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A Relíquia
Eça de Queirós



Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a
barba que, agora, tinha cerrada e negra, o Padre Casimiro
entrou-me pelo quarto, risonho e a esfregar as mãos.
- Boa nova vos trago aqui, senhor Doutor Teodorico!
E depois de me acaridar, segundo o seu afetuoso
costume, com palmadinhas doces nos rins, o santo
procurador revelou-me que a Titi, satisfeita comigo,
decidira comprar-me um cavalo para eu dar honestos
passeios, e espairecer por Lisboa.
- Um cavalo! Oh, Padre Casimiro!
Um cavalo. E alem disso, não querendo que seu
sobrinho, já barbado, já letrado, sofresse um vexame, por
lhe faltar às vezes um troco para deitar na salva de Nossa
Senhora do Rosário, a Titi estabelecia-me uma mesada de
três moedas.
Abracei com calor o Padre Casimiro. E desejei saber
se a amorável intenção da Titi era que eu não tivesse
outra ocupação, além de cavalgar por Lisboa, e lançar
pratinhas na salva de Nossa Senhora.
- Olhe, Teodorico, eu parece-me que a Titi não quer
que você tenha outro mister, senão temer a Deus... o que
lhe digo é que o amigo vai passá-la boa e regalada... E
agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e diga-lhe uma
cousinha mimosa.
Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos
piedosos do patriarca São José, a Titi, sentada a um canto
do sofá de riscadinho, fazia meia, com um xale de Tonquim
pelos ombros.
- Titi - murmurei eu encolhido - venho aqui
agradecer...
- Está bom, vai com Deus.
Então, devotamente, beijei-lhe a franja do xale. A
Titi gostou. Eu fui com Deus.
Começou daí, farta e regalada, a minha existência de
sobrinho da senhora D. Patrocínio das Neves. As oito
horas, pontualmente, vestido de preto, ia com a Titi à
Igreja de Santana, ouvir a missa do Padre Pinheiro. Depois
do almoço, tendo pedido licença à Titi, e rezadas no
oratório três Gloria Patri contra as tentações, saía a
cavalo, de calça clara. Quase sempre a Titi me dava alguma
incumbência beata: passar em São Domingos, e dizer a
oração pelos três santos mártires do Japão; entrar na
Conceição Velha, e fazer o ato de desagravo pelo Sagrado
Coração de Jesus...
E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava
de dar estes ternos recados, que ela mandava à casa do
Senhor.
Mas era este o momento desagradável do meu dia: às
vezes, ao sair, sorrateiro, do portão da igreja, topava
com algum condiscípulo republicano, dos que me
acompanhavam em Coimbra, nas tardes de procissão,
chasqueando o Senhor da Cana-Verde.
- Oh, Raposão! pois tu agora...
Eu negava, vexado:
- Ora essa! Não me faltava mais nada! Sou mesmo lá de
carolices... Qual! Entrei aqui por causa de uma
rapariga... Adeus, tenho a égua à espera.
Montava, e de luva preta, a perna bem colada à sela,
um botãozinho de camélia no peito, ia caracolando, em ócio
e luxo, até ao Largo do Loreto. Outras vezes deixava a
égua no Arco do Bandeira, e gozava uma manhã regalada no
bilhar do Montanha.
Antes do jantar, em chinelas, no oratório com a Titi,
eu fazia a jaculatória a São José, aio de Jesus, custódio
de Maria e amorosíssimo patriarca. À mesa. adornada apenas
por compoteiras de doce de calda em torno de uma travessa
de aletria. eu contava à Titi o meu passeio, as igrejas em
que me deleitara, e quais os altares alumiados. A Vicência
escutava com devoção, perfilada no seu lugar costumado,
entre as duas janelas, onde um retrato do nosso santo
padre Pio IX enchia a tira de parede verde, tendo por
baixo, pendente de um cordão, um velho óculo de alcance,
relíquia do Comendador G. Godinho. Depois do café a Titi,
lentamente, cruzava os braços; e o seu carão sumia-se,
dormente e pesado, na sombra do lenço roxo.
