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A Relíquia
Eça de Queirós



- Cruzes! - gritou a senhora D. Patrocínio, horrorizada. -
Ir a Paris!...
- Para ver as igrejas, Titi!
- Não é necessário ir tão longe para ver bonitas
igrejas - replicou ela, rispidamente. - E lá em festas
com órgão, e um Santíssimo armado com luxo, e uma rica
procissão na rua, e boas vozes, e respeito, imagens de dar
gosto, ninguém bate cá os nossos portugueses!...
Calei-me, esmagado. E o esclarecido Doutor Margaride
aplaudiu o patriotismo eclesiástico da Titi. Decerto, não
era numa república sem Deus que se deviam procurar as mag-
nificências do culto...
- Não, minha senhora, lá para saborear cousas
grandiosas da nossa santa religião, se eu tivesse vagares,
não era a Paris que ia... Sabe Vossa Excelência onde eu
ia, senhora D. Maria do Patrocínio?
- O nosso doutor - lembrou o Padre Pinheiro - corria
direito a Roma...
- Upa, Padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!
Upa? Nem o bom Pinheiro nem a Titi compreendiam o que
houvesse de superior a Roma pontifical! O Doutor Margaride
então ergueu solenemente as sobrancelhas, densas e negras
como ébano.
- Ia à Terra Santa, D. Patrocínio! Ia à Palestina,
minha senhora! Ia ver Jerusalém e o Jordão! Queria eu
também estar um momento, de pé, sobre o Gólgota, como
Chateaubriand, com o meu chapéu na mão, a meditar, a
embeber-me, a dizer "salve!" E havia de trazer
apontamentos, minha senhora, havia de publicar impressões
históricas. Ora aí tem Vossa Excelência onde eu ia... Ia a
Sião!
Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os
pratos, um recolhimento reverente a esta evocação da terra
sagrada onde padeceu o Senhor. Eu parecia-me ver lá muito
longe, na Arábia, ao fim de arquejantes dias de jornada
sobre o dorso de um camelo, um montão de ruínas em torno
de uma cruz; um rio sinistro corre ao lado entre
oliveiras; o céu arqueia-se mudo e triste como a abóbada
de um túmulo. Assim devia ser Jerusalém.
- Linda viagem! - murmurou o nosso Casimiro,
pensativo.
- Sem contar - rosnou Padre Pinheiro, baixo e como
ciciando uma oração - que Nosso Senhor Jesus Cristo vê com
grande apreço, e muito agradece, essas visitas ao seu
Santo Sepulcro.
- Até quem lá vai - disse o Justino - tem perdão de
pecados. Não é verdade, Pinheiro? Eu assim li no
Panorama... Vem-se de lá limpinho de tudo!
Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-
flor, que considerava indigesta) deu esclarecimentos. Quem
ia à Terra Santa, numa devota peregrinação, recebia sobre
o mármore do Santo Sepulcro, das mãos do Patriarca de
Jerusalém, e pagando os rituais emolumentos, as suas
indulgências plenárias...
- Não só para si, segundo tenho ouvido dizer -
acrescentou o instruído eclesiástico, - mas para uma
pessoa querida de família, piedosa, e comprovadamente
impedida de fazer a jornada... Pagando, já se vê,
emolumentos dobrados.
- Por exemplo! - exclamou o Doutor Margaride
inspirado, batendo-me com força nas costas. - Assim para
uma boa Titi uma Titi adorada, uma Titi que tem sido um
anjo, toda virtude, toda generosidade!...
- Pagando, já se vê - insistiu Padre Pinheiro - os
emolumentos dobrados!
A Titi não dizia nada; os seus óculos, girando do
sacerdote para o magistrado, pareciam estranhamente
dilatados, e brilhando mais com o clarão interior de uma
idéia; um pouco de sangue subira à sua face esverdinhada.
A Vicência ofereceu o arroz-doce. Nós rezamos as graças.
Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me
triste, infinitamente. Nunca a Titi me deixaria visitar a
terra imunda de França; e aqui ficaria enclausurado nesta
Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais rumorosas ruas
me agravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do fino
céu de estio me recordava a torva perfídia dessa que fora,
para mim, estrela e rainha da graça... Depois, nesse dia,
ao jantar, a Titi parecera-me mais rija, sólida ainda,
duradoura, e por longos anos dona da bolsa de seda verde,
dos prédios e dos contos do Comendador G. Godinho... Ai de
mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa velha o
fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo
de tanta boca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar
os joelhos diante do corpo de um Deus, magro e cheio de
feridas? Oh vida entre todas amargurosa! E já não tinha,
para me consolar do enfadonho serviço de Jesus, os macios
braços da Adélia...
