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A Relíquia
Eça de Queirós
Nessa noite a Adélia, resplandecente, tornou a
chamar-me morcão, restituiu-me o beijinho na orelha. E
toda essa semana foi deliciosa como a de um noivado, O
verão ardia; e começara na Conceição Velha
a novena de São
Joaquim. Eu saía de casa à hora repousante em que se
regam
as ruas, mais contente que os pássaros chalrando nas
árvores do Campo de Santana. Na salinha clara, com todas
as cadeiras cobertas de fustão branco, encontrava a minha
Adélia de chambre, fresca de se ter lavado, cheirando a
água-de-colônia, e aos lindos cravos vermelhos que a
toucavam; e depois das manhãs calorosas, nada havia mais
idílico, mais doce que as nossas merendas de morangos na
cozinha, ao ar da janela, contemplando bocadinhos verdes
de quintais e ceroulas humildes a secar em cordas... Ora,
uma tarde que assim nos aprazíamos, ela pediu-me oito
libras.
Oito libras!... Descendo à noite a Rua da Madalena,
eu ruminava quem mas poderia emprestar sem juro e
rasgadamente. O bom Casimiro estava em Torres, o prestante
Rinchão estava em Paris... E pensava já no Padre Pinheiro,
(cujas dores de rins eu lamentava sempre com afeto) quando
avistei a escapar-se, todo encolhido, todo sorrateiro, de
uma dessas vielas impuras onde Vênus Mercenária arrasta
os
seus chinelos - o José Justino, o nosso José Justino,
o
piedoso secretário da confraria de São José,
o
virtuosíssimo tabelião da Titi!
Gritei logo: "boas noites, Justininho!" E regressei
ao Campo de Santana, tranqüilo, gozando já a repenicada
beijoca que me daria a Delinha, quando eu risonho lhe
estendesse na mão as oito rodelas de ouro. Ao outro dia,
cedo, corri ao cartório do Justino, a São Paulo, contei-
lhe a pranteada história de um condiscípulo meu, tísico,
miserável, arquejando sobre uma enxerga, numa fétida
casa
de hóspedes, ao pé do Largo dos Caídas.
É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um
caldinho... Eu é que o ajudo; mas que diabo, estou a
tinir... Faço-lhe companhia, é o que posso; leio-lhe
orações, e exercícios da vida cristã.
Ontem à noite vinha
eu de lá... E acredite você, Justino, que nem gosto de
andar por aquelas ruas, tão tarde... Jesus, que ruas, que
indecência, que imoralidade!... Aqueles becos de
escadinhas, hem?... Eu ontem bem percebi que você ia
horrorizado; eu também... De sorte que esta manhã estava
no oratório da Titi, a rezar pelo meu condiscípulo,
a
pedir a Nosso Senhor que o ajudasse, e que lhe desse algum
dinheiro e vai, pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da
cruz a dizer: "entende-te com o Justino; fala ao nosso
Justininho; ele que te dê oito libras para o rapaz..."
Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui
venho, Justino, por ordem d'Ele.
O Justino escutava-me, branco como os seus
colarinhos, dando estalinhos tristes nos dedos; depois, em
silêncio, estendeu-me uma a uma sobre a carteira, as oito
moedas de ouro. Assim eu servi a minha Adélia.
Fugaz foi porém a minha glória!
Daí a dias, estando no Montanha, regalado, a gozar
uma carapinhada, o criado veio avisar-me que uma mocinha
trigueira e de xale, a Senhora Mariana, esperava por mim à
esquina... Santo Deus! A Mariana era a criada da Adélia. E
corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada ficara
sofrendo da sua abominável dor na sua branca ilharga.
Pensei mesmo em começar o rosário das dezoito aparições
de
Nossa Senhora de Lurdes, que a Titi considera eficacíssimo
em casos de pontada ou de touros tresmalhados...
- Há novidade, Mariana?