Eu ia enfiar as botas; e, autorizado agora por ela a
recrear-me fora de casa até às nove e meia, corria ao fim
da Rua da Madalena, ao pé do Largo dos Caídas. Aí, com
resguardo, encolhido na gola do meu sobretudo, cosido com
o muro, como se o candeeiro de gás que ali havia, fosse
olho inexorável da Titi - penetrava sofregamente na
escadinha da Adélia...
Sim, da Adélia! Porque nunca mais me esquecera, desde
a noite em que o Rinchão me levou ao Salitre, o beijo que
ela me dera, lânguida e branca, sobre o sofá. Em Coimbra
procurara mesmo fazer-lhe versos; e esse amor dentro do
meu peito foi, no último ano de Universidade, no ano de
direito eclesiástico, como um maravilhoso lírio que
ninguém via e que perfumava a minha vida... Apenas a Titi
me estabeleceu a mesada das três moedas, corri em triunfo
ao Salitre; lá havia as roseirinhas à janela, mas a Adélia
já lá não estava. E foi ainda o prestante Rinchão que me
mostrou esse primeiro andar, junto ao Largo dos Caídas,
onde ela agora vivia patrocinada por Eleutério Serra, da
firma Serra Brito & Cia. com loja de fazendas e modas na
Conceição Velha. Mandei-lhe uma carta ardente e seria,
pondo reverentemente no alto: "Minha senhora." Ela respon-
deu, com dignidade: - "o cavalheiro pode vir aqui ao meio-
dia." Levei-lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate,
atada com uma fita de seda azul; pisando comovido a
esteira nova da sala eu antevia, pela engomada brancura
das bambinelas, a frescura das suas saias; e o rígido
alinho dos móveis revelava-me a retidão dos seus
sentimentos. Ela entrou, um pouco constipada, com um xale
vermelho pelos ombros. Reconheceu logo o amigo do Rinchão;
falou da Ernestina, com severidade, chamando-lhe
"porcalhona". E a sua voz enrouquecida, o seu defluxo,
davam-me o desejo de a curar nos meus braços, de um longo
dia de agasalho e sonolência, sob o peso dos cobertores,
na penumbra mole da sua alcova. Depois ela quis saber se
eu era empregado ou estava no comércio... Eu contei-lhe
com orgulho a riqueza da Titi, os seus prédios, as suas
pratas. Disse-lhe, com as suas mãos grossas presas nas
minhas:
- Se a Titi agora rebentasse, eu é que lhe punha a
menina uma casa chic!
Ela murmurou, banhando-me todo na negra doçura do seu
olhar:
- Ora! o cavalheiro, se apanhasse o bago, não se
importava mais comigo!
Ajoelhei sobre a esteira, trêmulo, esmagando o peito
contra os seus joelhos, ofertando-me como uma rês; ela
abriu o seu xale; aceitou-me misericordiosamente.
Agora, à noitinha (enquanto Eleutério, no clube da
Rua Nova-do-Carmo, jogava a manilha), eu tinha ali na
alcova da Adélia a radiante festa da minha vida. Levara
para lá um par de chinelas, era o eleito do seu seio. As
nove e meia, despenteada, envolta à pressa num roupão de
flanela, com os pés nus, acompanhava-me pela escadinha de
trás, colhendo em cada degrau, nos meus lábios, um beijo
lento e saudoso.
- Adeus, Delinha!
- Agasalha-te, riquinho!
E eu recolhia devagar ao Campo de Santana, ruminando
o meu gozo!
O verão passou, languidamente. Os primeiros ventos de
outono levaram as andorinhas e as folhagens do Campo de
Santana; e logo nesse outubro, de repente, a minha vida se
tomou mais fácil, mais larga. A Titi mandara-me fazer uma
casaca; e eu estreei-a, com permissão dela, indo ouvir a
São Carlos o Poliuto - ópera que o Doutor Margaride
recomendara, como "repassada de sentimentos religiosos e
cheia de elevada lição". Fui com de, de luvas brancas,
frisado. Depois, no outro dia, ao almoço, contei à Titi o
devoto enredo, os ídolos derrubados, os cânticos, as
fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo veludo
vestia a rainha.
- E sabe quem me veio falar, Titi? O Barão de
Alconchel, o ricaço, tio daquele rapaz que foi meu
condiscípulo. Veio apertar-me a mão; esteve um bocado
comigo no salão... Tratou-me com muita consideração.