De manhã, aparelhada a égua, e já de esporas, fui
saber se minha Titi tinha algum pio recado para São Roque,
por ser esse o seu milagroso dia. Na saleta votada às
glórias de São José, a Titi, ao canto do sofá, com o xale
de Tonquim caído dos ombros, examinava o seu grande
caderno de contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte,
calado, com as mãos cruzadas atrás das costas, o bom
Casimiro sorria pensativamente às flores do tapete.
- Ora venha cá, venha cá! - disse ele, mal eu assomei
curvando o espinhaço. - Ouça lá a novidade! Que você é uma
jóia, respeitador de velhos, e tudo merece de Deus e da
senhora sua tia. Chegue-se cá, venha de lá esse abraço!
Sorri, inquieto. A Titi enrolava o seu caderno.
- Teodorico! - começou ela, cruzando os braços,
empertigada. - Teodorico! Tenho estado aqui a consultar
com o senhor Padre Casimiro. E estou decidida a que alguém
que me pertença, e que seja do meu sangue, vã fazer por
minha intenção uma peregrinação à Terra Santa...
- Hem, felizão! - murmurou Casimiro, resplandecendo.
- Assim - prosseguiu a Titi - está entendido e ficas
sabendo que vais a Jerusalém e a todos os divinos lugares.
Escusas de me agradecer; é para meu gosto, e para honrar o
túmulo de Jesus Cristo, já que eu lá não posso ir... Como,
louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, hás de
fazer a viagem com todas as comodidades; e para não estar
com mais dúvidas, e pela pressa de agradar a Nosso Senhor,
ainda hás de partir neste mês... Bem, agora vai, que eu
preciso conversar com o senhor Padre Casimiro. Obrigado,
não quero nada para o senhor São Roque; já me entendi com
ele.
Balbuciei: "muito agradecido, Titi; adeusinho, Padre
Casimiro." E segui pelo corredor, atordoado.
No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado,
este rosto e estas barbas, onde em breve pousaria o pó de
Jerusalém... Depois, cal sobre o leito.
- Olha que tremenda espiga!
Ir a Jerusalém! E onde era Jerusalém? Recorri ao baú
que continha os meus compêndios e a minha roupa velha;
tirei o atlas, e com ele aberto sobre a cômoda, diante da
Senhora do Patrocínio, comecei a procurar Jerusalém lá
para o lado onde vivem os infiéis, ondulam as escuras
caravanas, e uma pouca de água num poço é como um dom
precioso do Senhor.
O meu dedo errante sentia já o cansaço de uma longa
jornada; e parei à beira tortuosa de um rio, que devia ser
o devoto Jordão. Era o Danúbio. E de repente o nome de
Jerusalém surgiu, negro, numa vasta solidão branca, sem
nomes, sem linhas, toda de areias, nua, junto ao mar. Ali
estava Jerusalém. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que
triste!
Mas então comecei a considerar que, para chegar a
esse solo de penitência, tinha de atravessar regiões
amáveis, femininas e cheias de festa. Era primeiro essa
bela Andaluzia, terra de Maria Santíssima, perfumada de
flor de laranjeira, onde as mulheres só com meter dous
cravos no cabelo, e traçando um xale escarlate, amansam o
coração mais rebelde, bendita sea su gracia! Era adiante
Nápoles - e as suas ruas escuras, quentes, com retábulos
da Virgem, e cheirando a mulher, como os corredores de um
lupanar. Era depois mais longe ainda a Grécia; desde a
aula de retórica, ela aparecera-me sempre como um bosque
sacro de loureiros, onde alvejam frontões de templos, e,
nos lugares de sombra em que arrulham as pombas, Vênus de
repente surge, cor de luz e cor-de-rosa, oferecendo a todo
o lábio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus seios
imortais. Vênus já não vivia na Grécia; mas as mulheres
tinham conservado lá o esplendor da sua forma e o encanto
do seu impudor... Jesus! O que eu podia gozar! Um clarão
sulcou-me a alma. E gritei, com um murro sobre o atlas,
que fez estremecer a castíssima Senhora do Patrocínio e
todas as estrelas da sua coroa:
- Caramba, vou fartar o bandulho!
Sim, fartá-lo! E mesmo, receando que a Titi, por
avareza do seu ouro ou desconfiança da minha piedade,
renunciasse à idéia desta peregrinação tão prometedora de
gozos, resolvi ligá-la supernaturalmente por uma ordem
divina. Fui ao oratório; desmanchei o cabelo, como se por
entre ele tivesse passado um sopro celeste; e corri ao
quarto da Titi, esgazeado, com os braços a tremer no ar.
