. Montamos. Com um
fragor de pedras levadas numa torrente, varamos a Porta de
Ouro; e galopamos para Jericó, pela estrada romana de
Siquém, tão vertiginosamente que não sentíamos
as
ferraduras ferir as lajes negras de basalto. Adiante, a
capa branca de Topsius torcia-se açoutada por uma rajada
furiosa. Os montes corriam aos lados, como fardos sobre
dorsos de camelos na debandada de um povo. As ventas da
minha égua dardejavam jactos de fumo avermelhado; e eu
agarrava-me às crinas, tonto, como se rolasse entre
nuvens...
De repente avistamos, alargada, cavada até às serras
de Moabe, a planície de Canaã. O nosso acampamento
alvejava junto às brasas dormentes da fogueira. Os cavalos
estacaram, tremendo. Corremos às tendas; sobre a mesa, a
vela que Topsius acendera para se vestir, havia mil e
oitocentos anos, morria num fogacho lívido... E derreado
da infinita jornada, atirei-me para o catre, sem mesmo
descalçar as botas brancas de pó...
Imediatamente me pareceu que uma tocha fumegante
penetrara na tenda, esparzindo um brilho de ouro... Ergui-
me, assustado. Num largo raio de sol, vindo dos montes de
Moabe, o jucundo Pote entrava, em mangas de camisa, com as
minhas botas na mão!
Arrojei a manta, arredei os cabelos, para verificar
melhor a mudança terrível que desde a véspera se fizera
no
universo! Sobre a mesa jaziam as garrafas do champagne,
com que brindáramos à ciência e à religião.
O embrulho da
coroa de espinhos pousava à minha cabeceira. Topsius, no
seu catre, em camisola, e com um lenço amarrado na testa,
bocejava, pondo os óculos de ouro no bico. E o risonho
Pote, censurando a nossa preguiça, queria saber se
apetecíamos nessa manhã - "tapioca ou café".
Deixei sair deliciosamente do peito um ruidoso,
consolado suspiro. E no júbilo triunfal de me sentir
reentrado na minha individualidade e no meu século, pulei
sobre o colchão com a fralda ao vento, bradei:
- Tapioca, meu Pote! Uma tapioca bem docinha e
molezinha, que saiba bem ao meu Portugal...
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