A Titi gostou desta consideração.
Depois, tristemente, como um moralista magoado,
queixei-me do nédio decote de uma senhora imodesta, nua
nos braços, nua no peito, mostrando toda essa carne,
esplêndida e irreligiosa, que é a desolação do justo e a
angústia da Igreja.
- Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a Titi, estava
com nojo!
A Titi gostou deste nojo.
E passados dias, depois do café, quando eu me
dirigia, ainda de chinelas, ao oratório, a fazer uma curta
petição às chagas do nosso Cristo de ouro - a Titi, já de
braços cruzados e sonolenta, disse-me dentre a sombra do
lenço:
- Está bom, se queres, volta hoje a São Carlos... E
lá quando te apetecer, não te acanhes, tens licença, podes
ir gozar um bocado de música... Agora que estás um homem,
e que parece que tens propósito, não me importa que fiques
fora, até às onze ou onze e meia... Em todo o caso a essa
hora quero estar já de porta fechada, e tudo pronto, para
começarmos o terço.
Ela não viu o triunfante lampejar dos meus olhos. Eu
murmurei, requebrado, a babar-me de gosto devoto:
- Lá o terço, Titi, lá o meu querido terço não perdia
eu, nem pelo maior divertimento... Nem que El-Rei me
convidasse para um chazinho no paço!
Corri, delirante a enfiar a casaca. E este foi o
começo dessa anelada liberdade que eu conquistara
laboriosamente, vergando o espinhaço diante da Titi,
macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem-vinda,
agora que Eleutério Serra partira para Paris, fazer os
seus fornecimentos, e deixara a Adélia só, solta, bela,
mais jovial, mais fogosa!
Sim, decerto, eu ganhara a confiança da Titi com os
meus modos pontuais, sisudos, servis e beatos! Mas o que a
levara a alargar assim, com generosidade as minhas horas
de honesto recreio, fora (como ela disse confidencialmente
ao Padre Casimiro) a certeza de que eu "me portava com
religião e não andava atrás de saias."
Porque para a tia Patrocínio todas as ações humanas,
passadas por fora dos portais das igrejas, consistiam em
andar atrás de calças ou andar atrás de saias; e ambos
estes doces impulsos naturais lhe eram igualmente odiosos!
Donzela, e velha, e ressequida como um galho de
sarmento; não tendo jamais provado na lívida pele senão os
bigodes do Comendador G. Godinho, paternais e grisalhos;
resmungando incessantemente, diante de Cristo nu, essas
jaculatórias das horas de piedade, soluçantes de amor
divino, a Titi entranhara-se, pouco a pouco, de um rancor
invejoso e amargo a todas as formas e a todas as graças do
amor humano.
E não lhe bastava reprovar o amor como cousa profana;
a senhora D. Patrocínio das Neves fazia uma carantonha, e
varria-o como cousa suja. Um moço grave, amando
seriamente, era para ela "uma porcaria!" Quando sabia de
uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado,
rosnava - "que nojo!" E quase achava a natureza obscena
por ter criado dous sexos.
Rica, apreciando o conforto, nunca quisera em casa um
escudeiro - para que não houvesse na cozinha, nos
corredores, saias a roçar com calças. E apesar de irem
embranquecendo os cabelos da Vicência, de ser decrépita e
gaga a cozinheira, de não ter dentes a outra criada
chamada Eusébia, andava-lhes sempre remexendo
desesperadamente nos baús, e até na palha dos enxergões, a
ver se descobria fotografia de homem, carta de homem,
rasto de homem, cheiro de homem.
Todas as recreações moças: um passeio gentil com
senhoras, em burrinhos; um botão de rosa orvalhado
oferecido na ponta dos dedos; uma decorosa contradança em
jucundo dia de Páscoa; outras alegrias, ainda mais
cândidas, pareciam à Titi perversas, cheias de sujidade, e
chamava-lhes relaxações. Diante dela já os sisudos amigos
da casa não ousavam mencionar dessas comoventes histórias,
lidas nas gazetas, e em que transparecem motivos de amor -
porque isso a escandalizava como o desbragamento de uma
nudez.