- Ó Titi! Pois não quer saber? Estava agora no
oratório, a rezar de satisfação, e vai de repente pareceu-
me ouvir a voz de Nosso Senhor, de cima da cruz, a dizer-
me baixinho, sem se mexer "Fazes bem, Teodorico, fazes bem
em ir visitar o meu Santo Sepulcro... E estou muito
contente com a tua tia... Tua tia é das minhas!..."
Ela juntou as mãos, num fogoso transporte de amor:
- Louvado seja o seu santíssimo nome!... Pois disse
isso? Ai, era bem capaz, que Nosso Senhor sabe que é para
o honrar que eu lá te mando... Louvado seja outra vez o
seu santíssimo nome! Louvado seja em terra e céu! Anda,
filho, vai, reza-lhe... Não te fartes, não te fartes!
Eu ia, murmurando uma ave-maria. Ela correu ainda à
porta, numa efusão de simpatia:
- E olha, Teodorico, vê lá a respeito de roupa
branca... Talvez te sejam necessárias mais ceroulas...
Encomenda, filho, encomenda, que graças a Nossa Senhora do
Rosário tenho posses, e quero que vás com decência e te
apresentes bem lá na sepulturazinha de Deus!...
Encomendei; e, tendo comprado um Guia do Oriente e um
capacete de cortiça, informei-me sobre o modo mais
deleitoso de chegar a Jerusalém, com Benjamim Sarrosa &
Cia., judeu sagaz, que ia todos os anos, de turbante,
comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente,
num papel, o meu grandioso itinerário. Embarcaria no
Málaga, vapor da Casa Jadley que, por Gibraltar, e depois
por Malta, me levaria, num mar sempre azul, à velha terra
do Egito. Aí um repouso sensual na festiva Alexandria.
Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa
da Síria, aportaria a Jafa, a de verdejantes pomares; e de
lá, seguindo uma estrada macadamizada, ao chouto de uma
égua doce, veria, ao fim de um dia e ao fim de uma noite,
surgirem, negras entre colinas tristes, as muralhas de
Jerusalém!
- Diabo, Benjamim... Parece-me muito mar, muito
paquete. Então nem um bocadinho de Espanha? Ó menino, olhe
que eu quero refestelar-me.
- Refestela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o
bilhar, tem a tipóia, tem a batota, tem a mulherinha...
Tudo do bom. E lá que você se refestela!
No entanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se
falava da minha santa empresa. Uma manhã, li, escarlate de
orgulho, no Jornal das Novidades, estas linhas
honoríficas: "Parte brevemente a visitar Jerusalém, e
todos os sacros lugares em que padeceu por nós
o Redentor, o nosso amigo Teodorico Raposo, sobrinho
da Excelentíssima D. Patrocínio das Neves, opulenta
proprietária, e modelo de virtudes cristãs. Boa viagem!" A
Titi, desvanecida, guardou o jornal no oratório, debaixo
da peanha de São José; e eu jubilei, por imaginar o
despeito da Adélia (leitora fiel do Jornal) ao ver-me
assim abalar desprendido dela, atestado de ouro, para
essas terras muçulmanas, onde a cada passo se topa um
serralho, mudo e cheirando a rosa entre sicômoros...
A véspera da partida, na sala dos damascos, teve
elevação e solenidade. O Justino contemplava-me, como se
contempla uma figura histórica.
- O nosso Teodorico... Que viagem!... O que se vai
falar nisto!
E Padre Pinheiro murmurava com unção:
- Foi uma inspiração do Senhor! E que bem que lhe há
de fazer à saúde!
Depois mostrei o meu capacete de cortiça. Todos o
admiraram. O nosso Casimiro, todavia, depois de coçar
pensativamente o queixo, observou que me daria talvez mais
seriedade um chapéu alto...
A Titi acudiu, aflita:
- E o que eu lhe disse! Acho de pouca cerimônia, para
a cidade em que morreu Nosso Senhor...
- Ó Titi, mas já lhe expliquei! Isto é só para o
deserto!... Em Jerusalém, está claro, em todos aqueles
santos lugares, ando de chapéu alto...
- Sempre é mais de cavalheiro - afirmou o Doutor
Margaride.
Padre Pinheiro quis saber, solicitamente, se eu ia
prevenido com remédios para o caso de um contratempo
intestinal nesses descampados bíblicos...
- Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista... Até
linhaça, até arnica!...