Ela levou-me para dentro de um pátio onde cheirava
mal; e aí, com os olhos vermelhos, destraçando
furiosamente o xale, rouca ainda da bulha que tivera com a
Adélia, rompeu a contar-me cousas torpes, execrandas,
sórdidas. A Adélia enganava-me! O Senhor Adelino não
era
sobrinho; era o querido, o chulo. Apenas eu saía, ele
entrava; a Adélia dependurava-se-lhe do pescoço, num
delírio; e chamavam-me então o carraça, o carola,
o bode,
vitupérios mais negros, cuspindo sobre o meu retrato. As
oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de
verão; e ainda sobrara para irem à feira de Belém,
em
tipóia descoberta, e de guitarra... A Adélia adorava-o
com
pieguice e com furor; cortava-lhe os calos; e os suspiros
da sua impaciência, quando ele tardava, lembravam o bramar
das cervas, nos matos quentes, em maio!... Duvidava eu?
Queria uma evidência? Que fosse nessa noite, tarde, depois
de uma hora, bater à portinha da Adélia!
Lívido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que
me sufocava vinha do canto escuro do pátio, se das
imundícies que borbulhavam da boca da Mariana, como de um
cano de esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a
desfalecer:
- Está bom Mariana, obrigadinho; eu verei; vá com
Deus...
Cheguei à casa tão sombrio, tão murcho, que a
Titi
perguntou-me, com um risinho, se eu "malhara abaixo da
égua".
- Da égua?... Não, Titi, credo! Estive na Igreja da
Graça...
- E que vens tão enfiado, assim com as pernas
moles... E então o Senhor hoje estava bonito?
- Ai, Titi, estava rico!... Mas não sei por que,
pareceu-me tão tristinho, tão tristinho... Até
eu disse ao
Padre Eugênio: "O Eugeninho, o Senhor hoje tem desgosto!"
E disse-me ele: "Que quer você, amigo? E que vê por
esse
mundo tanta patifaria!" E olhe que vê, Titi! Vê muita
ingratidão, muita falsidade, muita traição!
Rugia, enfurecido; e cerrara o punho como para o
deixar cair, punidor e terrível, sobre a vasta perfídia
humana. Mas contive-me, abotoei devagar a quinzena,
recalquei um soluço.
- Pois é verdade, Titi... Fez-me tanta impressão
aquela tristeza do Senhor, que fiquei assim um bocado
amarfanhado... E de mais a mais tenho tido um desgosto;
está um condiscípulo meu muito mal, coitadinho, a
espichar...
E outra vez, como diante do Justino (aproveitando
reminiscências do Xavier e da Rua da Fé), estirei a
carcaça de um condiscípulo sobre a podridão de
uma
enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de
caldos... Que miséria, Titi, que miséria! E então
um moço,
tão respeitador das cousas santas, que escrevia tão
bem na
Nação!...
- Desgraças - murmurou a tia Patrocínio, meneando as
agulhas da meia.
- E verdade, desgraças, Titi. Ora, como ele não tem
família e a gente da casa é desleixada, nós os
condiscípulos é que vamos por turnos servir-lhe de
enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria então que a Titi
me desse licença para eu ficar fora, até cerca das duas
horas... Depois vem outro rapaz, muito instruído, que é
deputado.
A tia Patrocínio permitiu; e até se ofereceu para
pedir ao patriarca São José que fosse preparando ao
meu
condiscípulo uma morte sonolenta e ditosa...
- Isso é que era um grande favor, Titi! Ele chama-se
Macieira...
O Macieira vesgo. E para São José saber.
Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na
moleza do luar de julho. E por cada rua me acompanharam
sempre, flutuantes e transparentes, duas figuras, uma em
camisa, outra de capa à espanhola, enroscadas, beijando-se
furiosamente, e só desligando os beijos pisados para rirem
alto de mim e para me chamarem carola.