- Padre Pinheiro! - gritou ela um dia furiosa, com os
óculos chamejantes para o desventuroso eclesiástico, ao
ouvi-lo narrar de uma criada que em França atirara o filho
à sentina. - Padre Pinheiro! Faça favor de me respeitar...
Não é lá pela latrina! É pela outra porcaria!
Mas era ela própria que sem cessar aludia a desvarios
e a pecados da carne - para os vituperar, com ódio;
atirava então o novelo de linha para cima da mesa,
espetando-lhe raivosamente as agulhas de meia - como se
trespassasse ali, tornando-o para sempre frio, o vasto e
inquieto coração dos homens. E quase todos os dias, com os
dentes rilhados, repetia (referindo-se a mim) que se uma
pessoa do seu sangue, e que comesse o seu pão, andasse
atrás de saias, ou se desse a relaxações, havia de ir para
a rua, escorraçado a vassoura, como um cão.
Por isso agora as minhas precauções eram tão apuradas
que, para evitar me ficasse na roupa ou na pele o
delicioso cheiro da Adélia, eu trazia na algibeira bocados
soltos de incenso. Antes de galgar a triste escadaria da
casa, penetrava sutilmente na cavalariça deserta, ao fundo
do pátio; queimava no tampo de uma barrica vazia um pedaço
da devota resina; e ali me demorava, expondo ao aroma
purificador as abas do jaquetão e as minhas barbas
viris... Depois subia; e tinha a satisfação de ver logo a
Titi farejar, regalada:
- Jesus, que rico cheirinho a igreja!
Modesto, e com um suspiro, eu murmurava:
- Sou eu, Titi...
Além disso, para melhor a persuadir "da minha
indiferença por saias", coloquei um dia, no soalho do
corredor, como perdida uma carta com selo - certo que a
religiosa D. Patrocínio, minha senhora e tia, a abriria
logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escrita por mim a
um condiscípulo de Arraiolos: e dizia, em letra nobre,
estas cousas edificantes: "Saberás que fiquei de mal com o
Simões, o de filosofia, por ele me ter convidado a ir a
uma casa desonesta. Não admito destas ofensas. Tu lembras-
te bem como já em Coimbra eu detestava tais relaxações. E
parece-me ser uma grandíssima cavalgadura aquele que, por
causa de uma distração que é fogo-viste-lingüiça, se
arrisca a penar, por todos os séculos e séculos, amém, nas
fogueiras de Satanás, salvo seja! Ora, numa dessas
refinadíssimas asneiras não é capaz de cair o teu do C. -
Raposo".
A Titi leu, a Titi gostou. E agora eu vestia a minha
casaca, dizia-lhe que ia ouvir a Norma, beijava com unção
os ossos dos seus dedos; e corria, ao Largo dos Caídas, à
alcova da Adélia, a afundar-me perdidamente nas beatitudes
do pecado. Ali, à meia luz que dava através da porta
envidraçada o candeeiro de petrolina da sala, os
cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam
brancuras celestes de nuvem; o cheiro dos pós-de-arroz
excedia em doçura o olor dos junquilhos místicos; eu
estava no céu, eu era São Teodorico; e sobre os ombros nus
da minha amada, desenrolavam-se as madeixas do seu cabelo
negro, forte e duro como a cauda de um corcel de guerra.
Numa dessas noites, eu saia de uma confeitaria do
Rossio, de comprar trouxas de ovos para levar à minha
Adélia, quando encontrei o Doutor Margaride que me
anunciou, depois do seu abraço paternal, que ia São Carlos
ver o Profeta.
- E você, vejo-o de casaca, naturalmente também
vem...
Fiquei varado. Com efeito vestira a casaca, dissera à
Titi que ia gozar o Profeta, ópera de tanta virtude como
uma santa instrumental de igreja.. E agora tinha de sofrer
o Profeta, deveras, entalado numa cadeira da geral,
roçando o joelho do douto magistrado, em vez de preguiçar
num colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer
o seu docinho de ovos.
- Sim, com efeito, também eu ia daqui para o Profeta
- murmurei aniquilado. - Diz que é uma musicazinha de
muita virtude... A Titi gostou muito que eu viesse.
Com o meu inútil cartucho de trouxas de ovos, lá fui
subindo, melancolicamente, ao lado do Doutor Margaride, a
Rua Nova-do-Carmo.

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