O pachorrento relógio do corredor começou a gemer as
dez; eu devia madrugar; e o Doutor Margaride, comovido,
agasalhava já o pescoço no seu lenço de seda. Então, antes
dos abraços, perguntei aos meus leais amigos que
"lembrançazinha" desejavam dessas terras remotas onde
vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho de
água do Jordão. Justino (que já me pedira no vão da janela
um pacote de tabaco turco), diante da Titi só apetecia um
raminho de oliveira, do Monte Olivete. O Doutor Margaride
contentava-se com uma boa fotografia do sepulcro de Jesus
Cristo, para encaixilhar...
Com a carteira aberta, depois de alistar estas
piedosas incumbências - voltei-me para a Titi, risonho,
carinhoso, humilde...
- Cá por mim - disse ela do meio do sofá como de um
altar, tesa nos seus cetins de domingo - o que desejo é
que faças essa viagem com toda a devoção, sem deixar pedra
por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que
não rezes ou o terço ou a coroa... Além disso, também
estimo que tenhas saúde.
Eu ia depor na sua mão, brilhante de anéis, um beijo
gratíssimo. Ela deteve-me, mais aprumada e seca:
- Até aqui tens sido apropositado; não tens faltado
aos preceitos, nem te tens dado a relaxações... Por isso
te vais regalar de ver as oliveiras onde Nosso Senhor suou
sangue, e de beber no Jordãozinho... Mas se eu soubesse
que nesta passeata tinhas tido maus pensamentos, e
praticado uma relaxação, ou andado atrás de saias, fica
certo que, apesar de seres a única pessoa do meu sangue, e
teres visitado Jerusalém, e gozar indulgências, havias de
ir para a rua, sem uma côdea, como um cão!
Curvei a cabeça, apavorado. E a Titi, depois de roçar
o lenço de rendas pelos beiços sumidos, prosseguiu com
mais autoridade, e uma emoção crescente que lhe punha, sob
o corpete raso, como o fugitivo arfar de um peito humano:
- E agora quero dizer-te, para teu governo, uma só
cousa!
Todos de pé, e reverentes, logo percebemos que a Titi
se preparava a proferir uma palavra suprema. Nessa hora de
separação, rodeada dos seus sacerdotes, rodeada dos seus
magistrados, D. Patrocínio das Neves ia decerto revelar
qual fora o seu íntimo motivo, em me mandar, como sobrinho
e como romeiro, à cidade de Jerusalém. Eu ia saber enfim,
e tão indubitavelmente como se ela mo escrevesse num
pergaminho, qual deveria ser o mais precioso dos meus
cuidados, velando ou dormindo nas terras do Evangelho!
- Aqui está! - declarou a Titi. - Se entendes que
mereço alguma cousa, pelo que tenho feito por ti, desde
que morreu tua mãe, já educando-te, já vestindo-te, já
dando-te égua para passeares, já cuidando da tua alma,
então traze-me desses santos lugares uma santa relíquia
uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique
sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas
doenças.
E pela vez primeira, depois de cinqüenta anos de
aridez, uma lágrima breve escorregou no carão da Titi, por
sob os seus óculos sombrios.
O Doutor Margaride rompeu para mim. arrebatadamente:
- Teodorico, que amor que lhe tem a Titi! Rebusque
essas ruínas, esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma
relíquia à Titi!
Eu bradei, exaltado:
- Titi, palavra de Raposão que lhe hei de trazer uma
tremenda relíquia!
Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e
tocante, a comoção dos nossos corações. Eu achei-me com os
beiços do Justino, ainda moles da torrada, colados à minha
barba...
Cedo, na manhã de domingo, 6 de setembro e dia de
Santa Libânia, fui bater, devagar, ao quarto da Titi,
ainda adormecida no seu leito castíssimo. Senti, por sobre
o tapete, aproximar-se o som mole dos seus chinelos.
Entreabriu pudicamente a porta; e, decerto em camisa,
estendeu-me, através da fenda, a sua mão escamada, lívida,
cheirando a rapé. Apeteceu-me mordê-la; depus nela um
beijo baboso; a Titi murmurou:
- Adeus, menino... Dá muitas saudades ao Senhor!
Desci a escadaria, já de capacete, sobraçando o meu
Guia do Oriente. Atrás, a Vicência soluçava.
A minha mala nova de couro, o meu repleto saco de
lona enchiam o cupê do Pingalho. Ainda as andorinhas
retardadas cantavam no beiral dos telhados; na capela de
Santana tocava para a missa. E um raio de sol, vindo do
Oriente, vindo lá da Palestina ao meu encontro, banhou-me
a face, acolhedor e risonho, como uma carícia do Senhor.
Fechei a tipóia, estirei-me, gritei: "Larga,
Pingalho!"
E, romeiro abastado, soprando à brisa o fumo do meu
cigarro, assim deixei o portão de minha tia, em caminho
para Jerusalém!

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