Cheguei ao Rossio quando batia uma hora no relógio do
Carmo. Ainda fumei um cigarro, indeciso, por debaixo das
árvores. Depois voltei os passos para a casa da Adélia,
vagaroso, e com medo. Na sua janela vi uma luz
enlanguescida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da
porta, mas hesitei com terror da certeza que vinha buscar,
terminante e irreparável... Meu Deus! Talvez a Mariana,
por vingança, caluniasse a minha Adélia! Ainda na véspera
ela me chamara riquinho, com tanto ardor! Não seria mais
sensato e mais proveitoso acreditar nela, tolerar-lhe um
fugitivo transporte pelo Senhor Adelino, e continuar a
receber egoístamente o meu beijinho na orelha?
Mas então à idéia lacerante de que ela também
beijava
na orelha o Senhor Adelino, e que o Senhor Adelino também
dizia ai! ai! como eu - assaltou-me o desejo ferino de a
matar, com desprezo e a murros, ali, nesses degraus onde
tantas vezes arrulhara a suavidade dos nossos adeuses. E
bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre
o seu frágil, ingrato peito.
Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ela
surgiu em camisa, com os seus belos cabelos revoltos:
- Quem é o bruto?
Sou eu, abre.
Reconheceu-me, a luz dentro desapareceu; e foi como
se aquela torcida de candeeiro, apagando-se, deixasse
também a minha alma em escuridão, fria para sempre e
vazia. Senti-me regeladamente Só, viúvo, sem ocupação
e
sem lar. Do meio da rua olhava as janelas negras, e
murmurava: "ai, que eu rebento!"
Outra vez a camisa da Adélia alvejou na varanda.
- Não posso abrir, que ceei tarde e estou com sono!
- Abre! - gritei erguendo os braços desesperadamente.
- Abre ou nunca mais cá volto!...
- Pois à fava, e recados à tia.
- Fica-te, bêbeda!
Tendo-lhe atirado, com uma pedrada, este urro severo,
desci a rua muito teso, muito digno. Mas à esquina alui de
dor, para cima de um portal, a soluçar, escoado em pranto,
delido.
Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia
dos dias de estio... Tendo contado à Titi que andava a
escrever dous artigos, piamente destinados ao Almanaque da
Imaculada Conceição para 1878, encerrava-me no quarto,
toda a manhã, em quanto faiscavam ao sol as pedras da
minha varanda. Aí, arrastando as chinelas sobre o soalho
regado, remoía, entre suspiros, recordações da
Adélia; ou
diante do espelho contemplava o lugar macio da orelha em
que ela costumava dar-me o beijo... Depois sentia um ruído
de vidraça, e o seu pérfido, e seu afrontoso brado "à
fava!" Então, perdido, esguedelhado, machucava o
travesseiro com os murros que não podia vibrar ao peito
magro do Senhor Adelino.
à tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a
Baixa. Mas cada janela aberta às aragens da tarde, cada
cortina de cassa engomada me lembrava a intimidade da
alcovinha da Adélia; num simples par de meias, esticado na
vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição
da
sua perna; tudo o que era luminoso me sugeria o seu olhar;
e até o sorvete de morango, no Martinho, me fazia repassar
nos lábios o adocicado e gostoso sabor dos seus beijos.
à noite, depois do chá, refugiava-me no oratório,
como numa fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no
corpo de ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau
preto. Mas então o brilho fulvo do metal precioso ia,
pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva cor de carne,
quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os
ossos, arredondava-se em formas divinamente cheias e
belas; por entre a coroa de espinhos, desenrolavam-se
lascivos anéis de cabelos crespos e negros; no peito,
sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos, dous
esplêndidos seios de mulher, com um botãozinho de rosa
na
ponta; e era ela, a minha Adélia, que assim estava no alto
da cruz, nua, soberba, risonha, vitoriosa, profanando o
altar, com os braços abertos para mim!
Eu não via nisto uma tentação do demônio;
antes me
parecia uma graça do Senhor. Comecei mesmo a misturar aos
textos das minhas rezas as queixas do meu amor. O céu é
talvez grato; e esses inumeráveis santos, a quem eu
prodigalizara novenas e coroinhas, desejariam talvez
recompensar a minha amabilidade, restituindo-me as
carícias que me roubara o homem cruel da capa à espanhola.
Pus mais flores sobre a cômoda diante de Nossa Senhora do
Patrocínio, contei-lhe as angustias do meu coração.
Por
trás do límpido vidro do seu caixilho, com os olhos
baixos
e magoados, ela foi a confidente do tormento da minha
carne; e todas as noites, em ceroulas, antes de me deitar,
eu lhe segredava, com ardor.
- Ó minha querida Senhora do Patrocínio, faze que a
Adelinha goste outra vez de mim!
Depois utilizei o valimento da Titi com os santos
seus amigos, o amorosíssimo e perdoador São José,
São Luís
Gonzaga, tão benévolo para a juventude. Pedia-lhe que
fizesse uma petição por certa necessidade minha, secreta
e
toda pura. Ela acedia, com alacridade; e eu, espreitando
pelo reposteiro do oratório, regalava-me de ver a rígida
senhora, de joelhos, contas na mão, em súplicas aos
patriarcas castíssimos, para que a Adélia me desse outra
vez a beijoquinha na orelha.
Uma noite, cedo, fui experimentar se o céu escutara
tão valiosas preces. Cheguei à porta da Adélia;
e bati,
tremendo todo, uma argoladinha humilde. O Senhor Adelino
assomou à janela, em mangas de camisa.
- Sou eu, Senhor Adelino - murmurei abjetamente e
tirando o chapéu. - Queria falar à Adeliazinha.
Ele rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome.
Creio mesmo que disse o carola. E lá do fundo, dentre os
cortinados, onde eu a pressentia toda desalinhada e
formosa, a minha Adélia gritou com furor:
- Atira-lhe para cima dos lombos o balde da águ
suja!
Fugi.
No fim de setembro, o Rinchão chegou de Paris; e um
domingo, à noitinha, à volta da novena de São
Caetano,
entrando no Martinho, encontrei-o, rodeado de rapazes,
contando ruidosamente os seus feitos de amor e de gentil
audácia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei a
ouvir o Rinchão. Com uma ferradura de rubis na gravata, o
monóculo pendente de uma fita larga, uma rosa amarela no
peito, o Rinchão impressionava, quando por entre o fumo do
charuto esboçava traços do seu prestígio:
"Uma noite no Café de la Paix, estando eu a cear com
a Cora, com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um
príncipe..." O que o Rinchão tinha visto! o que
o Rinchão
tinha gozado! Uma condessa italiana, delirante, parente do
Papa, e chamada Popotte amara-o, levara-o aos Campos
Elísios na sua vitória - cujo velho brasão eram
dous
chavelhos encruzados. Jantara em restaurantes onde a luz
vinha de serpentinas de ouro, e os criados, macilentos e
graves, lhe chamavam respeitosamente Mr. le Comte. E o
Alcázar, com festões de gás entre as árvores,
e a Paulina
cantando, de braços nus, o Chouriço de Marselha -
revelara-lhe a verdade, a grandeza da civilização.
- Viste Vítor Hugo? -- perguntou um rapaz de lunetas
pretas, que roía as unhas.
- Não, nunca andava cá na roda chic!
Toda essa semana, então, a idéia de ver Paris brilhou
incessantemente no meu espírito, tentadora e cheia de
suaves promessas... E era menos o apetite desses gozos do
orgulho e da carne, com que se abarrotara o Rinchão, que a
ansiedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas claro rio
e claro céu, só me lembravam a Adélia, o homem
amargo de
capa à espanhola, o beijo na orelha perdido para sempre...
Ah! se a Titi abrisse a sua bolsa de seda verde, me
deixasse mergulhar dentro as mãos, colher ouro, e partir
para Paris!..
Mas, para a senhora D. Patrocínio, Paris era uma
região ascorosa, cheia de mentira, cheia de gula. onde um
povo sem santos, com as mãos maculadas do sangue dos seus
arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o sol, ou luza o
gás, cometendo uma relaxação. Como ousaria eu
mostrar à
Titi o desejo imodesto de visitar esse lugar de sujidade e
de treva moral?...
Logo no domingo, porém, jantando no Campo de Santana
os amigos diletos, aconteceu falar-se, ao cozido, de um
sábio condiscípulo do Padre Casimiro, que recentemente
deixara a quietação da sua cela no Varatojo, para ir
esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O
nosso modesto Casimiro não compreendia esta cobiça de
uma
mitra, cravejada de pedras vãs; para ele, a plenitude de
uma vida eclesiástica era estar assim aos sessenta anos,
são e sereno, sem saudades e sem temores, comendo o
arrozinho do forno da senhora D. Patrocínio das Neves...
- Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitável
senhora, que este seu arroz está um primor!... E a ambição
de ter sempre um arroz destes, e amigos que o apreciem,
parece-me a mais legítima e a melhor para uma alma
justa...
E assim se veio a discursar das acertadas ambições
que, sem agravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu
coração. A do tabelião Justino era uma quintazinha
no
Minho, com roseiras e com parreiras, onde ele pudesse
acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.
- Olhe, Justino - disse a Titi - uma cousa que lhe
havia de fazer falta era a sua missa na Conceição Velha...
Quando a gente se acostuma a uma missinha, não há outra
que console... A mim, se me tirassem a de Santana, parece-
me que começava a definhar...
Era o Padre Pinheiro que a celebrava; a Titi,
enternecida, colocou-lhe no prato outra asa de galinha; e
Padre Pinheiro revelou também a ambição que o
pungia. Era
elevada e santa. Queria ver o Papa restaurado nesse trono
forte e fecundo, em que resplandecera Leão X...
- Se ao menos houvesse mais caridade com ele! -
exclamou a Titi. - Mas o Santíssimo Padre, o vigariozinho
de Nosso Senhor, assim numa masmorra, em farrapos, sobre
palha... É de Caifases, é de judeus!
Bebeu um gole da sua água morna, e recolheu-se ao
retiro da sua alma - a rezar a Ave-Maria que sempre
ofertava pela saúde do Pontífice e pelo termo do seu
cativeiro.
O Doutor Margaride consolou-a. Não acreditava que o
Pontífice dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos
afiançavam-lhe até que o Santo Padre, querendo, podia
ter
carruagem.
- Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete
a
quem usa a tiara; mas uma carruagem, minha senhora, é uma
grandíssima comodidade...
Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já
que todos patenteavam as suas ambições) qual era a do
douto, do eminente Doutor Margaride.
- Diga lá a sua, Doutor Margaride diga lá a sua! -
clamaram todos, com afeto.
Ele sorria, grave.
- Deixe-me Vossa Excelência primeiro, D. Patrocínio,
minha senhora, servir-me dessa língua guisada, que marcha
para nós e que me parece preciosa.
Depois de fornecido, o venerável magistrado confessou
que apetecia ser par do Reino. Não por alarde de honras,
nem pelo luxo da farda; mas para defender o princípio
sacro da autoridade...
- Só por isto - acrescentou com energia. - Porque
desejava também, antes de morrer, poder dar, se Vossa
Excelência, D. Patrocínio, me permite a expressão,
uma
cacheirada mortal no ateísmo e na anarquia. E dava-lha!
Todos declararam fervorosamente o Doutor Margaride
digno desses fastígios sociais. Ele agradeceu, seriíssimo.
Depois volveu para mim a face majestosa e lívida:
- E o nosso Teodorico? O nosso Teodorico ainda não
nos disse qual era a sua ambição.
Corei; e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo,
com as suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas
dos Papas, as espumas do seu champagne - fascinante,
embriagante, e adormentando toda a dor... Mas baixei os
olhos; e afirmei que só aspirava a rezar minhas coroas, ao
lado da Titi, com proveito e com descanso...
O Doutor Margaride, porém, pousara o talher,
insistia. Não lhe parecia um desapego de Deus, nem uma
ingratidão com a Titi, que eu, inteligente, saudável,
bom
cavaleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cobiça...
Nutro! - exclamei então decidido como aquele que
arremessa um dardo. - Nutro, Doutor Margaride, Gostava
muito de ver Paris.
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